PATRIMÔNIO, PODER E TERRITÓRIO

Como a riqueza reproduz a desigualdade brasileira

A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território 

No dia 19 de agosto, a Oxfam Brasil lançou o relatório Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia. O documento mostra uma aparente contradição: embora alguns indicadores de renda dos brasileiros tenham apresentado melhora nos últimos anos, uma parcela desproporcional dos ganhos foi apropriada pelos grupos situados no topo da pirâmide social. Entre 2017 e 2023, por exemplo, a participação do 1% mais rico na renda nacional passou de 20,4% para 24,3%; desse avanço, 85% ficaram com o 0,1% mais rico. Para compreender essa aparente contradição, porém, é preciso ir além da constatação de que o Brasil apresenta uma das mais elevadas concentrações de renda do mundo. É necessário, antes de tudo, distinguir uma questão fundamental: salário é renda, mas renda não se resume ao salário. 

Essa diferenciação exige uma breve pausa para alinhar três conceitos que, embora frequentemente tratados como sinônimos no debate público, possuem papéis completamente distintos na dinâmica econômica: 

Salário: É a remuneração recebida pelo trabalho realizado. Para a esmagadora maioria da população, ele constitui a única fonte de recursos para a manutenção da vida cotidiana, garantindo o acesso a bens essenciais como alimentação, moradia e transporte. O salário, portanto, está diretamente vinculado à venda da força de trabalho no mercado. 

Renda: Trata-se de um conceito mais amplo. Ela corresponde ao conjunto de recursos que uma pessoa ou família recebe em determinado período e pode ter diferentes origens. Além dos salários, a renda pode resultar de aposentadorias, benefícios, aluguéis, juros, lucros, dividendos e outras formas de remuneração. Essa distinção é fundamental para compreender a desigualdade, pois pessoas que possuem patrimônios elevados podem obter rendimentos significativos mesmo sem depender diretamente do trabalho para gerar sua renda. 

Patrimônio: O patrimônio, por sua vez, representa o conjunto de bens e ativos acumulados por uma pessoa ou família. Nele podem estar incluídos imóveis, veículos, empresas, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Diferentemente da renda, que representa um fluxo contínuo de recursos recebido ao longo do tempo, o patrimônio constitui um estoque de riqueza acumulada. E essa diferença é fundamental: o patrimônio não representa apenas riqueza acumulada no passado; ele constitui também um ativo capaz de produzir novas rendas e, consequentemente, ampliar a própria riqueza por meio de aluguéis, juros, lucros e dividendos. 

Renda do capital: É no encontro entre patrimônio e renda que surge a renda do capital. Ela corresponde aos rendimentos gerados a partir da propriedade de ativos: lucros distribuídos, dividendos, juros e aluguéis. A diferença crucial reside no fato de que o patrimônio não representa apenas uma riqueza passada, mas o motor da riqueza futura. Assim, quanto maior o patrimônio acumulado, maior a capacidade de gerar novas rendas de forma autônoma, sem qualquer dependência da venda da força de trabalho. 

A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território.  

Na prática, esse mecanismo opera como uma espiral de privilégios. A propriedade do capital gera uma renda que não apenas sustenta o indivíduo, mas se reverte continuamente em novo patrimônio. É na continuidade desse ciclo que a desigualdade deixa de ser um evento ocasional e passa a constituir uma estrutura permanente. Por isso, para compreender a concentração da renda, não basta perguntar quanto cada pessoa ganha; é preciso perguntar também quem possui os ativos que a produzem. E, diante da enorme concentração no topo da pirâmide, surge uma questão fundamental: de onde vem uma parcela tão grande desse montante? 

Uma parcela significativa dessa renda pouco ou nada depende da remuneração do trabalho, mas do fato de a propriedade do capital produzir novos rendimentos e se multiplicar continuamente. No Brasil, os dados apresentados pela Oxfam evidenciam que a concentração no topo da pirâmide social está estreitamente relacionada à posse de ativos financeiros, imobiliários e empresariais. À medida que esses ativos geram lucros, dividendos, juros, aluguéis e ganhos patrimoniais, seus proprietários ampliam sua capacidade de acumulação e de reprodução da riqueza. Esse processo é ainda mais intenso entre o 1% mais rico e, de forma particularmente concentrada, no interior desse grupo, entre os integrantes do 0,1% do topo.  

Desse modo, uma parcela expressiva dos rendimentos dos mais ricos não depende exclusivamente da remuneração obtida pelo trabalho, mas da capacidade de um patrimônio já acumulado produzir novos rendimentos e ser continuamente ampliado. 

Assim, a questão sobre a origem de tamanha concentração nos conduz inevitavelmente à estrutura de propriedade: o patrimônio acumulado deixa de ser mero bem individual e passa a atuar como um mecanismo de reprodução da riqueza, capaz de gerar novos fluxos de renda e multiplicar a riqueza daqueles que já ocupam o topo da estrutura social. 

