Autor do recém-lançado O Dono e o Mal, é o segundo entrevistado do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor
Bruno Inácio
Bruno Ribeiro é escritor, tradutor e roteirista. Nascido em Minas Gerais, mas radicado na Paraíba, o autor do recém-lançado O Dono e o Mal (Companhia das Letras) é mestre em escrita criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero, em Buenos Aires, e se consolidou como um dos mais promissores nomes da literatura brasileira contemporânea ao escrever obras como Porco de raça (Darkside, 2021) e Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023).
Ao longo da entrevista, Bruno Ribeiro falou sobre temas como o racismo, a literatura de horror e as dificuldades enfrentadas por autores e autoras que não fazem parte do eixo Rio-São Paulo.
Seu novo livro, O Dono e o Mal, aborda as violências de processos de colonização de forma bastante original. Como surgiu a ideia para o romance?
Eu queria falar sobre homens negros que se tornam extremamente violentos depois de uma vida inteira marcada pela impunidade e pelas agressões sofridas. Mas, à medida que fui escrevendo, percebi que as nossas dores não são apenas nossas: elas também pertencem àqueles que vieram antes de nós.
Carregamos os nossos conflitos e os de milhares de outras pessoas. Colonização, escravidão, violência policial… somos uma colagem de dores. Aos poucos, o livro deixou de ser apenas sobre homens e passou a ser sobre uma família. Foi assim que nasceram os Farias de Assumpção – Batista, Graciliano, Genival, Valéria e Soledade – e, principalmente, a figura bizarra d’O Inglês, esse senhor de idade sepulcral que encarna a própria colonização.
Ele funciona como uma espécie de deus ex-machina às avessas: em vez de surgir para organizar a narrativa, aparece para desorganizá-la. É um intruso que invade e hackeia o próprio livro que eu escrevi. Gosto da existência dele porque lembra que os personagens já precisam lidar com as próprias falhas, mas ainda carregam aquelas impostas por O Inglês, que tornam suas vidas ainda mais difíceis.
Acredita que o terror tem conquistado um espaço maior, não só entre leitores, mas também em veículos de literatura e em eventos literários? Quais foram os passos mais importantes dados pelo gênero nos últimos anos? Quais são seus atuais desafios?
Falo na perspectiva de um leitor e autor que vê no horror uma forma de ampliar questões sociais, históricas e políticas: é gratificante perceber quantas autorias interessantes têm explorado o horror hoje e expandido as possibilidades do gênero. Acho que vivemos um bom momento justamente porque o horror começa a ser entendido, no meio literário, pelo que ele sempre foi: um gênero narrativo, e não uma identidade cultural ou um clube do qual é preciso fazer parte.
Isso me parece um avanço importante. Durante muito tempo, criou-se a impressão de que escrever horror implicava assumir uma determinada estética, um determinado repertório ou até uma determinada postura diante da literatura. Como se fosse necessário performar o horror dentro e fora das páginas. Mas horror é um gênero, assim como o realismo, o romance policial ou a ficção científica. Ninguém espera que um escritor realista escreva apenas realismo durante toda a carreira. O mesmo deveria valer para o horror.
É justamente essa liberdade que me interessa. Posso escrever horror em um livro e, no seguinte, escrever um romance histórico ou um livro-reportagem. Esse gênero é uma ferramenta narrativa, não uma identidade. Talvez o principal desafio agora seja consolidar essa compreensão. O horror não se resume ao Halloween, à estética sombria ou à performance de “malvadão”. Tudo isso pode existir, evidentemente, mas não define o gênero. O horror é, antes de tudo, uma linguagem literária. Quanto mais ele deixar de ser tratado como uma tribo e passar a ser compreendido como uma possibilidade estética entre tantas outras, mais fortes e diversas serão as obras que surgirão.
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Sobrevivência. Acho que todos os meus livros, de uma forma ou de outra, falam sobre personagens tentando sobreviver. Não me interessa narrar um mundo em equilíbrio. Os meus personagens parecem chegar depois da catástrofe, como se habitassem um lugar que já foi destruído e precisassem aprender a viver entre os escombros. Essa tensão constante acaba levando o realismo ao limite e, muitas vezes, faz com que ele se transforme em horror, fantástico ou insólito.
Isso também tem relação com a minha vida fora da literatura. Crescer e viver em um país marcado por desigualdades tão profundas, pelo racismo e por diferentes formas de violência fez com que a sobrevivência fosse algo difícil pra mim. Ela passa a ser emocional, financeira, afetiva e até imaginativa. Sobreviver, para muita gente, também significa conseguir projetar um futuro minimamente decente.
