Do BolsoDoria ao Bolsonarovírus: o discurso de João Doria

POPULISMO E CRISE

Do BolsoDoria ao Bolsonarovírus: o discurso de João Doria

por Grupo de Pesquisa Discurso
8 de dezembro de 2020
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Este trabalho faz parte da segunda fase da série de artigos produzidos pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” publicados na série Populismo e Crise. Nesta segunda fase, focaremos nossas análises nos principais porta-vozes nacionais e internacionais dos discursos negacionista e científico. Neste artigo em particular caracterizamos um dos principais porta-vozes nacionais do discurso científico, o governador do estado de São Paulo, João Doria

O acontecimento pandemia Covid-19 altera a normalidade estabelecida pelas relações de poder dominantes e coloca em suspense a formação hegemônica vigente, dando margem à disputa política de discursos – com suas narrativas nas dimensões nacional e internacional. Em nossa pesquisa geral, procuramos reconstruir o campo discursivo sobre a pandemia com os principais discursos em disputa – o “negacionista” e o “científico”, que articulam com ênfases diferentes dois pólos temáticos: a sustentabilidade da economia e a sustentabilidade da vida. Neste artigo, se procura caracterizar um dos principais porta-vozes nacionais do discurso científico: o Governador do Estado de São Paulo, João Doria.

Quem é João Doria?

João Agripino da Costa Doria Júnior, conhecido como João Doria, é atual governador de São Paulo, sendo eleito em 2018 pelo PSDB. Ele também foi prefeito da cidade de São Paulo, eleito em 2016, deixando o cargo para disputar as eleições governamentais.

Filho de um publicitário, marqueteiro político e ex-deputado federal cassado pela Ditadura Militar em 1964, Doria Jr construiu uma carreira como empresário, apresentador de programas televisivos, trabalhando também em cargos públicos de confiança, como Secretário Municipal de Turismo de São Paulo, em 1983, e Presidente da Embratur, em 1986. Em 2007, foi um dos principais articuladores do efêmero Movimento Cansei[i], que já mobilizava um discurso antipetista e contra a corrupção[ii].

Apesar das indicações para cargos políticos e da participação em protestos, Doria buscou construir uma imagem do empresário de sucesso que governaria o Estado assim como governou suas empresas, sempre tentando se colocar como um outsider da política: Eu sou gestor. Não tenho nada contra políticos. Mas eu não sou um [iii].

O Governador é criador e presidente licenciado do Grupo Doria, um conglomerado de empresas do ramo de comunicação e marketing, entre elas o Lide – Grupo de Líderes Empresariais, que reúne mais de 1600 empresas que representaram cerca de metade do PIB privado do Brasil em 2016[iv], uma das razões para sua boa relação com o empresariado nacional.

Para além do gestor, como busca se construir, seu perfil também traz de imediato outras características ao imaginário social.  Ao se vestir de gari, de jardineiro e de funcionário de zeladoria para divulgar suas políticas quando ainda era prefeito de São Paulo, Doria buscou se colocar como um sujeito popular, mas acabou sendo retratado como marqueteiro por seus opositores. Tendo em vista o episódio da distribuição de farinata, e de um meme popular que mostrava sua expressão de ojeriza ao consumir pastéis e um pingado, surge a imagem de aversão aos mais pobres e de almofadinha[v]. A forma autoritária que a PM agiu com o seu apoio na expulsão de moradores de rua e no massacre de Paraisópolis durante um baile funk contribuíram para passar a imagem de defensor de uma política dura de segurança pública, o que para parte da sociedade expressou desrespeito aos direitos humanos.

Depois de apoiar o então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018, Doria começou a situá-lo como seu principal antagonista a partir da crise do Covid-19. Logo, entre os apoiadores do presidente, ele passou a ser visto como traidor. O Bolsodoria, slogan que representa a antiga aliança, persegue o governador em diversas entrevistas recentes, que abordam essa mudança na relação de apoio.

O Bolsonarovírus é um problema para Doria, tendo em vista que bolsonaristas atuam em uma ampla campanha negativa contra ele, seja acusando-o de traidor, criticando as medidas de isolamento social de seu governo ou espalhando boatos contra o mesmo, tanto por meio das mídias sociais quanto de carreatas na Avenida Paulista e em outros lugares de SP. Além da traição, Doria será um possível adversário de Bolsonaro nas Eleições presidenciais de 2022, o que é sabido pelos bolsonaristas.

Apesar da forte oposição negacionista, num primeiro momento, o discurso científico de Doria conquistou muitos adeptos, inclusive entre setores progressistas. Já num segundo momento, a partir da execução do Plano São Paulo, em 1 de junho, isto é, a partir do início do fim das medidas de isolamento social, quando a maior parte dos especialistas recomendava o contrário, tal apoio progressista começou a se deteriorar.

Apesar disso, para as pretensões políticas de Doria, o acontecimento pandemia gerou oportunidades. A vacina desenvolvida pelo Estado de São Paulo em parceria com o Laboratório chinês Sinovac, que está na terceira fase de testes e tem previsão para início de produção ainda neste ano, é a principal aposta do governador para superar a crise do Covid-19 e, tem potencial para colocá-lo na disputa pela hegemonia nacional. Porém, mesmo a vacina não é consenso entre os emissores do discurso científico e negacionista, e passou a ser um elemento de disputa política devido a sua origem chinesa e ao capital político que pode gerar para quem disponibilizá-la primeiro para a população. No centro desta disputa estão Doria e seu maior antagonista, Jair Bolsonaro.

