Como Israel espiona norte-americanos - Le Monde Diplomatique

GRANDES E PEQUENOS SEGREDOS DO LOBBY ISRAELENSE NOS ESTADOS UNIDOS

Como Israel espiona norte-americanos

agosto 31, 2018
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Investigação realizada pelo canal catari Al Jazeera revela os métodos dos grupos de pressão norte-americanos favoráveis a Israel. Entretanto, preocupado em não se isolar dessas organizações em sua disputa com a Arábia Saudita, o Catar congelou a exibição da reportagem

Na tela, ele surge como um perfeito cavalheiro. A despeito de seu ar de estudante, Anthony Kleinfeld, um jovem judeu britânico adequado em todos os aspectos – formado na prestigiada Universidade de Oxford, fala seis línguas, entre as quais o holandês e o iídiche, e navega sem dificuldade nos mistérios dos conflitos no Oriente Médio –, encontraria facilmente lugar nos gabinetes de um ministério das relações exteriores ocidental ou de um think tank respeitável. Por ora, ele tem outros planos: envolver-se com as organizações pró-Israel. Kleinfeld foi recrutado pelo The Israel Project (TIP), que se dedica a manter a boa imagem de Israel na mídia. Recebido de braços abertos por causa de suas competências, faz cinco meses que está ao lado da nata dos membros de associações engajadas na defesa incondicional de Israel, incluindo o poderoso lobby pró-Israel nos Estados Unidos, o American Israel Public Affairs Comittee (Aipac).1 Com eles, Kleinfeld circula por coquetéis, congressos, convenções, estágios de formação para militantes, tecendo conexões aqui e ali. Agradável, caloroso, eficiente, o rapaz ganha a confiança dos interlocutores, que falam com ele de coração aberto, deixando de lado os eufemismos e os “elementos de linguagem” convencionais. E suas confidências são explosivas.

Como eles influenciam o Congresso? “Os membros do Congresso não fazem nada sem pressão, e a única forma de pressioná-los é o dinheiro.” Como combatem os militantes pelos direitos dos palestinos nos campi universitários? “Com os anti-israelenses, o mais eficaz é fazer pesquisas sobre eles, colocar informações em um site anônimo e divulgá-las por meio de anúncios direcionados no Facebook.” Com uma franqueza ampliada pelo fato de acreditarem estar se abrindo para um amigo, os interlocutores de Kleinfeld admitem realizar operações de espionagem de cidadãos norte-americanos, com a ajuda do Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel. Criado em 2006, o órgão é diretamente ligado ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Um de seus líderes confia a Kleinfeld: “Somos um governo que trabalha em território estrangeiro e devemos ser muito, muito cuidadosos”. Realmente, já que algumas de suas ações poderiam ser levadas aos tribunais dos Estados Unidos.

Quando terminou o estágio de “Tony”,2 Eric Gallagher, seu chefe na TIP, estava tão satisfeito com seus serviços que quis contratá-lo. “Eu adoraria que você viesse trabalhar para mim. Preciso de alguém que tenha espírito de equipe, trabalhe duro, seja apaixonado, curioso, bem treinado, fale bem, tenha leitura. Você é tudo isso.” Mas seu pupilo recusou. Isso porque, como já se adivinhou, ele não era exatamente quem dizia ser, embora seus diplomas e competências sejam indiscutíveis: ele era um infiltrado, enviado pela Al Jazeera, propriedade do emirado do Catar, para fazer um documentário sobre o lobby pró-Israel. Com uma câmera escondida, ele filmou algumas das confidências que ouviu e, com outros membros de uma equipe liderada por Phil Rees, da unidade de investigação do canal, reuniu todos os ingredientes de um documentário espetacular. Sua divulgação era aguardada com grande expectativa, especialmente depois de uma reportagem da Al Jazeera sobre o lobby pró-Israel no Reino Unido3 ter mostrado, em 2017, as ingerências israelenses nos assuntos internos de um país estrangeiro e suas tentativas de derrubar um ministro visto como pró-palestino – o que levou a um pedido público de desculpas do embaixador em Londres e ao precipitado retorno para Tel Aviv de um diplomata de alto escalão.

