Colonialismo cultural e injustiça estética - Le Monde Diplomatique

Cultura e estética

Colonialismo cultural e injustiça estética

por Gustavo Dalaqua
18 de junho de 2020
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O colonialismo cultural e a injustiça estética são fenômenos abordados na teoria crítica de Augusto Boal (1931-2009). Por colonialismo cultural, Boal designa a opressão que, mesmo após o fim do colonialismo formal, subsiste no âmbito da cultura

Meu primeiro contato com uma pessoa assumidamente gay se deu por meio da televisão. Entre meus nove e onze anos, eu, meus pais e irmãs costumávamos passar as noites de sábado assistindo A praça é nossa, programa humorístico do SBT. Interpretada por Jorge Lafond (1952-2003), um gay negro, Vera Verão era uma de nossas personagens preferidas. As esquetes em que ela participava variavam bastante. Em algumas delas, o motivo da piada era seu tom de pele. Noutras, o que levava os telespectadores à risada eram suas brigas com as mulheres dos homens que desejava ter. 

Apesar das diferenças que guardam entre si, há um ponto comum a todas as esquetes. Em todas elas, alguém com cara de nojo e desprezo xinga Vera Verão de “bicha” ou “bichona”. Espécie de clímax da esquete, esse era um dos momentos em que eu e minha família mais dávamos risada: o momento em que Vera Verão era humilhada por ser gay. Não causa surpresa, então, que o Grupo de Gays Negros da Bahia tenha protestado quando, em 2001, Lafond fora convidado a participar de uma campanha de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis. Segundo o grupo, o trabalho de Lafond contribuía para a promoção do racismo e da homofobia.

Colonialismo

O que Vera Verão tem a ver com o colonialismo cultural e a injustiça estética? Para respondermos a pergunta, expliquemos primeiro o que cada termo significa.

Reprodução

O colonialismo cultural e a injustiça estética são fenômenos abordados na teoria crítica de Augusto Boal (1931-2009). Por colonialismo cultural, Boal designa a opressão que, mesmo após o fim do colonialismo formal, subsiste no âmbito da cultura. Na Estética do oprimido, Boal menciona Carmen Miranda (1909-1955) como um produto do colonialismo cultural. A atriz, que abandonou sua carreira artística no Brasil para tentar a sorte em Hollywood, chegou a ser a mulher mais bem paga dos EUA segundo o Departamento do Tesouro Americano. Equilibrando bananas e abacaxis na cabeça, Miranda personificou como ninguém o exotismo latino-americano criado pelo imperialismo cultural ianque. As personagens brasileiras que interpretava nos filmes hollywoodianos confirmavam ao público estadunidense seus preconceitos sobre os povos da América Latina e contribuíram para consolidar um imaginário social que, até hoje, permanece vigente entre uma parcela significativa dos americanos.

Em Teatro do oprimido e outras poéticas políticas, Boal fornece dois outros exemplos de colonialismo cultural. O primeiro deles são os filmes de faroeste que eram populares entre jovens mexicanos e/ou de etnia ameríndia. De acordo com Boal, esses filmes levavam os jovens a simpatizar com a visão de mundo dos cowboys brancos: “Os meninos, empaticamente, abandonam seu próprio universo, sua necessidade de defender sua terra, e assumem, empaticamente, o universo do invasor ianque”. O segundo exemplo é a Vila Sésamo. Produzida com dinheiro do governo dos EUA, a Vila Sésamo era um programa educativo que, segundo Boal, visava ajudar os pobres a melhorar de situação ensinando as crianças sobre a importância de se trabalhar arduamente e de acumular dinheiro. Ao internalizarem o discurso de que a posição superior dos ricos advinha de mérito e esforço próprio, os pobres tendiam a aceitar a desigualdade social. O oprimido se torna dócil quando percebe o mundo pelas lentes do opressor. 

Entre países e no interior de um país

Como o exemplo da Vila Sésamo mostra, o colonialismo cultural pode se dar não apenas entre países como também no interior de um mesmo país. Isso acontece porque nenhum país consegue ter uma cultura completamente unívoca; nem mesmo os regimes totalitários do século passado alcançaram esse feito. Racismo, homofobia, classismo e misoginia são alguns exemplos de práticas facilitadoras do colonialismo cultural que podem ocorrer entre os habitantes de uma mesma nação. Em suma, o colonialismo cultural é uma prática de hierarquização de diferentes culturas que gera opressão.

A injustiça estética, por sua vez, denota a atrofia das capacidades estéticas provocada pela opressão. Por capacidades estéticas, entenda-se nossa habilidade de sentir e perceber algo. Uma das teses centrais da filosofia boalina é a de que a opressão muda a maneira como sentimos as coisas. As estruturas materiais que perpetuam a opressão ocasionam certos modos de sentir e perceber que abortam o pleno desenvolvimento das capacidades do sujeito. Semelhante manipulação da subjetividade é essencial para a sustentação da opressão. Para que se mantenham hegemônicas ao longo do tempo, as práticas opressoras precisam moldar constantemente os desejos, pensamentos e afetos das pessoas, de modo a fazê-las agir de uma maneira que lhes seja conivente. 

