China e Estados Unidos: uma guerra mais geopolítica do que comercial

TRANSNACIONAIS ALARMADAS COM A RIVALIDADE NA CÚPULA

China e Estados Unidos: uma guerra mais geopolítica do que comercial

por Philip S. Golub
1 de outubro de 2019
compartilhar
visualização

Uma vez convertida à economia de mercado, a China deveria ter se constituído em mais um elo das cadeias de produção de uma economia global pilotada pelos Estados Unidos e suas transnacionais. Mas a velocidade de seu desenvolvimento preocupa os dirigentes norte-americanos. Eles se empenham agora em esmagar uma concorrente que surgiu mais rápido do que imaginavam e que ameaça sua posição de superpotência hegemônica

Em 26 de junho de 2016, Donald Trump proferiu um importante discurso anunciando o programa econômico e comercial internacional que aplicaria se fosse eleito. O teor geral de sua proposta era uma crítica dura aos políticos norte-americanos, acusados de “fazer uma política agressiva de globalização [que] deslocou nossos empregos, nossa riqueza e nossas fábricas para o exterior”, conduzindo à desindustrialização e à “destruição” da classe média nos Estados Unidos. Denunciando uma “classe dirigente que venera mais o globalismo do que o americanismo”, ele se referiu ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), à Organização Mundial do Comércio (OMC), às práticas econômicas chinesas e ao Acordo de Parceria Transpacífica (TPP) como as principais causas do declínio do setor industrial em seu país. No processo, anunciou que retiraria os Estados Unidos do TPP, renegociaria o Nafta, sancionaria a China – que considerava “manipular” o mercado de divisas – e tomaria medidas legais contra suas práticas comerciais “desleais”, aplicaria tarifas sobre as importações provenientes desse país e “usaria todos os poderes presidenciais legítimos para resolver disputas comerciais [bilaterais]” com Pequim.1

Na época, poucos observadores levaram a sério esse ataque verbal à globalização e à arquitetura institucional do comércio internacional. Afinal, a eleição de Trump parecia improvável. E, no caso de acidentalmente chegar ao poder, ele provavelmente seria trazido à razão pelo Tesouro dos Estados Unidos e pela constelação de atores econômicos que têm grandes interesses na preservação do “mercado livre” global. As instituições de governança econômica e de segurança construídas pelos Estados Unidos a partir da Conferência de Bretton Woods, em 1944, com o objetivo de perenizar sua posição central, pesariam em sua tomada de decisões. A voz dos segmentos mais internacionalizados do capitalismo norte-americano prevaleceria.

Essas condições estruturantes faziam pensar que nenhum presidente, mesmo que fosse tão singular quanto Trump, poderia se desviar muito das políticas e estruturas que há muito asseguram a hegemonia dos Estados Unidos. Mas essas hipóteses superestimaram o peso do capital na determinação da trajetória do mundo e subestimaram o potencial político criado pela ascensão da China, que os Estados Unidos hoje tentam ativamente conter. Nascido da ideia de que a China “representa uma ameaça fundamental a longo prazo”,2 nas palavras de Kiron Skinner, diretora de planejamento político do Departamento de Estado dos Estados Unidos, esse esforço está alterando a natureza das relações internacionais e mudando o curso da globalização.

Quando Pequim era um aliado

A partir de 1991, o eixo central da política internacional dos Estados Unidos passou a ser a disseminação mundial do modelo norte-americano de capitalismo de mercado. Sob o nome genérico de “Consenso de Washington”, o Tesouro dos Estados Unidos e o FMI puseram em curso um programa de liberalização, desregulamentação e privatização mundiais imposto no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 aos “países em desenvolvimento” endividados, portanto vulneráveis, da África subsaariana e da América Latina. Após a crise financeira asiática de 1997-1998, os sistemas econômicos dos novos países industrializados da Ásia oriental e os dos países em desenvolvimento da região também foram questionados. Sob forte pressão externa, as políticas industriais estatistas e a proteção dos mercados domésticos deram lugar, em graus variados, a um recuo do Estado e a uma abertura ao investimento internacional. A campanha oficial, baseada mais em coerção do que em persuasão, foi promovida por empresas multinacionais e transnacionais, que buscavam acesso a mercados outrora fechados.

