Cuba, o país do verde-oliva - Le Monde Diplomatique

EXÉRCITO, UMA INSTITUIÇÃO SINGULAR

Cuba, o país do verde-oliva

por Renaud Lambert
Março 2, 2018
Imagem por Cau Gomez
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O presidente cubano Raúl Castro deixará o cargo em abril. Pela primeira vez em sua história, a ilha será provavelmente governada por uma pessoa nascida após a queda do ditador Fulgencio Batista, em 1959. Essa reviravolta suscita numerosas perguntas. Mas uma coisa é certa: o Exército desempenhará um papel decisivo na fase que se avizinha

Alguns meses depois de assumir a presidência, Donald Trump decidiu anular o “acordo totalmente desigual assinado com Cuba” por seu predecessor Barack Obama em 16 de junho de 2016. O presidente democrata havia considerado ineficaz a estratégia norte-americana de estrangulamento – agressão militar, embargo, rompimento das relações diplomáticas. Melhor seria, segundo ele, normalizar as relações entre Washington e Havana, de modo a acelerar a “abertura” do país caribenho.1 Nada disso, replicou o republicano: o fluxo de turistas norte-americanos, que a mansuetude de Obama contribuiu para estimular, “agravaria a repressão” ao consolidar a posição das Forças Armadas. Depois da “ditadura comunista”, Cuba iria cair sob o jugo de uma junta militar! Não havia oito generais na cúpula do poder, entre os dezessete membros do gabinete político do Partido Comunista cubano?

As tramas latino-americanas despertam reações desencontradas em Washington. Satisfação quando derrubaram o presidente Manuel Zelaya, em Honduras (2009); entusiasmo quando bombardearam o Palácio de la Moneda, no Chile (1973); indignação quando ostentam uma boina vermelha na Venezuela ou um charuto em Cuba. Nesses últimos cenários, a Casa Branca lembra com gosto que a espada nem sempre se entende com a cédula eleitoral e que canhões destinados a manter o adversário em respeito se voltam, às vezes, contra as populações. E em Cuba? Aqui, o Exército tem a imagem de um homem discreto, mas rígido, pragmático e determinado: Raúl Castro, presidente desde 2008 e… general de Exército. Indestrutível ministro da Defesa entre 1959 e sua ascensão ao poder supremo, ele moldou a instituição à própria imagem e semelhança, tomando por base a experiência que viveu na Sierra Maestra.

Após o desembarque dos “barbudos” na ilha, em 1956, Fidel Castro pediu a seu irmão que comandasse uma coluna de rebeldes armados em uma zona afastada, a leste do país. A região, posta sob as ordens do irmão mais novo, seria batizada de “segunda frente oriental Frank País”, do nome de um líder estudantil revolucionário. “Enquanto, em sua zona, Fidel falava muito – de suas ambições, de suas grandes ideias –, Raúl organizava a dele”, explica o jornalista Fernando Ravsberg. “Criou, por exemplo, um serviço de sapataria para que seus homens dispusessem de calçados dignos desse nome.” Percorrendo o território oriental para orquestrar o recrutamento e o aprovisionamento de suas tropas, Raúl Castro decretou uma reforma agrária, abriu escolas e hospitais – financiados com a criação de um imposto.

 

O feijão é mais importante que o canhão

Em setembro de 1958, o jovem (então com 27 anos) convocou um congresso camponês durante o qual os habitantes de sua região foram convidados a apresentar queixas. “No fim do ano”, resume o pesquisador Hal Klepak, “Raúl havia lançado as bases de uma forma de governo não apenas para suas tropas, mas também para a população: com uma espécie de ministérios da Guerra, da Justiça, da Propaganda, da Saúde, da Economia, das Obras Públicas, das Comunicações, da Educação, além de departamentos encarregados dos problemas agrários e trabalhistas”.2

