Cultura, política e empreendedorismo no Brasil - Le Monde Diplomatique

VITÓRIA DA ESQUERDA?

Cultura, política e empreendedorismo no Brasil contemporâneo

por Henrique Costa
2 de abril de 2018
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Uma metamorfose sociológica possibilitou a criação de uma esquerda flexível e consolidou seu papel no novo capitalismo: inovação, empreendedorismo, criatividade e respeito aos direitos humanos, a última utopia e que lhes garante o rótulo de progressista, o lado certo da História

Ele acreditava ter ido à Babilônia, mas quando chegou lá, tinham acabado de botar fogo em tudo e a cidade estava em chamas.[1] Foi o que passou pela cabeça de Don L em 2017, ao se mudar para São Paulo no período que marca a falência do projeto lulista. Criado em Fortaleza, o rapper morou em uma ocupação, se envolveu com o tráfico e se descobriu no rap fora do eixo e sem patrocínio. Em suas rimas, fustiga colegas que aderiram ao cânone da MPB para fazer sucesso. Diz que os respeita e que o problema está no sistema, mas quis seguir seu próprio caminho, divulgando seu trabalho pelo Youtube e no circuito alternativo, e ainda espera enriquecer sem ser pasteurizado por algum midas da indústria cultural nacional. A debacle lulista também levou a esquerda e a chamada arte engajada para cenários fantasmagóricos, difíceis de desvendar sob a fumaça do incêndio. Como diz uma de suas letras, Don L “não frequenta a sauna hype do Caetano”. Já não se pode dizer o mesmo de boa parte da esquerda brasileira, que rasteja pelos escombros do incêndio em busca da salvação.

Os anos que se seguem à derrocada final do governo Dilma Rousseff revelam um cenário curioso na cultura brasileira deste século, em que o golpe parlamentar trouxe à luz solar e tirou da penumbra o movimento que fermentava nos bastidores da política cultural oficial da década lulista. A relação entre cultura e política, que se transformava desde a redemocratização, colocava agora aquela dentro desta, sem maiores transtornos para a ordem estabelecida. Com o impedimento de Dilma, continua a não incomodar, porém renova os consensos do mundo da cultura intelectualizada e lhe imputa um novo papel. Politizada até a raiz dos cabelos, retoma os discursos do pós-1964, quando um acusava outro de nunca ter produzido um verso que o levasse à cadeia.[2] Como o próprio exemplo sugere – a cadeia não recebe poetas, intelectuais e artistas há um bom tempo, apesar de superlotadas –, a rememoração atual da cultura engajada assume tons de farsa, pois fundada em novíssima gestão neoliberal de recursos escassos.

Neste momento, imitando processo semelhante ocorrido nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, a concepção instrumental da racionalidade tecnológica, como previu Herbert Marcuse, vem a cumprir seu destino, ao se infiltrar por todo o reino do pensamento local e dar às várias atividades intelectuais um “denominador comum”,[3] pois salta aos olhos o fato de que a lógica neoliberal invadiu todas as esferas da vida prática e que as respostas da esquerda ao drama profundo da reprodução social vêm hoje dos manuais de gestão, como tomou conta também das nossas consciências uma admissão implícita de um Estado rebaixado, devorado de dentro para fora, da falência do projeto desenvolvimentista, e da naturalização da expectativa de que o privado, materializado em falsos profetas da indústria cultural[4] e em processos e procedimentos inspirados pelas megacorporações do Vale do Silício, se ocupe da sua ausência, essa uma verdadeira mudança política do nosso tempo.

Foi uma metamorfose sociológica que possibilitou a criação de uma esquerda flexível e consolidou seu papel no novo capitalismo: inovação, empreendedorismo, criatividade e respeito aos direitos humanos, a última utopia e que lhes garante o rótulo de progressista, o lado certo da História.