Performances em contraposição ao negacionismo

Desde o início da crise do Covid-19, Doria dizia-se alinhado com um discurso científico de combate à doença. O governador anunciou a criação do Centro de Contingência do Coronavírus ainda em fevereiro e decretou as medidas de isolamento social a partir de março.

No dia 23 de março, Doria anunciou que o médico David Uip, Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, havia testado positivo para Covid-19. No dia 24, o governador anunciou que testou negativo para o Covid-19, divulgando o laudo em sua coletiva e em sua conta do Twitter. No dia 25, ao apresentar a contraprova do teste em coletiva, ele afirmou que São Paulo não esconde informações, São Paulo demonstra informações. Poucos dias antes disso, entre 7 a 10 de março, o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva viajaram para os EUA para um encontro com Donald Trump. Nos dias que se seguiram, 23 presentes na comitiva testaram positivo para o Covid-19[vi]. Trump fez o exame e divulgou o teste: negativo. Bolsonaro, anunciou que também fez o teste e que o resultado foi negativo. Porém, apesar dos pedidos de divulgação do exame para fins de comprovação, ele não o fez. No mesmo período, o Presidente participava de atos antidemocráticos pedindo o fechamento do STF e do Congresso Nacional. Assim a performance da divulgação do exame de Doria em coletiva, assim como seus comentários, devem ser entendidos num contexto de antagonismo com Bolsonaro, representando também o antagonismo entre um discurso científico e um discurso negacionista.

 

Dória divulgando teste em coletiva no dia 24/03/20. (Crédito: Governo do Estado de São Paulo)

 

Já o mês de maio começou de forma agitada. Seus primeiros dias foram repletos de manifestações negacionistas: profissionais de saúde em protesto pacífico na Praça dos Três Poderes, onde homenageavam pessoas que perderam a vida para a doença e pediam a população que ficassem em casa, foram agredidos verbalmente por bolsonaristas na sexta-feira, dia 1. Nos dias que seguiram, carreatas e buzinaços em São Paulo e em outras cidades do país pediam o fim das medidas de isolamento social e criticavam duramente governadores, incluindo Doria. Em um desses eventos, no dia 3 de maio, manifestantes bolsonaristas bradavam em frente ao Palácio do Planalto pelo fechamento do Congresso e do STF, e jornalistas de diversos veículos de imprensa que cobriam estes atos antidemocráticos foram agredidos. Na segunda-feira dia 4, Doria, em sua tradicional coletiva no Palácio dos Bandeirantes, criticou os milicianos fantasiados de patriotas que desrespeitam a vida e promovem o ódio pelos ataques aos jornalistas e aos profissionais de saúde ocorridos nos dias anteriores.

Uma enfermeira de um hospital do interior de São Paulo recebeu um buquê de flores durante a coletiva como forma de homenagem aos profissionais de saúde do Estado.

 

Enfermeira recebendo buquê em coletiva. (Crédito: Divulgação Coren-SP)

 

Tal performance, que buscou se contrapor às hostilidades bolsonaristas, também abrangeu os profissionais de imprensa, e uma jornalista da TV Record também recebeu um buquê. Doria elogiou o papel dos veículos de imprensa durante a crise, destacando o comportamento correto e adequado ao informar os brasileiros aquilo que eles podem e devem fazer, defendendo o isolamento social, defendendo também a pluralidade de opiniões, mas de maneira sensata, equilibrada e correta. Cabe destacar a boa relação de Doria com os maiores grupos de imprensa do país. Não foram poucas as matérias positivas no Estadão e na Folha de S. Paulo sobre a atuação do governador nesta pandemia.

Outras performances importantes de Doria durante a pandemia do Covid-19 se realizam em torno do desenvolvimento de uma vacina para a doença. No dia 11 de junho, o governador anunciou em sua conta no Twitter que o laboratório chinês Sinovac Biotech, em parceria com o Instituto Butantan produziriam a Coronavac, a vacina contra o coronavírus, após os testes que comprovassem sua eficácia.

No dia 31 de julho, do Hospital das Clínicas de São Paulo para acompanhamento do início da fase 3 de testagem, Doria exibiu a vacina. Uma honra poder presenciar esse momento e contribuir com um fato histórico para a ciência do Brasil, que poderá imunizar os brasileiros e salvar milhares de vidas, postou o governador.

 

João Dória segura a dose da Coronavac (Crédito: Governo do Estado de São Paulo)

 

No mesmo dia, o principal antagonista de Doria durante a crise do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro, afirmou em live no Facebook que se fala muito sobre a vacina da covid-19. Nós entramos naquele consórcio de Oxford, e pelo que tudo indica vai dar certo e 100 milhões de unidades chegarão para nós. Não é daquele outro país, não, tá ok, pessoal? A referência negativa à China, país presente em diversas teorias conspiratórias sobre a doença propagadas por bolsonaristas, evidencia uma verdadeira corrida pela vacina, que pode recompensar o vencedor com o crescimento do número de apoiadores e um com um aumento de capital político. Três dias depois da declaração de Bolsonaro, Doria afirmou em sua conta no Twitter que torce pelo sucesso da vacina de Oxford e pelo êxito de outras vacinas em desenvolvimento ao redor do mundo. Quanto mais vacinas tivermos, melhor. Nosso inimigo é o coronavírus. Aqui em São Paulo, valorizamos a vida.

