Coronavírus é de Esquerda ou de Direita? - Le Monde Diplomatique

Dr. Fantástico

Coronavírus é de Esquerda ou de Direita?

por Alexandre Maia do Bomfim e Flávia Maia Bomfim (revisão)
4 de maio de 2020
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Além dessa especulação referente às consequências da essência desse vírus, o que será à direita ou à esquerda quando estivermos nos referindo à reação que devemos ter a ele?

Duas obras clássicas vieram de prontidão à cabeça para realizar a reflexão proposta pelo título deste artigo. Foram elas: o filme “Dr. Fantástico” (ou no original em inglês: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”), de Stanley Kubrik, e o livro “Direita e Esquerda”, de Noberto Bobbio.

Em linhas gerais, poderia dizer que, na primeira obra, com seu humor ácido, Kubrik mostra como podemos ser irracionais e estabelecer jogos políticos inúteis quando estamos até mesmo à beira de um precipício, até mesmo diante de uma hecatombe nuclear (como aconteceu no filme). Já Bobbio veria importância na manutenção das diferenças de opinião, polarizáveis até chegarmos mais à “direita” e à “esquerda”, como meio de obter um equilíbrio de forças que ajudaria a prosseguir e construir caminhos para sociedade (mesmo após a derrocada do socialismo real). Bem, considerando que esses dois geniais pensadores não estão mais vivos para me contradizerem, um pela ótica do cinema e o outro pela ciência política, arrisco-me humildemente a dizer que vou com os dois até certo ponto e depois prossigo sozinho. Mas, o que eles nos ajudam a pensar sobre esse avanço da Covid-19 em nossa sociedade contemporânea?

Com o “Dr. Fantástico” de Kubrik, é possível ver como algumas situações extremas não são suficientes para nos retirar de nossa forma esdrúxula de conduzir nossa vida terrestre. Na verdade, pode-se dizer que essa forma esdrúxula de viver é que nos leva, inclusive, a essas situações extremas. Como são patéticos esses humanos machos, capazes de estabelecer um jogo político em que são capazes de jogar bombas nucleares uns nos outros e ainda conjecturar que a vida permanecerá, nessas mesmas bases estúpidas, no pós-apocalipse, mesmo que a vida se dê em cavernas e que a luz do sol se torne uma lembrança. Esses sórdidos homens continuarão violentos, divididos, competitivos, sedentos de poder e incapazes de construir uma forma de viver diferente? Como podem se dividir entre comunistas e capitalistas se o mundo que os dividiu assim nem existe mais? Kubrik não fez um filme de “realismo fantástico”, mas de um “realismo absurdamente possível”.

Quando li o livro “Direita e Esquerda”, do italiano N. Bobbio, no meado dos anos 90, vi o esforço de um cientista político tentando manter a divisão que marcou os partidos na maior parte dos países ocidentais durante o século XX, em que a esquerda era o posicionamento daqueles que criticavam o capitalismo e desejavam transformações, mesmo com algumas variações, em patamares diferenciados, com alguns mais reformistas de um lado e outros mais revolucionários do outro. E a direita seria o posicionamento daqueles que desejavam a manutenção do capitalismo, ainda que fosse possível também indicar alguns para um lado mais revisionista e outros para um mais conservador. Na verdade, confesso que, enquanto estudante de ciências sociais, não assimilava bem o livro do Bobbio. Ele estava tentando resgatar algo que, para a Europa, até poderia ter se esgarçado, mas, para nós, no Brasil, “direita”X“esquerda” era muito forte ainda, porque, até ali, esquerda nunca havia conquistado o poder hegemônico no Brasil enquanto a direita se mantinha longeva nessa situação (poderia se dizer que desde o descobrimento). Para muitos de nós, “esquerda” era sinônimo de oposição (embora suas divisões internas estivessem bem desenvolvidas). Quer dizer, os governos civis pós-ditadura (de Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique) foram considerados de direita, de maneira geral! Acho que a maior necessidade do livro de Bobbio só ocorreu para mim no meio dos governos petistas, em que tudo ficou turvo, especialmente entre os governos de Lula e de Dilma, quando alguns Movimentos Sociais já estavam posicionados no poder, quando algumas organizações sindicais historicamente combativas já estavam pacificadas, quando muita coisa se confundia… Nessa hora, precisei reler Bobbio e entender o esforço que ele havia feito anos antes, o de ressignificar “direita” e “esquerda”.

Hoje entendo que é sempre possível fazer essa ressignificação, tenho vontade de fazer esse trabalho ao longo do tempo, mostrar que como “direita”/“esquerda” se rearranja, que viria desde a localização espacial dos políticos à época da Revolução Francesa, passando pela proximidade ou não que os partidos políticos fizeram na guerra fria em relação ao socialismo real, prosseguindo nos tempos de ditaduras latino-americanas quando se viu, de forma maniqueísta, reduzir-se a esquerda às atividades de guerrilha, chegando à atualidade, que considera um monte de coisa ao mesmo tempo, desde as novas sandices estabelecidas pela religião, que volta a associar esquerdismo com o mal, quanto desassociar a direita de toda a história de exploração e desigualdade no Brasil…