Entretanto, como dizem os porta-vozes do “empreendedorismo de esquerda”, quanto pior o mundo, melhor o carnaval. Não para eles, evidentemente, pois vêm prosperando como nunca, tanto nos negócios quanto na afirmação da uma ideologia adequada aos novos tempos (e que também ajuda os negócios), quando a intelectualidade propriamente dita, com honrosas exceções, quase não tem a dizer. A rigor, esta situação chegou, talvez, a seu ponto de não retorno, mas não nasceu agora, nem com a queda do petismo. Tem suas origens nos idos de 1968, com a contracultura no Ocidente e o tropicalismo no terreno local, que conquistou a indústria cultural e se estabeleceu como hegemonia até cumprir seu destino no começo dos anos 2000 com a participação de Caetano Veloso na cerimônia de entrega do Oscar e a convocação de Gilberto Gil para assumir um ministério de Estado.[5] Desde então, uma geração inteira de progressistas foi formada pelas visões de mundo do movimento, alinhando inclusive parte minoritária da esquerda tradicional, antes inimiga do tropicalismo, mas que se vendeu para eleger alguns deputados.

Vladimir Safatle acredita que diante do fim da trégua entre capital e trabalho representada pela Nova República, é necessário que a esquerda supere a hegemonia lulista.[6] Na era das expectativas decrescentes, o PT encarnou seus próprios moinhos de vento em bonecos de presidiário, contra quem investe toda a sua energia militante enquanto prepara seu próximo “recuo estratégico”. Infelizmente para o partido, a atual burocracia partidária não se mostra capaz de conduzir o legado de Lula, em que as bravatas reiteradas só agravam a alienação e a usurpação da representação da classe trabalhadora que o partido acredita ostentar. Faz parte da espetacularização contemporânea, que deslegitima a política e cria espanto e desorientação aos olhos do público.

Não que não existam propostas de superação, e neste momento é que surge a esquerda carnavalizada e amiga do empreendedorismo subversivo. Esta não é melhor que o lulismo, que ao menos fala para o andar de baixo. Ela nem mesmo é contra o lulismo, plenamente adaptável à sua raiz tropicalista: eis que a reconciliação arma-se agora em um apartamento no Leblon entre Guilherme Boulos, representando os primeiros, e Paula Lavigne, empresária responsável pela carreira de Caetano. A suprema ironia esteve presente na reunião que discutiu segurança pública e a intervenção federal no Rio de Janeiro no apartamento de Lavigne, provavelmente um dos lugares mais protegidos pelas forças de repressão que se multiplicam na cidade. Na realidade, o que se arma é espetáculo que aplaudimos eufóricos e com lentes invertidas.[7]

Tais eventos históricos do nosso capitalismo periférico têm suas raízes na reprodução social, isto é, no mundo do trabalho e na dinâmica da luta de classes. Por mais que os termos estejam fora de moda, é difícil não ver que as ideologias parecem fora de lugar quando se olha por esse filtro. Jovens trabalhadores formam a principal fatia do eleitorado de Jair Bolsonaro. No carnaval paulistano, agigantado pela intervenção de empresários que enriqueceram nas bordas do lulismo, Judith Butler é homenageada por um bloco fundado por agitadores culturais e atores globais, celebrando a face espetacular e lúdica de 1968. Sem grandes transtornos, ajudado pelo imobilismo de centrais sindicais e movimentos populares, Michel Temer e o Congresso Nacional passam a PEC do Teto de Gastos, a reforma trabalhista e a reforma do ensino médio, cujas aprovações com razoável apoio popular, todavia, serviram para inflar a narrativa publicitária dos promotores do novo consenso da esquerda.

Nestes tempos de ativismo como festa e festa como ativismo, o consenso se agiganta, alheio ao mundo do trabalho. Na rua da Consolação, em São Paulo, próxima à fronteira recentemente desbravada pela gentrificação, um enorme grafite pintado pela designer Rita Wainer destaca uma jovem em posição de confronto sob a frase “A cidade é nossa”. Durante o pré-carnaval paulistano, ela recepcionou os cerca de 1 milhão de entusiastas do Acadêmicos do Baixo Augusta, empreendimento lúdico-ativista-imobiliário que vem “revitalizando” o velho centro paulistano e que construiu a partir da própria bolha social, que compartilha com jovens universitários de classe média, a tão sonhada “união das esquerdas”. O criador do bloco, o empresário Alexandre Youssef, a personifica: foi introduzido na política por José Dirceu, candidato a vereador pelo PT e pelo PV, secretário na gestão municipal de Marta Suplicy e fundador da startup política Agora! No momento de sua apoteose e diante da falência da esquerda como símbolo de atitude juvenil, Youssef, junto de coletivos culturais obscuros e bem relacionados, é adulado também pelo Psol e por movimentos sociais.

