Capitalismo de plataforma e a luta de classes - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Capitalismo de plataforma e a luta de classes

Acervo Online | Reino Unido
por Laura Toyama e Samantha Prado
8 de julho de 2021
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Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, o escritor Callum Cant fala sobre sua experiência como entregador de aplicativo em Londres para entender como as greves são organizadas e como os socialistas podem apoiá-las

No ano de 2016, em Londres, estourou a primeira grande greve entre os entregadores de comida por aplicativo. Essa foi a primeira vez que pudemos observar a mobilização dos trabalhadores de plataformas, nos anos seguintes o número de greves aumentou ao redor do mundo – inclusive no Brasil, que a partir de julho de 2020 iniciou o movimento do Breque do Apps. Callum Cant trabalhou por oito meses como entregador da Deliveroo, a maior empresa de entregas do Reino Unido, para tentar descobrir como o movimento socialista poderia apoiar essas mobilizações e, desta experiência, nasceu a obra Delivery Fight! – A luta contra os patrões sem rosto, publicado esse ano pela editora Veneta. 

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Callum Cant conta um pouco mais sobre sua vivência do conceito marxista da “morada oculta” do local de trabalho, a articulação das mobilizações e as dificuldades do dia a dia como entregador. Mais do que descrever uma experiência pessoal, Delivery Fight! apresenta a forma como se desenvolveu esse capitalismo de plataforma e abre novas possibilidades de articulação. 

Callum Cant, autor de Delivery Fight!

Le Monde Diplomatique Brasil – Qual é o principal objetivo do livro? Por que resolveu trabalhar como entregador em vez de apenas observar o que estava acontecendo com essa classe de trabalhadores?

Callum Cant – Em 2016, uma grande greve eclodiu entre os entregadores de comida, em Londres. Pela primeira vez, vimos centenas de pessoas que trabalhavam com plataformas de app iniciando uma ação coletiva para melhorar seus ganhos e condições.

Mas, na época, ninguém sabia que esse processo de mobilização era possível. Em geral, tanto analistas quanto ativistas pensavam que a precariedade e a atomização introduzidas pelo trabalho baseado em app praticamente inviabilizariam a ação coletiva. Não era esse o caso, é claro. Comecei a trabalhar como entregador para investigar o que Marx chamou de “morada oculta” do local de trabalho e descobrir, ao mesmo tempo, como essas greves eram organizadas e como os socialistas poderiam apoiar esse movimento.

 

Como entregador, que situações chamaram sua atenção?

Trabalhei em empregos mal remunerados antes. Fui garçom, professor particular, cozinheiro de barraca de comida, pedreiro, auxiliar de escritório – e em nenhum desses empregos consegui me organizar com os colegas para exigir melhores salários e condições. Estávamos sempre à mercê do patrão, que podia mudar nosso turno e nossas condições à vontade. Entretanto, trabalhando como entregador, fui aos poucos percebendo que as condições do processo de trabalho levavam à criação de fortes laços de solidariedade. Em encontros em cozinhas de restaurantes e esquinas, logo me vi convidado a integrar uma sólida comunidade de entregadores. Falávamos pelo WhatsApp o tempo todo e, quando as coisas pioravam, nós nos organizávamos. 

Éramos pagos por entrega e, como nossa empresa, Deliveroo, estava contratando mais e mais trabalhadores, o número de nossas entregas por hora diminuiu – como diminuiu também nosso ganho. Foi então que resolvemos dar o troco.

 

Quais as maiores dificuldades que você enfrentou enquanto trabalhava como entregador?

O pouco que eu ganhava era um dos principais problemas. Muitas vezes, recebia bem menos que o salário mínimo obrigatório, mas isso não era ilegal porque, tecnicamente, minha classificação era de “autônomo”. Outro problema constante era a segurança. Os apps nos incentivam a dirigir o mais rápido possível, para ganhar mais. Isso significa que nós, os entregadores, nos colocamos em perigo apenas para levar uma pizza de um lado da cidade a outro. Os trabalhadores ficam com os riscos, os patrões com os lucros.