Para essas empresas, a queda da União Soviética criou as condições de uma segunda era de ouro do capitalismo internacional, após aquela experimentada no final do século XIX e interrompida pela violência em massa do século seguinte. Os Estados Unidos tornaram-se a única grande potência e, na década de 1990, os objetivos do Estado e os objetivos do capital coincidiram em um grau excepcional. Essa configuração era comparável à simbiose entre o Estado imperial e o capital no auge da internacionalização britânica, quando seus respectivos objetivos de maximização do poder e da riqueza estavam funcionalmente ligados. Essa coincidência de interesses levou o governo britânico a trabalhar para o capital (por meio da força ou da ameaça de uso da força, se necessário, como na América Latina, na China e no Egito) e fez os investidores privados se dobrarem docilmente aos imperativos estratégicos da política imperial, quando a situação mundial assim o exigia – por exemplo, no caso da Rússia, onde os investidores foram levados a compreender que o equilíbrio de forças na Europa era mais importante do que o lucro. De maneira similar, o Estado norte-americano teve um papel decisivo ao lado das empresas multinacionais e dos bancos no estabelecimento e na difusão da liberalização mundial no final do século XX. Como escreve Stephen Walt, professor de Relações Internacionais em Harvard, os líderes dos Estados Unidos “viram no poder incontestado à sua disposição a oportunidade de moldar o ambiente internacional, a fim de melhorar ainda mais a posição do país e colher mais vantagens no futuro”, levando “o maior número possível de países a aderir a sua visão particular de uma ordem mundial capitalista liberal”.3

Na época, as elites políticas e econômicas dos Estados Unidos consideravam a China mais como um aliado do que como um rival, e certamente não como uma ameaça. O país fora um aliado, no final dos anos 1960 e durante a década de 1970, no projeto de contenção da União Soviética. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1º de janeiro de 1979 e, menos de um mês depois, Deng Xiaoping embarcou em uma viagem de nove dias nos Estados Unidos para celebrar o evento. Na ocasião, segundo o jornalista Jonathan Steele, do The Guardian, ele declarou que a China e os Estados Unidos tinham “o dever de trabalhar juntos […] [e de] se unir contra o urso-polar”. Durante a cerimônia na Casa Branca, a bandeira vermelha chinesa flamulava orgulhosamente e, quando soou a tradicional salva de dezenove tiros, “passou ali perto uma van vermelha de entrega da Coca-Cola […], símbolo oportuno dos milhões de dólares […] que os empresários norte-americanos impacientes [esperavam] abocanhar graças ao novo apetite da China pelo comércio, pela tecnologia e pelo crédito dos Estados Unidos”.4

Na década de 1980, a China iniciou uma liberalização limitada do mercado interno e uma abertura gradual ao investimento internacional. Em 1986, solicitou adesão ao Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), precursor da OMC. Em seguida, no início dos anos 1990, após o colapso da União Soviética e três anos depois dos violentos acontecimentos de Tiananmen (1989), Deng avançou. Ele ampliou a reestruturação interna e acelerou a internacionalização e a integração do país na economia mundial. O correlato geopolítico da integração econômica foi a acomodação com os Estados Unidos para evitar confrontos que pudessem comprometer a transição. Essa escolha foi confirmada no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual a China teve o cuidado de não impedir a ação diplomática dos Estados Unidos.5 Estes, por sua vez, procuraram inserir Pequim nas disciplinas institucionais e comerciais da economia mundial ocidental, cujas regras e restrições foram estabelecidas em Washington (os Estados Unidos impuseram condições estritas para a admissão da China na OMC, que se efetivou em 11 de dezembro de 2001). Partindo da premissa de que as liberdades econômicas e políticas estariam necessariamente entrelaçadas, e agindo em uma posição de força, as elites norte-americanas imaginaram ser capazes de moldar a trajetória chinesa nesses dois níveis.