O quanto o ser humano é bizarro, não? Como pode manter posicionamentos tão maniqueístas diante do fim do mundo? Embora tenham sido esses posicionamentos que nos estão levando a “fins de mundo”, não é mesmo? Assim sendo, considerando que isso é um fato para esse bicho político (zoon politikon) que é o homem, o que nos resta fazer? Viver ressignificando as polarizações, como fez o prestigioso liberal Bobbio? Em princípio sim! Claro que trazendo um pouco de história e sensatez e procurando evitar os estereótipos. Mas, não é fácil! Quem dera pudéssemos refletir “além do bem e do mal” (conforme Nietzsche), acima do direitismo e do esquerdismo como desejou o filósofo K. Mannheim, mas, como isso não é possível, nossos objetivos precisam ser: não deixar distanciar teoria de prática e dar organicidade ao pensamento (conforme Gramsci), porque somos “humanos, demasiadamente humanos” (próximos de Nietzsche, novamente). Ou seja, não deveríamos falar desse terrível vírus nesse patamar, mas nos parece que desse patamar não conseguimos sair. Um patamar não somente terreno, mas mediocramente humano! Enfim, vamos tentar pensar, usemos as ideias que perambulam por aí, sejam avançadas, sejam tolas, sejam preconceituosas, sem hierarquizá-las, para responder: Coronavírus é de esquerda ou de direita?

Esse vírus é de direita, só pode ser!
Esse vírus é de esquerda, só pode ser!

É de direita porque veio contribuir com o Estado neoliberal e todo esse ideário que defende a competitividade, o desamparo e a seleção natural. É de direita, porque é oportunidade para alguns pedirem a diminuição salarial das pessoas que participam do Estado e poderiam ser elencadas como não essenciais. É de direita, porque mostra quem não quer trabalhar. É de direita porque, considerando especialmente o contexto brasileiro, é messiânico – vem cumprir as expectativas de quem fica com o conservadorismo religioso e cultiva a ideia de que merecemos punição. É de direita, porque é oportunidade de renovação e de novos negócios. É de direita, porque veio para dar sobrevida ao capitalismo, que já estava no limite de sua capacidade para contornar sua enorme concentração de riquezas associada à sua característica de depredar a natureza e desperdiçar vidas.

É de esquerda porque porque veio da China! É de esquerda, porque ataca a economia capitalista, porque não escolhe classes sociais, porque começou com os ricos! É de esquerda, porque é democrático, atinge até príncipes! É de esquerda, porque ataca o presidente de uma nação capitalista, porque tem sido mais controlado em países “comunistas” e tende a continuar assim. É de esquerda, porque mostra a importância da Ciência em todas suas atividades. É de esquerda, porque escancara a importância dos Sistemas Públicos de Saúde, a importância dos serviços públicos de maneira geral. É de esquerda, porque expõe a canalhice de alguns empresários e o desespero deles com a falta de seus funcionários. É de esquerda, porque mostra que esse sistema de acumulação é irracional, acumulou bilionários pelo planeta e não consegue cuidar de sua população. É de esquerda, porque vem demonstrando que, com uma economia menos acelerada, menos desenvolvimentista, mais includente, capaz de dividir mais, conseguirá ser menos poluente, menos depredadora da natureza. É de esquerda, porque escancara uma quantidade enorme de produtos supérfluos e trabalhos explorados. É de esquerda, porque pode despertar revoluções.

Além dessa especulação referente às consequências da essência desse vírus, o que será à direita ou à esquerda quando estivermos nos referindo à reação que devemos ter a ele?

É de direita, perguntamos, deixar esse vírus prosseguir sem freio ou com pouco freio sobre os humanos, para impactar menos a economia? Assim sendo, saberemos lidar com a morte abundante de muitas pessoas queridas?

E será de esquerda, perguntamos, tentar frear o espalhamento desse vírus sobre os humanos, por não acharmos necessário proteger uma economia excludente por definição e resultados? Mas, o que acontecerá depois quando não conseguirmos recuperar nossas vidas?

Então, perguntamos mais uma vez: que compreensões de esquerda ou direita maniqueístas continuaremos a dar para o avanço do coronavírus? O que acontecerá se ele desenvolver e matar mais? Ou, o que acontecerá depois que o controlarmos? Ainda que voltemos para nossas vidas normais, como quer imediatamente o conservadorismo de direita, como será esse inevitável balão de ensaio? O que teremos depois de tudo isso, pelas semanas ou meses que ainda nos reservam, antes de uma possível vacina ou tratamento?

Como em Dr. Fantástico de Kubrik, é duro assistir ao absurdo que é ver as respostas enviesadas, tendendo à polarização e sempre dessa forma, parecendo que ficarão assim até o epílogo de nossa aventura terrestre. Mas, como é inevitável, tentemos garantir a melhor redefinição para esquerda e direita, como faria Bobbio. Para mim, a melhor distinção viria após uma base que tivesse como horizonte um Estado: protetor da vida, de amparo total, democrático, includente, que promovesse a liberdade, que fosse científico e sustentável. Bem, isso me colocará num dos lados dessa história, mas deixarei por conta de quem me lê… Eppur si muove!

Referências
DR. FANTÁSTICO. Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. 95 minutos. Direção de Stanley Kubrick. EUA. 1964.
BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora da universidade Estadual Paulista, 1995.

Alexandre Maia do Bomfim é doutor em Ciências Humanas-Educação (PUC-Rio) e cientista social (UFF). Flávia Maia Bomfim é mestra em Estudos de Literatura (UFF), Graduada em Letras (UERJ).

 



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