Não se trata de negar, é claro, que a opressão se transmite por meio de estruturas como a polícia, os tribunais, os bancos, as escolas e as assembleias legislativas. Ocorre que essas estruturas só servem de vetor da opressão por causa das pessoas que as ocupam. Se os policiais, juízes, professores, médicos e legisladores começassem a sentir, pensar e perceber o mundo de maneiras que fossem incompatíveis com o capitalismo, o racismo, a homofobia etc., esses tipos de opressão não tardariam a ruir. O aspecto estrutural da opressão se mantém em operação porque encontra guarida na subjetividade das pessoas. 

“Inferiores” x “superiores”

O colonialismo cultural gera injustiça estética porque, ao impedir que as diferentes culturas sejam igualmente apreciadas, faz com que a estética dos grupos “superiores” asfixie o pleno desenvolvimento das estéticas dos “inferiores” – i.e., faz com que os modos de sentir e perceber dos opressores se tornem como que universais. Porque era culturalmente colonizado, Lafond não via problema em ser humilhado por conta de sua sexualidade e raça.

Compreendo a raiva que alguns gays sentem com relação a Lafond. Também me pergunto se a aceitação de minha homossexualidade teria sido menos difícil caso a Vera Verão e personagens similares não tivessem existido. Lafond ganhou fama e dinheiro com sua personagem e prejudicou a vida de muitas pessoas ao agir como perpetuador do racismo e da homofobia. Porém, não devemos esquecer que ele era, ao mesmo tempo, opressor e oprimido. O racismo, a homofobia, o nortecentrismo, a misoginia e os demais tipos de colonialismo cultural somente conseguem se sustentar porque contam com a adesão daqueles contra os quais se dirigem. Como dizia Boal, “uma opressão, seja de que tipo for, só ocorre porque, em maior ou menor medida, conta com a aceitação da vítima. Oprimem-nos porque estamos dispostos a fazer concessões”. 

Lafond foi um oprimido que fez concessões, e sua cumplicidade com a opressão lhe custou caro. No final de 2002, Lafond interpretava a Vera Verão quando foi solicitado, pela produção do SBT, a sair de cena. O motivo? O padre Marcelo Rossi, que estava prestes a subir no palco, recusava-se a dividir o espaço com alguém como Lafond. Perplexo, o ator saiu. Marcelo Pádua, ex-assessor do ator, relata que, logo após a saída, Lafond teve um colapso nervoso nos bastidores. O ator foi conduzido para um hotel, onde permaneceu em depressão profunda, quase sem sair da cama. Após uma semana, preocupado com o estado de saúde de Lafond, Pádua o levou para um hospital. Os médicos constataram problemas cardíacos no ator e resolveram interná-lo. Algumas semanas depois, no hospital, Lafond teve um infarto e morreu.

O colonialismo cultural e a injustiça estética matam. Suicídios, espancamentos e violência policial são alguns exemplos de práticas encorajadas por ambos que levam ao extermínio de várias vidas. Além disso, em suas manifestações menos extremas, ambos vão contra a democracia, pois negam o princípio da igualdade e da liberdade dos cidadãos e cidadãs. Daí a urgência de investigarmos como resistir o colonialismo cultural e a injustiça estética. 

Como podemos promover a descolonização cultural e a justiça estética? Antes de responder a questão, cabe destacar que esta é impossível sem aquela. Visto que a injustiça estética resulta do colonialismo cultural, a justiça estética exige a descolonização cultural. Por justiça estética, entenda-se o desenvolvimento de capacidades que permitem aos sujeitos sentir, perceber e apreciar o mundo sob diferentes modos que não apenas aqueles propagados pelo opressor. Por descolonização cultural, designamos uma disposição coletiva que leva as pessoas a não mais enxergarem as diferenças culturais como uma questão de “ser melhor que” ou “ser pior que”. 

Em seus livros, Boal oferece uma série de técnicas que incentivam a descolonização cultural e a justiça estética. A técnica do arco-íris do desejo, por exemplo, foi criada para ajudar os oprimidos a resistir um âmbito específico no qual o colonialismo cultural e a injustiça estética se dão: o âmbito dos desejos. O motivo que explica por que a maior parte dos brasileiros deseja ouvir música em inglês e não em italiano é o mesmo que explica por que eles preferem ver um filme romântico heterossexual e não homossexual. Por causa do colonialismo cultural e da injustiça estética, a maioria das pessoas acaba desejando a mesma coisa e sente dificuldade em apreciar a diversidade caleidoscópica que Boal atribui aos desejos humanos. 

Organizado por Flavio Sanctum e Helen Sarapeck, o livro Teatro do oprimido e outros babados: a diversidade sexual em cena ilustra bem como a técnica do arco-íris do desejo consegue realizar na prática a descolonização cultural e a justiça estética. Em um dos capítulos, Sanctum relata como essa técnica o ajudou a aceitar sua homossexualidade. Antes de praticá-la, Sanctum tinha dificuldade em explorar seus desejos e afetos porque considerava a cultura heterossexual superior à homossexual. Hoje, ele não sente vergonha em fazer parte da comunidade LGBT. Sanctum tornou-se um pesquisador da estética de Boal e, graças a ela, conseguiu elaborar a petição que resultou na lei 2475/96, a primeira do país a punir estabelecimentos comerciais que discriminam seus clientes por causa de orientação sexual. A luta contra o colonialismo cultural e a injustiça estética requer transformar não só nossa subjetividade como também as estruturas e instituições que a moldam.

Gustavo Dalaqua é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná.



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