As controvérsias em torno da vacina continuaram quando Doria afirmou, no dia 16 de outubro, que a vacinação será obrigatória em São Paulo. No mesmo dia, Bolsonaro postou no Facebook que o Governo Federal não vê a necessidade de adotar tais medidas, NEM RECOMENDARÁ sua adoção por gestores locais, sobre a vacinação compulsória.

No dia 20 de outubro, o Ministro da Saúde Eduardo Pazuello anunciou a compra de 46 milhões de vacinas CoronaVac; porém, no dia seguinte, o presidente afirmou que sua decisão era a de não adquirir a vacina chinesa de João Doria. Já no dia 10 de novembro, quando a ANVISA havia decidido por suspender os estudos clínicos sobre a CoronaVac no dia anterior, Bolsonaro postou no Facebook sobre o evento: mais uma que Jair Bolsonaro ganha. Como o motivo da suspensão foi uma morte não relacionada com a vacina, no dia 12, a Agência permitiu a retomada dos testes. Segundo Doria, ficou claro que a decisão foi motivada por uma orientação ou pressão exercida pelo Palácio do Planalto[vii].

As performances sobre a vacina mostram como ela tornou-se um objeto de intensas disputas políticas entre o discurso científico e o negacionista devido a seu potencial para mobilizar aderentes.

 

Contra o coronavírus e o Bolsonarovírus: análise do discurso

A partir do referencial teórico de frames ou marcos interpretativos, buscaremos realizar uma análise do marco do diagnóstico, do marco do prognóstico e do marco de motivação. Os marcos desempenham uma função interpretativa, simplificando e condensando aspectos do que está acontecendo, visando mobilizar apoiadores, angariar apoio de espectadores e desmobilizar antagonistas[viii].

 

 

O marco de diagnóstico busca identificar o diagnóstico do problema, bem como a injustiça que se destaca. Para Doria, a pandemia do coronavírus, que afetou e afeta milhares de vidas, demanda medidas de isolamento social e de proteção para salvar vidas. Jair Bolsonaro, entretanto, se coloca como um empecilho para a superação da doença. O presidente da República não usa máscara, estimula a aglomeração, cumprimenta pessoas, beija e abraça crianças, não usa álcool em gel nem fala da importância do isolamento. Além disso, as fake news, que incentivam a população a não respeitarem as medidas de saúde, que mobilizam um discurso anticomunista a partir da China para negarem a vacina em desenvolvimento em São Paulo, e que minimizam a pandemia, fazem parte do problema.

Para João Doria, o presidente e seus apoiadores atrapalham o combate ao vírus, promovendo o ódio, convocando manifestações antidemocráticas, atacando profissionais de saúde, políticos e a imprensa, não ajudando os estados, bem como desencorajando o isolamento social. Isso põe vidas em risco e, consequentemente, intensifica problemas econômicos, como o desemprego, já causados pelo vírus. Sendo assim, as vidas perdidas por causa do coronavírus agravado pelo estímulo à desobediência à saúde e à medicina por parte do presidente Jair Bolsonaro é  a  injustiça que se destaca.

Já o marco de prognóstico busca soluções para os problemas diagnosticados. Nesse sentido, ao combater a pandemia do Covid-19 em seu estado, João Doria prioriza, em suas palavras, salvar vidas. Em SP, nunca trabalhamos com a falsa polêmica entre saúde e economia. As duas coisas andam juntas, disse o governador. Para isso, a ciência e a medicina são fundamentais. São elas que apontarão os caminhos para salvar o maior número de vidas possíveis, já que toda vida importa.

Para o governador, diante da pandemia o que deveria determinar os passos do governo oficialmente é a ciência, a medicina e saúde, não a política e nem a economia ou pressões, numa clara alusão ao seu antagonista principal. O discurso científico de Doria se contrapõe a todo tempo ao discurso negacionista do presidente. Este estimula o povo do seu país na desobediência à saúde e à medicina, além de participar de atos antidemocráticos e de não fornecer ajuda econômica aos Estados, e é contra o que o governador defende. Além de Bolsonaro, seus filhos, apoiadores bolsonaristas, manifestantes de carreatas, atores sociais que não respeitam as políticas de isolamento social e compartilham fake news e extremistas de direita são os que se colocam contra a dimensão vencedora de Doria para o enfrentamento dos problemas.

Por isso, além do coronavírus, existe o problema do bolsonarovírus, representado pelo posicionamento do presidente em relação a medidas de combate à pandemia: ser contrário ao isolamento social; minimizar a doença; convocar manifestações antidemocráticas; fornecer baixa ajuda econômica para estados, pessoas e empresas. Resumindo o problema: Estamos lutando contra o coronavírus e contra o Bolsonarovírus.