Livrar-se de todas as regras

Ao longo de sua abertura, a China se tornou um destino cada vez mais importante para o investimento estrangeiro direto. Em dólares internacionais correntes, as entradas líquidas foram em média de US$ 2,2 bilhões por ano entre 1984 e 1989, US$ 30,8 bilhões por ano entre 1992 e 2000, e US$ 170 bilhões por ano entre 2000 e 2013. Embora a China procurasse utilizá-los para adquirir tecnologias e know-how, a maior parte dos investimentos foi inicialmente dirigida para setores de baixo valor agregado, como o têxtil, ou para indústrias de transformação, como a montagem de equipamentos elétricos e eletrônicos com componentes fabricados fora da China, por empresas globais que detinham os direitos de propriedade intelectual sobre os produtos. Observadores críticos, como Yasheng Huang, professor de Administração Internacional da MIT Sloan School of Management, notaram na época que havia “pouca evidência de que o influxo de investimento estrangeiro direto na China incorporasse muitas tecnologias pesadas ou leves […], [sendo] a lacuna tecnológica entre os países investidores e a China geralmente percebidos após vinte anos”.6 Os ganhos da China nas cadeias de valor foram baixos, enquanto os das empresas transnacionais foram enormes (ver boxe). A China parecia enredada em estruturas de dependência.

A situação mudou a partir do final dos anos 2000, e hoje é significativamente diferente.7 A apropriação tecnológica, por meio de transferências obrigatórias pelos investidores estrangeiros, bem como a modernização industrial intersetorial realizada pelo Estado permitiram que a China avançasse constantemente em muitos setores industriais, capturando uma parcela crescente do valor agregado. Esses avanços e o peso econômico e político do país da Ásia oriental começaram a causar sérias preocupações em Washington e outros governos ocidentais. Em 2011, Barack Obama anunciou o “pivô” da política dos Estados Unidos em relação à Ásia. Depois, em seu discurso sobre o estado da União de 2015, ele disse: “A China quer ditar as regras para a região do mundo que teve o mais rápido crescimento já registrado. Por que a deixaríamos fazer isso? Nós é que devemos ditar essas regras”.

Para frear a ascensão da China, o atual governo dos Estados Unidos optou por ir muito além, livrando-se de todas as regras. Apoiado pelo Congresso e pelo aparato de segurança nacional, ele apresenta a China como uma grande ameaça. Os Estados Unidos veem nela um país enorme que ficou rico demais, rápido demais – o PIB per capita chinês passou de US$ 194 em 1980 para US$ 9.174 em 2015 (em dólares de 2010). Eles veem um Estado forte que incentivou e guiou o desenvolvimento de conglomerados industriais nacionais, sobretudo nas telecomunicações, no transporte marítimo e nos trens de alta velocidade, e que dedica uma parcela crescente do PIB à pesquisa científica e técnica: mais de 2% em 2016, contra 0,6% em 1996, quando o nível dos Estados Unidos era de 2,74%, e o da França, de 2,25%. Eles veem um país que moderniza sua Marinha, comprometido com uma fase de expansão econômica internacional por meio de suas novas “rotas da seda” (Belt and Road Initiative, BRI), cujo componente marítimo já permitiu a compra, a construção ou a operação de 42 portos em 34 países. Eles sabem que a China ainda tem um grande atraso qualitativo em relação aos Estados Unidos na maioria das áreas técnicas sensíveis, mas estão profundamente preocupados com o fato de que, assim como o Japão nos anos 1970 e início dos anos 1980, ela está rapidamente chegando perto.

