De Delacroix às imagens da política contemporânea
Corpos, crianças, bandeiras e rostos ocultos revelam como a política contemporânea disputa a representação da liberdade, da nação e do futuro coletivo
Em 1830, Eugène Delacroix pintou A Liberdade guiando o povo, uma das imagens mais emblemáticas da história política moderna. No centro da composição, uma mulher avança sobre as barricadas, com a bandeira tricolor francesa erguida em uma das mãos e um fuzil na outra. Ao seu redor, homens de diferentes origens sociais acompanham o movimento, atravessando os escombros de uma cidade em revolta. A liberdade, ali, não é uma ideia abstrata: tem corpo, movimento e direção. É uma imagem que transforma um acontecimento histórico em símbolo de luta coletiva.

Quase dois séculos depois, outras imagens continuam a disputar o imaginário político. Não são pinturas alegóricas, mas registros fotográficos e em vídeo que circulam nas redes sociais, nos jornais e nas manifestações de rua. Em sua aparente espontaneidade, condensam valores, afetos e projetos de sociedade. Três desses registros contemporâneos – um vídeo e duas fotografias –, vistos em sequência, oferecem uma chave de leitura particularmente expressiva: um menino empunhando uma arma em um vídeo de comemoração, uma fotografia de uma menina segurando a Constituição e a foto do chamado “muso” da Paulista, durante uma manifestação pró-Lula.
O primeiro registro é o vídeo de um menino comemorando a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A cena gravada ganha densidade justamente pelo movimento: a criança é erguida no ar pelos adultos enquanto empunha uma arma nas próprias mãos. O gesto chama a atenção pela presença de um objeto que, longe de ser neutro, carrega uma história de violência e poder. Nas mãos de uma criança, a arma deixa de ser apenas um instrumento e passa a operar também como símbolo: uma representação de força, autoridade e pertencimento político. A questão não é atribuir ao menino, isoladamente, a responsabilidade pelo significado da cena, mas perguntar que valores tornam possível que uma arma seja apresentada pelos adultos como emblema de celebração política.
O vídeo suscita uma reflexão sobre a maneira como a violência pode ser naturalizada e incorporada à linguagem pública. Quando a arma aparece em movimento como sinal de vitória, a força física corre o risco de ocupar o lugar do argumento, e a intimidação pode ser confundida com afirmação de identidade. O registro, nesse sentido, ultrapassa o episódio particular: ele nos interroga sobre o ambiente cultural em que crianças aprendem a reconhecer determinados objetos e gestos como sinais de poder.
A segunda imagem – uma fotografia – oferece um contraponto. Nela, uma menina segura a Constituição durante uma manifestação pró-Lula. Em vez da arma, um documento; em vez da força potencialmente coercitiva, a referência à lei que organiza a vida comum e estabelece direitos e deveres. A Constituição não é um objeto desprovido de conflitos: sua existência não garante, por si só, a realização da democracia. Mas ela representa um pacto público, construído para submeter o exercício do poder a regras compartilhadas e proteger direitos fundamentais.
A diferença entre o vídeo do menino e a fotografia da menina não precisa ser reduzida a uma oposição simplista entre indivíduos ou campos políticos. Seu interesse está naquilo que os objetos tornam visível. De um lado, a arma como signo de força; de outro, a Constituição como referência à ordem jurídica e à possibilidade de convivência democrática. São registros que nos convidam a perguntar quais símbolos escolhemos para representar nossas expectativas de futuro e que ideia de vida coletiva desejamos transmitir às novas gerações.
A terceira imagem – também uma fotografia – desloca o debate. Na manifestação pró-Lula, o “muso” da Paulista chama a atenção pela presença física, pela maneira como ocupa o espaço público e pela repercussão que sua imagem alcança. Se o menino no vídeo e a menina na foto aparecem associados a objetos organizadores da cena, o “muso” é, ele próprio, o centro visual. Contudo, essa centralidade não é puramente estética: o rapaz, de torso desnudo e rosto encoberto por uma balaclava, empunha simultaneamente a bandeira do Partido dos Trabalhadores e a bandeira da Palestina.