Assim, era esperado um acontecimento midiático, com suas negativas indignadas e violentas polêmicas. Mas não: a exibição, programada para o início de 2018, foi adiada indefinidamente, sem explicações oficiais. Acabamos sabendo, sobretudo por artigos na imprensa judaica norte-americana,4 que o documentário não seria exibido, o que foi confirmado por Clayton Swisher, diretor da unidade de investigação do canal, em um artigo no qual lamenta a decisão e anuncia um período sabático.5 O documentário foi sacrificado na impiedosa batalha travada entre o Catar, de um lado, e a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, de outro, para merecer os favores de Washington no conflito que os opõe desde junho de 2017.6 E que melhor maneira de vencê-la do que ganhando a simpatia do poderoso lobby pró-Israel, com sua conhecida influência na política norte-americana no Oriente Médio?

Para mudar a balança, o Catar “adiou” a exibição planejada, obtendo em troca a ajuda inesperada de parte da ala direita de um lobby que, como um todo, já se localiza bem à direita. Morton Klein, presidente da Organização Sionista da América (Zionist Organization of America, ZOA), amigo de Stephen Bannon, ex-assessor do presidente Donald Trump, chegou a visitar Doha e alegrou-se por ter enterrado o documentário (ver boxe). O fato de tais grupos, que há pouco acusavam o Catar de financiar o Hamas e o terrorismo, terem concordado em mudar de lado, em troca da contenção do documentário, diz muito sobre o caráter embaraçoso das revelações que ele contém.

Engavetar um trabalho que durou mais de um ano causou rebuliço no canal. Havia quem desejasse que as revelações não afundassem na areia movediça dos compromissos geopolíticos. Foi por isso que conseguimos assistir, por intermédio de um amigo que vive no Golfo, aos quatro episódios do documentário, de 50 minutos cada, em sua versão quase final.

O que chama a atenção é a febre que tomou conta do lobby há alguns anos, provocado por um medo surdo de perder influência. Como explicar isso, quando o apoio a Israel é maciço nos Estados Unidos e os eleitos dos dois partidos – Republicano e Democrata – dão total aval a qualquer aventura do país? A eleição de Trump não levou os Estados Unidos a desistir de qualquer vontade de assumir o papel de mediador no conflito árabe-israelense e a sentar-se sem disfarces ao lado do governo mais à direita da história de Israel? Sem dúvida. Mas, nessa paisagem aparentemente favorável, um espectro assombra o lobby: o do BDS, sigla do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções.

Lançado em 2005, o BDS propõe aplicar a Israel os métodos não violentos que se mostraram bem-sucedidos contra o apartheid da África do Sul. Ele floresceu nas universidades norte-americanas. Mas deveríamos mesmo nos alarmar? – pergunta-se David Brog, diretor executivo do Christians United for Israel (Cristãos Unidos por Israel, Cufi) e do Maccabee Task Force, um dos grupos que lutam contra o BDS. “Israel é a ‘start-up nation’. O país recebe mais investimentos estrangeiros hoje do que em qualquer outro momento de sua história. Então, que tal nos acalmarmos, percebermos que o BDS não significa nada e apenas o ignorarmos?” E insiste: “Eu acho que o BDS nunca teve como objetivo que as universidades retirassem seus investimentos de Israel. Quanto ao dinheiro, podemos ficar tranquilos. Mas, se tomarmos consciência dos esforços realizados para cavar um fosso entre nós, que amamos Israel, e a próxima geração, acho que devemos nos preocupar. Entre os jovens nascidos após o ano 2000 e os estudantes, nossa situação é ruim. Estamos chegando ao ponto em que a maioria é mais favorável aos palestinos do que aos israelenses”. Jacob Baime, diretor executivo do Israel on Campus Coalition, um grupo de organizações que emprega mais de uma centena de pessoas para combater o BDS nas universidades, preocupa-se: “A única coisa que todos os membros do Congresso, todos os presidentes, todos os embaixadores têm em comum é o fato de terem passado algum tempo na universidade, e foi durante esse período que foram formados”. No futuro, eles ainda serão “amigos de Israel”?