Em suas coletivas de imprensa, entrevistas e postagens no Twitter, Doria muitas vezes utilizou palavras fortes, com conteúdos que mobilizam componentes morais, para que líderes políticos negacionistas, empresários e cidadãos comuns respeitassem o isolamento social. Neste caso, podemos perceber o marco motivacional, que diz respeito a conteúdos que visam motivar pessoas a aderirem ao discurso. Logo, a ideologização da fronteira entre o nós e eles separaria o bem do mal através da moralização do debate. Enquanto no nós existiria o respeito à quarentena, ao próximo, à vida, ao luto, a profissionais de saúde, no eles prevaleceria o desrespeito ao isolamento social, o menosprezo da doença, o ódio, sentimentos muitas vezes personificados na figura de Jair Bolsonaro.

Aqueles que incentivam a vida normal, que pressionam o prefeito da capital, que me pressionam para que possamos agir contra os nossos princípios, a eles eu pergunto: vocês estão preparados para assinar os atestados de óbitos? Vocês estão preparados para carregar os caixões com as vítimas do coronavírus? Vocês, que defendem a abertura, aglomerações, que minimizam a crise, vão enterrar as vítimas?, disse Doria.

Além de passagens do discurso que remetem a uma moralização do debate, Doria utiliza referências para legitimar histórica, social, política e cientificamente as suas propostas. Segundo o governador, em um momento inicial da pandemia, utilizamos as experiências internacionais para aprendermos e não repetirmos erros. Quanto maior o isolamento, mais curto será o período da quarentena.

Entre as propostas para enfrentar o coronavírus, estão os investimentos realizados na estrutura de saúde: compra de equipamentos, ampliação do número de leitos, contratação de novos profissionais, a criação de hospitais de campanha, entre outras.

Uma das medidas mais propagandeadas por Doria, foi, entretanto, a criação do Comitê Empresarial Solidário, uma corrente do bem que reúne diversas empresas e que busca doações de recursos, produtos e serviços. Os valores das doações foram e são atualizados por meio de diversas reuniões. No dia 10 de agosto, o governador afirmou em seu Twitter que a marca de 1 bilhão em doações havia sido conquistada graças à colaboração de 251 empresas cidadãs e pessoas físicas. As contribuições foram feitas para famílias em situação de vulnerabilidade social e pessoas que necessitam de atendimento médico hospitalar, disse ele. A exaltação da parceria, da colaboração e da solidariedade da iniciativa privada são comuns durante toda a pandemia. O programa Alimento Solidário, que visa distribuir milhões de cestas básicas, também ocorre em parceria com empresas.

No dia 27 de maio, quando a curva de casos e de óbitos ainda estava bastante alta em São Paulo, o governador divulgou o Plano São Paulo, que previa uma contínua flexibilização das medidas de isolamento por meio de cinco fases, a partir do dia 1 de junho. Essa retomada consciente foi criada seguindo orientações da saúde e ciência, e cada região poderá reabrir determinados setores de acordo com a fase em que se encontra. As regras são: média da taxa de ocupação de leitos de UTI exclusivas para pacientes com coronavírus, número de novos casos, internações e óbitos.

Essa opção pela flexibilização, naquele momento, foi controversa para muitos cientistas e especialistas em saúde pública no Brasil, o que evidencia os limites do embasamento científico nas políticas tomadas por Doria. Por mais que o governador nunca tenha deixado de afirmar que se baseia na ciência em todas as medidas tomadas contra o Covid-19, neste caso se notaram contradições entre o dito e feito, entre a fala e a prática.

No entanto, a principal medida de combate à pandemia realizada por Doria foi a parceria firmada com a empresa chinesa Sinovac Biotech, e o Instituto Butantan, no dia 11 de junho, para a testagem e produção da vacina Coronavac contra o coronavírus. Desde essa data, esse feito tem importância fundamental para o governador em seus discursos para a busca da conquista de apoiadores.

 

Caracterização das identidades antagônicas

Segundo a teoria do discurso da Escola de Essex[ix], as identidades de um grupo são sempre baseadas nas identidades dos grupos antagonistas. Ou seja, a caracterização de um eles precede a definição de quem somos nós. Sendo, assim, a partir da definição de seus adversários, das demandas, características, valores e estratégias deles, o governador João Doria constrói discursivamente a si mesmo em relação a todos esses fatores, numa relação de oposição de significados.

 

 

Doria define quem são eles: O presidente Jair Bolsonaro, seus filhos, apoiadores bolsonaristas, milicianos ideológicos e aliados da doença, pessoas que não respeitam as políticas de isolamento social. Bolsonaro se preocupa principalmente em fazer política, termo que Doria atribui um sentido pejorativo. Fazer política se comporta como um ponto nodal, pois articula a cadeia de equivalências. O presidente também se utiliza de populismo e toma decisões baseados na ideologia. Todos esses termos remetem à politicagem, aos interesses pessoais, a uma má política, na concepção de Doria.

