RESENHA

‘Coisas presentes demais’, de Flávia Péret: a linguagem, a memória e o esquecimento

Em obra recém-publicada pela Relicário, autora mineira narra encontros com avó diagnosticada com Alzheimer

Com um texto literário marcado pela delicadeza e pelo apuro técnico, Coisas presentes demais, novo livro da mineira Flávia Péret, recorre à memória autobiográfica para discutir temas como o esquecimento, a linguagem e as contradições presentes nas relações familiares. Na obra recém-publicada pela Relicário, a autora narra seus encontros com a avó diagnosticada com Alzheimer.

A narrativa não linear tem capítulos curtos, escritos com uma linguagem bastante poética, mesmo quando aborda cenas incômodas. A autora ainda intercala a história com trechos técnicos sobre a doença e discussões que passam por conceitos de pensadores como Susan Sontag, Roland Barthes e Maria Rita Kehl.

A maior parte da história é ambientada em um asilo, nos anos marcados pela pandemia do Covid. A narradora faz visitas frequentes à avó e jamais sabe o que encontrará pela frente. Em alguns dias, a idosa está agressiva e inquieta, enquanto em outros, parece a mesma avó de sempre.

Parecer a mesma avó de sempre, no entanto, não significa se comportar como uma doce e agradável senhorinha, mas sim se mostrar uma pessoa esnobe, cheia de poses e preconceitos. Por outro lado, a mesma avó que dá ordens com prepotência é aquela que não se submeteu ao que a sociedade esperava de uma mulher nas décadas de 50 e 60.

Ao se deparar com todas essas camadas, Flávia Péret evita classificar a mãe de sua mãe como uma heroína ou uma megera. Ao invés disso, encara as nuances e contradições internas da avó e, pouco a pouco, também percebe as suas.

Capa do livro "Coisas presentes demais". Existe uma imagem fragmentada do perfil de uma mulher sorrindo.
Crédito: Divulgação

A autora mergulha nos dramas familiares, nas situações embaraçosas e nos desejos mais complexos para que, assim, compreenda melhor a própria identidade. “Enquanto uma se esquece, a outra se lembra”.

Paralelamente, Flávia Péret se aprofunda nas dinâmicas estabelecidas pela linguagem. Percebe, por exemplo, o uso de metáforas militares na medicina “para explicar como

certas doenças invadem nosso organismo, destroem nossas defesas e como os tratamentos, consequentemente, precisam ser agressivos”. Também recusa se render ao eufemismo que sugere “casa de repouso” (ou até mesmo “apart-hotel”) no lugar de “asilo”.

A autora ainda demonstra, ao longo de todo o livro, uma rara capacidade de síntese. Suas frases curtas ecoam em leitores e leitoras por bastante tempo e, não raramente, pedem uma segunda leitura imediata.

Assim, ao abordar uma história familiar, Coisas presentes demais se transforma em uma narrativa muito mais ampla, capaz de se aprofundar em temas como a solidão, as relações interpessoais, o silêncio e as angústias de mulheres de diferentes gerações. Flávia Péret traz um livro delicado, sincero e corajoso, em que cada fragmento é indispensável na construção de uma história poética, autêntica e dolorosa.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

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