Como escreve o Financial Times, Washington “está tentando ativamente conter a ascensão da China”,8 antes que seus esforços de modernização atinjam a maturidade. John Mearsheimer, um pesquisador realista de relações internacionais e ardente defensor da contenção, argumenta que os Estados Unidos devem fazer todo o possível para impedir o ressurgimento da China e para provocar a “retração da economia chinesa”, antes que ela se torne um “Hong Kong gigante”.9 Para isso, reduzem o acesso das importações de origem chinesas ao mercado norte-americano (guerra comercial), excluem as empresas chinesas dos setores de alta tecnologia onde têm um avanço qualitativo, contestam as reivindicações territoriais de Pequim no Mar da China Meridional, com o argumento de que seu acesso às ilhas seria uma “ameaça à economia global”10 – segundo Rex Tillerson, secretário de Estado dos Estados Unidos entre fevereiro de 2017 e março de 2018 –, impõem controles rígidos para vistos de estudantes estrangeiros e controles de segurança para todos os estudantes de pós-graduação chineses.

As agressivas medidas legais e regulatórias tomadas por Washington contra o conglomerado de telecomunicações Huawei, o maior fornecedor mundial de equipamentos de rede sem fio, são os primeiros passos decisivos nesse processo. O governo defende uma proibição global da participação da Huawei na construção de infraestrutura 5G, com resultados moderados. Em 1º de dezembro de 2019, o Canadá prendeu Meng Wanzhou a pedido dos Estados Unidos. A diretora financeira da Huawei é acusada de fraude bancária e conspiração para cometer fraude, por supostamente ter violado as sanções norte-americanas contra o Irã e roubado segredos comerciais, e trava uma batalha legal contra sua extradição. Como observa com preocupação o Financial Times (20 maio 2019), “a decisão dos Estados Unidos de colocar as principais empresas de telecomunicações da China em sua lista de entidades com as quais as companhias norte-americanas só podem negociar se obtiverem uma licença do governo marca um momento crucial para a indústria global de tecnologia. Ela é o golpe inicial de uma guerra fria entre os Estados Unidos e a China […]. As últimas medidas norte-americanas parecem concebidas com o objetivo de paralisar ou destruir uma das principais empresas de tecnologia chinesas que se tornaram competitiva em escala global […]. Trata-se de um esforço para dissociar os setores de tecnologia dos Estados Unidos e da China, resultando em uma bifurcação desse setor global”.

Empresas “antipatrióticas”

Os Estados Unidos querem, na verdade, desconstruir as cadeias de produção e de valor transnacionais, que incluem cada vez mais a China e têm sido uma das principais características da globalização do final do século XX. A guerra comercial impulsionada por Washington dirige-se tanto contra as corporações transnacionais que fizeram da China uma plataforma de montagem e produção como contra Pequim. As autoridades de Washington acreditam que “uma parte excessivamente grande da cadeia de suprimentos se deslocou em direção à China”11 e que as empresas multinacionais que investiram nesse país, diretamente ou por meio da construção de redes de terceirização multiníveis, fazem parte do problema. Elas consideram as atividades cosmopolitas de tais empresas como antipatrióticas – argumento que tem uma longa genealogia no pensamento nacionalista. O professor de Ciência Política Samuel Huntington, conhecido por sua teoria do “choque de civilizações”, formulou-o de maneira sucinta em 1999, quando denunciou “os liberais e os acadêmicos”, bem como as “elites econômicas” que se alimentam de “sentimentos antinacionais” e apoiam um “cosmopolitismo [que erode] a unidade nacional” por cima e por baixo. Ele clamava por um “nacionalismo robusto” baseado em uma trindade nacionalista: Deus, nação e Forças Armadas.12

A expectativa do governo, e também dos altos funcionários do Partido Democrata e do aparato de segurança, é que um conflito comercial duradouro associado a regimes restritivos de segurança acarrete custos proibitivos para as empresas transnacionais, pressionando-as a desinvestir na China e a interromper as transferências de tecnologia e outras formas de cooperação comercial – como a venda de chips para a Huawei pelas norte-americanas Intel e Micron. Isso afeta as empresas não norte-americanas, uma vez que as leis e os regulamentos de Washington têm alcance mundial: elas se aplicam a todos os produtos ou processos que incluem componentes fabricados nos Estados Unidos ou de direitos de propriedade intelectual incorporados. No futuro, poderão se aplicar a todas as empresas que utilizam o dólar em suas transações, como mostra o caso do atual bloqueio global ao Irã decidido por Washington.

