Brexit expõe as fraturas do Partido Conservador britânico - Le Monde Diplomatique

CONTAGEM REGRESSIVA NO REINO UNIDO

Brexit expõe as fraturas do Partido Conservador britânico

Edição - 136 | Reino Unido
por Agnès Alexandre-Collier
5 de novembro de 2018
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Tempestade internacional, o Brexit pode ser explicado em parte pelas disputas internas do Partido Conservador: das motivações do ex-primeiro-ministro David Cameron ao organizar o referendo às estratégias de negociação de sua sucessora Theresa May. E a discórdia entre os tories, que gostam de se apresentar como “o partido natural do governo”, aumenta cada vez mais

Por muito tempo, o cargo de líder do Partido Conservador foi o mais cobiçado da vida política britânica. Fundado na década de 1830, esse partido esteve no poder durante dois terços do século XX. Para muitos candidatos, dirigi-lo é, portanto, o caminho mais curto para chegar ao número 10 da Downing Street, sede do Poder Executivo em uma monarquia constitucional na qual a rainha não tem poder algum.

Ocupando o topo de uma estrutura piramidal, o leader foi por muito tempo escolhido por seus pares de maneira opaca. No início dos anos 1960, as coisas pouco a pouco começaram a mudar. Em 1965, a nomeação passou a vincular-se ao voto dos deputados. A partir de 1998, o processo foi aberto aos membros do partido, que foram convidados a escolher entre os dois candidatos selecionados por seus parlamentares. Essa democratização gradual levou a uma evolução sociológica à frente do partido. Eleito em 1965, Edward Heath provinha do ambiente da classe trabalhadora – pela primeira vez. Décadas anos depois, John Major, também de origem modesta, veio suceder-lhe (1990-1997).

Após atravessar o deserto na oposição aos governos do New Labour inaugurados por Tony Blair em 1997, a eleição de David Cameron para chefiar o partido, em dezembro de 2005, assinalou um momento de dupla mudança. O homem tinha apenas 39 anos e, apoiado por membros ansiosos por ter um dirigente mais representativo de seus interesses e de seu perfil sociodemográfico, não pôde contar com o apoio manifesto dos deputados. Ligado à elite aristocrática e oriundo do sistema ultrasseletivo das public schools (na verdade, escolas privadas e caras) e da “Oxbridge” (expressão que remete às universidades de elite Oxford e Cambridge), Cameron logo se tornou o defensor de uma facção minoritária: os mods pregam o liberalismo econômico e cultural, defendem a igualdade de gênero e a divisão das tarefas, a proteção ambiental, a descriminalização das drogas leves e a união entre pessoas do mesmo sexo; em oposição, os rockers defendem os valores tradicionalistas e autoritários do partido. Mas Cameron orgulha-se de ter operado a síntese da qual dependia o retorno ao governo, objetivo compartilhado por alguns notáveis, como uma certa Theresa May. Esta, durante o Congresso de 2002, denunciava o nasty party (partido sujo) que os conservadores pareciam ter se tornado aos olhos dos eleitores.

Thereza May deixa sede do governo britânico para reunião no Parlamento

“Correr em um campo de trigo”

May, que, na oposição, dizia haver “mais homens chamados David no gabinete paralelo1 do que mulheres”,2 subiu os degraus ao lado de Cameron. Ela participou sobretudo das mudanças na seleção dos candidatos parlamentares e defendeu uma maior integração das mulheres e das minorias, tendo chegado a usar uma camiseta com os dizeres “É assim que se parece uma feminista”. Mas ela mudou radicalmente suas prioridades após ser nomeada para o Ministério do Interior no governo de coalizão de Cameron (2010-2015). A atual geração de deputados tories tem uma nova cara: advogados e empresários, mais mulheres em suas fileiras, mais representantes de minorias étnicas, majoritariamente oriundos da escola pública. Assim como Sajid Javid, atual ministro do Interior de origem paquistanesa, estrela em ascensão do partido, a grande maioria dos conservadores de origem imigrante também é constituída por thatcheristas radicais. Eles são favoráveis à saída da União Europeia (Brexit), argumentando que há um tratamento desigual entre a imigração europeia e a imigração “histórica” proveniente dos países da Commonwealth.3

O referendo de 23 de junho de 2016 sobre o Brexit perturbou as regras de funcionamento interno do partido para a eleição de seu líder. A renúncia de Cameron (que defendia a manutenção do Reino Unido na União Europeia) assinala o início de uma campanha quase shakespeariana entre os potenciais candidatos à sucessão, incluindo os ministros Boris Johnson e Michael Gove, bem como Andrea Leadsom, muito presente nos debates televisionados. Todos ficaram famosos por seu compromisso ativo em favor do Brexit. Eles foram chamados de brexiteers, remetendo aos bucaneers e musketeers (bucaneiros e mosqueteiros), com a defesa de uma versão romântica e idealizada do país.