Desacreditar o mensageiro

Há mais uma coisa que preocupa o lobby. O apoio a Israel sempre transcendeu as divisões entre democratas e republicanos. Barack Obama, poucos meses antes do fim de seu mandato, colocou em votação uma ajuda incondicional de US$ 38 bilhões a Israel em dez anos, apesar de suas relações detestáveis com Netanyahu. Mas a paisagem política está mudando, e o alinhamento incondicional do lobby a Trump reduz sua base, que se resume cada vez mais ao Partido Republicano e à direita evangélica. David Hazony, ex-diretor da The Tower Magazine e membro influente do TIP, admite isso no documentário: “O boicote imediato a Israel não é um problema. O maior problema é o Partido Democrata, os partidários de Bernie Sanders, todos os anti-israelenses que eles trazem para o Partido Democrata. Ser pró-Israel logo não será mais um consenso bipartidário, e, sempre que a presidência mudar, a política em relação a Israel correrá o risco de mudar. Isso é perigoso para Israel. É isso que está em jogo na batalha nas universidades”. John Mearsheimer, autor de um famoso livro7 sobre o lobby, cujos comentários pontuam o documentário, confirma. Ele constata que, agora, o apoio a Israel cresce no Partido Republicano, mas diminui no Democrata: “Há uma diferença substancial entre os dois partidos”.

Como conter essa mudança? Participando de um debate político? Difícil, pois desde o fracasso dos acordos de Oslo, em 1993, Israel tem sido liderado por partidos de extrema direita que recusam qualquer solução diplomática. Não se pode discutir o destino dos palestinos, o futuro dos assentamentos ou a tragédia de Gaza. E a ligação do lobby a Netanyahu e a Trump é pouco propícia a despertar o entusiasmo dos estudantes norte-americanos. O jornalista Max Blumenthal observa que é essa tática de recusar a discussão que o lobby mobiliza em relação ao documentário da Al Jazeera: tratar o jornalismo de investigação como “espionagem”; desacreditar o canal, reduzindo-o a seu proprietário, o Catar; afirmar que o assunto é “o lobby judaico”, e não o apoio a Israel (Twitter, 15 fev. 2018); e, assim, evitar qualquer discussão sobre o conteúdo das revelações e sobre a política israelense.

Diretor executivo do Comitê de Emergência para Israel (Emergency Committee for Israel, ECI), Noah Pollak resume a linha adotada perante os críticos: “Para desacreditar a mensagem, desacredite o mensageiro. Quando você fala sobre o BDS, precisa dizer que é um grupo que defende o ódio, a violência contra os civis. Isto é, que apoia o terrorismo”. E, claro, que é antissemita. E a organização Voz Judaica pela Paz (Jewish Voices for Peace, JVP)? Ele prefere chamá-la de “Voz Judaica pelo Hamas”… Mas continua otimista, pois, como explica para “Tony”, a maioria dos norte-americanos continua favorável a Israel, enquanto o Reino Unido “é ódio puro. Vocês deixaram metade desses paquistaneses de m… se instalarem em seu país”.

Para “desacreditar o mensageiro” é preciso acumular informações variadas, que vão da vida privada às atividades profissionais, passando pelas convicções políticas. Nos últimos anos, o lobby pró-Israel armou uma rede de espionagem. “Nossas operações de pesquisa”, orgulha-se Baime, “contam com tecnologia de ponta. Quando cheguei, há alguns anos, nosso orçamento era de alguns milhares de dólares; hoje é de 1,5 milhão, talvez 2. Nem sei direito, é enorme.” Mas ele e seus amigos tentam ficar “invisíveis”: “Fazemos isso de maneira segura e anônima – essa é a chave”.

