Cachaça: a história oculta da bebida nacional - LMDB

Cachaça: a história oculta da bebida nacional

por Raphael Fagundes
29 de novembro de 2019
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De acordo com Azevedo, os índios são inseridos no mundo moderno ao substituírem suas bebidas tradicionais, sua embriaguez cerimonial, pela cachaça que servia de instrumento para convencê-los a suportar o trabalho escravo.

Durante a Idade Média lusitana, raramente se bebia água pura, por ser muito difícil encontrá-la com bom cheiro e sabor. O historiador e antropólogo João Azevedo Fernandes destaca a relação dos portugueses com os regimes etílicos dos nativos da América e com os dos africanos da Costa Oeste do continente negro. Ressalta que o vinho de palmeira consumido pelas elites da África central acidulava muito rápido, desta forma o vinho de uva português acabou sendo muito bem aceito na região. Inclusive, foi usado inicialmente como moeda de troca para se obter escravos.
Entre os índios da América, a história foi outra. Nenhuma bebida alcoólica portuguesa conseguiu penetrar no regime etílico dos nativos pelo menos até o século XVII. Os índios preferiam suas cervejas de mandioca e milho e seus vinhos de frutas1.

Outro motivo para explicar o bom relacionamento etílico português com os africanos é o fato de que na África existia uma hierarquia alcoólica. Enquanto as elites bebiam vinho das folhas das Palmeiras (malafu), os pobres bebiam cervejas de sorgo e painço (walu), pelo menos até o século XVII, quando a cachaça brasileira foi introduzida no continente.

Já entre os índios americanos não havia uma bebida de elite, “por não existirem elites de qualquer tipo”. Os portugueses dominavam, em muitos casos, os povos conquistados por meio de alianças que estabeleciam com as elites locais. Substituindo o vinho de palmeira pelo vinho de uva cativaram as elites africanas, mas na América esse procedimento não foi possível devido à relativa igualdade que existia entre os indígenas2.

De acordo com Azevedo, os índios são inseridos no mundo moderno ao substituírem suas bebidas tradicionais, sua embriaguez cerimonial, pela cachaça que servia de instrumento para convencê-los a suportar o trabalho escravo. Esse processo, que ocorreu pela atuação dos jesuítas que, por seu turno, visavam alterar não a embriaguez, mas as razões pelas quais os índios se embriagavam (relacionadas aos seus próprios mitos), contribuiu para construir a imagem de um índio preguiçoso, fraco e pusilânime3. Ou como disse recentemente (pasmem!) o procurador geral da República, Ricardo Albuquerque, do Ministério Público do Pará, o “índio não gosta de trabalhar“.

Garrafas de cachaça (Crédito: Pixabay)
Garrafas de cachaça (Crédito: Pixabay)
Sete litros por um escravo

Jeribita era como a cachaça era conhecida nos sertões centro-africanos. Para Luiz Felipe de Alencastro, o nome pode ser proveniente de jeribá, nome tupi de uma palmeira comum no litoral brasileiro de onde se extraía a matéria para a fabricação de um vinho parecido com do Continente Negro4.

Enquanto os traficantes reinóis usavam vinho de uva como moeda de troca, os “brasileiros” lançaram mão da jeribita para conseguir cativos em Angola. A cachaça era quatro vezes mais barata que o vinho, além de ser mais difícil de estragar ao longo da viagem transatlântica.

De acordo com Roquinaldo Ferreira, uma porção da bebida era servida aos escravos no café da manhã durante a travessia do Oceano. A bebida era tão lucrativa que gentes do Brasil montavam tabernas em Angola para faturar. 70% dos prédios em Luanda eram destes investimentos, destaca o historiador.

Foi controlando o comércio da cachaça que os “brasileiros” conseguiram quebrar o monopólio dos negociantes portugueses sobre o tráfico de escravos. Era mais fácil adquirir escravos por meio da cachaça que pelos outros produtos também apreciados pelos africanos, como armas e panos indianos. Ferreira mostra que, em 1792, no principal mercado fornecedor de escravos para Luanda, a feira de Passante, bastavam sete litros da bebida para conseguir um cativo considerado de excelente qualidade. Em contrapartida, era necessário cinco armas portuguesas para adquirir um escravo. Além disso, era mais fácil para os comerciantes arrumar jeribita que armas5.

Sem cachaça não tem escola

Poucos sabem que Portugal foi o primeiro país a fundar um sistema público de educação do Ocidente. Em 1772, o Estado passou a bancar desde a instrução primária até os estudos da Universidade de Coimbra. O objetivo era racionalizar a educação, tirá-la do domínio dos jesuítas e inserir elementos científicos. Foi nesse momento inclusive que se propôs para os estudantes de medicina a dissecação de cadáveres, proibidos por D. João V.

Mas as reformas educacionais de D. José I, lideradas pelo Marquês de Pombal, precisavam de subsídios. Criou-se o Subsídio Literário. A cachaça que por sua vez era bastante usada para obter escravos no infame comércio de almas, passou a ser taxada, ao lado do vinagre, do vinho e da carne para se angariar fundos especiais que pudesse bancar o modelo de educação estatista.

Contudo, era nas regiões onde havia maior produção de cana de açúcar, matéria prima da cachaça, que possuíam mais aulas régias, por ser elas que mais pagavam impostos, já que dos produtos listados o mais lucrativo era a jeribita. De acordo com Luiz Carlos Villaça, Christianni Cardoso de Morais e João Paulo Martins, os maiores recursos para a educação eram extraídos da cachaça6.

A bebida que se tornou patrimônio nacional tem uma história controversa, pois, ao mesmo tempo em que sustentou a escravidão, financiou o primeiro sistema público do mundo Ocidental. Contradições à parte, a cachaça continua sendo altamente tributada. 81,87% do preço de venda do destilado nacional é de imposto. Para investir em educação com certeza é que não é…



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