Essa unidade, contudo, não é eleitoral, pois independente de quem ganhe o governo, o negócio continua. Se para a esquerda tradicional vale tudo pela urna eletrônica (a última conversa eleitoral vem de antes mesmo da queda de Dilma e não dá sinais de cansaço), o bloco ideológico dos “pós-ideológicos”,[8] do qual os partidos apenas se escoram pela valiosa carona em seu público eufórico, tem como essência interesses de classe. Como diz outro festejado empresário da noite e dono de mais de uma dúzia de novos polos de consumo gourmet em São Paulo, no “pós-capitalismo”, o empreendedorismo é subversivo e o cartão de crédito tem mais poder que um título eleitoral – insight coerente, afinal, com um período da vida nacional em que dinheiro e consumo se tornaram o único ingresso para a cidadania.

Subversão aqui é dispor de um cartão de crédito que sirva para validar escolhas eleitorais dizendo as coisas certas ao seu público-alvo: seu ouro de tolo nada mais é do que capitalismo para convertidos, e azar de quem não tem boa conta bancária. Facundo Guerra, o supracitado empresário, se valeu das boas relações de Youssef, que conhece bem seu público. Por exemplo, aquele que confirma presença em um evento de apoio a Judith Butler é o que o empresário vê como quem “busca um propósito” na vida além do dinheiro na conta bancária.[9] No episódio, diante da ameaça de interrupção de sua palestra em São Paulo por movimentos reacionários, convocou-se e teve grande adesão nas redes sociais um protesto a favor da filósofa para lhes fazer frente. Mas como era só protesto sem festa e havia risco de confronto, poucos compareceram – cerca de cem pessoas para cada lado. Assim mesmo, uma pesquisa do Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual (NEU) da Escola de Sociologia e Política de São Paulo constatou que 42,9% dos “subversivos” apoiadores de Butler presentes se diziam “libertários”, 28,6% “progressistas” e 11,9% “liberais”, além de serem mais brancos, de maior escolaridade e renda (35,7% declaram ganhar mais de 6 salários mínimos) que seus adversários. Ponto para Facundo.

Parte importante dessa construção ideológica se dá no renovado carnaval paulistano, não por acaso: a euforia é componente essencial para a manutenção de uma sociedade autoritária e avessa ao dissenso. Se a marca da festa carioca é o samba (mesmo que moribundo), a do Recife, o frevo, e a de Salvador o axé, expressões populares consolidadas pela tradição que não necessariamente mobilizam a maioria, mas que lhes conferem personalidade, a cara do carnaval de São Paulo é o ativismo politicamente correto, por isso entusiasma um setor sem perspectiva de classe (nada que Marx já não soubesse). Baniu as marchinhas consideradas machistas, racistas e homofóbicas, se manifesta contra o governo conservador e golpista, promove o reencontro da cidadania com a humanidade perdida, tem seus partidos e políticos de preferência e espalha o correto entendimento das arbitrariedades jurídicas contra Lula. Prosperou com Fernando Haddad e mantém a rota de sucesso com João Dória, em saudáveis relações institucionais com o Estado. Seu modelo gerou imitadores além dos limites da cidade, e por todo o ano blocos de carnaval se confundem com atos de protesto. Curiosamente, ele prospera porque conservadorismo e desigualdades persistem: combatê-los é a chave do negócio. Quanto pior o mundo, melhor para eles.

Qualquer semelhança com a falência da crítica de esquerda e de seu objetivo final, a revolução, não é coincidência. “É o fatalismo dos que estão mais longe do processo produtivo”, dizia Walter Benjamin,[10] daqueles que se bastam em seu narcisismo, com o próprio radicalismo que não corresponde a nenhuma ação política. Como poderia? Sua antítese, a carnavalização que a festa popular propunha aos desvalidos da terra, não havia autoengano: para o trabalhador e para a trabalhadora esfolados dia sim, dia sim, o sofrimento no amor e no trabalho era cantado nos versos dos sambas de Cartola, Adoniran Barbosa, Clementina de Jesus, Noel Rosa, na saudosa maloca e no bonde de São Januário, malandros e trabalhadores antagonizados pelo varguismo,[11] e sublimado nos fins de fevereiro, em que as necessidades da existência davam lugar ao luxo dos adereços. No trabalho do dia a dia, um punhado de esforço extra: para dar o devido valor à alegria, é preciso conhecer bem a tristeza. Mas até mesmo o fim da melancolia na música popular brasileira é um sintoma dos novos tempos, assim como seu avesso, a esperança de sua superação. O fim das utopias corresponde ao início do cinismo generalizado.