A instituição militar que hoje os cubanos conhecem, oficialmente inaugurada em 2 de dezembro de 1961, emergiu, portanto, do caldeirão da guerrilha, daí seu nome: Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Não foi concebida para defender o país, mas para libertar o povo da ditadura – uma vocação política que não a deixou mais, mesmo quando o projeto inicial mudou, passando do nacionalismo à construção de um socialismo “à cubana”. As FAR gozam, pois, de uma aura considerável junto àqueles que viveram a queda do ditador Fulgencio Batista. Para eles, os militares são os antigos guerrilheiros, aos quais devem com muita frequência seus primeiros sapatos, seus primeiros livros, sua primeira vitória. O internacionalismo das FAR contribui para seu prestígio no seio de uma população mais politizada que em qualquer outra parte e que vivenciou as tribulações da resistência aos ataques de Washington: elas participaram de guerrilhas latino-americanas, de ações na Argélia, na Etiópia e sobretudo em Angola, onde dezenas de milhares de soldados cubanos lutaram contra as tropas do regime de apartheid sul-africano. Além disso, a lei exige que pelo menos metade dos jovens recrutas da academia militar sejam filhos de operários ou camponeses, mais pobres (e, portanto, quase sempre negros) que o resto da população.3

No entanto, a imagem das FAR junto ao povo se construiu também por ocasião de um outro episódio mais recente da história cubana: o chamado período “especial”, que começou logo depois do esfacelamento do bloco soviético. De 1991 a 1994, o PIB caiu cerca de 35%. A violência do choque inebriou os anticastristas. Andrés Oppenheimer, um dos editorialistas preferidos da imprensa sediada em Miami, publicou um livro intitulado A hora final de Castro.4

“De repente, Fidel disse a Raúl: ‘Não tenho mais dinheiro para você. É preciso que o Exército se vire sozinho’”, conta Ravsberg. Em menos de um ano, o irmão mais novo “amputou as Forças Armadas pela metade, enquanto seu orçamento se derretia como neve ao sol (de 1.149 milhões a 736 milhões de pesos cubanos, moeda cujo próprio valor já desabara)”, lembra Klepak. Num contexto em que o Estado cubano parecia petrificado pela crise econômica – com Fidel Castro teimando em prometer dignidade, orgulho e honra às barrigas vazias que o escutavam –, as FAR se destacaram por sua capacidade de adaptação. Em uma reportagem a elas consagrada em 1995, o New York Times apresentou-as como “a única coisa que ainda funciona” na ilha.5

Os militares não tinham mais dinheiro, combustível e peças de reposição – que antes vinham de Moscou. “Nossa missão é a defesa do país, mas a defesa em sentido lato”, declarou, ainda assim, Raúl Castro. “Por ora, isso implica fornecer alimento ao nosso povo. […] O feijão é mais importante que o canhão.”6 Os militares trocaram então seus fuzis por enxadas… e coqueteleiras.

A partir de 1980, as FAR começaram a trabalhar no setor de turismo, por intermédio da empresa Gaviota, que gerenciava os centros de lazer destinados aos soviéticos. Abriram então uma cadeia de lojas para visitantes estrangeiros, a fim de recolher os dólares em circulação no país. Muitos militares deixaram a farda no guarda-roupa e vestiram a guayabera, um tipo de camisa transformado em traje formal em Cuba. Alguns foram ao estrangeiro para fazer cursos de administração; outros assumiram a gerência de hotéis. Pilotos de caça tornaram-se pilotos de linhas aéreas, e almirantes da Marinha de Guerra passaram a comandar iates.

Estima-se que, em meados dos anos 1990, as FAR produziram entre um terço e metade dos alimentos consumidos pela população. Os orçamentos destinados à saúde e à educação aumentaram, enquanto os da defesa continuaram a diminuir, obrigando os militares à autonomia financeira. “Durante todo esse tempo, as escolas de balé mantiveram suas portas abertas”, recorda Ravsberg, que então já morava na ilha.7 Num contexto em que os Estados Unidos decidiram agravar as sanções contra o país, as FAR mostraram mesmo – à sua maneira – que continuavam garantindo a proteção do território. Quatro anos depois da publicação do livro de Oppenheimer, Raúl Castro presidiu um desfile militar em que seus soldados exibiam mísseis terra-ar sofisticados, puxados por bicicletas… As FAR constituem, pois, o laboratório das reformas que Fidel tentou colocar em prática desde sua chegada ao poder, como a introdução de remuneração com base na produtividade.8 A ruptura parece às vezes considerável: Fidel Castro preferia que nenhum cubano gozasse das infraestruturas hoteleiras caso só os ricos pudessem ter acesso a elas? Pois seu irmão, que denuncia os desvios do “igualitarismo”, decidiu, ao contrário, abri-las a todos e deixar o mercado operar. Descobriu-se então que alguns cubanos guardavam somas consideráveis debaixo do colchão. Gastando-as nos hotéis (das FAR…), liberam os quartos nas pensões familiares com que até então tinham de se contentar e cujos preços caem a olhos vistos.

