Camila Nunes de Freitas: “Todas as iniciativas que aproximam a literatura da experiência cotidiana das pessoas são importantes”
Em entrevista, escritora e idealizadora do projeto literário de Cabreúva das Artes, sediado em um pequeno município de São Paulo, fala da importância de aproximar a literatura de todos
Cabreúva é um município do interior de São Paulo, a 88 km da capital, com menos de 50 mil habitantes. Cercada pela Serra do Japi, é conhecida, entre outras coisas, por abrigar o Centro de Meditação Kadampa Brasil, um dos maiores do mundo. Este ano, a região sedia a 2ª edição do Cabreúva das Artes, projeto cultural que visa a democratização do acesso à leitura por meio de práticas artísticas, e tem uma programação extensa e gratuita, que começou em abril e seguirá até agosto.
Idealizado pela escritora e gestora cultural Camila Nunes de Freitas, moradora da região há 7 anos, o projeto recebeu apoio do Edital de Fomento CultSP, do ProAC, e prevê ao todo mais de 100 horas de atividades formativas, entre oficinas, palestras, exposições coletivas e saraus, que acontecem em escolas públicas, centros comunitários e espaços culturais de nove bairros de Cabreúva, em áreas urbanas, periféricas ou rurais.
Entre as atividades da programação, está a oficina de escrita “Jogos Literários”, mediada por Camila. Nela, a escritora propõe exercícios de criatividade a um público de adolescentes para que deem os primeiros passos na produção literária.

Nesta entrevista, Camila Nunes de Freitas conta como é colocar um evento literário de pé, e fala da importância de projetos que contemplem cidades fora do circuito convencional de eventos literários: “Cabreúva é uma cidade pequena e, por isso mesmo, um bom laboratório para iniciativas inovadoras que podem ser replicadas em outros territórios.”
Confira a entrevista na íntegra:
Camila, como idealizadora do projeto Cabreúva das Artes, um evento cultural extenso e gratuito fora do circuito convencional de eventos literários, fala um pouco do projeto, e como foi colocá-lo de pé.
O Cabreúva das Artes é um projeto de estímulo à leitura e à escrita literária. O projeto propõe oficinas de criação artística gratuitas, voltadas especialmente para crianças e jovens. A literatura é o eixo central, em diálogo com outras linguagens artísticas como artes cênicas, artes visuais, audiovisual e cultura popular. É realizado de forma colaborativa por artistas e agentes culturais do interior, valorizando assim os fazedores de cultura locais, fomentando a economia da cultura na região e promovendo a visibilidade de artistas da cidade.
O projeto está em sua segunda edição. Ano passado iniciamos as atividades com recursos da Política Nacional Aldir Blanc e começamos o diálogo com os espaços culturais e educacionais locais, de forma a estar presente na área urbana, rural e periférica. Este ano, o projeto ganha fôlego com recursos do Fomento Cult SP Proac Editais.
E como surgiu a ideia?
Nasceu da inquietação frente à queda no número de leitores no Brasil. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, apontou uma perda de quase 7 milhões de leitores nos últimos 4 anos. Constatou-se que 53% dos brasileiros não leram nenhum livro, seja físico ou digital, nos três meses anteriores à pesquisa. Isso significa que, pela primeira vez na série histórica, a maioria da população brasileira é composta por não leitores. Sabemos que esta perda de interesse da população tem causas complexas, que passam por dificuldades históricas e estruturais, deficiências na educação, fragmentação da concentração, novas tecnologias e dinâmicas com relação ao uso do tempo.
Como amante da literatura, comecei a pensar em formas criativas de inserir a leitura e a escrita na vivência de crianças e adolescentes. Acredito que precisamos agir agora para estimular o contato das novas gerações com o universo de possibilidades que o livro traz.
A aceleração em que vivemos e o avanço de tecnologias como a Inteligência Artificial estão encurtando os processos e gerando expectativas de resultados rápidos, sacrificando a experimentação, a reflexão e a vivência, etapas vitais para o desenvolvimento da criatividade. Nas oficinas, conectar as pessoas ao processo artístico é mais importante que o resultado. É no âmbito do processo que se dá a conexão, o pertencimento, o descobrimento e a troca. Acreditamos que este espaço de convivência cria laços de afeto em nossa comunidade, contribuindo para a saúde mental da população.
