Coimbra e Juiz de Fora: a crônica de uma catástrofe anunciada
Em fevereiro, Coimbra e Juiz de Fora, cidades situadas em lados opostos do mundo, enfrentaram desastres ambientais semelhantes
Sou natural de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, moro em Coimbra (Portugal). No dia 13 de fevereiro vi a cidade parar diante da iminência de uma cheia centenária, após a ruptura de diques do Rio Mondego, que causou alagamentos em vários pontos e desalojou centenas de pessoas. A região da baixa, onde resido, era um dos locais que poderia ser evacuado a qualquer momento. Do Brasil, meus familiares acompanhavam angustiados a situação. Felizmente as chuvas recuaram e não foi preciso sair da minha casa.
Pelo menos 18 pessoas morreram em decorrência das fortes tempestades em Portugal no início deste ano. Cidades inteiras foram devastadas pela força das águas, principalmente na região central do país. Parte da rodovia A1, principal ligação entre Porto e Lisboa, desabou em Coimbra. Imagens do ocorrido circularam pelas redes sociais, gerando comoção e espanto.

Em um intervalo de dez dias, enquanto Portugal tentava se reerguer após o caos, do outro lado do oceano uma realidade igualmente devastadora atingiu Juiz de Fora. Desta vez, era eu que experimentava a angústia de acompanhar as notícias à distância, preocupada com a segurança de familiares e amigos. Compartilhando o mesmo cenário de luto e destruição, a prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade pública no dia 24 de fevereiro, em razão das tempestades sem precedentes no município. Dezenas de pessoas perderam a vida por conta de deslizamentos de terra e, enquanto escrevia este texto, havia previsão de novos desmoronamentos.
Não é possível atravessar essa experiência e permanecer a mesma. Se, por um lado, é comovente ver a força das pessoas que enfrentam de pé as incertezas deixadas pela tragédia – a exemplo da idosa de 86 anos que ficou mais de vinte dias sem energia elétrica, sozinha, em Portugal. Por outro, é impossível não se indignar com a falta de ações focadas na prevenção de riscos – como o Governo de Minas Gerais, que reduziu os valores investidos no programa de suporte aos impactos das chuvas.
Porém, esses eventos não podem ser compreendidos apenas como fruto da negligência administrativa ou da ausência de planejamento urbano, por mais determinantes que esses fatores sejam. Os dois casos não são meras fatalidades climáticas, mas sim o desfecho previsível de uma relação adoecida com o planeta. Enquanto insistirmos em tratar a natureza como reserva inesgotável e não como parceira indispensável da existência, continuaremos escrevendo, com lama e lágrimas, a crônica de uma catástrofe anunciada.
Camila Miranda Evangelista é doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-Rio/ CES-UC.


Leitura justíssima. Aprofundei a irresponsabilidade estrutural do estado nas “tragédias” dos últimos anos no brasil. Mesmo período, e mesmo elemento comum, ação só depois das mortes, nunca estruturalmente na prevenção. O texto chama a Chuva que revela o Estado, tá no GGN.