Desmatamento no Haiti: uma realidade camuflada
O desmatamento no Haiti não é um problema ambiental aleatório ou isolado, mas sim o resultado de um processo histórico de desapropriação e dominação inserido em uma estrutura civilizacional capitalista, colonial e extrativista. Teve início com a chegada de Cristóvão Colombo em 1492 e se aprofundou sob diversas dinâmicas de poder
Introdução
Este projeto surgiu da preocupação com a forma como diversos autores e instituições abordam a atual situação do desmatamento no Haiti. Considera-se que, para erradicar ou solucionar um problema, é necessário buscar suas causas raízes; não basta cortar os galhos do problema, mas sim analisá-lo em sua origem mais profunda.
Para melhor compreender essa realidade, é importante situá-la dentro de um sistema de dominação denominado modernidade/colonialidade (Quijano, 2000), baseado no ego conquiro (“conquisto, logo existo”), a lógica pela qual se consolidou a apropriação violenta de recursos, territórios e povos (Dussel, 1994).
Esse modelo teve início com a conquista da América, impondo um modo de produção mercantilizado, capitalista e extrativista, centrado no eurocentrismo, no americanocentrismo, sistemicidio, na globocentrismo e no capitalocentrismo.
Falando em eurocentrismo, entende-se que este é a base central do poder original que colocou a Europa no centro do mundo, impondo-se como o único modelo civilizacional válido, com o objetivo de justificar a exploração e a desapropriação de recursos de outros povos e regiões para seu próprio enriquecimento (Quijano, 2000).
Portanto, Bauer (2024) define o americanocentrismo como a fase de transição em que o centro do poder se desloca para os Estados Unidos. Ele destaca a lógica da “América para os americanos”, essa alternativa que expulsa a interferência europeia a fim de impor a dominação, a desapropriação e a exploração direta do imperialismo norte-americano.
Enquanto isso, ele define o sistemicidio não como um sistema simples, mas como um padrão organizado e fechado que busca a eliminação controlada das economias locais, soberanias e ambientes em benefício do capital. É um suicídio programado da comunidade a serviço do mercado (Bauer, 2024).
Portanto, Coronil (2000) descreve o globocentrismo e o capitalocentrismo como a atualização do sistema, com foco na globalização e na completa intensificação de tudo o que existe, inclusive a natureza, sob o neoliberalismo, reduzindo-os a valor de troca e lucro. Mas fica claro que o americanocentrismo e o campeão deste processo.
Nessa perspectiva, a destruição ambiental no Haiti não é um erro ou um acidente, mas uma consequência lógica dessa matriz de poder que se desenvolveu historicamente.
De fato, diversos estudos e organizações apontam a escassez de recursos energéticos e a pobreza da população haitiana como as principais causas do desmatamento. Contudo, se a raiz do problema – a colonização e a pilhagem de recursos desde os tempos coloniais, por meio da odiosa dívida imposta pela França e pela ocupação estadunidense – for ignorada, uma solução adequada para esse problema jamais será encontrada.
O objetivo deste trabalho é demonstrar que o desmatamento no Haiti não é um evento aleatório, mas o resultado de processos históricos que hipotecaram o destino do país e de seu povo. A análise baseia-se numa revisão da literatura existente de diversos atores e entidades, a fim de examinar diferentes perspectivas sobre o desmatamento no Haiti e realizar uma avaliação crítica do tema.

- Contexto Geral
O Haiti é um país caribenho com 27.750 km², ocupando um terço da ilha de Hispaniola, com uma população de mais de 11 milhões de habitantes. É a primeira nação negra livre e independente da América Latina e do Caribe, tendo conquistado sua autonomia em 1804, após a mais importante revolução da história dos povos afrodescendentes[1]. Antes da chegada dos europeus, mais de 80% do seu território era coberto por densas florestas, mas hoje é reconhecido como um dos países mais desmatados do planeta[2]. Isso como consequência do que aqui chamamos de sistemicidio.
1.1. Contexto histórico do desmatamento
O desmatamento começou com a chegada de Colombo e a colonização espanhola. Quando Cristóvão Colombo chegou à ilha de Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti) em 1492, os espanhóis perceberam a abundância de recursos naturais, como minas de ouro e madeiras preciosas como mogno e cedro. Suas ambições, moldadas pela lógica da conquista e do ego, os levaram a se apropriar e explorar esses recursos de forma irracional; eles chegaram a usar madeiras preciosas para construir navios que enviavam à Espanha com o objetivo de enriquecimento[3]. Além disso, desmataram florestas para expandir as plantações de cana-de-açúcar, tabaco e índigo, aplicando sistemas de monocultura que destruíram a paisagem e esgotaram rapidamente o solo, iniciando o processo de erosão muito cedo[4].
O professor Carl Edward Destin (2020) se refere a esse fenômeno como “colonialismo ecológico”: os europeus modificaram a natureza unicamente para seu próprio interesse e com o objetivo de se enriquecerem, destruindo os equilíbrios que existiam há milhares de anos. Os habitantes originais da ilha (Taíno) mantinham uma relação harmoniosa com a terra, considerando-a sagrada, mas a colonização rompeu esse vínculo e passou a encarar a natureza como um recurso a ser apropriado e explorado impiedosamente[5], transformando-a em mera mercadoria.