Os resultados não demoraram a chegar: a Foxconn (Hon Hai Precision Industry), companhia gigantesca de origem taiwanesa que monta na China os produtos da Apple e de outros grandes nomes da eletrônica, anunciou em abril de 2019 que planeja diversificar sua cadeia em direção à Índia e ao Vietnã (dois países rivais da China) para se proteger contra futuras interrupções nas cadeias de suprimentos asiáticas. Em fevereiro, 66 empresas taiwanesas começaram a repatriar sua produção da China continental para Taiwan, apoiadas por um programa de incentivos do governo de Taipei.13 Dezenas de empresas norte-americanas e japonesas estão desinvestindo na China e indo para o México, a Índia e o Vietnã. Segundo um estudo recente, das duzentas principais companhias norte-americanas ativas na China, 120 estão revisando ou revisarão suas cadeias de suprimentos nos próximos meses.14 O processo se acelerará caso o governo intensifique a guerra comercial. Segundo o banco Morgan Stanley, o custo do iPhone XS aumentaria em US$ 160 se os Estados Unidos aplicassem tarifas dissuasivas em todas as exportações “chinesas”.15

Os neomercantilistas norte-americanos esperam trazer parte das cadeias de fabricação de volta aos Estados Unidos, coisa que o governo pede com insistência, até agora sem resultados tangíveis. As corporações transnacionais – principalmente, mas não apenas, as empresas sem fábricas, como Apple e Nike – precisariam de fortes incentivos para isso. O desmantelamento de suas plataformas chinesas seria um processo caro e difícil. Além disso, a relocalização para os Estados Unidos reduziria significativamente suas margens de lucro. No entanto, a vontade política parece firme. Questionado no canal CNBC no dia 10 de junho de 2019, Trump denunciou a Câmara de Comércio dos Estados Unidos por seu apoio declarado à manutenção das relações comerciais com a China e afirmou que estabeleceria uma tarifa de 25% para todas as importações de origem chinesa (contra cerca de metade das importações atualmente sujeitas às novas tarifas) se o país não respeitasse as exigências dos Estados Unidos. Segundo ele, isso obrigaria as empresas norte-americanas “a mudar para outro lugar […]. Elas [irão] para o Vietnã ou para um dos muitos outros países possíveis, ou fabricarão seus produtos nos Estados Unidos, o que é [minha opção] preferida”.16 Nesse ponto, o presidente conta com o apoio dos dirigentes do Partido Democrata no Senado, cujo líder, Chuck Schumer, exige uma posição de grande firmeza em relação à China.17

Assim, uma nova tensão se estabelece entre as partes mais internacionalizadas do capital e o Estado. Ao contrário da União Soviética, que estava fora da economia capitalista mundial, a China se tornou um componente essencial dessa economia. O capitalismo, utilmente redefinido por Fernand Braudel como o “estágio superior” das atividades econômicas, no qual o comércio de longa distância gera os lucros mais elevados, floresce no espaço global, e não em mercados segmentados segundo as fronteiras nacionais. Esse nível superior, que Braudel distingue dos mercados locais situados no “térreo”, requer uma economia mundial aberta que o capital possa atravessar sem entraves. Com algumas exceções importantes, a exemplo do setor da defesa e da indústria de hidrocarbonetos, estreitamente ligados ao Estado, os elementos fundamentais do capital têm alcance e interesses globais. Desse modo, a situação atual põe em questão a hipótese liberal segundo a qual o grau de interdependência alcançado no final do século XX teria induzido a uma mudança de fase irreversível nas relações sociais mundiais. Também põe em questão as perspectivas neomarxistas que previam a emergência de uma “classe dominante transnacional”, transcendendo definitivamente a política e o Estado.18

