Combater a selvageria nuclear
Oitenta anos após o aniquilamento de Hiroshima e Nagasaki por bombas atômicas norte-americanas, as políticas de defesa baseadas na dissuasão vivem um renascimento de popularidade impulsionado, em especial, pela guerra na Ucrânia e pelos conflitos no Oriente Médio. Entretanto, ao mesmo tempo, uma maioria inédita de Estados-membros das Nações Unidas questiona a ideia da segurança fundamentada no poder nuclear
A destruição de Hiroshima por uma bomba atômica norte-americana, em 6 de agosto de 1945, fez a humanidade entrar “num novo estágio da história do mundo”, segundo expressão de Günther Anders.1 Na época, o filósofo austríaco preocupava-se menos com a perspectiva de uma corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética e mais com a reviravolta radical da história universal: de repente, o ser humano dispunha dos meios técnicos para provocar a própria extinção. Oitenta anos depois, esse risco de apocalipse persiste em razão da posse de mais de 12 mil armas nucleares por apenas nove Estados – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel (que jamais o reconheceu oficialmente).2 A esses, somam-se cerca de quarenta países que compartilham essa opção de defesa, seja pela filiação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), seja por acordo específico com um Estado “dotado” (por exemplo, Bielorrússia com…