- Impacto da Colonização Francesa (1697-1804)
Em 1697, pelo Tratado de Ryswick, a parte ocidental da ilha passou para as mãos dos franceses com o nome de Saint Domingue[6]. Sob a lógica do eurocentrismo, os franceses viam Saint Domingue como uma fonte de grande riqueza e, assim, dedicaram-se a expandir o cultivo de café, cacau e açúcar para exportação; dessa forma, em pouco tempo, o Haiti tornou-se a colônia mais próspera da França[7].
A partir de 1730, quando o cultivo de café começou em larga escala, florestas de montanha foram desmatadas para esse fim. Cinquenta anos depois, um quarto do território estava plantado com café[8]. Segundo Charles et al. (2020), as práticas agrícolas utilizadas pelos colonizadores esgotaram os nutrientes do solo e agravaram a erosão[9].
Corbett (2019) indica que Saint-Domingue era a colônia mais rica do Caribe na época, mas essa riqueza foi construída sobre o trabalho de pessoas escravizadas e destruindo não apenas suas vidas, mas também as florestas do país[10].
- A dívida da independência como mecanismo de pilhagem (1825 até o Presente).
Após o Haiti conquistar sua independência em 1804, a França recusou-se a aceitar a derrota e exigiu o pagamento de 150 milhões de francos-ouro como compensação, alegando ser uma condição para o reconhecimento da independência do país. No entanto, essa medida foi mais uma ferramenta de dominação para continuar pilhando os recursos do Haiti[11].
Para lidar com essa dívida, o governo não só teve que vender madeira em grandes quantidades a preços baixos por mais de cem anos[12], como também contraiu empréstimos de bancos franceses a taxas de juros exorbitantes. Essa situação, que manteve o país em perpétua dependência, é um claro exemplo de como a estrutura colonial persiste além das mudanças políticas, mantendo o país em uma posição vulnerável que facilita a pilhagem.
(Autores: Oosterlinck et al.) (2022) enfatizam que essa dívida era injusta, pois foi imposta a um povo que lutou sangrentamente por sua liberdade, condenando-o a continuar explorando suas terras para obter dinheiro. Pior ainda, a terra permaneceu nas mãos de algumas elites corruptas, de modo que a maioria da população teve que conviver com o pouco que restava, chegando até a usar encostas de montanhas, áreas que sofrem erosão facilmente quando não há árvores[13]. Podemos olhar como o sistemicidio atua na produção de riqueza e na produção de pobreza com o solo objetivo de manter a dominação e produzir dinheiro sim se importa em nada.
- Do eurocentrismo ao americanocentrismo: a ocupação americana
Em 1914 e 1915, ocorreu uma mudança fundamental no equilíbrio de poder: a Europa perdeu seu privilégio exclusivo de explorar a América, dando lugar ao americanocentrismo. Os Estados Unidos assumiram o controle direto, expulsando a interferência europeia e concentrando seu domínio em seus próprios interesses. Apropriaram-se das reservas de ouro do país com o objetivo de isolá-lo internacionalmente.
Durante a invasão militar (1915-1934) e posteriormente, não apenas a política e a economia foram controladas, mas a extração de recursos foi intensificada. Um exemplo claro disso foi o projeto SHADA (1941), no qual florestas nativas foram desmatadas para dar lugar a plantações de seringueiras (Hevea brasiliensis) destinadas exclusivamente à indústria estadunidense[14] [15].
A professora Myrtha Gilbert (2012) relata que esse projeto destruiu a agricultura local e danificou ecossistemas, impondo uma lógica de produção na qual a natureza haitiana servia apenas para abastecer o mercado externo[16]. Isso confirma que estamos diante de um sistemicidio (Bauer, 2024): a destruição organizada da soberania e do meio ambiente para manter um fluxo constante de lucros para o centro do poder. Além disso, governos controlados ou impostos pelos Estados Unidos – como os da família Duvalier – permitiram a exploração madeireira descontrolada. Desde então, a instabilidade política tem impedido o desenvolvimento de planos sérios para a conservação de florestas e reservas naturais. Até mesmo a Reserva Florestal dos Pinheiros, uma das mais importantes do país, foi alvo de desmatamento sistemicida ilegal devido à falta de recursos econômicos e de vontade política para protegê-la[17].
- Por que a população continua desmatando? A consequência final
Autores como Angelsen et al. (2022) e a FAO (2020) destacam que atualmente entre 70% e 95% da população haitiana utiliza lenha ou carvão para cozinhar, e essa atividade representa aproximadamente 5% do Produto Interno Bruto do país[18].
Contudo, como já foi analisado, essa situação não é acidental, mas sim consequência de séculos desse modelo de sistemicidio. A pobreza e a falta de opções energéticas observadas hoje são resultado de séculos de exploração e desapropriação de seus recursos e subjugação sob diferentes fases de dominação (eurocentrismo e americanocentrismo). Portanto, em muitas áreas rurais do Haiti não há eletricidade, não existem políticas para promover o uso de energia limpa e a população não derruba árvores como prática cultural, mas porque o sistema não lhes deixou outra alternativa de sobrevivência.