Seria ingênuo pensar que a China cederá à pressão. No dia 30 de maio, o diário The Global Times, que geralmente reflete a linha oficial, escreveu: “A China está pronta para uma batalha comercial de longo prazo com os Estados Unidos. Comparada ao ano passado, quando os Estados Unidos começaram a guerra comercial, a opinião pública chinesa é mais favorável a que o governo tome contramedidas severas. Cada vez mais chineses acreditam que o objetivo real de algumas das elites de Washington é arruinar as capacidades de desenvolvimento da China e que essas pessoas sequestraram a política norte-americana relativa à China”. Em ambos os lados, a busca pelo poder parece vir antes da busca pelo lucro. As interações entre o nacionalismo norte-americano e o nacionalismo chinês podem pôr fim à globalização como a conhecemos.

 

Philip S. Golub é professor de Relações Internacionais da Universidade Americana de Paris e autor de East Asia’s Reemergence [O ressurgimento do Leste Asiático], Polity Press, Cambridge, 2016.

 

1 Donald Trump, “Declaring America’s economic independence” [Declarando a independência econômica da América], Discurso em Monessen, Pensilvânia, 26 jun. 2016.

2 Declaração de Kiron Skinner, diretora de planejamento político no Departamento de Estado, durante colóquio da New America Foundation, Washington, DC, 29 abr. 2019.

3 Stephen Walt, Taming American Power: The Global Response to US Primacy [Domesticando o poder norte-americano: a resposta global à primazia dos Estados Unidos], W. W. Norton, Nova York, 2006.

4 Jonathan Steele, “America puts the flag out for Deng” [América hasteia a bandeira para Deng], The Guardian, Londres, 30 jan. 1979.

5 De 1971 a 2006, a República Popular da China exerceu duas vezes seu direito de veto no Conselho de Segurança, contra 76 vezes para os Estados Unidos, 24 vezes para o Reino Unido, 14 vezes para a França e 13 vezes para a União Soviética (depois Federação Russa).

6 Yasheng Huang, “The role of foreign-invested enterprises in the Chinese economy: An institutional foundation approach” [O papel das empresas de investimento estrangeiro na economia chinesa: uma abordagem institucional]. In: Shuxun Chen e Charles Wolf (orgs.), China, the United States and the Global Economy [China, Estados Unidos e a economia global], Rand, Santa Monica, 2001.

7 Ler “Comment l’État chinois a su exploiter la mondialisation” [Como o Estado chinês soube explorar a globalização], Le Monde Diplomatique, dez. 2017.

8 “The US is seeking to constrain China’s rise” [Estados Unidos tentam conter ascensão da China], Financial Times, Londres, 20 maio 2019.

9 Citado por Zachary Keck, “US-China rivalry more dangerous than Cold War?” [Seria a rivalidade entre China e Estados Unidos mais perigosa do que a Guerra Fria?], The Diplomat, Washington, DC, 28 jan. 2014.

10 Depoimento de Rex Tillerson em sua audiência de confirmação no Senado dos Estados Unidos, 11 jan. 2017.

11 Nazak Nikakhtar, secretária adjunta de Indústria e Análise, Departamento de Comércio. Citada por James Politi, “US trade hawk circles prey in China conflict” [O voo dos gaviões do comércio norte-americano sobre o conflito com a China], Financial Times, Londres, 27 maio 2019.

12 Ler “Dieu, la nation et l’armée, une sainte trinité” [Deus, nação e Exército, uma santíssima trindade], Le Monde Diplomatique, jul. 2005.

13 Lawrence Chung, “Taiwanese companies hit by US-China trade war lured back home by Taipei” [Empresas taiwanesas atingidas pela guerra comercial entre China e Estados Unidos são chamadas de volta para casa por Taipei], South China Morning Post, Hong Kong, 15 jun. 2019.

14 Taisei Hoyama, “US and Japan rethink supply chains as trade war widens” [Estados Unidos e Japão repensam cadeias de suprimentos à medida que guerra comercial se amplia], Nikkei Asian Review, Tóquio, 20 maio 2019.