Paradoxalmente, sua radicalidade contribuiu para a eleição de May, candidata da moderação e da conciliação. A fragilidade da empossada, porém, não tardou a aparecer. Ela não foi eleita pelo procedimento tradicional implementado em 1998: única candidata na disputa após as deliberações entre deputados, não precisou da aprovação da base, o que erodiu sua legitimidade. A própria personalidade dessa filha de pastor, anglicana praticante, apaixonada pela cozinha e pelo críquete, incomoda. A mídia atacou sua falta de decisão (“Theresa Maybe or Maybe Not” – Theresa Talvez Sim Talvez Não) e de empatia: a primeira-ministra recusou-se a ir falar com as vítimas do incêndio da Torre Grenfell, em 14 de junho de 2017, e nunca endereçou a menor compaixão aos trabalhadores de baixa renda. Por exemplo, a uma enfermeira que explicava não conseguir chegar ao fim do mês com seus rendimentos, ela respondeu: “Dinheiro não cai do céu!”. Em um país que elevou a presença de espírito à condição de tesouro nacional, essa falta de jogo de cintura ficou evidente na convenção do partido em 2017: May continuou impassível quando um ator a interrompeu, durante seu discurso, para entregar-lhe um formulário fingindo sua demissão. E quando um jornalista pediu que ela contasse qual havia sido a maior travessura que já fizera na vida, sua resposta foi: “Correr em um campo de trigo”. Considerado mais espirituoso, seu oponente Boris Johnson consegue atrair os piadistas, que são muitos.

Essa ausência de humor é acompanhada por uma falta de visão política. Em abril de 2017, May anunciou eleições antecipadas (realizadas dois meses depois), acreditando que isso fortaleceria sua posição no Parlamento. Mas a primeira-ministra não se preocupou muito com a campanha, ao contrário de seu adversário trabalhista, Jeremy Corbyn. Recusando-se a viajar pelo país para se encontrar com eleitores e a participar de debates televisionados – de última hora, mandou como substituto o ministro do Interior, Amber Rudd, que acabara de perder o pai –, a líder causou uma má impressão em seus eleitores. Influenciada por dois diretores de campanha australianos, Mark Textor e Lynton Crosby, convencidos de que a comunicação devia estar centrada em May, a campanha de 2017 girou em torno do slogan “Um governo forte e estável”. Martelada à exaustão, a mensagem sufocou os candidatos locais. Carro-chefe do Partido Conservador, May foi criticada por seu distanciamento e por sua falta de espontaneidade: não demorou muito para começarem a falar em “Maybot”, o “robô May”.

A eleição foi um fiasco. Os professores universitários Tim Bale e Paul Webb explicam que a segmentação dos eleitores foi realizada sem nenhum bom senso: com base em compilações de dados (em vez de pesquisas locais), militantes foram enviados para áreas com convicções anticonservadoras imutáveis.4 O empenho para conseguir os votos de eleitores hesitantes estava condenado ao fracasso. O escrutínio fragilizou ainda mais a primeira-ministra no Parlamento: ela perdeu a maioria absoluta e foi obrigada a estabelecer uma aliança controversa com o pequeno Partido Unionista da Irlanda do Norte (Democratic Unionist Party, DUP), ultraconservador no âmbito das questões morais e defensor da uma forte fidelidade da Irlanda do Norte à coroa. A aliança complicou o debate a respeito do estatuto da Irlanda do Norte e da fronteira que a separa da República da Irlanda no contexto do Brexit.

 

Obsessão pela imigração

No entanto, uma das principais dificuldades enfrentadas por May ainda é a heterogeneidade ideológica do partido, uma de suas principais características. Entre os conservadores, que o pensador liberal John Stuart Mill descreveu em 1861 como “o partido mais estúpido”,5 o pragmatismo e a adaptação às circunstâncias continuam sendo as palavras de ordem. Isso revela as contradições estruturais entre a recusa de um quadro ideológico visto como um dogma inaceitável e a existência, na realidade, de princípios e valores tão profundamente ancorados que levam a tensões irreconciliáveis. Há uma continuidade histórica na forma como algumas clivagens estruturam o partido. Segundo o professor universitário Timothy Heppell,6 elas se organizam em torno de três questões fundamentais: liberalismo econômico, liberalismo cultural e soberania nacional.