Aqui cabe uma problematização. Tais termos que o governador utiliza evidenciam uma visão extremamente negativa da política como um todo. Em momentos anteriores de sua carreira política, Doria deixava claro que não era um político, mas um gestor, o que já é muito contraditório. Tal posicionamento, que possui influência de ideais tecnocráticos e da pós-política, não deixa de ser uma forma de reprodução da ideologia neoliberal, e consequentemente, de fazer parte da política e de ser uma ideologia.

Voltando à caracterização das identidades do eles, o presidente e os outros atores sociais caracterizados como antagonistas do governador mobilizam principalmente o ódio, e o promovem de diversas formas: ataques à imprensa, ataques aos profissionais de saúde, ataques a governadores e prefeitos, carreatas, buzinaços, protestos anti-democráticos, violência física e verbal, desrespeito, etc.

Também reproduzem fake news, espalhando desinformação sobre diversos temas caros ao combate à doença, incentivando pessoas a arriscarem suas vidas. O menosprezo da gravidade do Covid-19 aparece tanto nas notícias falsas quanto nas decisões tomadas por achismos por parte do presidente.

A cadeia de equivalências do discurso do eles se constrói em torno do ponto nodal fazer política, e articula elementos relacionados à adjetivações políticas, já que eles são antidemocráticos e mobilizam o populismo[x]; elementos relacionados a valores, como o ódio, manifestado nos ataques à jornalistas e à profissionais de saúde; e elementos relacionados à desinformação, como fake news, como gripezinha e o menosprezo da doença, e com o estímulo à aglomerações e não utilização de máscaras.

A partir da definição de quem são eles, Doria define quem é o nós. Governadores, brasileiros de São Paulo que estão respeitando a quarentena, Sérgio Moro, Papa Francisco, ex-ministro Luiz Mandetta, maioria absoluta de médicos e cientistas, STF, imprensa, profissionais de saúde, empresas solidárias, estão todos do lado da ciência e da medicina, unidos em prol do objetivo maior de salvar vidas. Este é o ponto nodal que articula toda a cadeia de equivalências do discurso do Nós.

A solidariedade é um valor, que, em contraponto ao ódio, define ao nós. Os brasileiros de São Paulo que cumprem a quarentena são solidários. A iniciativa privada, que se reúne regularmente no Comitê Empresarial Solidário, e que participou do programa Alimento Solidário, também faz parte dessa corrente do bem. O respeito à ciência, à Saúde, à medicina é necessário para combater o populismo, a ideologia e os achismos no combate ao coronavírus. O respeito pelos profissionais de saúde que estão na linha de frente de combate ao vírus, à imprensa, que nunca desempenhou tão bem o seu papel, e à democracia, são essenciais. Só a vacina poderá salvar vidas e não a cloroquina.

A cadeia de equivalências de Doria se articula em torno do ponto nodal salvar vidas, com a valor principal da solidariedade, e com o embasamento da ciência, e agrega a valorização da imprensa e de profissionais de saúde, a união com a iniciativa privada para combate à doença, o objetivo de preservar empregos, a seriedade na tomada das decisões, e a vacina Coronavac, a principal medida propagandeada de Doria para o combate ao Covid-19.

No discurso de João Doria, prevalece o tom médico/científico. Entretanto, o tom emocional também fica evidente em alguns momentos, tanto no sentido positivo, tendo como exemplo a exaltação da solidariedade, do respeito à vida e ao próximo, quanto no sentido negativo, do medo, da culpa: Vocês estão preparados para assinar os atestados de óbitos? Vocês estão preparados para carregar os caixões com as vítimas do coronavírus? Vocês, que defendem a abertura, aglomerações, que minimizam a crise, vão enterrar as vítimas?

O governador de São Paulo possui ótima relação com os maiores veículos de imprensa do país. As medidas do governador repercutiram de forma muito positiva em editoriais e entrevistas do Jornal Estado de SP e da Folha de S. Paulo[xi].  Por diversas vezes no período da pandemia, Doria publicou textos de sua autoria nesses veículos[xii]. Suas coletivas de imprensa com informações sobre o Covid-19 ocorridas no Palácio dos Bandeirantes são todas transmitidas no YouTube e muito fáceis de serem encontradas em plataformas de busca da Internet. Os vídeos que Doria posta no Twitter, por exemplo, são bem produzidos, contrapondo-se, por exemplo, aos vídeos postados pelo presidente Jair Bolsonaro. O período em que foi apresentador do Programa O aprendiz, da TV Record, certamente o auxilia nesse caso.

Somando-se às coletivas e entrevistas para diversos veículos de imprensa no Brasil e no exterior, Doria é assíduo utilizador das mídias sociais. Ele é o governador com o maior número de seguidores no Facebook, com 2,5 milhões, apesar de ter perdido 68 mil entre março e agosto deste ano. No mesmo período, o governador ganhou 274.998 seguidores no Twitter, chegando aos 1,2 milhões de seguidores[xiii]. Já no Instagram, ele possui 1,1 milhões de seguidores.

Sendo alvo frequente de fake news por parte de bolsonaristas, Doria por diversas vezes utilizou suas mídias sociais para desmenti-las. Elas funcionam como um canal oficial do governador, onde muitas vezes, informações sobre o governo são dadas em primeira mão. Seja por parte dos já citados bolsonaristas devido à traição depois do BolsoDoria, ou de setores progressistas pela flexibilização precipitada e pela agenda neoliberal, o governador não deixou de sofrer muitas críticas nas mídias sociais durante o período da pandemia.

