O RITMO DO PROGRESSO É DESIGUAL

A biopolítica das desigualdades

As mesmas forças que produzem a vulnerabilidade, como a dependência econômica, subfinanciamento da saúde pública e endividamento externo, são aquelas que limitam o acesso sustentado às inovações

Em Cibitoke, no Burundi, um dos menores países da África Central, mais de 17 mil crianças passaram a receber a “tripla proteção” contra a malária, uma combinação de vacinação, quimioprevenção e distribuição de mosquiteiros com inseticida. À primeira vista, trata-se de uma resposta técnica à persistência de uma doença antiga. No entanto, esse programa, conduzido por Médicos Sem Fronteiras (MSF) em parceria com o Ministério da Saúde do Burundi, revela algo mais profundo: a forma como o cuidado em saúde se produz nas zonas de vulnerabilidade extrema do mundo, entre a biopolítica global e a intervenção local com práticas de resistência. 

A malária é um espelho brutal das desigualdades globais. De acordo com o World Malaria Report 20241, da Organização Mundial da Saúde (OMS), 95% das 597 mil mortes pela doença em 2023 ocorreram na África Subsaariana. São mortes evitáveis, o que transforma a malária em uma das expressões mais persistentes daquilo que Achille Mbembe chama de necropolítica: a administração desigual do direito de viver e morrer. 

No Burundi, país com 14 milhões de habitantes e uma das menores rendas per capita do planeta, a malária permanece como principal causa de hospitalização e morte infantil. Em 2023, mais de 1.800 mortes foram atribuídas à doença, concentradas entre crianças menores de cinco anos. O quadro é alimentado por múltiplos fatores: condições ecológicas favoráveis ao mosquito vetor, instabilidade climática, fragilidade dos sistemas de saúde e pobreza estrutural. 

A OMS reconhece avanços, como o desenvolvimento de vacinas (RTS,S e R21/Matrix-M) e estratégias preventivas integradas. Contudo, o ritmo do progresso é desigual. As mesmas forças que produzem a vulnerabilidade, como a dependência econômica, subfinanciamento da saúde pública e endividamento externo, são aquelas que limitam o acesso sustentado às inovações. 

Nesse cenário, o projeto em Cibitoke emerge como um laboratório de inovação em meio à precariedade. A “tripla proteção” combina tecnologias conhecidas, mas articuladas de modo sinérgico: a vacina RTS,S administrada em quatro doses entre seis e 18 meses; o tratamento preventivo com sulfadoxina-pirimetamina entre nove e 24 meses; e o fornecimento de mosquiteiros tratados. 

“O objetivo é reduzir a incidência da doença entre as crianças pequenas”, explica Zakari Moluh, coordenador de MSF no distrito. “A vacinação e a quimioprevenção se reforçam mutuamente. E, ao adicionar a proteção física dos mosquiteiros, buscamos garantir a defesa mais completa possível.” 

O programa apoia 20 unidades de saúde e beneficia cerca de 17.900 crianças. Desde sua implementação, observou-se uma redução superior a 40% nas internações por malária grave no hospital distrital. Trata-se de um resultado expressivo, alcançado com baixo custo e alta adesão comunitária, sobretudo entre mulheres cuidadoras e agentes comunitários. 

Arte de Jacques-Louis David

A biopolítica global da malária articula ciência, economia e geopolítica. O financiamento da luta contra a doença depende majoritariamente de agências multilaterais, ONGs e fundações privadas, como o Fundo Global e a Fundação Bill & Melinda Gates. Isso coloca países como o Burundi em uma posição paradoxal: a sobrevivência de suas populações mais pobres depende de fluxos de capital filantrópico e de estratégias decididas fora de seu território. 

Essa tensão entre o gesto humanitário e a estrutura de dependência é também retratado no filme O Jardineiro Fiel (2005), de Fernando Meirelles. Ambientado no Quênia, o longa revela como a indústria farmacêutica e a diplomacia internacional se entrelaçam em redes de poder que instrumentalizam corpos africanos para experimentos e interesses comerciais. A ficção, inspirada em fatos reais, ressoa com a realidade de Cibitoke: ambos os contextos expõem a ambiguidade ética de um humanitarismo que salva vidas, mas que também reproduz hierarquias coloniais. 

Foucault descreveu a biopolítica como o conjunto de tecnologias de poder que administram a vida das populações. No caso da malária, esse governo da vida opera em escala planetária, regulando não apenas corpos, mas também economias, prioridades e possibilidades de existência. A distribuição desigual das tecnologias médicas, como vacinas, inseticidas e fármacos, expressa uma divisão global do cuidado. 

O caso burundês também pode ser lido à luz da colonialidade da saúde global. A mesma estrutura que exporta tecnologias salvadoras mantém a dependência estrutural de países africanos em relação a agendas externas. A filantropia internacional muitas vezes define o que deve ser feito, quando e com quais indicadores. Assim, mesmo intervenções bem-sucedidas, como a “tripla proteção”, permanecem inscritas em um regime de tutela e vulnerabilidade política. 

Mas há também uma potência micropolítica nessa experiência. A mobilização de agentes comunitários, o engajamento das famílias e a apropriação local das tecnologias mostram que, nos interstícios do sistema, emergem formas de autonomia e cuidado coletivo que escapam à lógica vertical da ajuda internacional. 

Essa tensão entre vulnerabilidade e dignidade também ecoa na pintura A Morte de Marat (1793), de Jacques-Louis David. O corpo do revolucionário assassinado, retratado no banho, é simultaneamente frágil e político: a imagem da vida sacrificada em nome de uma causa pública. No Burundi, como na tela de David, o corpo é também um campo de disputa simbólica entre o sofrimento anônimo e a afirmação de uma vida que resiste, mesmo quando o mundo parece administrá-la à distância. 

A erradicação da malária, adiada sucessivamente desde os anos 1960, exige mais do que novos instrumentos biomédicos. Exige redistribuição global de recursos, fortalecimento dos sistemas públicos de saúde e políticas ambientais que enfrentem as causas estruturais da vulnerabilidade. 

Em Cibitoke, a experiência de MSF e do Ministério da Saúde do Burundi demonstra que é possível avançar mesmo em condições adversas. Mas também denuncia a injustiça de um mundo onde a morte por picada de mosquito ainda é um destino geopolítico. A “tripla proteção” é, portanto, mais que uma inovação técnica: é um gesto ético-político que reabre a pergunta sobre o valor da vida em contextos de desigualdade extrema. Entre o humanitarismo e a autonomia, entre a biotecnologia e a solidariedade, o futuro da luta contra a malária dependerá da capacidade de transformar essa experiência local em emblema de justiça global em saúde. 

Roger Flores Ceccon é professor da Universidade Federal de Santa Catarina. 

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