O debate em torno do liberalismo econômico remonta às origens do partido, quando as Leis do Trigo de 1846 provocaram uma divisão entre aqueles que, reunidos em torno de Robert Peel, defendiam uma política de livre-comércio, com a abolição das taxas de exportação sobre os cereais, e aqueles que, reunidos em torno de Benjamin Disraeli, aderiam a uma postura protecionista e defendiam os interesses da aristocracia fundiária. As disputas sobre o papel do Estado na economia alimentam, desde então, o pluralismo e as divisões. Na década de 1980, os wets (literalmente, “molhados”), defensores de um intervencionismo racional do Estado, opuseram-se aos dries (“secos”), ultraliberais liderados por Margaret Thatcher (primeira-ministra entre 1979 e 1990). As tensões em torno da questão europeia, que emergiram na mesma época, mantiveram por muito tempo uma oposição semelhante entre os partidários de uma Europa das nações, intergovernamental e liberal, de mar aberto, que se recusava a limitar-se ao continente europeu e conformar-se ao diktat de Bruxelas, e os pró-europeus, inclinados a aceitar as limitações de pertencimento do que era então a Comunidade Europeia, embora sem aceitar a ideia de uma Europa federalista.

No início da década de 1990, após os anos Thatcher, os eurocéticos tentaram derrotar a ratificação do Tratado de Maastricht sobre a União Europeia, considerado o ponto de partida para uma federalização inaceitável da Europa e sinônimo de morte da soberania nacional. Mas os grandes debates sociais – como a questão da homossexualidade – também dividiram a formação tory, especialmente durante a eleição de Cameron para a presidência do partido e, mais recentemente, nas disputas entre modernizadores, como Elizabeth Truss, e tradicionalistas, como o deputado Jacob Rees-Mogg, escudeiro ultramonarquista, católico praticante e pai de seis filhos, contrário ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

A crise financeira de 2008 mudou o equilíbrio de forças. Diante das falhas dos países da zona do euro, a questão da soberania nacional, em particular o desejo de “recuperar o controle” em termos de imigração, tornou-se tão predominante que levou a um reposicionamento geral em torno da questão da manutenção do Reino Unido na União Europeia. Enquanto 51,9% dos eleitores, sobretudo na Inglaterra (especialmente no nordeste) e no País de Gales, declararam-se favoráveis à saída, apenas 40% dos deputados conservadores dizem ter votado no Brexit, alguns por convicção, outros por lealdade governamental. Após o referendo, no entanto, todos aceitaram o veredito popular. Quando, em 29 de junho de 2017, o deputado trabalhista Chuka Umunna (crítico de Corbyn) apresentou uma emenda sobre a necessidade de Londres permanecer no mercado único, ele foi rejeitado por todos os deputados tories, inclusive os mais pró-europeus.

Pouco a pouco, porém, uma nova linha de fratura se estabeleceu. De um lado, os defensores de um “Brexit suave”, como os deputados Kenneth Clarke, Nicky Morgan e Anna Soubry, reunidos ao ministro das Finanças, Philip Hammond, gostariam, como muitos eurodeputados trabalhistas, que o país mantivesse uma ligação com a União Europeia por meio de um conjunto de acordos de cooperação. De outro, os adeptos de um “Brexit duro”, aliados a Johnson, Rees-Mogg e Stephen Baker, imaginavam uma saída sem acordo, caso as negociações viessem a falhar. O que eles gostariam que acontecesse? O estabelecimento de um acordo de livre-comércio similar ao que existe entre o Canadá e a União Europeia, com mais capacidade de permitir as reformas ultraliberais que desejam. Mas o plano da primeira-ministra, conhecido como plano Chequers, propôs manter o país no mercado único de mercadorias, além de estabelecer um acordo alfandegário específico para a Irlanda do Norte, o que irritou os brexiteers.

 

Doadores riquíssimos

Para além das questões europeias, a imagem de May difere daquela que a tornou popular quando ela presidia o partido. A modernizadora feminista deu lugar a uma conservadora tradicionalista obcecada pelo controle migratório. Ela quer limitar a imigração a algumas dezenas de milhares de recém-chegados por ano, desprezando o fato de que o número de migrantes que entraram no Reino Unido tenha passado de 177 mil em 2012 para 282 mil em 2017. Ela também defende o retorno das grammar schools, escolas públicas mais seletivas, símbolos de uma meritocracia que Thatcher também defendia.