Essa conversão da riqueza privada em poder político manifesta-se com clareza na própria composição do Congresso Nacional. Segundo o relatório da Oxfam, 45% das pessoas eleitas declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, revelando uma presença massiva de milionários no Legislativo. No Senado Federal, o contraste é ainda mais expressivo: entre as 207 candidaturas analisadas, apenas 15, cerca de 7% do total, possuíam patrimônio de até R$ 100 mil. 

Esses dados revelam uma assimetria que vai muito além da renda: o abismo econômico converte-se em desigualdade nas condições de acesso ao poder político. Embora o Parlamento seja formalmente democrático, sua composição está muito distante da estrutura patrimonial da sociedade brasileira, marcada por uma forte concentração de representantes pertencentes aos estratos de maior patrimônio e pela presença reduzida daqueles situados nas camadas patrimoniais inferiores. A riqueza deixa, assim, de ser mero recurso privado e passa a atuar como alavanca de influência pública, permitindo que as elites econômicas moldem as regras do jogo e a distribuição de recursos do Estado. Em última análise, a desigualdade econômica passa a produzir também uma desigualdade política, restringindo a diversidade social nas instituições e favorecendo a reprodução das estruturas de poder existentes.  

Essa engrenagem de acumulação e poder não fica solta no ar: ela ganha corpo, toma forma e se fixa diretamente no território. É no espaço geográfico que a passagem do patrimônio ao poder se torna mais concreta, transformando a desigualdade econômica e política em uma profunda desigualdade territorial, cujos efeitos se materializam diariamente no campo e na cidade. 

Crédito: Gustavo Sánchez/Unsplash

No espaço urbano, a produção da segregação estabelece novas fronteiras de exclusão à medida que a mobilidade do capital financeiro e imobiliário transforma o solo em um ativo estratégico de valorização e especulação. Esse processo contribui para concentrar investimentos públicos e privados em áreas dotadas de maior infraestrutura e capacidade de valorização, ao mesmo tempo em que produz novas centralidades e enclaves fortificados, como condomínios fechados, shopping centers e complexos empresariais, que fragmentam o tecido urbano e estabelecem diferentes regimes de acesso à cidade. Essas estruturas redefinem a centralidade urbana por meio de espaços seletivos e controlados, reproduzindo, sob formas privadas, funções tradicionalmente associadas ao espaço público. Enquanto o capital imobiliário se apropria de parcelas da valorização produzida coletivamente pela cidade e concentra investimentos nas áreas mais valorizadas, a população trabalhadora, cuja principal fonte de renda é o salário, é submetida aos efeitos da espoliação urbana e empurrada para periferias cada vez mais distantes. A ausência ou precariedade de saneamento, transporte, iluminação e equipamentos públicos transforma, assim, a distância geográfica em barreira concreta ao acesso a direitos fundamentais.  

No campo, por sua vez, a materialização da riqueza expressa a continuidade de condicionantes históricos de longa duração que estruturam o capitalismo agrário brasileiro. A estrutura fundiária contemporânea é herdeira de uma longa história de concentração da terra, marcada pelo regime de sesmarias, por quase quatro séculos de escravidão e, posteriormente, pela Lei de Terras de 1850, que estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade e dificultou sua obtenção por aqueles que não dispunham de recursos para adquiri-la. Em um contexto de profunda desigualdade social e racial, esse processo contribuiu para restringir o acesso à terra por grande parte da população negra e trabalhadora. Essa herança histórica permanece inscrita no poder econômico das grandes propriedades rurais e na capacidade de expansão do agronegócio sobre novas áreas, inclusive em territórios públicos e tradicionais ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas. A propriedade da terra opera, nesse contexto, simultaneamente como reserva de valor, fonte de renda e instrumento de poder, enquanto o território rural é incorporado às cadeias de produção e exportação de commodities. 

Essa estrutura também é atravessada pela ação do Estado, que historicamente desempenha papel decisivo na organização do espaço agrário por meio de crédito, infraestrutura, políticas de financiamento, pesquisa e incentivos econômicos. Quando esses instrumentos são distribuídos de forma desigual entre os diferentes agentes do campo, contribuem para ampliar as vantagens dos segmentos mais capitalizados, enquanto agricultores familiares e pequenos produtores enfrentam maiores restrições de acesso a recursos, mercados e infraestrutura. A desigualdade patrimonial, portanto, não apenas se reproduz no campo: ela participa da produção de profundos contrastes territoriais e regionais. 

Em última análise, o relatório da Oxfam ganha uma dimensão mais potente quando lido sob a perspectiva da Geografia Política. A desigualdade brasileira não é apenas um indicador estatístico abstrato, mas uma estrutura de poder espacializada. O capital acumulado no topo amplia a capacidade de influência sobre as instituições, enquanto a concentração da propriedade e dos investimentos organiza de maneira desigual o acesso ao território, à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades. A desigualdade econômica, convertida em poder político e inscrita no espaço geográfico, transforma o território em uma das principais dimensões da reprodução dos privilégios. 

 

Mauricio Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior