Chuvas: a solução vem do céu - Le Monde Diplomatique

Meio ambiente urbano

Chuvas: a solução vem do céu

por Ricardo Moretti, Francisco Comarú e Jeroen Klink
5 de março de 2009
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O temor das epidemias e sua associação com águas paradas impulsionaram obras de urbanização e ocupação dos lotes urbanos que hoje influenciam os graves problemas das enchentes. É preciso mudar a postura de convívio com a água da chuva e adotar uma política de preservação das áreas úmidas existentes

As epidemias que assolaram o Brasil nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX influenciaram a abordagem técnica sobre o manejo das águas e, indiretamente, reforçaram na população o temor pelas várzeas, mangues e diversos tipos de terrenos úmidos e águas paradas, genericamente considerados indutores de algumas doenças epidêmicas.

Em algumas cidades, parcelas expressivas da população pereceram com as doenças, como no caso de Fortaleza, que perdeu cerca de 20% dos habitantes com uma epidemia de varíola.

Em 1895, dos 340 tripulantes do navio italiano Lombardia, que atracou no Rio de Janeiro, 333 foram atingidos pela febre amarela e 234 morreram1. Em 1919, o presidente Rodrigues Alves, que deflagrou diversas iniciativas de caráter higienista e já havia perdido um filho para a febre amarela, morreu de gripe espanhola.

O temor das epidemias e sua associação com as águas paradas fizeram com que se difundisse no meio técnico e entre a população uma expectativa de afastar rapidamente as águas das chuvas. Esse temor impulsionou os paradigmas das obras de urbanização, de ocupação dos lotes urbanos e, especificamente, da implantação de obras hidráulicas, que influenciam os problemas de enchentes que hoje observamos.

As obras de engenharia focaram-se no esforço de impermeabilizar e drenar. Por meio de tubos, canais, calhas, canaletas e sarjetas, esses empreendimentos visavam livrar-se rapidamente das águas de chuva precipitadas.

Pode-se avaliar a insustentabilidade desse modelo quando um único lote impermeabilizado, de 300 m2, gera por ocasião de uma precipitação de 60 mm um montante de 18 mil litros de água, em um período que algumas vezes não ultrapassa uma hora. Como referência, uma residência gera cerca de 500 litros de esgotos, em um período de 24 horas. A vazão das águas de chuva tende a ser centenas de vezes maior do que a das águas servidas.

Já nas últimas décadas do século XX, ampliou-se o debate sobre novos conceitos de manejo das águas, o que pressupõe outro posicionamento e que busca-se reter, guardar, acumular e infiltrar as águas de chuva que são contidas na fonte antes da chegada aos corpos d’água e canais de drenagem.

Embora esses conceitos se choquem com a cultura e as orientações técnicas predominantes anteriormente, sua implementação não é complexa. Complexa é a mudança de posicionamento de técnicos formados com outra visão, assim como da população que cresceu entendendo a água parada ou retida como inimiga, e mesmo dos políticos, tão habituados aos dividendos eleitorais das grandes obras.

As imagens recentes dos problemas ocorridos nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul mesclam-se com outras, igualmente graves, mostradas em anos anteriores: vidas perdidas, pessoas ilhadas, automóveis boiando, bens destruídos e barcos navegando em ruas vão se tornando uma triste rotina no noticiário de tragédias vivenciadas pelos cidadãos.

Todos sabem que nos próximos anos as chuvas retornarão, talvez ainda mais fortes, e a culpa não é da natureza. O processo se repete também fora do país e as imagens da cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, ou do estado de Queensland, na Austrália, nos lembram que, mesmo nos países ricos, o problema se manifesta de forma agressiva e que é limitado o alcance das obras hidráulicas frente aos processos naturais, ainda mais no atual contexto de mudanças climáticas. As obras são fundamentais, mas em muitos casos não são suficientes.

Frequentemente são apresentadas possíveis iniciativas para reduzir ou prevenir o problema: manutenção e limpeza dos sistemas de drenagem, redução das áreas impermeabilizadas, prevenção e remediação dos processos de erosão e assoreamento, construção de depósitos de retenção das águas da chuva para redução dos impactos das cheias, entre outras.

Nos meios técnicos debatem-se e divulgam-se medidas para reter e infiltrar as águas da chuva em locais próximos a sua precipitação, com o fim de evitar as grandes obras hidráulicas caras e muitas vezes impactantes sob a ótica ambiental.

Há muitos séculos o homem é afetado ou beneficiado pelas inundações. A civilização egípcia, que floresceu no vale do Nilo, se valeu dos excedentes alimentares propiciados pelos férteis terrenos da várzea desse rio, para onde eram carreados os nutrientes no período em que as águas inundavam os campos de plantio.