Nas eleições de 2017, o manifesto do partido foi assinado por May, mas redigido por sua cabeça pensante, Nicholas Timothy, filho de um operário da siderurgia de Birmingham e oriundo das working-class tories, os conservadores de extração popular. Ele realizou uma síntese surpreendente entre o discurso securitário e o conservadorismo social, a fim de mobilizar os operários conservadores seduzidos pelo Partido da Independência do Reino Unido (Ukip).7 O conselheiro, que alguns veem como o “cérebro” de May, incitou a candidata a retornar à tradição social ligada a Disraeli, a chamada one-nation, às vezes intervencionista, crítica aos excessos do sistema bancário, e defende o retorno a um capitalismo mais ético e responsável.

O discurso conservador – autoritário e intervencionista – posiciona-se, portanto, no polo oposto àquele – liberal tanto no plano econômico como cultural – de Cameron, personagem que encarna uma elite privilegiada próxima dos círculos financeiros, o Notting Hill set, clubinho dos saídos dos bairros luxuosos de Londres no qual May nunca se sentiu à vontade. Em 2017, o partido cresceu entre os operários e os trabalhadores do setor privado, e em seis distritos trabalhistas pró-Brexit do nordeste da Inglaterra. Ele chegou a sofrer tentativas de infiltração por antigos membros do Ukip, como o tesoureiro da campanha “Leave” (“Sair”, em favor do Brexit), Arron Banks. Ao mesmo tempo, os tories recuperaram treze assentos na Escócia, beneficiando-se provavelmente da popularidade da líder local do partido, Ruth Davidson, anti-Brexit, homossexual e celebridade midiática.

Apesar de as pesquisas preverem a vitória de seu concorrente trabalhista em caso de novas eleições, o partido agarra-se ao poder. Mas as divisões parecem afastar cada vez mais os militantes. No início dos anos 1980, com 1,5 milhão de membros, os conservadores formaram um dos maiores partidos da Europa ocidental. As últimas estimativas, raramente tornadas públicas, giram em torno de 124 mil membros, pouco mais que o Partido Nacionalista Escocês (cerca de 118 mil), enquanto o Partido Trabalhista tem 550 mil membros, muitos deles jovens seduzidos por Corbyn.8 Apesar dos esforços de Cameron para tentar rejuvenescer os efetivos por meio das redes sociais e das novas tecnologias (o que lhe valeu o apelido de “primeiro-ministro Blackberry”), o maior desafio do Partido Conservador é sua incapacidade de atrair os jovens: a idade média dos membros permanece elevada – 57 anos –, e mais da metade deles já soprou as sessenta velinhas.

Nos distritos eleitorais, as seções locais passam por uma sangria que as priva de um efetivo suficiente para fazer campanha em campo, enquanto o Partido Trabalhista tem militantes jovens e ativos. Para tentar compensar, os tories usam duas estratégias. Uma delas, tradicional, consiste em enviar ônibus de militantes vindos de Londres; a outra, implementada em 2015, em recrutar simpatizantes que não são membros do partido e estão dispostos a militar voluntariamente, sem pagar a filiação (25 libras a filiação-padrão). Mas essa segunda estratégia foi contaminada por dois escândalos que puseram fim à experiência e revelaram graves irregularidades na forma como se desenrolou a campanha de 2015. O diretor dessa campanha, que, apelidada de RoadTrip, mobilizou militantes e apoiadores, foi acusado de assédio sexual, e um relatório da comissão eleitoral estabeleceu somas, ligadas sobretudo ao transporte desses apoiadores, que não haviam sido declaradas.

No Reino Unido, os partidos não contam com um sistema global de subsídios. Quando eles existem, estão relacionados principalmente aos partidos de oposição, para que estes possam cumprir suas missões parlamentares. O derretimento da base militante acentuou a dependência do Partido Conservador em relação a uma elite privilegiada oriunda dos meios empresariais, das finanças e do setor bancário. Os tories contam com uma rede de poderosos doadores, seja por meio de doações diretas ou de fundos de investimentos especulativos (hedge funds), que, em 2015, forneceu-lhe 32,8 milhões de libras, de um total de 41,8 milhões de libras (segundo os dados mais recentes da comissão eleitoral).9 No mesmo ano, os trabalhistas arrecadaram receitas superiores – 51,1 milhões de libras –, essencialmente graças às afiliações individuais.10

A mídia continua sendo um aliado eficaz. Desde o surgimento do News International (agora News UK), grupo do magnata Rupert Murdoch, que domina o mercado, a mídia impressa britânica se tornou uma das mais poderosas da Europa (com uma tiragem superior a 1,5 milhão de exemplares para cada um dos dois principais tabloides, The Sun e The Daily Mail). Sua afinidade continua sendo quase que totalmente voltada para o Partido Conservador, em graus diversos, com exceção dos jornais The Daily Mirror e The Guardian. Desde 2015, três jornais dominam o mercado: The Sun, The Daily Telegraph e The Daily Mail. Muito eurocéticos, eles apoiam ativamente os tories. Mais moderados, The Times e The Financial Times defendem a ideia de uma coalizão com os liberais democratas.