Entre os grupos mais temidos pelos militantes favoráveis aos direitos dos palestinos está a Canary Mission,8 cujo financiamento, membros e funcionamento permanecem secretos. Um jornalista próximo ao lobby explica seu papel: “Aqueles que a odeiam, que são alvo dela, falam em ‘lista negra’. Há nomes, de estudantes e professores universitários, além de organizações que têm ligações com o terrorismo, ligações diretas ou com terroristas que pediram a destruição do Estado judeu”. O próprio site da organização resume seu objetivo: “Garantir que os radicais de hoje não sejam seus funcionários amanhã”. Sobre a biografia de cada vítima do pelourinho, o slogan: “Se você é racista, o mundo deve saber”.

Kleinfeld conseguiu rastrear seu fundador e financiador, Adam Milstein, presidente do Conselho Israelo-Americano (Israeli-American Council, IAC), condenado à prisão por evasão fiscal em 2009, o que não o impediu de continuar suas atividades do fundo de sua cela. Ele expõe ao jovem sua filosofia: “Primeiro, investigá-los [os militantes favoráveis à Palestina]. Qual é seu projeto? Atacar os judeus, porque é fácil, porque é popular. Devemos desmascará-los pelo que são: racistas, pessoas hostis à democracia. Devemos colocá-los na defensiva”. E acrescenta: “Eles não são apenas antissemitas, são também inimigos da liberdade, do cristianismo, da democracia”.

Diversos estudantes falam dos riscos que correm. Summer Awad, que participou da campanha pelos direitos dos palestinos em Knoxville, no Tennessee, conta como foi assediada no Twitter, como “eles” postaram informações sobre ela há mais de dez anos: “Eles cavaram e continuam cavando. Ligaram para meu empregador pedindo que eu fosse demitida, ameaçando denunciá-lo como antissemita se ele não fizesse isso”. Esses métodos de denúncia podem significar assassinato profissional ou, para um estudante, complicar a busca por emprego no final do curso. Alguns dos acusados enviaram “mensagens de arrependimento”, que são publicadas em uma seção especial do site da Canary Mission,9 em troca da remoção de seu nome da lista negra: “confissões” anônimas nas quais explicam que foram “enganados”, muito parecidas com aquelas arrancadas dos suspeitos de simpatias comunistas do tempo do macarthismo, nos Estados Unidos dos anos 1950, ou em regimes autoritários da atualidade. “É guerra psicológica. Eles estão aterrorizados”, comemora Baime. “Ou param, ou gastam seu tempo fazendo pesquisa [sobre as acusações feitas contra eles] em vez de atacar Israel. É muito eficaz.” Outro interlocutor de “Tony” lamenta, no entanto, que “difamar alguém chamando-o de antissemita não tenha mais o mesmo impacto”.

Essas cruzadas, que dependem da coleta de dados pessoais de cidadãos norte-americanos, não seriam possíveis sem os meios concedidos pelo Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel. A diretora-geral do órgão, Sima Vaknin-Gil, reconheceu isso em uma conferência no IAC: “Coletar dados, analisar informações, trabalhar em organizações militantes, seguir o dinheiro, tudo isso é algo que só um país com os recursos que ele possui pode fazer direito”. E acrescenta: “O fato de o governo israelense ter decidido ser um ator fundamental significa muito, pois podemos oferecer competências que as ONGs envolvidas na questão não possuem. Somos o único ator da rede pró-Israel que pode preencher as lacunas. […] Temos orçamento e podemos colocar na mesa coisas bem diferentes”. Em seguida, suas palavras são ameaçadoras: “Todos que têm algo a ver com o BDS deveriam se perguntar duas vezes: devo escolher este lado ou o outro?”.

 

Violação das leis norte-americanas

Nesse trabalho de coleta de informações, Vaknin-Gil admite: “Temos a FDD e outros trabalhando [para nós]”. A Fundação para a Defesa das Democracias (FDD) é um think tank neoconservador que, nos últimos anos, tem desempenhado um papel importante na reaproximação entre os Emirados Árabes Unidos e Israel. No verão passado, ele participou da campanha contra o Catar e a Al Jazeera, acusando o canal de ser um instrumento de desestabilização regional. Mas, segundo a lei norte-americana, organizações ou indivíduos que trabalhem para um governo estrangeiro devem se registrar como tal no Departamento de Justiça. Este terá a ousadia de levar a FDD ao tribunal, por não cumprir os procedimentos?10

Como observa Ali Abunimah, que mantém o site The Electronic Intifada [Intifada Eletrônica]: “Se você tivesse a gravação de um alto funcionário russo ou iraniano, ou até canadense, reconhecendo que seu país conduz operações clandestinas de espionagem de cidadãos norte-americanos e usa para isso a fachada de uma organização norte-americana, seria uma bomba!”. Até porque essa cooperação não se limita à FDD, e muitos dos interlocutores de Kleinfeld, como Baime, só falam disso sob confidência, dizendo que o assunto é “delicado” e que é melhor não se alongar.

