NA CONTRAMÃO DA OPINIÃO PÚBLICA E DA TENDÊNCIA GLOBAL

Brasil torna-se líder em exportação de bovinos vivos

Amontoados aos milhares nos decks de carga dos navios, os animais são forçados a viver em meio às próprias fezes e urina durante períodos que podem ultrapassar quatro semanas

Entre 2014 e 2023, o Brasil exportou anualmente em média 335 mil bovinos vivos. Nesse período, o país respondeu por aproximadamente um quinto do comércio marítimo global de bovinos vivos e consolidou-se como um dos principais fornecedores do Oriente Médio e do Norte da África, as duas regiões que mais importam animais vivos por mar. Em 2024, o quadro mudou radicalmente. Nesse ano, o Brasil exportou quase 1 milhão de animais vivos, desbancando por uma margem expressiva o líder de mercado e seu principal competidor, a Austrália, e expandindo geograficamente sua presença. O país conquistou a liderança em uma das atividades pecuárias que mais geram sofrimento animal. 

A sociedade brasileira não esperava nem ansiava por esse troféu. Nos últimos anos, à medida que aumentou a conscientização sobre o imenso sofrimento físico e psicológico causado pela exportação de animais vivos por mar, cresceu a oposição à atividade. Em 2019, uma pesquisa do Ipsos revelou que 84% das pessoas entrevistadas eram a favor do fim da exportação de animais vivos. Dois anos depois, uma sugestão legislativa cidadã, que pedia a proibição dessa atividade no Brasil, foi transformada no Projeto de Lei 3093/2021 pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado. Propostas sobre o tema também ganharam destaque nas consultas públicas do Plano Plurianual da União 2024-2027, de 2023, e do Plano Clima Participativo, de 2024. Nesse mesmo ano, um movimento nacional contra a exportação de animais vivos, atuando sob o lema “não exporte vidas”, tomou forma, com a realização de manifestações em dezessete estados brasileiros. Em maio de 2025, a mobilização social alcançou um novo marco, com a aprovação de uma moção pelo fim da exportação de animais vivos no Conselho de Participação Social da Presidência da República e outra, que aborda esse e outros temas de proteção animal, na 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente. Nessa mesma conferência, foi aprovada também uma proposta de política pública visando desestimular a exportação de animais vivos. Outro forte indicativo de que parcela ampla da opinião pública brasileira está contra essa arcaica e terrível atividade é a petição, co-criada pela Mercy For Animals, que já conta com quase 600 mil assinaturas. 

Crédito: Mercy For Animals

O fim da exportação de animais vivos por mar é uma tendência global, que vem ganhando força em anos recentes. Em 2018, a Índia proibiu a atividade. A Nova Zelândia e o Reino Unido fizeram o mesmo em 2021 e 2024, respectivamente. Em 2022, Alemanha e Luxemburgo proibiram a exportação de animais vivos para países localizados fora da União Europeia, poupando-os assim do sofrimento do transporte marítimo de longa distância. Em 2024, a Austrália, historicamente o principal fornecedor de animais vivos para o mercado internacional, anunciou a cessação das exportações de ovinos vivos por mar, medida que deve ser estendida aos bovinos nos próximos anos. Tais decisões foram motivadas por preocupações com a saúde e o bem estar dos animais e foram tomadas em resposta à pressão social. 

Por que a exportação de animais vivos gera oposição tão convicta e apaixonada? A razão é simples. A atividade provoca um profundo sentimento de indignação moral, devido à situação hedionda a que submete os animais. Amontoados aos milhares nos decks de carga dos navios, os animais são forçados a viver em meio às próprias fezes e urina durante períodos que podem ultrapassar quatro semanas. A exposição a níveis elevados de amônia, que exala dos dejetos acumulados, causa infecções nas mucosas que revestem as vias respiratórias e as cavidades oculares, podendo levar a diversas complicações e sequelas graves, incluindo insuficiência respiratória e cegueira. Outra ocorrência bastante comum é o estresse térmico, ocasionado pelas temperaturas elevadas no interior das embarcações. Essa é, aliás, a principal causa de morte de animais transportados por mar. Lesões por queda e pisoteamento são também ocorrências ordinárias, em decorrência de uma combinação de chão escorregadio, debilitação dos animais ao longo da viagem e balanço da embarcação em alto mar. Para agravar essa situação extremamente precária, não há assistência médico-veterinária adequada a bordo. 