 

O “Breque dos Apps” foi um dos primeiros movimentos de entregadores no Brasil. Em sua opinião, qual é a contribuição das mobilizações locais para as mobilizações globais da classe trabalhadora?

Desde a greve de Londres, em 2016, as greves de entregadores se espalharam como um incêndio pelo mundo. Com frequência despercebidas, essas ações auto-organizadas saltaram de país para país nos anos 2016-2019. Tiveram um impacto muito grande, pelo menos na Grã-Bretanha: provaram que os trabalhadores da chamada “economia gig” têm o poder de fazer greve. Hoje, sabemos em definitivo que mudanças na organização tecnológica do local de trabalho não conseguem impedir a mobilização da força de trabalho. Enquanto o capitalismo continuar sendo o sistema econômico dominante, a resistência da classe trabalhadora não esmorecerá.

Contudo, essas greves não eram grandes o bastante para abalar o equilíbrio das forças de classe. Na Grã-Bretanha, o movimento trabalhista permanece na defensiva. Pequenos avanços na adesão aos sindicatos ocorreram, mas boa parte do setor privado continua desorganizado e os empregadores conseguem piorar nossos ganhos e condições por meio da força bruta. Os entregadores deram um exemplo à classe trabalhadora, mas, até que consigamos criar um movimento maior contra a exploração capitalista e o caos do mercado, eles permanecerão apenas como uma demonstração do que poderíamos fazer.

O livro foi lançado neste ano pela editora Veneta

Como ficou a situação dos trabalhadores da Deliveroo durante a pandemia? Condições como pagamento e concorrência pioraram? O movimento se fortaleceu como no Brasil?

Os entregadores passaram de trabalhadores quase invisíveis na cidade, às vezes considerados apenas estudantes atrás de um dinheirinho, para “trabalhadores imprescindíveis”. Mas foi uma mudança apenas linguística. Murais declaravam “Amamos nossos trabalhadores imprescindíveis”, mas os patrões que realmente controlam os salários e as condições faziam muito pouco para mostrar esse amor. Algumas das maiores plataformas deixavam aos trabalhadores a tarefa de providenciar seu próprio equipamento de segurança, não permitiam isolamento e continuavam a explorar ao máximo seus funcionários. Infelizmente, os trabalhadores até agora só se mobilizaram em pequenos números contra esses abusos, mas um processo de organização paciente prossegue sob a superfície, liderado por meu próprio sindicato, os Trabalhadores Independentes da Grã-Bretanha.

 

No livro, você também enfatiza a autonomia do movimento, criado sem a ajuda de partidos políticos ou sindicatos oficiais. Acha que os partidos de esquerda, especialmente socialistas, podem juntar-se a essa luta sem comprometer a identidade e a horizontalidade do movimento?

O movimento surgiu das conexões entre os próprios trabalhadores, não há dúvida. E, até certo ponto, algumas das greves ocorreram sem nenhum vínculo com o movimento socialista. 

Mas, às vezes, surgiram conexões. Quando estávamos fazendo campanha em Brighton, a liderança de esquerda do Partido Trabalhista escreveu ao nosso CEO pedindo-lhe que aceitasse nossas reivindicações. O sindicato local e os membros do partido apareceram às centenas para se juntar às nossas manifestações.

Portanto, as greves começaram sem fortes vínculos com o movimento – mas agora, uma vez que a questão política principal é de classe, esses vínculos são sempre possíveis. A dimensão política da luta pode ser articulada por militantes da força de trabalho. Em última análise, os vínculos entre as greves e o partido devem ser criados pelo trabalho duro dos próprios organizadores, que podem conversar entre si e concluir que a luta para derrotar um patrão é a mesma para derrotar toda a classe patronal.