Desde a ascensão de Alastair Campbell, ex-assessor de comunicação (spin doctor) de Tony Blair, os primeiros-ministros têm usado ex-jornalistas da imprensa dita “popular” como diretores de comunicação. Mas, no campo conservador, a nomeação de Andrew Coulson, jornalista do antigo tabloide News of the World, envolvido em um escândalo de escutas telefônicas, contaminou a imagem de Cameron, que o substituiu em 2011 por outro, vindo da TV, Craig Oliver. Hoje, o apoio da imprensa organiza-se em torno das figuras conservadoras mais midiáticas, para as quais os jornais abrem com frequência suas colunas, inclusive de maneira regular. É o caso do ex-ministro das Finanças de Cameron, George Osborne, que em 2016 se tornou editor executivo do London Evening Standard, e destacadamente de Johnson, que começou sua carreira como jornalista. Em julho de 2018, logo após a renúncia do governo, Johnson assinou um contrato de um ano com o jornal The Daily Telegraph. Segundo o diário The Independent, sua nova função o levaria a “causar mais danos com sua coluna semanal do que ele jamais causou como ministro das Relações Exteriores”.11

Entre os apoiadores poderosos dos tories há também os think tanks, que, desde sua eclosão e proliferação na década de 1980, continuam a alimentar o partido, como o Institute of Economic Affairs e o Centre for Policy Studies, historicamente ligados ao advento do thatcherismo. Outros, mais recentes, como o Policy Exchange e o Bright Blue, nasceram na esteira das reformas empreendidas por Cameron. A experiência de Emmanuel Macron na França parece inclusive ter criado concorrentes do outro lado do Canal da Mancha, com um grupo chamado Onward (“Avante”; há quem diga até “Em marcha”, nome do partido do presidente francês…). Fundado pelo parlamentar Neil O’Brien no outono de 2017, ele busca tanto atrair eleitores do norte da Inglaterra como aqueles, mais cosmopolitas e liberais, da capital.

 

Um voto de desconfiança?

Desde o referendo de junho de 2016, porém, todo o debate político, portanto também a rede de think tanks que formam o quadro ideológico do partido, parece dominado pelo Brexit. O Open Europe assumiu um papel central. Os deputados mais eurocéticos, reunidos em torno do European Research Group, fundado no início dos anos 1990 por seus veteranos para derrotar a ratificação do Tratado de Maastricht, gostam de imaginar uma frente de oitenta deputados, suficientemente poderosa para impor um voto de desconfiança e destituir May, que eles sonham substituir por Johnson.

Segundo uma pesquisa do ConservativeHome, blog seguido de perto pela base do partido,12 um número crescente de militantes e eleitores conservadores (35% dos membros do partido) também considera que apenas Johnson, apesar de sua inconsistência, de sua aparente displicência e de suas múltiplas gafes, domina a realidade e as contradições do país. Melhor ainda: a excentricidade desse homem, profundamente ligado às instituições e biógrafo de Winston Churchill, o erigiria em encarnação das múltiplas facetas do Reino Unido, e muito particularmente da Inglaterra. Prova disso é a adulação que ele recebeu durante o Congresso de outubro de 2018 e da qual continua a desfrutar nas redes sociais próximas do partido. Na hipótese de um voto de desconfiança contra May – que pode ser necessário caso 48 deputados façam um pedido por escrito –, a eleição de Johnson para a presidência do partido não é mais um cenário de fantasia, uma vez que desde 1998 o procedimento está nas mãos dos membros.

Resta que, para a maioria dos conservadores, o homem de cabelo maluco continua sendo muito excêntrico e marginal, assim como o aristocrata Jacob Rees-Mogg. Nessas condições, May ainda é a “menos pior” das grandes figuras do partido…

 

*Agnès Alexandre-Collier é professora de Civilização Britânica da Universidade de Bourgogne-Franche Comté e atualmente pesquisadora da Maison Française d’Oxford. Autora, com Emmanuelle Avril, do livro Les Partis politiques en Grande-Bretagne [Os partidos políticos na Grã-Bretanha] (Armand Colin, Paris, 2013).



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