Davos? Não, Porto Alegre... - Le Monde Diplomatique

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL D

Davos? Não, Porto Alegre…

por Ignacio Ramonet
1 de agosto de 2000
compartilhar
visualização

No ano de 2001, Davos terá um concorrente bastante mais representativo do mundo tal como ele é: o Fórum Social Mundial (FSM), que se reunirá precisamente nas mesmas datas (de 25 a 30 de janeiro) no hemisfério Sul — em Porto Alegre, no BrasilIgnacio Ramonet

Os organizadores do Fórum Econômico Mundial, que a cada inverno reúnem na cidade suíça de Davos uma parte considerável do Gotha mundial das finanças e das empresas transnacionais, não são sectários: sempre tomaram o cuidado de convidar para seus debates um grupo selecionado de intelectuais, artistas, pesquisadores — e até sindicalistas —, assim como dirigentes políticos. A cada uma destas categorias de participantes cabe uma função precisa: aos primeiros, expor as idéias, dar um toque de verniz “cultural” e “social” a um encontro inteiramente dedicado à exaltação do lucro; à maioria dos restantes, ministros ou presidentes, cabe tomar a bênção, mostrar submissão aos novos senhores do mundo.

As vítimas da “globalização”

No ano de 2001, Davos terá um concorrente bastante mais representativo do mundo tal como ele é: o Fórum Social Mundial (FSM), que se reunirá precisamente nas mesmas datas (de 25 a 30 de janeiro) no hemisfério Sul — em Porto Alegre, no Brasil. Espera-se, na realidade, um público bastante diferente: sindicalistas, dirigentes de associações, fundações e organizações não-governamentais, representantes do movimento popular — cultural, ecológico, feminista, de direitos humanos etc. — de todos os continentes. Resumindo: não apenas todos os que estiveram, ou poderiam ter estado, em Seattle, mas muitos mais: representantes de pequenas e médias empresas do hemisfério Sul quebradas pela “globalização”, igrejas, representantes políticos nacionais e locais. São aguardados de 2.000 a 3.000 participantes, delegados das aspirações de suas respectivas sociedades.

Debates com que se depara a humanidade

O Fórum Social Mundial será um local de troca de experiências e de debates sobre as alternativas econômicas, sociais, culturais, científicas, tecnológicas e políticas com que se depara a humanidade, mas, contrariamente ao que sucede em Davos, a abordagem dos temas será a partir de uma perspectiva cívica, ou seja, do ponto de vista dos cidadãos, e não dos banqueiros ou empresários. [1] Os intelectuais e artistas convidados não serão meras peças de exibição, pois terão o direito a intervir nos debates. Os representantes políticos poderão ver de perto o que está rolando no contra-poder planetário que começa a emergir. Quanto aos ministros e governantes acostumados com Davos, poderão constatar, se assim o quiserem, que existem outros atores na vida pública internacional.

Não é por acaso que o primeiro FSM se realiza em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. A cidade — assim como o governo daquele Estado brasileiro, após as eleições de 1998 — pôs em prática formas de democracia participativa que vêm sendo atentamente estudadas em inúmeros países. [2] É esse tipo de iniciativa que mostra, modestamente, que um outro mundo é possível. [3] O Fórum permitirá, sem dúvida, revelar outras iniciativas, tanto a escala nacional quanto internacional. Le Monde Diplomatique, que naturalmente se fará presente em Porto Alegre, manterá os l

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



Artigos Relacionados

MERCADO

O governo Lula e a “política” do mercado financeiro

Online | Brasil
por Pedro Lange Netto Machado
NEGLIGÊNCIA

Os Yanomami são um paradigma ético mundial

Online | Brasil
por Jelson Oliveira
APAGÃO JORNALÍSTICO

O escândalo da Americanas: bom jornalismo é ruim para os negócios

Online | Brasil
por Luís Humberto Carrijo
GENOCÍDIO

Extermínio do povo Yanomami e repercussões no direito penal internacional

Online | Brasil
por Sylvia Helena Steiner e Flávio de Leão Bastos Pereira
EDUCAÇÃO

A violência da extrema direita contra professores

Online | Brasil
por Fernando Penna e Renata Aquino
CONJUNTURA POLÍTICA

Pensando o 8 de Janeiro

Online | Brasil
por Coletivo Desmedida do Possível
CONJUNTURA POLÍTICA

Brasil como laboratório da insurreição fascista - II

Online | Brasil
por Augusto Jobim do Amaral
CONJUNTURA POLÍTICA

Brasil como laboratório da insurreição fascista – I

Online | Brasil
por Augusto Jobim do Amaral