David Hume não foi cancelado e devemos tirar disso uma lição

Racismo

David Hume não foi cancelado e devemos tirar disso uma lição

por Fernando de Sá Moreira
16 de outubro de 2020
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Não é particularmente sobre David Hume que se trata. É sobre a responsabilidade da universidade e de sua comunidade em uma luta social contra um inimigo que, historicamente falando, ela mesma ajudou a criar e fortalecer. Isso vale para a Escócia, isso vale para o Brasil

Em meados de setembro deste ano, a comunidade filosófica brasileira foi surpreendida com uma notícia que produziu nela a quase imediata necessidade de reagir. A tradicional e prestigiada Universidade de Edimburgo decidira retirar o nome do mais famoso dos filósofos escoceses, David Hume, de um de seus edifícios. A decisão foi tomada depois de a universidade acatar uma petição organizada pela comunidade acadêmica, que foi por sua vez estimulada pela onda internacional de protestos antirracistas de 2020.

Acho particularmente interessante que um tal acontecimento na Escócia tenha mexido tão significativamente com os ânimos da comunidade acadêmica no Brasil. Posso estar enganado com relação a isso, mas, fora do Reino Unido, não consegui identificar nenhum outro país que tenha se importado tanto e tão rapidamente com essa questão. Além das muitas manifestações de filósofos(as), professores(as) e historiadores(as) da filosofia em redes sociais, foram publicados na imprensa no mínimo quatro artigos de opinião sobre o tema até o fim de setembro, ou seja, no espaço de poucos dias desde a disseminação da notícia.

David Hume (Crédito: Wikimedia)

O que mais me chamou a atenção é o fato de que todos esses artigos, assim como quase todas as postagens que identifiquei nas redes, seguem mais ou menos na mesma direção, com poucas exceções. Segundo a leitura hegemônica, o ilustre filósofo teria sido “cancelado” e talvez mesmo “censurado” de forma injusta. Diante disso, tais exposições empreendem duas ações: (1) defesa do filósofo e (2) identificação dos causadores da pretensa injustiça.

Nos textos que pude acompanhar, a defesa do pensador escocês baseia-se, geralmente, na afirmação de sua genialidade, sua importância para a história da filosofia e sua relevância para pensar em temáticas contemporâneas. Além disso, há um esforço de desqualificação da denúncia de racismo que recai sobre ele. Hume não teria escrito tantas coisas racistas assim e, quanto ao que ele de fato escreveu, não seria nada tão significativo para a totalidade de seu pensamento, tampouco destoaria das opiniões comuns de seu tempo. Seria, portanto, um absurdo “cancelar” e “censurar” Hume, ainda que, talvez, fosse o caso de reprovar o conteúdo de uma ou outra passagem de seus textos.
Para esta minha análise, não me interesso em saber se os argumentos para defesa de sua grandeza estão corretos. Isso porque a premissa é falsa. No Reino Unido e no Brasil, a comunidade filosófica se levantou para defender Hume de um cancelamento que nunca existiu. É um equívoco supor que a suspensão temporária ou definitiva de uma homenagem é equivalente a um cancelamento ou mesmo uma censura.

Embora a crítica ao racismo de Hume possa afetar individualmente o modo como um ou outro professor ou professora trabalha com ele, desconheço qualquer curso ou programa de pós-graduação em filosofia, na Escócia ou no Brasil, que esteja disposto a retirá-lo dos currículos. Não estou sabendo também de qualquer editora que deixará de imprimir seus livros. Ruas e mais ruas continuam a possuir seu nome, inclusive em nossas terras. Não me chegou aos ouvidos a história de nenhuma pesquisadora ou pesquisador que tenha decidido abandonar os estudos em Hume. Grupos estudos, de trabalho ou de pesquisa, assim como periódicos acadêmicos sobre seu pensamento parecem pouco ou nada afetados. Não vi notícias sobre cancelamento de eventos dedicados a ele. Não sei tampouco de qualquer biblioteca que esteja disposta a esconder, se desfazer ou queimar os livros do autor. E, o mais importante, desconheço qualquer “turba” ou grupo organizado que esteja solicitando qualquer uma dessas coisas.

Gostaria de me ater a esse detalhe: nas reações à notícia da Universidade de Edimburgo, em geral, praticamente nenhuma atenção foi dedicada ao que a petição em questão solicitava. Penso que esse não é um detalhe menor. Além de não dar atenção ao conteúdo da petição, em algumas reações, sobraram adjetivos de desqualificação das e dos peticionantes. Essas pessoas foram tachadas de agentes da suspeição, emissoras de juízos anacrônicos e simplificados, pessoas interessadas meramente em destruir as referências culturais do Ocidente, silenciadoras, censoras, burras, tolas, pessoas incapazes de compreender as dinâmicas históricas, incivilizadas, bárbaras, incultas, blefadoras, pessoas que não leram uma única linha do filósofo, novas fanáticas, analfabetas, fumaça no tempo cujo nome deve logo ser esquecido, identitárias, inquisidoras e mesmo fascistas.

