Deus e o Diabo, o masculino e o feminino na cultura brasileira rosiana
O protagonista Riobaldo enfrenta o tabu da homossexualidade e a rigidez do patriarcado ao se apaixonar por Diadorim. Através de um estudo etimológico profundo, revela-se que termos como Deus e Diabo compartilham a mesma raiz no sânscrito, sugerindo uma unidade dialética em vez de uma oposição absoluta. Essa perspectiva desconstrói as certezas morais do jagunço, transformando o sertão em um espaço de conflitos metafísicos sobre o desejo e a identidade de gênero

Ao ser publicado em 1956, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, causou um frenesi e um espanto raramente experimentados nas searas intelectuais brasileiras. Longe de angariar opiniões consensuais na época de seu lançamento – na verdade, até hoje –, Rosa gerou emoções conflitantes como o estupor, a admiração, o desespero, a náusea, a desolação, a esperança.
Do muito que se tem escrito e falado nessa efeméride dos seus 70 anos de publicação, escolhi enveredar por um caminho mais psicanalítico e antropológico, como também filológico, tudo isso iluminado por centelhas explícitas de metafísica – lembremos que o próprio Aristóteles a considerava um campo legítimo de saber, um dos fatores que incluiu a teologia, juntamente com a ciência, a arte e a filosofia, nos estilos da Teoria do Conhecimento ou Epistemologia.
Fato é que podemos incursionar com esses fanais nessa obra da literatura brasileira, arquitexto da nossa cultura (por isso meu título fala em “cultura brasileira rosiana”), a qual tem como paisagem-personagem, ou horizonte, como diria Wolfgang Iser, o tabu da masculinidade numa sociedade conservadora e patriarcal como a brasileira. E esse tabu ou vedação, no sentido mais freudiano possível, é tamanho que se eleva ao estatuto teológico ou metafísico, como prenunciei, ocasionando pensamentos delirantes de Riobaldo, seu protagonista-narrador, sobre a natureza mesma de Deus e do Diabo.
É que, para tratar mais profundamente disso, Riobaldo, jagunço e macho estereotípico, divaga vertiginosamente sobre Deus e o Diabo, tentando compreender o que o fez, afinal, não aceitar ceder aos impulsos amorosos em relação a quem ele achava ser outro macho jagunço como ele, Diadorim, que, no fim, ele descobre que era uma mulher travestida de homem para poder lutar no bando. Na verdade, o que Diadorim é, no fundo, é um homem trans, e, portanto, o amor de Riobaldo por ele (pronome masculino mesmo) é um amor homossexual, que obviamente incomoda o âmago mais recôndito de sua educação sertaneja.
Uma das questões centrais do livro está no fato de que Riobaldo se questiona o tempo todo, em caráter muito íntimo e pessoal, quem realmente lhe causou o mal de não ceder a Diadorim. Se foi Deus, no seu apartheid espartano entre o “certo” e o “errado”, ou o Diabo, que tão só parecia impelir Riobaldo a amar o “homem” que era Diadorim, permitindo e incentivando que ele desse vazão à sua libido e desejo perfeitamente naturais (seja qual for a orientação sexual, no sentido freudiano), em relação aos quais ter descoberto que Diadorim era uma mulher foi um mero epílogo sem importância capital no que estava de fato ocorrendo.
Diadorim tem em seu nome o mesmo “Dia” que polissemicamente gerou a partir do sânscrito (a língua-raiz de todo filólogo e indo-europeísta como eu) a palavra “Deus” e também a palavra “Diabo”. Sim, ambas têm a mesma raiz em sânscrito e, portanto, no protoidioma indo-europeu.
Em sânscrito, “Dyaus”, que gerará “Deus”, e também “Diabo”, significa tão somente “luz serena e brilhante”. Nada mais, nada menos. No francês, uma das línguas românicas mais antigas, já praticamente formada no século IX com os Juramentos de Estraburgo, a pronúncia e a escrita de “Deus” são muito próximas do sânscrito “Dyaus”: cf. “Dieu”.