A esquerda carnavalizada acredita estar na liderança desse processo, mas está a reboque. Atrela sua sobrevivência aos falsos profetas da contracultura, na crista da onda da política cultural, da mídia e da economia criativa. Se pendura, curiosamente, num movimento de velhos “transgressores” cujo grito de “é proibido proibir” tinha como alvo não a censura do regime militar, mas a ortodoxia do PCB. A revivescência do tropicalismo, “uma ideologia carnavalesca da identidade nacional”, de todo modo, antes como agora, “harmonizava e caucionava os desencontros de nossa formação social, desvestindo-os da negatividade que haviam tido no período anterior, de luta contra o subdesenvolvimento. Os termos opostos agora existiam alegremente lado a lado, igualmente simpáticos, sem perspectiva de superação”.[12]

 

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Mas o pastiche é ideologia e como sempre, para se manter eficaz, o chão da reprodução social a segura pelos chifres. Fredric Jameson[13] explica que o pastiche surge quando deixa de haver uma norma linguística, o que o diferencia da paródia, que aposta justamente em seus excessos. Na literatura, a fragmentação e a particularização prenunciariam mudanças profundas na vida social, em que cada grupo ou indivíduo passaria a falar uma linguagem própria, fazendo desaparecer qualquer padrão linguístico que em cujos termos poder-se-ia ridicularizar. A paródia assim o fazia com as eventuais excentricidades que fugiam da norma que vigia, a modernista. Na sua ausência enquanto regra, o pastiche muda os termos, se impõe na ausência de um “normal” e se espalha pelos produtos da cultura. É o que acontece hoje com a “luta contra o sistema”.

Estamos no universo ideológico do entretenimento subversivo. O Video Music Awards é um evento anual produzido pelo canal norte-americano MTV que premia videoclipes desde 1984. Consolidado como produto da indústria cultural, meio e ao mesmo tempo finalidade das carreiras de algumas centenas de artistas da música em mais de três décadas, o evento se reinventou a cada moda que passava e a cada tendência que se anunciava, pasteurizando o que era underground, descartando o que já era datado na cultura pop. Na edição de 2017 da premiação, não foi diferente: deglutindo os novos tempos e devolvendo-o para a audiência global, a MTV aboliu a premiação por gêneros e criou uma nova, a de “melhor luta contra o sistema” para os clipes com discurso engajado. Em todo caso, o que suscita a curiosidade é qual o interesse da MTV com um contrassenso desses – por sinal, o canal é propriedade da Viacom, quarto maior conglomerado de mídia do mundo.

Pode-se dizer que a forma e a intensidade com que as normas, os hábitos e as atitudes culturais e políticas se modificaram a partir de 1970, integradas à transição do fordismo para a acumulação flexível, o movimento mais flexível do capital, que “acentua o novo, o fugidio, o efêmero, o fugaz e o contingente da vida moderna, em vez dos valores mais sólidos implantados na vigência do fordismo”,[14] viria a forjar uma esquerda que valoriza a autonomia e a flexibilidade, contra a rigidez do fordismo e do modernismo que se expressaram na geração pós-1968.[15] Na releitura das práticas empresariais e na assimilação das críticas que explodiram entre os anos 1960 e 1970, a nova esquerda faria o mesmo caminho, se incorporando no novo consenso da autonomia, da flexibilidade, da negação das estruturas burocráticas e, por fim, do universalismo da modernidade.

 

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A usurpação da representação da classe trabalhadora pelos seus partidos tradicionais e a alienação destes dos interesses daqueles que diz representar é uma das faces da sociedade do espetáculo e não é exclusividade brasileira, mas o reverso da moeda pode não tardar a acontecer. Realidade que espelha o que Thomas Piketty constatou na França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos: a tomada dos partidos Socialista, Trabalhista e Democrata, respectivamente, pelo eleitorado rico e com nível de ensino superior, que o economista francês chamou de “esquerda brâmane”, em lugar da classe sem nível universitário. Não por acaso, em meio século a esquerda falhou em reduzir as desigualdades de renda, quando não a acentuou ainda mais – é bastante conhecida, por exemplo, as relações estreitas da família Clinton com Wall Street. Para Piketty, o quiproquó tem a ver com o domínio desses partidos pelo eleitorado de nível universitário e de alta renda, que elege suas prioridades.