O sofrimento animal é motivo suficiente para pôr fim à exportação de animais vivos; porém, não é o único. Para quem tem o meio ambiente ou a economia no centro das preocupações, não faltam motivos para se opor a essa atividade. Da perspectiva ambiental, o principal problema está relacionado ao transporte marítimo. O transporte de animais vivos de longa distância depende de navios que, em sua ampla maioria, são bastante antigos, apresentam baixíssimo padrão de manutenção e não foram projetados originalmente para essa finalidade. Por essas razões, navios transportadores de animais vivos possuem duas vezes mais chance de provocar um acidente marítimo do que qualquer outro tipo de navio mercante, segundo apuração do periódico The Guardian. O Brasil já foi palco de um desses acidentes. Em 2015, o navio Haidar perdeu a estabilidade, adernou e afundou enquanto embarcava bovinos vivos no Porto de Vila do Conde, no Pará. Milhares de animais ficaram presos dentro da embarcação e morreram afogados. Suas carcaças e o óleo que vazou do Haidar deixaram um rastro de contaminação que alcançou a cidade de Belém, cerca de 60 km rio abaixo. Esse foi um dos maiores e mais graves desastres ambientais da história do Pará. Dez anos depois, o navio ainda não foi removido e apenas uma pequena parcela das indenizações pedidas foram pagas. 

Crédito: Mercy For Animals

Ainda do ponto de vista ambiental, há o problema da poluição gerada pelos dejetos dos animais durante as operações de embarque. Fezes e urina caem dos caminhões abarrotados de animais ao longo do caminho até o porto, impregnando com forte mau-cheiro o ar dos municípios onde ocorrem os embarques. Essa poluição do ar tem consequências graves não apenas para a saúde pública, mas também para a economia local, pois perturba o comércio, o turismo e os afazeres diários das pessoas. Por esse motivo, Santos, no estado de São Paulo, e Belém, no Pará, deixaram o circuito de exportação de animais vivos. Também por esse motivo e outras considerações de ordem ambiental, a atividade sequer chegou a ser autorizada em Antonina, cidade histórica e pólo turístico do Paraná. Para compreender a dimensão do problema enfrentado ainda hoje por municípios como Barcarena, no Pará, Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e São Sebastião, no estado de São Paulo, basta lembrar do recente incidente envolvendo o navio Al Kuwait. Carregado com 19 mil bovinos vivos embarcados no Brasil, o navio fez uma escala logística na Cidade do Cabo, na África do Sul, em fevereiro de 2024. O mau-cheiro que exalava do Al Kuwait era tão intenso que levou empresas e órgãos públicos a dispensarem os funcionários do trabalho. O episódio, amplamente noticiado pela mídia internacional, ficou conhecido como “O Grande Fedor”. 

Da perspectiva macroeconômica, a exportação de animais vivos simplesmente não faz sentido. Na verdade, há fortes razões para crer que ela seja prejudicial. Exportar animais vivos significa exportar empregos e transferir para o exterior as atividades das cadeias produtivas da carne e do couro que mais agregam valor. Isso impacta negativamente na geração de renda e na captação de impostos. Tais efeitos indesejáveis levaram a Argentina a restringir a exportação de animais vivos para abate ainda nos anos 1970 e, atualmente, animam discussões sobre a conveniência da atividade na Colômbia e no Uruguai. Um exemplo eloquente de que a exportação de animais vivos canibaliza a cadeia produtiva da carne foi fornecido pela Índia em anos recentes. Em 2018, o país proibiu as exportações de animais vivos por mar. Nos anos seguintes, as exportações indianas de carne bovina refrigerada para o Oriente Médio e o Norte da África aumentaram de forma expressiva, chegando, em 2022, ao dobro do valor registrado em 2018. Em 2021, a Índia tornou-se o maior exportador de carne bovina refrigerada para a região, desbancando o Brasil. 

Em resumo, a exportação de animais vivos por mar para abate no exterior é um absurdo. Além de ser intrinsecamente danosa à saúde e ao bem-estar dos animais, a atividade acarreta riscos e impactos ambientais significativos, ao mesmo tempo em que é desprovida de sentido econômico para a coletividade. Não surpreende que tenha sido descontinuada ou oficialmente abolida em diversos países. Surpreende, contudo, que ainda ocorra aqui, no Brasil, a despeito da opinião pública contrária, a qual, aliás, ecoa o que está gravado no artigo 225 da nossa Constituição – a vedação da crueldade contra os animais. 

 

George Sturaro é diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Mercy For Animals no Brasil. 

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