Corrida às armas no Cáucaso - Le Monde Diplomatique

GEOPOLÍTICA

Corrida às armas no Cáucaso

por Vicken Cheterian
1 de julho de 2007
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Num desdobramento da disputa pela Ásia Central, Geórgia, Azerbaijão e Armêia multiplicam seus orçamentos militares, aliam-se com potências estrangeiras e iniciam uma escalada que pode levar à guerraVicken Cheterian

No início de maio, o ministro da Defesa da Geórgia, David Kezerachvili, surpreendeu ao anunciar um forte aumento do orçamento militar para 2007: de 513 milhões de laris [1] para 957 milhões de laris (R$1,08 bilhão), quando as receitas orçamentárias totais para o mesmo período são de 3,7 bilhões. Com isso, segundo números oficiais, as despesas militares do país foram multiplicadas por dez, ou mais, desde a “revolução das rosas”, em 2003. Tbilisi também anunciou um reforço, nas próximas semanas, de seu contingente militar no Iraque, de 850 para 2.000 soldados, o que faria do contingente geórgiano o terceiro maior, entre forças de ocupação dirigidas pelos norte-americanos. Desde 2001, a Geórgia recebe, dos Estados Unidos, substancial ajuda militar sob a forma de treinamento e equipamentos.

Por que tais despesas? O país não tinha praticamente exército algum e agora precisa fazer sérios esforços se quiser se integrar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) — oficialmente, uma de suas grandes prioridades. Especialistas militares queixam-se de que a maioria dos oficiais treinados pelos norte-americanos deixou o exército em razão, entre outros motivos, da penúria dos alojamentos e dos baixos soldos. O aumento do orçamento deveria, portanto, financiar, sobretudo, a construção de novas habitações para os oficiais, bem como a elevação do salário.

A importância do crescimento orçamentário revela, entretanto, outros objetivos. Recentemente, o exército georgiano concluiu a construção de uma nova base militar, capaz de hospedar mais de 3 mil soldados, em Senaki, perto da Abecásia. Uma segunda base está sendo construída em Góri, a meia hora de Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul. Além disso, gasta-se muito na compra de tanques e canhões fabricados na Ucrânia, ou ainda de equipamentos velhos dos países da Europa do Leste que aderiram recentemente à OTAN e querem livrar-se dos antigos armamentos soviéticos. Ou seja, se por um lado as aquisições recentes são incompatíveis com os padrões da Aliança Atlântica, por outro elas poderiam servir em futuros conflitos na Ossétia do Sul ou na Abecásia, duas repúblicas georgianas que proclamaram a sua independência.

Em meio à animosidade, EUA e Rússia espalham bases militares

As despesas militares do Azerbaijão também deram um salto espetacular: de US$ 135 milhões, em 2003, passaram para US$ 871 milhões (R$ 1,662 bilhão) em 2007. Diante da enxurrada de petrodólares que inunda o país desde a entrada em funcionamento do oleoduto que liga a capital, Baku, a Ceyhan (na Turquia), o presidente prometeu alinhar suas despesas militares com o orçamento total da Armênia. Baku muniu-se de armamentos importantes, tais como aviões de combate, tanques, peças de artilharia, além de lança-foguetes múltiplos. Desde 2003, o Azerbaijão não se cansa de repetir que, caso não se satisfaça com as negociações com Erevan, e caso seja obrigado a renunciar ao controle de Nagorno-Karabakh e de outras seis províncias vizinhas (atualmente sob controle armênio), retomará esses territórios à força.

A Armênia também tenta acompanhar o ritmo dessa corrida às armas: suas despesas mais que duplicaram, de US$ 100 milhões, em 2005, para US$ 210 milhões (cerca de R$ 400 milhões) em 2007. O país empenha-se em apoiar as forças armadas de Nagorno-Karabakh por meio de ajuda financeira e cooperação militar. Essa minúscula república não reconhecida, com uma população de 150 mil habitantes, mantém uma força de 20 mil combatentes e investe uma verba importante na construção de uma terceira linha de defesa terrestre.

Há ainda na região três bases militares russas: na Armênia, a de Gumri; na Geórgia, as de Batoumi e Akhalkalaki, em fase de esvaziamento; mais um importante sistema de radares em Gabala, no Azerbaijão. Por sua vez, os Estados Unidos reforçaram a cooperação militar com esses três países, principalmente a Geórgia. As autoridades de Tbilisi anunciaram que estão dispostas a instalar em seu território elementos do “escudo antimísseis” norte-americano, provocando a cólera de Moscou. A Rússia ameaçou retirar-se do tratado sobre as forças armadas convencionais na Europa (FCE), o que representaria um duro revés para o controle dessas armas na Europa.

O rápido desenvolvimento militar poderia imbuir os dirigentes caucasianos de um sentimento de poder falso, mas perigoso. Desde o desmoronamento do bloco soviético, o Cáucaso conheceu cinco guerras, as quais ainda têm conseqüências dolorosas no cotidiano de milhões de habitantes. Conforme provaram os acontecimentos recentes no Oriente Médio e na Ásia Central, é mais fácil começar uma guerra do que dar-lhe um fim.

Vicken Cheterian é jornalista, autor de War and peace in the caucasus, Russia´s trouble 3d frontier, Nova York, Hurst/Columbia University Press, 2008.



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