 

Baixa popularidade e aposta alta na vacina

De acordo com pesquisas de opinião, a pandemia não parece ter afetado muito a popularidade de João Doria quando olhamos o período como um todo, de março a setembro. As pesquisas de opinião não conseguiram constatar mudanças drásticas no percentual das avaliações positivas e negativas. Ou seja, mesmo que muito provavelmente tenha ocorrido uma mudança no perfil dos apoiadores, em termos quantitativos, o saldo se mantém próximo ao de pesquisas realizadas antes da pandemia, representando uma baixa popularidade do governador.

Porém, em alguns momentos, como no mês de abril, sua imagem positiva cresceu e sua negativa caiu, para depois, se manter numa vagarosa queda. Em junho, com 63%, a imagem negativa foi praticamente a mesma de fevereiro, com 64%, apesar da imagem positiva ter crescido de 12% para 22% no período[xiv].

O período entre meados de março e abril compreende o início dos embates entre João Doria e Jair Bolsonaro com os discursos científicos e negacionista, respectivamente, no combate à pandemia. Neste primeiro momento, setores progressistas chegaram a apoiar o governador devido ao discurso científico. Até mesmo o ex-presidente Lula, grande adversário de Doria, o apoiou no Twitter neste momento, o que foi compartilhado pelo governador em sua rede social[xv], conforme mostra a Figura 3.

 

Se Doria recebeu apoio de um lado em relação as suas medidas de combate à doença, (o que não se converte automaticamente em apoio eleitoral) ele também perdeu de outro. Os ataques realizados por Bolsonaro e seus apoiadores nas redes sociais, em protestos e carreatas e em reuniões fechadas certamente diminuíram a simpatia que parte desse estrato nutria pelo governador.

A flexibilização das medidas de isolamento ocorrida a partir da execução do Plano São Paulo, com início no dia 1º de junho, faz com que estratos que defendiam Doria por seu discurso científico, passem a criticá-lo, e a partir daí, ele certamente perdeu o apoio de setores progressistas que ganhou em um primeiro momento. Um grupo formado por mais de 40 pesquisadores do Observatório Covid-19 classificou como inadequados os indicadores epidemiológicos adotados pelo governo para avaliação das regiões do Estado sobre a possibilidade de mais flexibilização ou não[xvi]. Além disso, existia a percepção geral dos que defendiam o discurso científico de que era cedo para iniciar a flexibilização, tendo em vista a grande quantidade de mortes e contágios no momento. Ainda ocorreram controvérsias sobre o número de óbitos[xvii]. Tudo isso provavelmente contribuiu para que apoiadores aderentes ao discurso científico se afastassem de Doria a partir deste momento.

As articulações de Doria com governadores e prefeitos pelo Brasil foram importantes em um primeiro momento para negociar em bloco com o governo federal e para a troca de experiências no combate à doença. Nesse sentido, destacam-se as reuniões do Consórcio de Integração Sul e Sudeste – COSUD, que tiveram presença de governadores e secretários dos Estados pertencentes a essas regiões.

Parte do setor empresarial apoiou Doria durante a pandemia, o que se torna visível nas múltiplas reuniões do Comitê Solidário Empresarial. O mesmo se pode dizer de diversos conglomerados de mídia brasileiros como Grupo Globo, Grupo Folha e Grupo Estado, entre outros, o que é evidenciado pela frequência de participação que o governador tinha nesses espaços, bem maior do que governadores situados num campo mais à esquerda e que também defendiam o discurso científico.

Durante a pandemia, algumas pesquisas procuraram entender a avaliação do governador entre diferentes estratos da sociedade. Em duas pesquisas, uma realizada no mês de julho[xviii], e outra em agosto[xix], constatou-se que pessoas de 60 anos ou mais, e com até o ensino fundamental, são os que mais apoiam o governador, enquanto indivíduos do sexo masculino, com idade entre 25 – 44, e com até o ensino médio e até o ensino superior, são os que mais o desaprovam.

As eleições municipais também se constituem em um termômetro de popularidade. Neste sentido, a campanha de Bruno Covas como candidato à reeleição para a Prefeitura de São Paulo pouco explorou a imagem de João Doria em propagandas ou na participação de eventos[xx]. Covas se tornou prefeito no primeiro momento por ter sido eleito como vice numa chapa junto à Doria em 2016, tendo assumido quando este fora eleito para Governador, inclusive, os dois são do mesmo partido político, o PSDB. Segundo Pesquisa Datafolha, apenas 8% dos questionados votariam com certeza num candidato indicado por Doria, 11% por Bolsonaro e 20% por Lula[xxi].

Entretanto, Bruno Covas foi reeleito no segundo turno. O candidato apoiado por Jair Bolsonaro, Celso Russomanno (REP) ficou apenas em quarto lugar no primeiro turno, com 10,5% dos votos, sendo ultrapassado pelo terceiro lugar, Marcio França (PSB), e por Guilherme Boulos (PSOL), que disputou o segundo turno com Covas. A vitória simbólica de Joao Doria sobre Bolsonaro na cidade de São Paulo, porém, deve ser relativizada pela já citada pouca exploração da imagem do governador por Covas durante a campanha.