Poucos, além da nova plutocracia empresarial cujos principais representantes se encontram no Vale do Silício, entenderam tão bem as transformações da economia neoliberal, das startups e suas oportunidades de negócios flexíveis e direcionados a “públicos-alvo” bem definidos, em linha com as metas da ONU, do Banco Mundial e dos livros de administração de empresas, como a nova esquerda oriunda da contracultura. Ela é, afinal, pós-moderna e pós-industrial. Nos melhores postos do capitalismo cognitivo, que por si só já é para poucos, estão atores sociais posicionados na linha de frente do progressismo.

Empreendedorismo para os “subversivos”, viração para os demais. Rodolfo, 22 anos, estudante de Segurança da Informação, faz parte dos segundos. Em uma noite de outubro de 2014 em São Paulo, ele me recebeu na entrada da faculdade privada que cursava com bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni), vestindo sobretudo e com ar soturno. Ele havia escolhido o curso porque dizia ser a opção mais próxima de suas afinidades, “mas não para sair invadindo as coisas e roubando bancos”, alertava cautelosamente. Apesar disso, buscou uma graduação utilizando o critério da nota de corte mais baixa.

Seu primeiro emprego foi em 2009 como estoquista em uma loja de roupas, onde ficou por cerca de sete meses. Na época, ele fazia o ensino médio na Vila Mariana, atualmente um bairro de classe média na Zona Sul de São Paulo e trabalhava, quando começou a fazer um curso técnico de informática em uma Escola Técnica Estadual (Etec), junto do ensino secundário, e deixou o emprego. Começou a se interessar por informática frequentando um telecentro da Prefeitura de São Paulo, introduzido pela gestão petista da ex-prefeita Marta Suplicy, quando teve a primeira oportunidade de acessar a internet. Para ele, o mundo das startups não é tão glamoroso. Não que ele não tenha se entusiasmado com a ideia, mas para uma juventude precarizada, a ilusão do sucesso fácil tem vida curta. “Não adianta você falar, ah, tenho uma ideia inovadora e vamos dar as caras. Às vezes é tanta inovação que as bancas de analistas já devem estar vomitando de tanta inovação que não vai ser realmente utilizada.”

Começar uma startup, diz, é uma ideia delicada, se referindo ao período em que frequentou o curso técnico e acreditava, junto de seus amigos, que seu trabalho de conclusão de curso daria um produto atrativo para o mercado. Rodolfo argumenta que é preciso ter um “background mais favorável”. “No momento atual eu não diria que eu estou preparado ou estou tão a fim de começar um empreendimento. Acho que você tem que estar posicionado num momento mais oportuno para poder dar um pontapé num empreendimento”.

Apesar da bolsa do Prouni, Rodolfo poderia fazer parte de um grupo ensanduichado de trabalhadores-estudantes “desamparados e sem discurso”. Como muitos que entrevistei,[16] ele se movia com dificuldade nas amarras da sua realidade de jovem trabalhador paulistano sem planos para o futuro, na intermitência entre a rotina do crime e da “viração” e a da proteção da classe média. Um grande senso prático o fazia intuir um horizonte limitado que o benefício e o diploma que resultaria dele lhe reservariam, afinal, a formação universitária funciona como um bote que os mantém no emprego e não os deixa afundar para um ainda pior.

Rodolfo não está só, e como outros como ele, está zangado e cético. Ele reúne duas das tendências atuais que pressionam os jovens trabalhadores das grandes cidades: a busca pelo sucesso estimulada pelo discurso hegemônico que divide a sociedade entre vencedores e perdedores; e a estreiteza das suas opções e da competição pelo pouco que o capitalismo dispõe àqueles despreparados. Das soluções autoritárias tradicionais às disponíveis na internet, onde anônimos destilam misantropia e frustração social,[17] se propaga rapidamente o gás inflamável da insatisfação e da insuportabilidade do sofrimento social: Rodolfo não quer saber de política, e facilmente se entusiasma com soluções autoritárias. Os ingredientes para implosão estão à disposição e a gestão da questão social pelas políticas públicas do lulismo parece já não dar mais conta, resultando em violências diárias ou estruturais, como fica evidente na intervenção militar no Rio de Janeiro.