Algumas poucas manifestações da comunidade filosófica se preocuparam em condenar a atitude da universidade. A maioria parece atribuir a culpa do “cancelamento” unicamente às e aos ativistas antirracistas. O pecado da universidade teria sido ceder à pressão “selvagem” de indivíduos pejorativamente classificáveis como “justiceiros sociais” ou “defensores do politicamente correto”, talvez para que ela mesmo não fosse “cancelada”. Enquanto isso, o conteúdo e o contexto da petição praticamente não foram levados em consideração.

Para reverter essa tendência, quero dedicar as próximas linhas a uma tradução da petição em pauta, para que possa ser exercida a escuta:

David Hume escreveu epítetos racistas que não são dignos de serem repetidos aqui. Dar o nome de Hume ao mais prevalente edifício no campus manda uma mensagem muito clara aos estudantes negros, indígenas e de cor (BIPOC students) em Edimburgo, que estamos dispostos a ignorar esse racismo em favor da glória de ex-alunos. Nós não devemos, no entanto, nos vangloriar do racismo de ex-estudantes de Edimburgo, especialmente considerando a longa história de envolvimento da instituição nos campos da eugenia e da frenologia.

Entretanto, isso é apenas a ponta do iceberg quando se trata de acabar com o racismo em Edimburgo. A universidade deve dar grandes passos para promover mais apoio e recursos para pessoas negras, indígenas e de cor no campus. Em uma carta aberta ao Professor Peter Mathieson, o [movimento] BlackED traçou cada passo que precisa ser dado para diminuir a desigualdade racial na universidade: pronunciar-se; promover e estabelecer uma cultura antirracista em Edimburgo; desenvolver uma política abrangente de tolerância zero contra o racismo; e criar e apoiar iniciativas de representação. Este é não é de forma alguma um passo abrangente, mas [na verdade] apenas um passo muito simples, que poderia ajudar a criar uma cultura antirracista na universidade. Se você quiser conhecer melhor o blackED, você pode encontrar seu Instagram em @blcked_movement.

Uma versão anterior desta petição defendia que o nome fosse alterado para Julius Nyerere Tower. Muitos estudantes me alertaram que Nyerere era inconveniente de sua própria forma, tanto por seus laços com a ditadura, quanto por sua homofobia. Agora, esta petição defende apenas que a David Hume Tower seja renomeada. Muito obrigada aos estudantes que me contactaram e me ensinaram. Eu me desculpo sinceramente por qualquer inconveniente que causei.

Ninguém está demandando que apaguemos David Hume da história. Entretanto, nós não devemos ficar promovendo um homem que advogou pela supremacia branca. Isso é mutuamente excludente em relação ao objetivo de reduzir o prejuízo causado pelo racismo na Universidade de Edimburgo aos estudantes de cor. Nós podemos tomar os escritos de Hume e aprender sobre eles em contexto, mas não há razão para que o mais alto edifício no campus deva possuir seu nome.

Neste momento, não me interessa avaliar se os argumentos e soluções propostas são bons ou ruins. Sinta-se convidado(a) a julgar por si, com o tempo e cuidado necessário a uma boa prática filosófica. Quero apenas chamar a atenção para três elementos: (1) não se trata de uma turba de ignorantes, sem argumentos e destruidores de toda civilização; (2) ninguém clamou por um “cancelamento” ou “censura” de Hume, tampouco esse suposto cancelamento foi concedido pela universidade; e (3) não é tanto sobre Hume, mas sobre a universidade e a sociedade que a cerca, e que dificilmente se assume como racista, que dificilmente reflete sobre seu papel histórico na instituição e perpetuação do racismo.

É perfeitamente plausível que se critiquem aspectos da petição. Porém, isso deve ser feito levando-se em consideração os três elementos acima. Não se deve concluir a “incivilidade” da petição, sem debater a petição. Antes de cancelar os “canceladores”, há de se ouvir atentamente o que foi dito. De outra forma, confrontam-se apenas espantalhos, em detrimento do que as pessoas reais têm a propor. E, na verdade, penso que a petição levanta um ponto fundamental, que está passando quase completamente despercebido na repercussão brasileira sobre a perda de uma honraria sofrida por David Hume: a instituição universidade tem que assumir uma postura ativa na construção de uma cultura antirracista e, inevitavelmente, isso inclui que essa instituição assuma seus problemas e envolvimentos passados e presentes com o racismo, em vista da construção de uma equidade racial, na qual os grupos racializados sejam de fato ouvidos e considerados como partícipes legítimos dos rumos da universidade.

Não é particularmente sobre Hume que se trata. É sobre a responsabilidade da universidade e de sua comunidade em uma luta social contra um inimigo que, historicamente falando, ela mesma ajudou a criar e fortalecer. Isso vale para a Escócia, isso vale para o Brasil.

Fernando de Sá Moreira é professor adjunto da UFF



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