Editorial: Cadê o futuro? - Le Monde Diplomatique Brasil

EDITORIAL

Cadê o futuro?

por Silvio Caccia Bava
30 de janeiro de 2020
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O que acontece se as maiorias no Brasil se convencerem de que podem mudar as políticas públicas e a destinação dos recursos públicos? Esta não é uma crise qualquer, é uma crise do mundo do trabalho, com aprofundamento da desigualdade e da pobreza, precarização da vida, destruição do meio ambiente e violência se instalando sobre as instituições.

O que acontece com o indivíduo que não sonha com o futuro? Ele perde o entusiasmo, a vontade de vencer obstáculos, de transformar o real, se acomoda, se submete, aceita o lugar que a sociedade lhe destina: a servidão voluntária.

O futuro de cada um depende do futuro de sua sociedade. E é aqui que se imbricam os dramas individuais e as questões coletivas.

“A tarefa das políticas sociais é desenhar os modos como vivemos e a estrutura institucional e cultural de nossas vidas, de modo a favorecer os aspectos benignos e suprimir os aspectos grosseiros e destrutivos de nossa natureza fundamental.”1

Se o futuro é a busca de um lucro sempre maior para as empresas, especialmente para o setor financeiro, a sociedade deve se moldar para atender a esse objetivo. A precarização das relações de trabalho serve a esse propósito, assim como a redução do valor das aposentadorias.

Se o futuro é a busca do bem-estar de todos, a sociedade deve mobilizar seus recursos, sua produção de riquezas, para a construção dos bens comuns e a melhoria da qualidade de vida. E usufruir desse patrimônio público!

Quando os dramas individuais são reconhecidos como coletivos – a questão do emprego ou da previdência, por exemplo –, suas demandas criam atores coletivos que cobram dos governos a solução de seus problemas e expressam as necessidades daqueles que estão privados do que lhes é essencial.

O drama individual se transforma em drama coletivo, e os atores coletivos mobilizados para pressionar os governos criam espaços de negociação, ativam o espaço da política e conquistam vitórias!

A mobilização dos coletes amarelos, na França, acaba de conseguir que o governo Macron volte atrás no aumento da idade para se aposentar. As mobilizações impressionantes no Equador fizeram o presidente cancelar o aumento dos preços dos combustíveis. As imensas mobilizações chilenas conquistaram um plebiscito para votar a forma de construção de uma nova Constituição para o país.

É curioso que o que ocorre no Chile tenha sumido das páginas de nossos jornais, ou consiga apenas pequenas notas. O sucesso das mobilizações cidadãs no Chile e em vários outros países não pode alimentar esperanças no Brasil. Por isso, é preciso controlar as informações.

O que acontece se as maiorias no Brasil se convencerem de que podem mudar as políticas públicas e a destinação dos recursos públicos?

Esta não é uma crise qualquer, é uma crise do mundo do trabalho, com aprofundamento da desigualdade e da pobreza, precarização da vida, destruição do meio ambiente e violência se instalando sobre as instituições. É uma crise civilizatória!

Temos de pensar uma nova sociedade, um novo modo de produção, novos padrões de consumo, a sustentabilidade ambiental, a integração cidadã dos mais pobres a uma vida digna, novas formas de gestão em governos radicalmente democráticos.

Se perdermos o horizonte utópico, uma perspectiva, um desejo, uma ideia, um projeto, ficaremos sem propostas para defender. Aí jogamos apenas na resistência, paralisados pelas dificuldades.

O saudosismo do passado traz uma ideia mítica de reconstruir uma vida que já não é mais possível. Já não é mais possível ser telegrafista, passar um fax, acreditar na força dos sindicatos ou comer sem ingerir agrotóxicos. Como dizia um antigo filósofo grego, Heráclito, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio; o tempo não volta atrás.

As demandas sociais muitas vezes esbarram em lógicas de negação de direitos. O argumento de sempre é que não há dinheiro para atender a essas demandas, embora haja dinheiro para atender a setores do empresariado com isenções tributárias.

Aí é preciso conhecer o conjunto das ações de governo para poder disputar esses recursos. Mas, mesmo conhecendo as políticas de governo e podendo fazer sua crítica, a política neoliberal baseada no interesse das grandes corporações não tem o que propor. O neoliberalismo não se importa com as demandas sociais, não pensa o futuro, quer que o presente se eternize.

A crise é estrutural e se aprofunda. Para superá-la é preciso enfrentar o dogmatismo neoliberal e promover mudanças qualitativas, buscar novos paradigmas.

O ponto de partida é a defesa de direitos inalienáveis: direito à vida, à liberdade, à felicidade; livre acesso ao que é comum; igualdade na distribuição da riqueza; sustentabilidade do comum; governança democrática.2

(Ilustração: Claudius)

Com a Austrália mostrando o impacto do aquecimento global, a questão ambiental se soma aos direitos inalienáveis. O acesso a comida saudável e água potável se contrapõe às privatizações e é igualmente fundamental.

Ao promoverem a defesa dos direitos, os grupos que se mobilizam enfrentam a ordem instituída, assumem uma condição insurrecional – como vemos hoje no Chile e em vários outros países –, encaram os riscos de morte, espancamento e prisão, e passam a ser o poder instituinte de uma nova ordem.

Nem os sindicatos, nem os partidos políticos, nem as organizações da sociedade civil conseguem dialogar com a autonomia desses novos atores sociais. São esses contrapoderes democráticos surgidos das mobilizações cidadãs que pressionam corporações e governos a abrir espaço para a construção do comum, de uma nova democracia, de uma nova sociedade.

Na situação atual, segundo Chomsky, temos duas escolhas: “Podemos ser pessimistas, desistir e ajudar a garantir que o pior ocorra. Ou podemos ser esperançosos, agarrar as oportunidades que certamente existem e, talvez, esperar fazer o mundo um lugar melhor. Na verdade, não é bem uma escolha…”3.

Silvio Caccia Bava é editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

1 Noam Chomsky, “Chomsky: ‘por que tenho esperanças’”, Outras Palavras, 15 jan. 2019.

2 Michael Hardt e Antonio Negri, Declaração: isto não é um manifesto, 2. ed., N-1, São Paulo, 2016, p.73.

3 Noam Chomsky, op. cit.



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