Abandono do projeto socialista? Ainda que cada discurso do irmão mais moço prometa a continuidade da “visão” do mais velho, ele se afasta da concepção utópica segundo a qual apenas as ideias podem mover as massas. Numerosos observadores julgaram paradoxal uma situação em que Raúl, membro das juventudes comunistas, enquanto seu irmão não o era, tornou-se o “coveiro” sóbrio do projeto havia muito acariciado por Fidel. O atual presidente se mostra talvez mais sensível ao fato de que uma análise do ambiente concreto é proveitosa aos combates políticos. Ora, os contextos econômico e geopolítico não são de modo algum propícios à emergência do socialismo “em uma única ilha”.9 Ao que tudo indica, o capitalismo e suas receitas causam menos preocupação nas casernas que na sede do Partido Comunista Cubano (PCC).

Embora nenhum número oficial esteja disponível, calcula-se que os efetivos das FAR se estabilizaram em torno de 80 mil homens e mulheres, contra 200 mil nos anos 1980. As empresas que elas controlam – como Gaviota, Cimex e TRD – se uniram na holding Grupo de Administración Empresarial (GAE SA), dirigida pelo ex-genro de Raúl Castro, Luis Alberto Rodríguez López-Callejas. A primeira controla 40% dos quartos do setor hoteleiro. Em um artigo pormenorizado, escrito para rebater os números fantasiosos fornecidos pela imprensa de Miami, o universitário norte-americano William LeoGrande – pouco suspeito de simpatias castristas – estima as receitas da Gaviota em US$ 1,7 bilhão em 2016.10 A Cimex – cadeia de lojas, aluguel de carros… – teria, por sua vez, obtido um lucro de US$ 1,3 bilhão no mesmo ano. Especializada no comércio popular (de sabão a eletrodomésticos, passando por produtos destinados aos turistas), a TRD parece ter alcançado, em 2016, um volume de negócios em torno de US$ 440 milhões. Isso dá um total de cerca de US$ 3,4 bilhões para a GAE SA, o equivalente a 20% das entradas de divisas no país e a 4% do PIB de 2015. Com um detalhe que não escapou a Trump: as receitas das empresas dirigidas pelas FAR flutuam de acordo com as rendas do setor turístico.

Nessas condições, não é nada absurdo sugerir que normalizar as relações com Havana equivale a facilitar a vida dos militares. Mas daí a sugerir que a operação “agrava a repressão”… Cada passagem de um furacão pelo Caribe leva os observadores internacionais a perguntar: por que Cuba se sai melhor nisso que os outros países? Para os habitantes da ilha, a resposta é dupla: devido à solidariedade, que induz os mais preservados a abrir as portas para os mais expostos, mas também graças à organização logística das FAR, que comandam a defesa civil.

Estas, contudo, ignoram o fenômeno da corrupção, que gangrena parte das instituições da ilha? De modo algum – embora o prestígio das FAR no seio da população seja até maior que o da polícia. O maná recolhido pela GAE SA poderia espicaçar a tentação de recorrer às mil e uma acrobacias que facilitam o enriquecimento pessoal: outros países (como o Vietnã) conheceram esse tipo de evolução. Mas, por enquanto, não é raro ver um coronel pedindo carona à beira da estrada. Em outras partes do mundo, ele passaria voando em um sedã com ar-condicionado.

 

*Renaud Lambert é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 

 



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