Segundo Merat (2012), após o terremoto de 2010, a ajuda internacional que chegou ao país utilizou principalmente madeira para a construção de moradias, o que exacerbou ainda mais o desmatamento.
- Reflexão
Analisar o desmatamento pela ótica da colonialidade do poder permite compreender que não se trata de um problema isolado, mas sim de uma resposta a uma lógica global do capitalismo e da globalização. É fundamental revisitar a história colonial para compreender sua essência e estabelecer a relação entre o passado e a situação atual.
O desmatamento no Haiti é resultado de uma cadeia de eventos: colonização e desapropriação que se acumularam, destruindo não apenas os solos e ecossistemas do país, tornando-o um dos mais desmatados do mundo, mas também gerando uma instabilidade socioeconômica, política e ambiental inimaginável. Um sistemicidio programado.
Estudos que mencionam apenas a pobreza e a falta de energia como causas do desmatamento no Haiti são insuficientes. Esses fatores são reais, mas não explicam por que o Haiti se encontra nessa situação enquanto a República Dominicana, que compartilha a mesma ilha, tem quase metade de seu território coberto por florestas[19]. A diferença reside no fato de que a República Dominicana não teve que arcar com uma dívida tão onerosa quanto a do Haiti e pôde implementar políticas de reflorestamento[20].
Em contraste, no Haiti, a instabilidade política causada por influências externas tem dificultado o desenvolvimento de planos de conservação florestal a longo prazo. O Plano Nacional de Ação Ambiental 2025–2050 (Ministério do Meio Ambiente do Haiti, 2025) é uma iniciativa positiva, mas sem estabilidade política, recursos econômicos suficientes e conscientização coletiva, sua implementação será muito difícil, senão quase imposivel[21].
- Conclusão
O desmatamento no Haiti não é um fenômeno aleatório: é o resultado de um sistemicidio planejado que evoluiu da lógica da conquista e do eurocentrismo para o atual americanocentrismo e globocentrismo. Estudos que se concentram apenas na escassez de energia e na pobreza não conseguem captar a dimensão completa do problema, porque esses fatores não são acidentais, mas sim a consequência lógica de um sistema colonial e capitalista que vê a natureza e os povos como mercadorias.
Para resolver o problema, é necessário romper com essas estruturas de dominação, reconhecendo que a solução não é apenas técnica, mas também política e civilizacional. Devemos lutar pela plena soberania nacional, soberania alimentar e pela oportunidade de eleger nossos próprios governos, sem que sejam impostos por potências estrangeiras. É também essencial desenvolver projetos comunitários em conjunto com a população para restaurar, recuperar, conservar e proteger o meio ambiente haitiano.
Devemos garantir a existência de governos responsáveis que desenvolvam planos e políticas públicas para a conservação, gestão e proteção das florestas haitianas, bem como implementar estratégias para combater a corrupção e a interferência internacional. Ao mesmo tempo, é necessário solicitar e exigir reparações pela pilhagem histórica dos recursos naturais por potências estrangeiras. O objetivo final não é apenas que o Haiti seja coberto por florestas novamente, mas construir um país próspero, livre e independente que permita ao povo haitiano viver com dignidade e respeito.
Magorie St Fleur é licenciada em Agroecologia pela Universidade Bolivariana da Venezuela e mestre em Recursos Naturais e Desenvolvimento Rural pelo El Colegio de la Frontera Sur (ECOSUR), onde atualmente cursa doutorado em Ecologia e Desenvolvimento Sustentável. Leciona na Escola de Formação Política Charlemagne Peralte e coordena o programa agroecológico do Movimento Camponês do Papaye (MPP) no Haiti.
Coautora: Nilda Cecilia Elizondo é doutora em Conservação do Patrimônio Paisagístico pelo Instituto Politécnico Nacional e mestre em Recursos Naturais e Desenvolvimento Rural pelo ECOSUR. É pesquisadora de nível 1 no Sistema Nacional de Pesquisadores e possui mais de 35 anos de experiência em gestão ambiental e desenvolvimento rural. Foi coordenadora de assessores da SEMARNAT e é membro do HLPE-FSN e autora principal do IPBES 2028. (coautora do texto).
Coautor e tradutor do artigo: Carlos Francisco Bauer é doutor em Filosofia e possui pós-doutorado em Estudos Latino-Americanos. Ele é professor ex-diretor-coordenador do Curso de Filosofia da Universidade Federal de Integração Latino-Americana (UNILA-Brasil). Fundador da Associação de Filosofia e Libertação Argentina, sua pesquisa aborda o americanocentrismo e o sistemicidio a partir de uma perspectiva descolonial e liberacionista. [email protected]
Referências
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Merat, P. J. (2012). Forêts, évangélismes et aides humanitaires post-sismique en Haïti: Des liaisons dangereuses. VertigO, 14. https://doi.org/10.4000/vertigo.12528
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Bauer, C. F. (2024). Americanocentrismo y sistemicidio. CLACSO.
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