O documentário contém outras revelações. A maneira como jornalistas dos Estados Unidos são “bancados” em Jerusalém pelo TIP,11 dirigidos, além de receberem matérias “prontas para usar”, que só precisam divulgar em seu país; o pagamento de férias de luxo para membros do Congresso dos Estados Unidos em Israel, contornando a própria lei norte-americana; as pressões exercidas sobre as mídias e agências de notícias para modificar notícias ou artigos…

Embora tudo pareça sorrir para Israel, seus partidários norte-americanos, apesar de todo seu poder, estão nervosos. O futuro parece estar ficando mais sombrio, inclusive nos círculos mais propensos a apoiá-los. Vaknin-Gil admite: “Perdemos a geração dos judeus nascidos depois do ano 2000. Seus pais me falam sobre as dificuldades que enfrentam com os filhos durante os jantares do Shabat. [Os mais jovens] não reconhecem o Estado de Israel e não nos veem como uma entidade a ser admirada”.

 

Catar em campanha

Em 10 de abril de 2018, o site da Organização Sionista da América (Zionist Organization of America, ZOA) emitiu um comunicado anunciando que ela e seu presidente, Morton Klein, estavam “orgulhosos e felizes de anunciar que, graças a seus esforços, incluindo as reuniões longas, numerosas e aprofundadas de Klein em Doha, no Catar, com o emir e outras autoridades do país, […] o Catar concordou em não exibir o documentário viciosamente antissemita da Al Jazeera elaborado por um infiltrado no dito ‘lobby judaico norte-americano’”.12

Uma semana depois, o canal respondeu: “Morton Klein descreve equivocadamente o assunto da série como sendo o ‘lobby judaico norte-americano’, quando a investigação trata das organizações pró-Israel norte-americanas (incluindo a ZOA) que se esforçam para promover os interesses de uma potência estrangeira em solo norte-americano. […] É espantoso que Klein fale, em termos negativos, imprecisos e incendiários, de uma série de documentários que ele não viu”.13 A Al Jazeera estava certa pelo menos em um ponto: não há no documentário nenhuma referência a um “lobby judaico” – muito embora esse termo, que foi usado por um ex-presidente do Congresso Judaico Mundial,14 seja corrente nos Estados Unidos. O canal, no entanto, permaneceu em silêncio sobre sua decisão de não divulgar a investigação.

Para entender o que está em jogo em relação ao documentário, precisamos voltar à crise que desde o verão de 2017 se estabeleceu entre o Catar e alguns de seus vizinhos, a começar pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, apoiados pelo Egito.15 Esse grupo sujeitou o emirado a um embargo. Eles exigem que o Catar rompa suas relações com o Irã, liquidem a Al Jazeera, fechem a base militar turca em construção e coloquem fim em suas ligações com “organizações terroristas”, especialmente a Irmandade Muçulmana e o Hezbollah.

É verdade que, desde que o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani, pai do atual emir Tamim bin Hamad al-Thani, chegou ao poder, em 1995, a política externa do Catar é no mínimo original e se quer independente, sobretudo em relação à Arábia Saudita. O país abriga uma das bases estratégicas dos Estados Unidos na região; manteve, até a eclosão da Primavera Árabe, excelentes relações com o Hezbollah e o regime sírio, antes de passar a ajudar os rebeldes; mantém estrito contato com o Hamas e presta assistência financeira a Gaza; foi um dos únicos países árabes a receber uma missão comercial israelense (fechada após a guerra de 2008-2009 contra Gaza). Por fim, a Al Jazeera, apesar de todas as críticas que recebeu pela forma como tratou as revoltas árabes – especialmente a guerra na Líbia – ou, mais recentemente, a situação na Turquia e sua complacência em relação ao regime de Erdogan, abriu um campo de debate sem precedentes no mundo árabe, que aborrece a maioria dos regimes em vigor.