Cabreúva é uma cidade pequena e, por isso mesmo, um bom laboratório para iniciativas inovadoras que podem ser replicadas em outros territórios.
O Cabreúva das Artes foi idealizado para uma cidade com menos de 50 mil habitantes. Qual a importância de projetos de formação leitora acontecerem fora do eixo de grandes eventos literários, como a Bienal do Livro e mesmo a Flip?
Acredito que projetos como o Cabreúva das Artes, que estimulam a formação de leitores e escritores na infância e adolescência, são fundamentais para que os grandes eventos literários continuem existindo no futuro!
Todas as iniciativas que aproximam a literatura da experiência cotidiana das pessoas são importantes e se retroalimentam. É interessante que ao mesmo tempo em que o número de pessoas leitoras diminui, existe uma cena literária muito rica fazendo um trabalho de formiguinha na formação de leitores em cada rincão do Brasil.
Acompanho com especial interesse as iniciativas fora das grandes capitais, que garantem a descentralização do acesso à literatura. São bibliotecas comunitárias, clubes de leitura, oficinas de escrita, livrarias de rua, festivais em pequenas cidades, experiências em escolas e projetos de formação leitora que criam um ecossistema que mantém o livro vivo e presente na vida das pessoas. Por exemplo, participei do festival Elos da Língua, em São Francisco Xavier, no ano passado. Uma das propostas da programação foi uma sabatina com o celebrado escritor Jeferson Tenório, realizada por estudantes do ensino médio. Isso é fantástico, pois coloca os jovens em uma posição de protagonismo e aproxima a literatura da vida deles.
Isso sem falar que populações historicamente silenciadas, como mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras e indígenas, estão ocupando cada vez mais espaço na literatura contemporânea e isso é maravilhoso. Iniciativas descentralizadas de estímulo à escrita literária ajudam no surgimento de novos escritores e escritoras, novas vozes, visões de mundo mais diversas. Em uma sociedade que caminha a passos largos para a intolerância e o retrocesso, essa é uma tarefa de fundamental importância.
Você mora em Cabreúva. Sua relação com o lugar mudou depois do Cabreúva das Artes? E como é a relação da população local com o evento? (E se tiver alguma história interessante ou mais específica, pode contar também).
Vivo em Cabreúva desde 2020 e, como muita gente, saí de São Paulo e adotei o interior durante a pandemia. Fico muito feliz em poder atuar na cidade e aportar meu grãozinho de areia no desenvolvimento da cena cultural da região, mas, sobretudo, estou muito impactada com tudo o que aprendo na convivência com a população. Estamos atuando em bairros dos mais diversos – urbanos, periféricos e rurais – e me deparo diariamente com histórias e vivências muito diferentes da minha. Essas histórias me inspiram e alimentam minha literatura.
Cabreúva está às margens do Rio Tietê. Em uma oficina de escrita voltada para a terceira idade, ouvi o relato de uma senhora que passou a infância nas margens do Tietê e pude ter uma dimensão do que a “morte” de um rio significa na vida das pessoas. Em outra oficina voltada para adolescentes de um bairro periférico, fiquei surpresa com a quantidade de garotas que escrevem e publicam em meios digitais. É impressionante como as mulheres estão sedentas por contar suas histórias.
Além de gestora cultural, você também é escritora. Seu primeiro livro, Moscovich Azul (Editora Janus), venceu o Prêmio da Secretaria da Cultura de São Paulo para Escritor Estreante. E agora, seu segundo romance, Lua em Capivara, está em fase de edição, contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc em 2025. Quer dizer, a literatura tem um papel central na sua vida, e as políticas públicas de incentivo e fomento literário também. Que impacto o acesso, tanto à literatura, quanto às políticas de incentivo, teve na sua vida?