O destino da classe trabalhadora brasileira será, ao fim e ao cabo, o mesmo de parte significativa de suas homólogas americana e europeia, se voltar para a extrema-direita, que a reconhece como povo e a atiça contra a elite? É o que vem acontecendo com sucesso na Alemanha, onde o partido anti-imigração AfD já é a segunda força eleitoral do país, crescendo principalmente em antigas regiões industriais, hoje decadentes, disputando sindicatos, expondo a precarização promovida pelo governo socialdemocrata da era Gerhard Schröder, e apelando a um discurso dito “pró-trabalhador”.[18]

A nova direita brasileira parece ter entendido esse aspecto essencial da política ao optar por “abandonar uma linguagem elitista em prol de um discurso mais popular”,[19] atingindo setores da classe trabalhadora. Sua coerência se comprova no tratamento que dispensam à “esquerda” do PSDB, a qual desprezam e, como revelou a revista Piauí, combatem sorrateiramente.[20] Oportunistas e virulentos, instrumentalizam o ressentimento e falam diretamente à classe, assim os reconhecendo e determinados a estimular uma inversão artificial dos polos do conflito.[21] De modo que ela aparece como antissistema porque a esquerda voluntariamente passou a se identificar com uma certa elite. A essência do Estado como instrumento de dominação, por mais que revestida por boas intenções políticas, permanecerá inalterada por sua própria natureza hierárquica e despótica.

Sem nem mesmo ter usufruído de um Estado de bem-estar social, por um breve período incluídos na cidadania pelo estímulo ao consumo que não se sustentou na crise econômica, trabalhadores mais ou menos precários de Norte a Sul cujo sonho foi interrompido se encolhem diante da violência de milícias e facções, enquanto nos espaços cada vez mais escassos de igualdade e solidariedade militantes se consideram indignos e por vezes incapacitados para acompanhar debates sofisticados de uma militância universitária hegemônica, respondendo ou com submissão ou com ressentimento.

O resultado é que, no conflito distributivo amortecido pela sociedade autoritária e policial de uma São Paulo em disputa pelos espaços mais valorizados, uma parcela da classe trabalhadora vai sendo expulsa pelos protagonistas do empreendedorismo de esquerda. São as antigas camadas médias inferiores que habitavam os bairros intermediários das zonas Norte e Leste e porções das demais regiões, que tinham nessas referências sócio-espaciais algo que peculiarizava seu status social no conjunto da cidade, que marcava seus modos e hábitos, seu estilo de vida, suas ilusões e frustrações a respeito de si mesmas, a percepção de seu passado e as aspirações quanto ao futuro de seus filhos e filhas.

São antigos bairros operários que se transformaram em bairros de pequena classe média, e de bairros periféricos tornaram-se bairros intermediários. Antônio Flávio Pierucci descrevia seus habitantes como pessoas de renda média, mas de escolaridade baixa, e cuja condição econômica stricto sensu era superior ao seu nível de instrução, e cujas boas oportunidades econômicas não apresentavam a esperada homologia “nem como o seu (des)preparo intelectual, nem com seu ostensivo (e não raro orgulhoso) desinteresse pela cultura intelectualizada”[22].

Esses “setores intermediários” estão sujeitos a esta classificação porque eram tanto estratos intermediários entre a base e o topo da sociedade, viviam em bairros intermediários entre o centro e a periferia, e exerciam muitas vezes suas atividades econômicas nos setores de intermediação – pequeno comércio e serviços. Esta posição geográfica em que se encontrava a mancha janista (e posteriormente a malufista) iria se combinar com a substância necessária para a emergência do ressentimento da classe média-baixa que ainda habita estas áreas. Tão relevante quanto apontar as regiões pobres onde o janismo esteve presente é identificar os bairros de classe média alta, com qualidade de vida, mobilidade e acesso aos equipamentos de cultura, bairros boêmios e de serviços sofisticados concentrados em uma mancha que exclui totalmente as zonas Leste e Norte, com exceção de alguns enclaves insignificantes.