Nas eleições que disputou, João Doria mobilizou o antipetismo e a defesa de um forte liberalismo econômico, com privatizações e diminuição do Estado. Em 2018, além disso, apoiou Jair Bolsonaro e fez campanha ao lado do até então candidato à presidência com o slogan Bolsodoria. Segundo o governador, a principal justificativa para o apoio à Bolsonaro naquele momento foi o apelo liberal do ponto de vista da economia: Ele tinha o nome de Paulo Guedes como futuro ministro da Economia. E havia outro peso importante, que era a defesa da transparência e o combate à corrupção na figura de Sérgio Moro.

A partir já de 2019, devido à escalada autoritária e a um governo que não tem gestão, o afastamento entre os dois já começa segundo o governador. E com o início da pandemia, ocorreu o rompimento total devido a modos diferentes de combatê-la, o que faz com que Bolsonaro se tornasse o principal antagonista de Doria.

Essa aliança passada expressa as contradições do antagonismo atual. Se por um lado, a forma de combate à pandemia é por vezes totalmente oposta, tendo em vista os discursos negacionista e científico de cada um, por outro, existem grandes similaridades entre as pautas econômicas e de segurança dos dois, evidenciadas aqui pela simpatia do governador por Guedes e Moro.

 

Considerações finais

João Doria, o empresário de sucesso que não é político, mas um gestor, de acordo com suas palavras, adotou um discurso científico para o combate da pandemia do coronavírus no Estado de São Paulo. Sempre pautando suas políticas na ciência, na saúde, na medicina, com o objetivo principal de salvar vidas, o governador foi um dos principais porta-vozes do discurso científico no Brasil, antagonizando com o discurso negacionista de Bolsonaro.

Porém, recentemente, em 30/11, um dia após as aglomerações causadas pela eleição municipal que elegeu seu candidato, Doria anunciou que todo o Estado de São Paulo retornaria para a fase amarela[xxii] do Plano SP. Tal medida recebeu críticas de diversos cientistas – o diretor da Sociedade Paulista de Infectologia classificou o recuo como tardio e tímido, ponto de vista compartilhado com outros especialistas[xxiii].

Este recuo, junto a flexibilização precipitada do isolamento com o Plano SP num primeiro momento, somados as várias críticas de infectologistas e médicos de que as medidas de isolamento deveriam ser mais duras durante todo esse período, evidenciam diferenças entre o dito e feito[xxiv], e revelam contradições no discurso do governador.

A atuação de Doria na pandemia fez com que muitos veículos de imprensa o alçassem a presidenciável em 2022, apesar de sua popularidade em São Paulo ser baixa, com mais paulistanos reprovando que aprovando seu governo. O período da pandemia, é claro não foi homogêneo: em seu início, Doria pareceu ampliar sua imagem positiva devido a um discurso científico; mas os conflitos constantes com Bolsonaro, seu passado e um plano de reabertura que não agradou nem os negacionistas, nem os simpatizantes do discurso científico, fizeram com que a rejeição posteriormente aumentasse. Aqui, sobressai-se a importância do evento Bolsodoria: ele gerou a imagem de traidor e oportunista para os bolsonaristas, bem como, somado a diversas pautas ultraliberais na economia, dificultou e dificulta uma aproximação com o campo progressista.

Exaltando o valor da solidariedade em contraponto ao ódio, homenageando setores da sociedade como profissionais de saúde e jornalistas, prestando condolências aos falecidos, o governador buscou mobilizar sentimentos, deixando, inclusive, a discussão econômica em segundo plano.

Junto a outros dissidentes do Bolsonarismo¸ Doria faz parte de um campo com os ex-ministros Moro e Mandetta, Grupo Globo, Folha e Estado, Wilson Witzel, Ronaldo Caiado, Rodrigo Maia entre outros, que fazendo parte da direita, buscam se diferenciar do presidente em termos de performance. Mesmo adotando principalmente o discurso científico no combate à pandemia, e mesmo que não seja um grupo homogêneo, as pautas econômicas deste são próximas do ultraliberalismo econômico defendido por Paulo Guedes.

Bruno Covas, o prefeito reeleito de São Paulo, apoiado por Doria derrotou por muito Celso Russomanno, o candidato de Bolsonaro. Guilherme Boulos conquistou o segundo lugar e se consolidou como uma liderança política importante de Esquerda no cenário nacional, deixando o bolsonarismo de fora do segundo turno. A vitória simbólica do governador na eleição não deve esconder o fato de que Covas pouco explorou sua imagem devido à sua baixa popularidade. Pelo contrário, praticamente todos os candidatos da eleição buscavam conectar Doria à Covas para que a rejeição ao governador influenciasse o resultado.

A busca pela aproximação com setores além da direita com uma espécie de antipetismo moderado encontra também desafios pelas medidas liberais econômicas pelas quais Doria tem simpatia, bem como por todo o seu histórico. Ele diz que sempre defendeu um centro democrático liberal que saiba dialogar com a esquerda, a direita, que quer distância dos extremos. Apesar do antipetismo. Apesar do Bolsodoria.