Acho que é isso que tento colocar nos meus livros. Meus personagens não lutam para vencer o mundo. Eles lutam para continuar existindo dentro dele.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
O Mestre e Margarida, do Mikhail Bulgákov. Tenho várias edições dele em casa e sempre volto ao romance. O que mais me fascina é que ele é uma grande defesa da imaginação. Bulgákov mostra que a ficção não serve para esconder a realidade, mas para atravessá-la. Em vez de transformar a dor em confissão ou testemunho, ele mergulha em invenção. O diabo, o gato gigante, Pilatos, o humor, o absurdo e o fantástico não aparecem como fuga do mundo, mas como formas de enxergá-lo melhor.
É um livro que me lembra constantemente que a literatura pode dizer verdades profundas justamente quando abandona o compromisso com a representação direta da realidade. Nem concordo com tudo o que Bulgákov pensava ou escrevia, mas isso nunca foi um problema para mim. Não procuro escritores para serem exemplos de vida.
Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse um leitor? E um escritor?
Como leitor, diria Frankenstein, da Mary Shelley. Como escritor, Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus.
Frankenstein foi um choque para mim porque o monstro não é apenas um monstro. Ele pensa, fala, argumenta, ama, odeia e sofre. É capaz de cometer atrocidades, mas também desperta compaixão. A grande lição de Mary Shelley é que um personagem não precisa ser inocente para ser compreendido.
Foto: Dayana Soares
Já Quarto de Despejo me ensinou outra coisa: a força da linguagem. Carolina transforma a experiência da fome, da pobreza e da exclusão em literatura sem abrir mão da complexidade humana. É um livro impossível de esquecer. “Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito” é uma baita frase.
Curiosamente, percebo que essas obras dialogam conceitualmente com O Mestre e Margarida. Hoje vejo que todas elas giram em torno da mesma pergunta: como sobreviver? Bulgákov escreve sob a sombra de um regime totalitário; a criatura de Shelley precisa encontrar um lugar em um mundo que a rejeita; Carolina escreve para sobreviver, literalmente. Talvez seja por isso que esses livros tenham me formado
Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Seria ótimo se o Dia do Escritor viesse acompanhado de um PIX. Infelizmente, ainda não inventaram essa tradição. Brincadeiras à parte, acho que há, sim, motivos para celebrar. Publicar um livro, encontrar leitores, participar de debates e perceber que as histórias continuam circulando apesar de todas as dificuldades é algo pelo qual sou muito grato. Nunca trato isso como um direito adquirido. Sei o quanto é difícil chegar até aqui.
Ao mesmo tempo, ainda precisamos amadurecer bastante como meio literário. Isso passa por uma maior profissionalização de toda a cadeia do livro, por remunerações mais justas e por um olhar menos concentrado nos mesmos centros e nas mesmas vozes. O Brasil é muito maior do que o eixo Rio-São Paulo, e a nossa literatura também.
No fim das contas, existe uma preocupação que une praticamente todos os escritores: conseguir continuar escrevendo. E isso passa, inevitavelmente, pelas condições materiais de existência. A maior angústia costuma ser bem menos romântica do que as pessoas imaginam: chegar ao fim do mês com as contas pagas para poder escrever o próximo livro.
Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
Vou responder com um autor que já não está entre nós: Cruz e Sousa. Sei que ele é lido, estudado e reconhecido, mas ainda acho que ocupa um lugar menor do que deveria no imaginário da literatura brasileira. Quando pensamos nos grandes nomes da nossa tradição, seu nome nem sempre aparece.
Durante muito tempo, Cruz e Sousa foi apresentado quase exclusivamente como “o maior simbolista brasileiro”. Isso é verdade, mas também é pouco. Sua obra ultrapassa qualquer classificação escolar. A força da linguagem, a invenção poética e a maneira como transforma violência, exclusão e sofrimento em criação fazem dele um escritor profundamente contemporâneo. Também sinto falta de uma circulação editorial mais forte. É um autor que merecia ser constantemente reeditado, comentado e apresentado a novos leitores. É totalmente possível o lermos em uma perspectiva mais pop e até da literatura de horror, por exemplo.
E Cruz e Sousa já deveria ter sido o grande homenageado de uma FLIP ou de outro grande festival literário brasileiro. Seria um reconhecimento à altura da dimensão da sua obra e uma oportunidade de recolocá-lo no centro das discussões sobre a literatura brasileira. Ainda estamos em dívida com ele.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
O melhor foi: “Sempre tenha algo na gaveta.” É um excelente conselho porque a escrita não termina quando um livro é publicado. Ter outro projeto em andamento ajuda a não depositar todas as expectativas em uma única obra e faz com que a literatura continue sendo um trabalho, e não apenas um evento.
O pior foi ouvir que “não pode ser político na literatura”. Acho uma visão muito limitada e genérica. Toda literatura parte de uma determinada visão de mundo, inclusive aquela que afirma não ser política. A questão nunca é ser político ou não, mas transformar essa visão em boa literatura. Um romance pode defender qualquer ideia, o que ele não pode é abrir mão da complexidade em nome de uma tese.
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.
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