Acredito que a literatura é uma ponte que nos conecta com diferentes vivências e visões de mundo, uma ferramenta poderosa na construção de uma sociedade mais diversa, inclusiva, reflexiva e dialógica. Cresci em um bairro metalúrgico do Grande ABC, estudei em escola pública e tive uma infância pobre. Minha mãe foi bibliotecária e introduziu a leitura na minha vida desde criança. A biblioteca pública passou a ser o meu refúgio e a literatura me fez sonhar com possibilidades que eu nem sabia que existiam. Por isso, sou defensora ferrenha das políticas públicas de acesso à cultura e, em especial, à literatura. O acesso aos bens culturais deve ser democrático e universal porque humaniza e transforma.
Da mesma forma, tornar-se escritora nunca foi algo simples para mim. Escrever demanda tempo e espaço mental que nem sempre é possível quando estamos na batalha do dia a dia, isso sem falar nos custos de publicação. As políticas públicas de incentivo foram fundamentais para viabilizar a publicação do meu primeiro livro, Moscovich Azul, e o desenvolvimento do meu novo romance, Lua em Capivara. Para que mais vozes ocupem a literatura, é muito importante que haja esse tipo de incentivo. A sociedade como um todo ganha com isso.
Seu primeiro romance, Moscovich Azul, se passa em Cuba, retrata a vida de duas amigas no país, enquanto exibe as contradições políticas e humanas em relação com o lugar. Por que escolheu Cuba como cenário?
Cuba sempre me fascinou. É incrível como uma pequena ilha no Caribe se tornou protagonista da geopolítica mundial e construiu imaginários tão radicais, sendo idealizada por uns, demonizada por outros. Tenho uma relação muito afetiva com Cuba, mas também tenho críticas. Para mim, essas contradições são um excelente material para a literatura e me interessa tensionar os opostos em busca do que é humano. Tenho profundo respeito pelo povo cubano e pelas suas histórias. Moscovich Azul foi uma forma de contar algumas delas.
E sobre seu próximo livro, Lua em Capivara, do que ele trata e quando deve ser publicado?
Lua em Capivara está previsto para publicação em 2027. O romance narra com humor, ironia e altas doses de latinidade a vida e memórias de uma ativista e pensadora de vanguarda que criou teorias sociais e feministas relevantes, mas que nunca foram devidamente reconhecidas no meio acadêmico. Descrente da política e pessimista em relação ao futuro do planeta, ela se retira em Iacanga, uma comunidade rural de inspiração hippie em meio à Mata Atlântica, e passa seus dias escrevendo uma nova teoria baseada na observação dos macacos muriquis, que ela acredita que têm muito a ensinar em termos de organização social: são pacifistas, não-competitivos e igualitários. Sua reclusão é ameaçada quando é “descoberta” por jovens e vira um ícone tardio do feminismo, estampa de camiseta e tema de congresso. Guga, uma jovem universitária, entra em sua vida e as duas passam a cultivar uma relação ambígua que provoca sentimentos conflitantes de desejo, ciúmes e posse na protagonista.
O romance aborda temas como meio ambiente e crise climática, envelhecimento, sexualidade e desejo femininos, o apagamento da produção intelectual de mulheres, o resgate de figuras históricas femininas e formatos de relacionamento não-convencionais. Foi um desafio narrar sob o ponto de vista de uma mulher de 70 anos, mas de certa forma, a personagem está tão viva para mim que é como se ela caminhasse sozinha pelas páginas.
Falando em publicações, o Cabreúva das Artes também vai ter como resultado um livro sobre escrita e formas criativas de incentivar a leitura. Como será esse livro e para quem se destinará?
Cabreúva das Artes terá como desdobramento um livro que registra a riqueza dos processos artísticos e pedagógicos catalisados nas oficinas. Procuramos unir o estímulo à leitura e à escrita literária com outras linguagens artísticas, como teatro, audiovisual e artes plásticas. Dessa forma, o texto literário criou vida e desdobramentos muito criativos, dialogando com a realidade e os anseios de crianças e adolescentes.
Esperamos que esse material possa ser usado como guia para inspirar iniciativas similares em outras regiões do Brasil.
O evento está em sua segunda edição. Como estão os planos para as próximas?
Pretendemos expandir o projeto ampliando as atividades de escrita criativa com laboratórios imersivos de escrita, um clube de escrita para mulheres, oficinas com escritores consagrados e a primeira Festa Literária da Serra do Japi. E seguir com o evento nos próximos anos.
Ana Luiza Rigueto é jornalista.