A infiltração das águas no solo e sua lenta devolução à superfície nos olhos d’água, nascentes, minas etc. é o processo que viabiliza a existência dos próprios rios mesmo quando não chove em toda a área de sua influência, definida pela bacia hidrográfica. Dessa forma, a obtenção de água nos períodos de estiagem e a sobrevivência do homem primitivo foram muito beneficiadas por esse processo natural que, em outras medidas, ainda influencia nossas vidas.

A importância da existência de áreas cobertas de vegetação e de terrenos permeáveis compara-se à importância das várzeas, não só na proteção da fauna e da flora, mas também como reservatório natural do excesso de chuvas que ali ficam retidas e que são gradativamente devolvidas ao leito menor do rio após os picos de vazão dos corpos d’água. As várzeas cumprem um papel de esponja, retendo as águas nos momentos de chuvas intensas e devolvendo-as no período de estiagem. Mas, com o crescimento dos aglomerados humanos temos hoje duas situações distintas.

A primeira são as bacias pouco afetadas pelos processos de urbanização. Neste grupo estão as cidades, ou parcelas de cidades, situadas em bacias hidrográficas relativamente pouco afetadas pelos processos de urbanização, construídas em terrenos úmidos historicamente afetados pelas inundações naturais, tais como várzeas e mangues.

É o caso de diversos municípios situados na Amazônia e de alguns à beira-mar ou nas várzeas de rios. Pode-se dizer que são cidades em que parte da urbanização se efetivou em terrenos tomados ao rio ou ao mar, formados pelos solos que a água transportou e depositou e que, mantido o processo natural, tenderia a seguir transportando e depositando.

Mesmo que as obras hidráulicas tenham sido dimensionadas para viabilizar tecnicamente a ocupação, convive-se agora com duas importantes alterações de cenário: uma associada a fenômenos climáticos excepcionais e outra às alterações de uso do solo nas áreas rurais, que podem ampliar os problemas de escorregamentos, erosão e assoreamento, reduzir a capacidade de escoamento dos cursos d’água e canais de drenagem e, assim, agravar os riscos de enchentes.

Assim, as condições das bacias pouco afetadas pelos processos de urbanização diferem daquelas encontradas nos grandes aglomerados populacionais, em regiões conurbadas, onde o histórico de obras realizadas para prevenir as enchentes afeta radicalmente as vazões dos cursos d’água e provoca efeitos cumulativos cada vez mais graves, cada vez mais exigentes em termos de obras civis.

A segunda que existe hoje é a dos grandes aglomerados urbanos, onde usualmente tem-se um processo de urbanização com impermeabilização radical. Nesses casos as variações de vazão dos cursos d’água são também radicais: elevadíssimas nos períodos de chuva e praticamente nulas durante os meses de seca.

Algumas cidades encontram-se em uma situação dramática, em que a vazão de base de alguns cursos d’água, nos períodos de estiagem, é praticamente constituída pelos esgotos ali lançados.

Novos paradigmas

As duas situações anteriormente descritas diferem com relação ao impacto das obras hidráulicas. No primeiro caso, de bacias hidrográficas pouco urbanizadas em que as obras foram realizadas para viabilizar a ocupação de terrenos tomados à água, as mesmas podem não mais se mostrar adequadas ou suficientes às novas dinâmicas das águas. São casos em que existe o impacto ambiental da obra que foi implantada, mas seu efeito indutor de novas enchentes em áreas próximas não é necessariamente relevante.

Na segunda situação, de grandes aglomerações, cada nova obra de retificação, canalização ou drenagem para rápido afastamento das águas da chuva, agrava o problema das enchentes e torna mais complexa a solução do problema.

Em ambos os casos, seria muito importante uma mudança de postura com relação ao convívio com a água da chuva e à adoção de uma política de preservação das áreas úmidas existentes, de construção de pequenos mecanismos de retenção das águas e de infiltração no próprio terreno ou nas suas proximidades.

Nas grandes aglomerações urbanas essa nova postura é fundamental para a prevenção das enchentes, pois as obras hidráulicas tradicionais de drenagem não serão suficientes para resolver o problema. Pelo contrário, podem até agravá-lo.

O desafio colocado é que essa mudança de postura demanda um novo posicionamento dos técnicos, o compromisso dos políticos e um engajamento da população, todos processos relativamente lentos.

A água da chuva, tida como vilã nos grandes aglomerados populacionais poderia ser a solução para diversos problemas, entre eles o de fornecimento de água potável.

A questão de abastecimento de água se atrela, em muitos aspectos, ao manejo das águas pluviais. Valorizamos os esforços de utilização das águas da própria bacia hidrográfica e, sempre que possível, da utilização das águas que são geradas pelo processo de impermeabilização associado à ocupação do território.