15 Takeshi Kawanami e Takeshi Shiraishi, “Trump’s latest China tariffs to shock global supply chains” [As últimas tarifas de Trump para a China, para abalar as cadeias globais de suprimentos], Nikkei Asian Review, Tóquio, 12 maio 2019.

16 Entrevista de Donald Trump para Joe Kernen, CNBC, 10 jun. 2019.

17 Keith Bradsher, “A China-US trade truce could enshrine a global economic shift” [Trégua na guerra comercial entre China e Estados Unidos poderia ser valiosa para uma mudança econômica global], The New York Times, 29 jun. 2019.

18 Cf. William I. Robinson e Jerry Harris, “Towards a global ruling class? Globalization and the transnational capitalist class” [Rumo a uma classe dominante global? A globalização e a classe capitalista transnacional], Science & Society, v.64, n.1, Nova York, primavera 2000.

 

Cadeias globais de valor

A partir do trabalho pioneiro de Gary Gereffi e Miguel Korzeniewicz,1 a análise das “cadeias globais de valor” tornou-se essencial para entender a globalização. Ela ilumina a complexidade crescente das redes de produção transnacionais, a mudança das geografias de produção e a captura diferencial do valor pelos atores ao longo das cadeias (da concepção e da extração à produção dos componentes, montagem e comercialização do produto final). A literatura teórica e empírica desenvolvida destacou a “nova integração funcional da economia mundial” e o poder estruturante das empresas transnacionais na moldagem das economias nacionais, como resultado da interação hierárquica entre elas e seus fornecedores e subcontratados locais.

A utilidade dessa abordagem foi logo reconhecida por instituições internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), pois permite avaliar de forma mais precisa as balanças comerciais internacionais, distinguindo entre os conteúdos domésticos de uma exportação e seus conteúdos importados. As estatísticas brutas de comércio são enganosas: quando o valor do conteúdo importado, incluindo o valor dos direitos de propriedade intelectual embutido nos produtos, é subtraído do valor total das exportações finais chinesas, o déficit bilateral dos Estados Unidos cai consideravelmente (até 40% em alguns anos). O caso paradigmático mais estudado é o dos produtos da Apple, cujos componentes (incluindo as matérias-primas) provêm de mais de duzentos fornecedores em dezenas de países. A Apple, que faz o projeto e detém os direitos de propriedade intelectual, captura quase metade do valor total do produto final, enquanto a montagem na China não representa mais do que 2%.

Nesse caso, como em outros, a “guerra comercial” dos Estados Unidos afeta todas as empresas intermediárias em muitos países (Coreia do Sul, Taiwan, Malásia, Japão etc.), pressionando-as a relocalizar suas plataformas até então instaladas na China. (P.S.G.)

 

1 Gary Gereffi e Miguel Korzeniewicz, Commodity Chains and Global Capitalism [Cadeias produtivas e capitalismo global], Praeger, Westport-Londres, 1994.

 



Artigos Relacionados

Economia

Trajetória da austeridade fiscal no Brasil: a institucionalização do neoliberalismo

Online | Brasil
por Alessandra Soares Freixo e Rafael Costa

Pandemics, housing crisis and the value of community-led housing initiatives in the global south

por Thaisa Comelli, Tucker Landesman and Alexandre Apsan Frediani
Pandemia e crise habitacional no sul global

A importância das experiências de moradias de iniciativa comunitária

por Thaisa Comelli, Tucker Landesman e Alexandre Apsan Frediani
UM FRACASSO EXITOSO

Massacre no Jacarezinho: necropolítica aplicada

Online | Brasil
por Thiago Rodrigues
CHACINA DE JACAREZINHO

Luto seletivo, estratégia de invisibilização

Online | Brasil
por Bruna Martins Costa e William Zeytounlian
CHACINA NO JACAREZINHO

Para o Estado, as vidas de negros, pobres e favelados não importam?

Online | Brasil
por Wallace de Moraes
SETOR ELÉTRICO

Cemig: a irracionalidade da proposta de privatização

Online | Brasil
por Diogo Santos
Editorial

Por que defendemos o impeachment de Bolsonaro

Online | Brasil
por Redação