Sob o risco de gentrificação de seus bairros, muitos se veem hoje entre a expulsão pela especulação imobiliária, ou permanecer em um lugar onde as raízes são dilapidadas pelos novos moradores. No primeiro caso, encontram lugar apenas na periferia mais distante, entre aqueles por quem assumiam preconceito, sobretudo a população oriunda da migração nordestina e a quem atribuíam todos os males da metrópole. Diante dessa situação de desqualificados para as funções atualmente exigidas pelo mercado de trabalho, formados para serem o precariado de amanhã, derrotados na corrida pelas melhores oportunidades do capitalismo contemporâneo e mais próximos de integrar a base da pirâmide do que voltar a compor o meio, se veem entre o ressentimento e o medo, se voltando para soluções imediatistas que permitem a exclusão do outro, muitas vezes pela via da violência.

Um exemplo aparentemente distante mostra o lugar de cada um, e da classe média jovem e globalizada das grandes cidades brasileiras. Na Grã-Bretanha pós-brexit, onde o debate sobre a gentrificação vai anos-luz em relação ao Brasil, o público jovem, empreendedor e criativo já é visto com certa naturalidade como aqueles que irão guiar o país a uma nova economia, na esperança de que salvem a terra da Rainha da debacle financeira. Matt Hancock, ministro para a Cultura e o Digital do governo conservador, atribui a eles a encarnação do expansionismo capitalista autônomo e de pequena escala.[23] Esse modelo que começa como arte e passa a civilizador e renovador da coesão social, diz, trará benefícios para todos, sonho neoliberal que os hipsters, segundo ele, personificam. São os novos pioneiros do capital cultural, renovadores de lugares depredados com potencial de investimento, e abridores de espaços para a exploração especulativa. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Questionados, eles não se veem como novos desbravadores do capitalismo, mas como “socialistas”, pois só consomem produtos naturais, não-processados, orgânicos, homemade. Em uma das capitais do consumo gourmet, Caroline Knowles, professora do Departamento de Sociologia da Goldsmiths College (University of London) notou o ressurgimento de uma categoria tipicamente vitoriana: uma demanda crescente por mordomos e outros trabalhadores domésticos, enquanto antigos bairros operários desaparecem sob a nova ocupação. Os enclaves londrinos na cidade de São Paulo apenas começaram a surgir, mas se expandem em velocidade evidente, como comprovam os valores dos aluguéis nos bairros centrais.

A atual reação conservadora é uma reação popular contra o que veem como uma classe educada e privilegiada, preparada para o mundo globalizado, vencedora da guerra cultural que aportou no Brasil e que determina a postura correta não apenas em relação à política ou nos tribunais das redes sociais. Essa versão realizada da sonhada união das esquerdas se dá, contudo, por via disforme: um exemplo de como movimentos bem-intencionados se perdem pela falta de perspectiva de classe, a aprovação do Parque Augusta, no centro da capital, deu em dois empreendimentos imobiliários a se juntar a outras dezenas pela região, que fazem prosperar a especulação imobiliária sem nenhuma oposição. Um deles, com o sugestivo nome de “Central Park”. No Largo da Batata, outro moribundo reduto de resistência popular gentrificado no bairro de Pinheiros, a esquerda tradicional celebra um abraço de afogados, agarrada na boia de salvação do empreendedorismo subversivo, enquanto conchava com ele candidaturas em confortáveis apartamentos no Leblon.

Inédita na luta de classes, a vitória da esquerda na guerra cultural contemporânea converge com a vitória de sua atual geração pós-fordista na intensa competição do mercado globalizado. Vitória que não precisa ser numérica. Justamente porque na roda da fortuna da História uma minoria da sociedade torna-se a postura justa e recomendável tanto na política quanto no mercado de trabalho, a maioria, naturalmente, estará excluída desse futuro reservado para poucos bem preparados. Os “deploráveis”[24] são justamente essas pessoas que sobraram, a “pulsão plebeia” prestes a estourar.