Durante os meses após o ultimato de seus vizinhos, o Catar pareceu vacilar. Falou-se até na hipótese de invasão do pequeno emirado pela Arábia Saudita.16 Ainda mais porque o presidente Donald Trump, cujo filho, Jared Kushner, tem estreitas ligações com os Emirados Árabes e a Arábia Saudita, tomou posição contra o Catar.

É nesse contexto tenso que o emir decidiu por uma ofensiva de relações públicas em Washington, onde seus oponentes sauditas e dos Emirados já tinham densas relações, sobretudo com a Fundação para a Defesa das Democracias (FDD).17 Doha comprou os serviços de várias agências de relações públicas nos Estados Unidos por uma soma que chegou a US$ 5 milhões, em outubro de 2017, e a US$ 20 milhões, alguns meses depois.18 Seus alvos: os círculos conservadores próximos a Trump, especialmente o lobby pró-Israel, cujas simpatias ele precisava ganhar.

Várias visitas ao emirado – incluindo a de Alan Dershowitz, um acadêmico pró-Israel ao mesmo tempo democrata e amigo do presidente Trump; a de Michael Huckabee, ex-governador republicano do Arkansas e cristão sionista cuja filha é porta-voz da Casa Branca; e a de John Batchelor, apresentador de rádio conservador – deram indícios de que a campanha teve algum sucesso.19 Os efeitos foram sentidos em Washington, que adotou uma posição de mediador na crise. Em abril de 2018, Trump chegou a receber Al-Thani, que, em agradecimento, anunciou a compra de armamentos norte-americanos. Ele fez inclusive doações para diversas entidades sionistas, entre as quais a Our Soldiers Speak (Nossos Soldados Falam), que organiza visitas de oficiais do Exército israelense aos Estados Unidos.20

A reaproximação com o Catar, no entanto, divide o lobby pró-Israel. Em um artigo intitulado “Catar: o emirado que engana a todos”, Yigal Carmon, diretor do Instituto de Pesquisa de Mídias do Oriente Médio (Middle East Media Research Institute, Memri), um site que “monitora” as mídias árabes – e que não hesita em distorcer o que elas publicam21 –, mostra-se indignado: “É triste ver líderes judeus norte-americanos reforçando estereótipos antissemitas ao intervirem por ignorância em conflitos internos que não lhes dizem respeito, conflitos interárabes complexos e difíceis de entender, mesmo para quem os acompanha”.22

No jornal israelense Haaretz, Jonathan Schanzer, da FDD, se queixa: “Não há nada de errado no fato de analistas e intelectuais irem ao Catar em busca de informações. O problema é que, durante essas visitas, eles não ouvem a outra versão da história. Ouvem a posição do governo e depois vão para casa. Eles deveriam ouvir também os críticos do Catar. Há muito material que deveriam conhecer sobre os laços do Catar com o Hamas, a Al-Qaeda, o Talibã, a Irmandade Muçulmana e outros atores problemáticos”.23 Longamente entrevistado por Anthony Kleinfeld no documentário da Al Jazeera, Schanzer lamenta o fracasso de todos os seus esforços para associar o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a organizações “terroristas” (sendo a primeira delas o Hamas, seguido pela Frente Popular para a Libertação da Palestina) na opinião pública norte-americana.

Durante o último ano, o Catar tem conseguido repelir os perigos que o ameaçaram e colocar seus adversários na defensiva. Mas qual será o preço pago pelos palestinos por essa nova política? Alguns comentaristas falam na possibilidade de uma cooperação entre Israel e o emirado para “estabilizar” a situação em Gaza. Mas são apenas conjecturas…24 (A.G.)

 

*Alain Gresh é diretor do jornal on-line OrientXXI.info



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