Brilho eterno de uma mente sem lembranças - Le Monde Diplomatique

wishful thinking

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

por Bruno Aguiar Santos
10 de março de 2020
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É uma obrigação moral e histórica lembrar da omissão dos nossos poderes quando Bolsonaro, há apenas três anos, dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff a um facínora, um torturador, um criminoso sádico e retrato do mal.

Nestas últimas semanas, o presidente da República, balbuciando um rascunho de golpe, flertou com seu eros onipresente de autoritarismo, fermentando o clamor afetado de uma pequena parcela da população pelo fechamento do Congresso. Mas, convenhamos: de quem somente orgulho teve desse vezo esdrúxulo era possível cair outros frutos?

Por mais incrível que possa parecer, uma amnésia seletiva, quase maquinal – como no filme de Michel Gondry que dá título a este artigo -, acometeu o  jornalismo político nacional. Olvidaram-se, alguns jornalistas, de que o diletante homem que os chocava por compartilhar uma convocação pelo fechamento do Congresso já havia pedido o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso e a supressão do Poder Legislativo pela força quando era, justamente, congressista e, ele e sua família, sorviam do maná que caía das nuvens carregadas de Brasília. Numa leniência curiosa, incomum, e expressamente contraditória à rigidez de antes e para com outros, em 2018 ouviu-se da boca de alguns, e leu-se nas letras de outros, que o capitão já não era o mesmo autoritário jingoísta de antes, pois vinha acompanhado de um círculo de apoio de grandes empresários, de uma equipe econômica (neo)liberal e racional (sic), de uma parcela dos militares (no papel vexaminoso de tutores), e com um Congresso conservador nos costumes, sim, mas vibrante pelos ditames neoliberais.

Não posso crer que essa análise seja racional. Nem que seja análise. Costumeiramente, procuro evitar a importação de frases ou termos da língua inglesa, mas nada mais rotula tão bem a posição de um Jair Messias Bolsonaro moderado como um “wishful thinking”, ou seja, algo como um pensamento desejoso. Entretanto, não basta que digamos três vezes os nossos desejos em voz alta e em frente ao espelho para que eles se materializem. A realidade é quase sempre mais intrincada, elaborada e complexa do que sussurram os editoriais dos grandes jornais, dotados, em algumas vezes, da mais gritante e pujante inanidade. Longe de querer comparar as figuras históricas, César e Bolsonaro, mas o Rubicão foi atravessado muito antes de 2020 e muitas vezes, e graças, também, à torcida de quem deveria vigiar.

Na permissividade que construímos ao longo dos anos pós-Ditadura Militar, um laxismo traiçoeiro baseado na concepção, empurrada goela abaixo pelos autoanistiantes militares e civis, de “conciliação nacional”, permitimos que o ex-capitão do exército dissesse seus vitupérios sem nenhuma, absolutamente nenhuma, sanção. Desde o abjeto “você não merece ser estuprada” para a, também congressista, Maria do Rosário, passando por medir os pesos dos negros em arrobas, e dizer que preferia um filho morto a um filho gay, permitiu-se que esse rebotalho pisasse, com falsas botas militares, mais fundo na democracia, sim, mas também no pescoço do povo, das mulheres, dos negros, dos gays, dos pobres, dos fragilizados e, como haveria de ser, também nos jornalistas.

E a participação da (grande) imprensa foi fundamental. Na audiência dos programas humorísticos informais e invasivos, figurou-se o então futuro presidente como uma blague. E a piada, quando se candidatou, não sofreu nenhum rechaço institucional veemente pelas maiores redações do país. Pelo contrário, com a sanha antipetista babando e escorrendo nas páginas de um editorial, considerou-se uma difícil escolha o segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Além da omissão acovardada, as canetas viraram remos, e mais uma vez se atravessou o rio que não deveria ter sido atravessado de uma margem à outra.

Agora o bulício pelas baixezas que o presidente comete, seja no único veículo de comunicação compatível com suas capacidades de escrita (Twitter) ou quando gagueja impropérios em frente à sua fiel claque, solidariza e indigna os jornalistas que ostentam suas credenciais no peito. E com razão. Toda a solidariedade deve vir a quem é vítima de figura tão atroz da história brasileira. Ainda mais quando os ataques de testeria (a “histeria” masculina, termo cunhado pela feminista Julia Loesch) do presidente atingem a vítima e, simultaneamente, todas as mulheres, no caso de Patrícia Campos Mello e Vera Magalhães, ou quando atingem a já tão frágil e combalida, já tão timorata, coadjuvante e moribunda, democracia brasileira. Como diz Victor Hugo, n’Os Miseráveis, “os grandes perigos têm isto de bom: põem à luz a fraternidade dos desconhecidos”.

Mas é uma obrigação moral e histórica lembrar da omissão dos nossos poderes quando Bolsonaro, há apenas três anos, dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff a um facínora, um torturador, um criminoso sádico e retrato do mal. Ainda nas páginas d’Os Miseráveis, “o verão jamais abdica de seus direitos”, e o verão chegou, infernal. Não podemos deixar de apontar que a grande imprensa, hoje ela própria vítima, lamentavelmente parece ter entre seus filmes prediletos, o filme de Michel Gondry. Afinal, parecem ser, seu jornalismo e suas memórias, apenas o brilho eterno de uma mente sem lembranças.

 



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