Pois voltando à questão do Riobaldo conservador e machista, que se acabrunha com Deus e se aproxima do Diabo, por achar, equivocadamente, que ele não estava numa tentação homossexual em relação a Diadorim, já que, na verdade, ela era biologicamente (mas não fenotipicamente) uma mulher, está presente, por exemplo, aqui, em sua vertigem explicitada na forma como só os artistas conseguem expor. Nesta passagem, Riobaldo se questiona implicitamente quem lhe causou mal: Deus, com seu “certo” e “errado”, que eram falseados pelas roupas e a aparência do tentador Diadorim, ou o “Diabo”, que o incitava apenas a seguir seu desejo? No delírio, fala Riobaldo:
“É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza”. (ROSA, 1994 [1956], p. 25)
Trago à discussão o meu romance Os arcanjos, que se entretece com o Grande sertão. Sobre esta minha obra, o crítico Gustavo Bernardo Krause escreve: “Não posso resumir o enredo, sob pena de tirar do leitor o prazer de se descobrir, de repente, também uma pessoa boa. Adianto, porém, que Marcelo Caetano realiza o que Guimarães Rosa tentou, em Grande sertão: veredas, e não conseguiu, porque recuou bem no final”1. Destaco essa crítica para salientar, mais uma vez, a questão do tabu da homossexualidade, do masculino e feminino, do divino e diabólico, como é abordado em Grande sertão: veredas, e como eu próprio já o abordei, também literariamente, em meu romance mencionado.
Riobaldo põe toda a questão na conta de Deus e do Diabo. Em sua rudeza rudimentar, tudo se resume ao mínimo possível. É um texto semioticamente seco, porque o signo linguístico de Grande sertão aponta, em seu quase nada de conteúdo – a rigor, tão só uma paixão –, para veredas praticamente infinitas de significantes e significados inéditos na língua, na linguagem, no pensamento, na emoção. A profusão verbal contrasta com a ressequidão cognitiva do jagunço.
Outras possibilidades etimológicas para distinções difusas entre “Deus” e “Diabo” se notam no grego e no latim. Sempre iniciadas no sânscrito, e muito provavelmente timbradas no indo-europeu.
Pois, então saindo do sânscrito e entrando no grego, encontramos o mesmo radical prefixal “Dia”, presente em “Diadorim”. Aliás, essa migração do sânscrito para o idioma helênico é uma das provas da Teoria central do indo-europeísmo: a de que se trata de uma protolíngua. Em grego, “Dia” significa “através”. É o que vemos num dos elementos pares da dicotomia saussuriana “diacronia”, que significa “através do tempo”. O radical prefixal “Sim”, por seu turno, significa algo como “no mesmo”, o que aparece, no outro par da mesma dicotomia, no conceito de “sincronia”, que significa “no mesmo tempo”. Vemos a contraposição de raízes prefixais “Dia” e “Sim” (“diacrônico” e “sincrônico”).
Caminhando para além pelas veredas da filologia, há, ainda em grego, uma raiz “Bolos”, que o é de verbo grego que significa “projetar”, algo como “remeter ao futuro” (ou até “conceder a possibilidade de um futuro”). Quando se junta a “Sim”, cria-se “Símbolo”, que dará “Simbólico”, que é, portanto, a capacidade de ler algo literal no presente pressentindo não só sua obra explícita (érgon, como lembrará Humboldt em toda a sua obra) no presente imediato, mas também sua potência implícita (enérgon, idem) num futuro possível e viável. É isso que um símbolo é.
Por outro lado, o mesmo “Bolos” ligado a “Dia” criará “Diábolos”, de que virá “Diabólico”, o que significaria literalmente algo como “através da projeção no futuro”, que, para o arsenal conservador que asfixia Riobaldo, é antes uma ameaça que permite percorrer o tempo dos tempos e ver passado, presente e futuro como interligados.
Foi desse percurso espácio-temporal, arcaico, que Relatos de Belzebu a seu neto, de Gurdjieff, uma das obras mais importantes da cultura ocidental e oriental, faz Belzebu viajar, em suas mais de 1000 páginas, no espaço e no tempo em sua nave, Karnak, até os primórdios da Terra, antes mesmo de sua criação, levando consigo seu neto curioso, Hassin, para que o jovem entenda uma espécie de fictícia “máquina do mundo”.
Aterrissando no latim, uma consolidação da dicotomia (que eu considero uma dialética) Deus-Diabo, vinda pela via do grego acima exposta, entronizada no sânscrito proto-arcaico do indo-europeu, foi entre “Deus” e “Dea”, a forma feminina de “Deus”, numa, já então, demonização do feminino que estabelece o próprio conceito de “civilização” em sua face mais normótica, coligada umbilicalmente à repulsa ao feminino ou à ligação do feminino ao mesmo falocentrismo que consubstancia o masculino que intoxicou Riobaldo. A propósito, a tragédia de Édipo Rei, de Sófocles, traduz perfeitamente esse binômio do falocentrismo tanto no masculino (Édipo, Laio e Creonte), quanto no feminino (Jocasta), que tem sua síntese perfeita numa espécie de sagrado feminino (Antígona), que é a redenção da patologia social do falocentrismo ubíquo. Escreverei em breve sobre a peça, pelas perspectivas de Aristóteles e de Freud, dois de seus principais e mais férteis cultores.