Não é guerra cultural, enfim, mas uma luta de classe dominada por ritos ideológicos em que a política da nova esquerda se organiza como nichos de mercado identitários, enquanto leva sua vida preparando-se para girar a roda do capitalismo a seu favor. Aqueles que hoje se chamam de progressistas são, na verdade, a vanguarda do neoliberalismo cultural, enquanto à esquerda do século XX resta a rendição àqueles que não se adaptaram ao aparato, pelo contrário, nasceram com ele. Contudo, se a analogia com o mundo das startups faz inteiramente sentido, pois o momento histórico da ascensão de ambos é o mesmo, suas promessas nunca serão cumpridas, assim como empreendedores subversivos nunca cumprirão as suas.

 

*Henrique Costa é doutorando no programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado em Ciências Sociais pela mesma instituição.

[1] Paulo Marcondes, “Don L oferece mais uma dose de caos em ‘Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3’”. Vice, 23 jun. 2017.

[2] Roberto Schwarz, “Cultura e política 1964-1969”. In: O Pai de Família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[3] Herbert Marcuse, Tecnologia, guerra e fascismo. São Paulo: Editora da UNESP, 1999, p. 93.

[4] Thomas Frank, “O que a conduta de Harvey Weinstein nos diz sobre a esquerda”. Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2018.

[5] Francisco Alambert, “A realidade tropical”. Revista IEB, n. 54, set./mar. 2012.

[6] Luiza Calegari, “‘Esquerda precisa superar o lulismo’, diz Vladimir Safatle”. Exame, 27 jan. 2018.

[7] Marcos Augusto Gonçalves, “Com apoio de Paula Lavigne, Boulos e Guajajara lançam pré-candidatura em SP”. Folha de S.Paulo, 28 fev. 2018.

[8] “O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. É, como disse, o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa às questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito”. Alexandre Youssef, “O partido pós-rancor”, Revista Trip, n.199, 12 mai. 2011.

[9] Tais Hirata, “Rei da noite de SP aponta papel de ideologia para as empresas”. Folha de S.Paulo, 18 nov. 2017.

[10] Walter Benjamin, “‘Melancolia de esquerda’. A propósito do novo livro de Ernst Jünger”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.77.

[11] É conhecido o caso de “O bonde de São Januário”. Em 1941, Wilson Batista compôs o samba pelo qual foi censurado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Os versos censurados diziam: “O bonde de São Januário / leva mais um sócio otário / só eu não vou trabalhar”. Para que a música pudesse ser liberada, Batista acabou mudando o sentido dos versos originais: “Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O bonde de São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar”.

[12] Roberto Schwarz, “Verdade tropical: um percurso do nosso tempo”. In: Martinha vs. Lucrécia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.99.

[13] Fredric Jameson, A virada cultural: reflexões sobre o pós-moderno. São Paulo: Civilização Brasileira, 2006, p.22.

[14] David Harvey, A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2008, p.161.

[15] Luc Boltanski e Eve Chiapello, O novo espírito do capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

[16] Henrique Costa, Entre o lulismo e o ceticismo: um estudo de caso com prounistas de São Paulo. Dissertação de mestrado. FFLCH-USP, São Paulo, 2015.

[17] Dale Beran, “Trump, os nerds do 4chan e a nova direita dos Estados Unidos”. Folha de S.Paulo, 19 mar. 2017.

[18] Katrin Bennhold, “Workers of Germany, Unite: The New Siren Call of the Far Right”. The New York Times, 5 fev. 2018.

[19] Camila Rocha, “Passando o bastão: a nova geração de liberais brasileiros”. Nuevo Mundo Mundos Nuevos [Online], 2 out. 2017.

[20] Bruno Abbud, “O grupo da mão invisível”. Piauí, out. 2017.

[21] Em 2009, quando discursava em evento do Ministério da Cultura, Lula zombou das editoras que produzem “livro de fotografia enorme, pesado que é uma disgrama [sic], e que ninguém vê”. Ana Paula Souza, “Lula critica mau uso da Lei Rouanet”. Folha de S.Paulo, 25 jul. 2009.

[22] Antônio Flávio Pierucci, Ciladas da diferença. São Paulo: Editora 34, 1999.

[23] Stephen Pritchard. “Hipsters and artists are the gentrifying foot soldiers of capitalism”. The Guardian, 13 set. 2016.

[24] Termo usado por Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016 para definir aqueles que pretendiam votar em Donald Trump, considerados racistas e xenófobos, a maioria branca e pertencente à classe trabalhadora precarizada do país.



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