 

Como unir os trabalhadores e promover debates políticos em um ambiente que não tem assembleias, como os sindicatos?

Boa pergunta! A infraestrutura dos grupos de WhatsApp empenhados em organizar greves frequentemente faz com que os sindicatos fiquem para trás, de sorte que o espaço para a discussão coletiva de ideias políticas pode ser rapidamente erodido. Há, aqui, um sério desafio para o formato do sindicato. Quando combinada com a falta de um estatuto trabalhista legal, a comunicação entre um grande número de pessoas torna menos óbvio o papel do sindicato na luta. Não há resposta fácil para essa pergunta; e, se houver, sairá da experiência de luta, não do cérebro dos pesquisadores. Entretanto, com base no que aprendi, deposito muita esperança nesse tipo de desenvolvimento para a criação de uma densa teia de infraestruturas fortemente vinculadas ao movimento – de modo que os grevistas também participem de seminários de entregadores independentes, associações de locatários, estruturas de educação política etc.

 

Você menciona, no livro, entregadores brasileiros que partilhavam conteúdos em apoio de Jair Bolsonaro, numa extrema contradição entre organizar-se na luta contra os patrões e, ao mesmo tempo, aderir à extrema-direita. Ocorreu algo semelhante durante as eleições do Brexit? O que leva esses grupos a apoiar políticos que são claramente contra os direitos trabalhistas? A desilusão com a esquerda pode explicar isso?

Fala-se muito em um processo de “desalinhamento de classe” na política britânica. Supostamente, a autêntica classe trabalhadora branca agora vota na direita e só estudantes e trabalhadores não brancos votam na esquerda. Isso, provavelmente, não faz sentido. Todo estudo de dados eleitorais mostra que essa não é de modo algum a dinâmica.

Hoje, a verdadeira divisão eleitoral ocorre entre os partidos dos velhos – que são, na Grã-Bretanha, os partidos dos proprietários de imóveis e pensionistas – e os partidos dos jovens. Os que trabalham e pagam aluguel votam nos socialistas, os outros votam na direita.

Entretanto, uma minoria de trabalhadores se sente atraída pela extrema-direita. Diferenças de identidade nacional, cultural e racial continuam a dividir a classe trabalhadora de um modo que favorece quem não gostaria que nos organizássemos e lutássemos por nossos interesses. O desafio, para a esquerda, não é enfrentar a guerra cultural direitista contra estudantes “conscientes” e a “cultura do bloqueio”, mas deixar claro que a luta de verdade não é entre você e seu colega, e sim entre você entre seu patrão ou seu senhorio. Isso só é possível pela adesão à política socialista – de modo que, quando os partidos de esquerda abandonam a problemática de classe para se tornar liberais, tudo piora. Veja o que hoje ocorre com o Partido Trabalhista de Keir Starmer na Grã-Bretanha: estamos numa queda livre eleitoral porque ele se aproximou da direita. 

 

No livro, você diz que as entregadoras acabam se isolando por serem minoria e sofrerem assédio ou com o machismo. Quais são, na organização dos trabalhadores, as consequências dessa exclusão das mulheres? O que se poderia fazer para incluí-las?

As consequências imediatas são um notório enfraquecimento do movimento. Esse é um dos problemas mais sérios que os organizadores do setor enfrentam e para o qual não tenho respostas simples. Sabemos que as mulheres, no local de trabalho, sofrem não apenas exploração capitalista, mas também violência patriarcal e assédio. No setor de serviços, esse tipo de comportamento é o que não falta. Um primeiro passo seria facilitar às mulheres trabalhadoras erguerem a voz para explicar a experiência diferente que têm de nosso trabalho – e, depois, empreender uma ação coletiva em seu favor. Penso, com otimismo, que esse desenvolvimento é possível e estou convencido de que é necessário.

 

Laura Toyama e Samantha Prado fazem parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil. 



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