“Dea” (“Deusa”), com o sufixo (lato sensu) de declinação do latim “bus”, que significa “para”, criou a palavra “Deabus”, que significa algo como “para a Deusa”. E está aí o “Diabo” como contraponto ao “Deus”. A “Deusa” que se distribui para todos, e inclui todos em si, recebendo todos, não apenas os poucos privilegiados.
“Dia” está, assim, presente em Deus, Diabo, diabólico (versus simbólico), diacrônico (versus sincrônico), Diadorim, e… DIÁLOGO, que quer dizer literalmente “através do Logos“. Diálogo: o que as sociedades pós-modernas tanto abominam, como mostram Baumann, Lipovetsky, Baudrillard, Bourdieu, Arendt. A morte do diálogo é a máquina propulsora mais forte dos autoritarismos tão incensados atualmente.
Diálogo: através (“dia”) da verdade (“Logos”). Logos: Verdade no singular, para Sócrates e Platão, e no plural, VerdadeS, para Aristóteles. Atravessar a Verdade, vendo-a não como singular ou como ontológica, mas entendendo-a plural e fenomenológica, dual, dialética, soa como heresia para os normóticos, como o era Riobaldo. O diálogo é diabólico e está no Diabo, que é a Deusa que se dá para todos e a todos (e de todos) recebe.
Mas Deus, “Dyaus”, contém tudo, todas e todos, sem deixar nada de fora, nem mesmo o Diabo, como aliás mostrará o grego Nikos Kazantzakis em O pobre de Deus, ou o Nobel alemão Hermann Hesse em Sidarta ou em Peter Camenzind, três obras metafísicas sobre homens santos de dois dos maiores gênios da literatura universal. “Dyaus” ilumina não de cima para baixo, nem de fora para dentro. Mas de baixo para cima e de dentro para fora; não é ético, mas sim êmico, exatamente da forma como as normoses se desintegram e se arruínam, demolindo-se e desaparecendo através do tempo, evocando “Dia”: DIA-CRONI-camente.
No meu citado romance, traço, no capítulo 11, o que chamo de “A canonização de Santa Diadorim”, título do capítulo em questão. Nele, no sonho delirante de meu personagem Gabriel, de forma riobaldiana, à maneira também do sonho de Brás Cubas, de Machado de Assis, que por sua vez parece espocar o Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, com sua pansexualidade e seu panromance quase à maneira de Madonna e Lady Gaga (duas aristotélicas contemporâneas, que por isso mesmo escolheram criticar o mood cristão católico romano), ele, Gabriel, no sonambulismo que o pianista austríaco Alfred Brendel (um dos 4 gigantes da Áustria, que tive a sorte de ter como Professor de piano) atribui à verve de Schubert, delira em vertigem. Não por acaso concluo meu romance com a singular frase: “Ouçam Schubert”.
Diante desse maremoto de aridez e areia do cerrado brasileiro, onde o próprio ar é escasso e rarefeito, Riobaldo precisa agarrar-se a dois míseros pares de metonímia para pautar toda a sua vida, todo o seu sertão, todas as suas veredas: Deus e Diabo; masculino e feminino.
Com essa parcimônia quase à moda de João Cabral de Melo Neto, nosso Guimarães Rosa consegue implodir as sementes de potência com que parte substancial da cultura brasileira se aferra, mesclada em sincretismos dicotômicos radicalmente opostos e radicalmente unidos em dialética, anunciados por nossos melhores pensadores autóctones, como Darcy Ribeiro, Lélia Gonzales, Ignácio Rangel, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Holanda.
Divino Riobaldo Diabólico.
Marcelo Moraes Caetano é professor associado de língua portuguesa e filologia românica da UERJ, PhD em estudos de linguagem (PUC-Rio, Uerj e Universidade de Copenhague, Dinamarca), pesquisador em direito e em psicanálise teórica e clínica, membro da Academia Brasileira de Filologia, da Academia Fluminense de Letras e do PEN Club do Rio e de Londres. Pianista clássico vencedor de concursos no Brasil e exterior (São Paulo, Rio, Minas, Córdoba, Paris, Viena). Tradutor de inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, latim, grego e estudioso das filologias do mandarim, russo e sânscrito. Autor de mais de sessenta livros no Brasil e no exterior.
Referência
ROSA. João Guimarães. Grande sertão: veredas. Volume II. São Paulo: Nova Aguilar, 1994 [1956].