Usualmente cita-se a região metropolitana de São Paulo como exemplo da dificuldade de obtenção de água em grandes cidades situadas na parte mais alta de uma bacia hidrográfica, onde são limitados os volumes dos recursos hídricos existentes. Essa dificuldade tornaria inexorável a importação de água de outras bacias. Mas pode-se introduzir alguns novos elementos a esse debate.

No município de São Paulo tem-se uma precipitação média anual de 1530 mm2. Em uma localidade com essa precipitação, uma superfície impermeabilizada de 36 m2 permite captar água correspondente a 151 litros por dia, que é a média de consumo per capta diária nacional. Ou seja, se fosse possível captar água de chuva com qualidade aceitável, a área impermeabilizada da cidade seria suficiente para abastecer seus habitantes.

Mas não é tão simples captar água de chuva com qualidade aceitável em um ambiente fortemente poluído. Quando escorre por superfícies impermeabilizadas, a água de chuva carrega poluentes e contaminantes. Mesmo aquela captada diretamente do céu apresenta problemas de qualidade em uma localidade com grande poluição do ar.

No futuro, haverá dificuldades crescentes na obtenção de água potável nas grandes cidades. Espera-se que, gradativamente, consiga-se reduzir a poluição do ar e melhorar a limpeza urbana de forma a permitir sistemas de abastecimento de água a partir da utilização dos nossos próprios recursos hídricos. Isso viabilizaria a solução do problema de água potável e também das enchentes.

Uma ocupação mais racional e mais densa das regiões servidas por infra-estrutura urbana, como a reversão do processo de esvaziamento das áreas centrais da metrópole, poderia aliviar um pouco a enorme pressão populacional de assentamentos informais sobre as áreas de mananciais e de preservação ambiental nos cinturões das metrópoles brasileiras.

Os casos de pressão de ocupação nas proximidades dos reservatórios Billings e Guarapiranga e junto à Serra da Cantareira, na região metropolitana de São Paulo, são paradigmáticos desses fenômenos.

Ao tratarmos da questão da poluição, entra em cena o automóvel e o modelo de transporte motorizado individual. Pode-se dizer que o século XX foi o século do automóvel, símbolo mais vigoroso e desejado da sociedade moderna. Nenhum outro bem simbolizou tanto o fetiche de consumo nesse período. Ideal de conforto e status, indutor de dinâmicas de vitalidade econômica, os carros são também fonte de poluição, de ruído, de estresse e elemento estruturador de parte da escravidão no modo de vida moderno.

O automóvel interfere como fator que dificulta seriamen
te o aproveitamento das águas de chuva. Altera também a impermeabilização do solo, necessária para sua circulação e estacionamento. Para que se possa avaliar disso, tomemos como exemplo as garagens: nos projetos de habitação popular, elas ocupam áreas que chegam a ser 40% maiores do que aquelas reservadas às edificações.

A análise dos projetos de um campus universitário e de um grande centro de compras no município de Campinas constatou que as áreas de estacionamento respondem, respectivamente, por 26% e 60% das áreas impermeabilizadas, em ambos os casos ultrapassando significativamente aquelas das projeções das edificações.

Se os estacionamentos são os grandes responsáveis pela impermeabilização, eles constituem hoje uma das mais promissoras possibilidades para ampliar as áreas permeáveis das cidades. É confortável estacionar debaixo de árvores e existem várias alternativas técnicas de pisos permeáveis nos locais em que os veículos são estacionados.

Aqui novamente é necessário enfrentar resistências, pois ainda não se conseguiu que o “estacionamento-parque” seja visto como uma boa alternativa. Ele esbarra no arraigado anseio de circular e estacionar em terrenos asfaltados e drenados.

A prevenção, a redução ou a eliminação dos problemas de enchentes demandam obras hidráulicas difíceis e muitas vezes caras. Mais que isso, porém, exige mudanças na forma de uso do solo, na gestão das águas, no modelo de transporte.

Essas mudanças culturais demandam tempo e um espaço mais abrangente de debates nos meios de comunicação. Em especial a solução dos problemas de enchentes através do aproveitamento das águas de chuva como fonte de água potável no próprio local em que ocorreu a precipitação pluviométrica. É uma questão de tecnologia, de opção de investimentos e, principalmente, de avanço na redução da poluição.

 

*Ricardo Moretti,engenheiro civil e doutor em Engenharia Civil, é professor da Universidade Federal do ABC. Francisco Comarú é engenheiro civil e doutor em Saúde Pública, é professor e pró-reitor adjunto da Universidade Federal do ABC. Jeroen Klink é professor da Universidade Federal do ABC.



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