A coexistência das duas bandeiras confere espessura política ao personagem. A bandeira do PT o insere no terreno da disputa eleitoral e partidária brasileira; a bandeira da Palestina conecta a cena a uma causa internacionalista associada à resistência, ao deslocamento forçado e à autodeterminação dos povos. O rosto oculto preserva a individualidade do manifestante, enquanto as bandeiras explicitam suas causas. O corpo exposto funciona, assim, como uma superfície de encontro entre a política local e a solidariedade global, mostrando como a militância contemporânea articula estética individual, anonimato e pertencimento coletivo.
A política contemporânea também se faz dessa maneira: por meio de imagens que não precisam apresentar um programa formal para adquirir força pública. Um corpo fotografado em meio à multidão pode condensar entusiasmo, desejo, humor, identificação e pertencimento. A circulação das fotos e vídeos nas redes amplia o acontecimento para além do espaço físico da manifestação, transformando uma presença localizada em figura compartilhada por públicos diversos.
Essa dimensão não deve ser confundida com a substituição automática da política pelo espetáculo. As imagens sempre participaram da construção da vida pública; o que mudou foram as condições de sua produção, circulação e apropriação. Hoje, uma fotografia ou um trecho de vídeo pode adquirir projeção extraordinária em poucas horas, desprender-se do contexto em que foi produzido e assumir sentidos que ultrapassam a intenção de quem aparece nele. O corpo político também é construído por esse circuito de olhares, comentários e interpretações.
É nesse ponto que o diálogo com Delacroix ganha força. Em sua pintura, a Liberdade também é um corpo: uma figura feminina que se destaca da multidão, conduz o movimento e transforma a revolta em alegoria. A bandeira que empunha não é apenas um objeto, assim como o fuzil não se resume à sua materialidade. Ambos participam da construção de uma imagem na qual se articulam ação, conflito e aspiração coletiva. A pintura não registra simplesmente uma cena; ela organiza visualmente uma ideia de povo em movimento.
Há, contudo, uma diferença decisiva entre a alegoria romântica de Delacroix e os registros contemporâneos. Na pintura, a composição constrói deliberadamente uma narrativa histórica e política. Nas fotografias e nos vídeos, a força simbólica pode emergir de um gesto, de um objeto ou de uma presença que, inicialmente, não pretendia representar algo tão amplo. A imagem contemporânea é inseparável de sua circulação: seu significado se forma também nos usos que dela fazem aqueles que a compartilham, contestam ou reinterpretam.
A aproximação entre esses quatro registros – a pintura de Delacroix, as duas fotografias e o vídeo – não pretende estabelecer equivalências históricas nem atribuir a cada um sentido definitivo. Trata-se de observar como diferentes representações tornam visíveis disputas sobre a liberdade, o poder, a lei e a participação coletiva. A arma, a Constituição, o corpo e as bandeiras não constituem uma sequência de significados fechados. São pontos de partida para interrogar os valores que se projetam no espaço público e as formas pelas quais a política se torna sensível, reconhecível e compartilhável.
A liberdade de Delacroix avança entre barricadas, carregando símbolos de uma transformação política. A menina ergue a Constituição na foto; o menino empunha uma arma no vídeo; o muso da Paulista junta a estética do corpo à sobreposição de bandeiras na fotografia. Cada imagem nasce em circunstâncias distintas, mas todas nos lembram que a política não se limita às instituições, aos discursos ou aos resultados eleitorais. Ela também se inscreve nos gestos, nos objetos, nos corpos e nas imagens por meio dos quais uma sociedade expressa seus conflitos e imagina seu futuro.
No fim, a pergunta não é apenas qual imagem ou vídeo se torna mais popular, mais compartilhado ou mais facilmente reconhecido. É também o que cada registro nos leva a considerar legítimo, desejável ou possível. Entre a arma, a Constituição, o corpo e os símbolos que carregamos, a disputa política se revela igualmente uma disputa pela representação da vida coletiva. E, como já intuía Delacroix, as imagens não apenas mostram a história: participam da maneira como aprendemos a vê-la.
Adalberto da Silva Retto Jr., é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza – Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I – França.