Com claras pretensões de disputar a presidência em 2022, a aposta é a vacina. Doria inclusive deu diversas entrevistas na imprensa internacional sobre a mesma. Se for aprovada em todos os testes e distribuída para a população, pode significar um aumento de apoiadores. Bolsonaro, porém, busca atrapalhar esses planos quando critica a Coronavac por sua origem chinesa, quando desautoriza seu Ministro da Saúde acerca da compra de doses pelo governo federal e quando comemora a paralisação da testagem da vacina por causa de uma controvérsia sobre um óbito entre os voluntários, com participação da ANVISA. Como o discurso de Doria aponta, o Bolsonarovírus é pior do que o coronavírus.

 

 

Renan Alfenas de Mattos, Jorge O. Romano, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Paulo Augusto André Balthazar, Annagesse de Carvalho Feitosa, Eduardo Britto Santos, Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Daniel S.S. Borges, Juanita Cuellar Benavídez, Ricardo Dias, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza, Juana dos Santos Pereira, Larissa Rodrigues Ferreira, Myriam Martinez dos Santos, Pamella Silvestre de Assumpção e Vanessa Barroso Barreto são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil.

[i] O Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, ou Movimento Cansei, surgiu 5 dias depois de um acidente aéreo da TAM. Segundo Tatagiba, Trindade e Teixeira, o Cansei, como o próprio nome dizia, expressava um sentimento de basta não só em relação ao caos aéreo, mas também em relação às denúncias de corrupção do Mensalão do PT, iniciadas em 2005. Também há de se destacar o caráter elitista da base social do movimento, criticado e até ridicularizado na época. Para mais informações, ver TATAGIBA, Luciana; TRINDADE, Thiago; TEIXEIRA, Ana Claudia Chaves. CorruPTos. Um ensaio sobre protestos à direita no Brasil (2007-2015). 2015.

 

[ii] Metodologicamente, ao longo do texto, colocamos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos atores como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

 

[iii] ÉPOCA. João Doria: “Eu não sou político, não”. Época, 25 abr. 2017.  Disponível em https://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/04/joao-doria-eu-nao-sou-politico-nao.html. Acesso em 09/11/2020.

 

[iv] ÉPOCA. João Doria Jr. Época, 22 set. 2016. Disponível em: https://epoca.globo.com/tudo-sobre/noticia/2016/09/joao-doria-jr.html. Acesso em 01/06/2020.

[v] O GLOBO. Em vídeo, João Doria chama Lula de ‘mentiroso e desinformado’. O Globo, 6 maio 2017. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/em-video-joao-doria-chama-lula-de-mentiroso-desinformado-21305035. Acesso em 03/10/20.

[vi] MILITÃO, Eduardo. Sobe para 23 o número de infectados por covid-19 na comitiva de Bolsonaro. UOL, 22 mar. 2020. Disponível em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/22/coronavirus-comitiva-jair-bolsonaro-eua-donald-trump-marcelo-thome-rondonia.htm. Acesso em 09/10/20

[vii] LUZ, Sérgio Ruiz; GONÇALVES, Eduardo. João Doria: “É triste ter um presidente assim”. Veja, 9 nov. 2020. Disponível em https://veja.abril.com.br/politica/joao-doria-e-triste-ter-um-presidente-assim/. Acesso em 14/11/20.

 

[viii] BENFORD e SNOW, 2000, p.614.

 

[ix] A Teoria do Discurso Laclau e Chantal Mouffe constituiu a chamada Escola de Essex, tendo em vista que os pesquisadores eram vinculados à University of fundada por Ernesto Essex..

 

[x] Doria utiliza o adjetivo populista para caracterizar Bolsonaro em um sentido essencialmente pejorativo, diferentemente de como definem Laclau e Mouffe.

[xi] Eis alguns títulos de artigos em que a imagem de Doria foi positiva: Escolhas certas¸ publicado no dia 11 de agosto no Estadão; SP acerta ao ampliar a testagem ao setor privado, publicado na Veja no dia 25 de junho; Doria chega a 500 dias de governo ‘transformado’ em presidenciável na pandemia, publicado na Folha de S. Paulo, no dia 15 de maio; Um plano responsável, publicado no Estadão no dia 4 de abril;

[xii] Eis alguns artigos publicados por Doria no período: Butantan, a fábrica de saúde dos brasileiros no dia 25 de setembro, no Estadão; São Paulo: confiança na economia e no combate à pandemia, publicado na Folha de S. Paulo no dia 05 de junho.

[xiii] CRAVO, Alice. As duas faces da pandemia para Doria: mais seguidores no Twitter e perda de apoio no Facebook. O Globo, 8 set. 2020. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/sonar-a-escuta-das-redes/post/duas-faces-da-pandemia-para-doria-mais-seguidores-no-twitter-e-perda-de-apoio-no-facebook.html. Acesso em 02/10/2020.

[xiv] ATLAS. Pesquisa Atlas: Avaliação do governo & cenário político | Imagem dos líderes | COVID-19. AtlasIntel, 01 jul. 2020. Disponível em https://www.atlasintel.org/poll/brazil-national-2020-07-01. Acesso em 03/10/2020.

[xv] DORIA, João. “Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros.”. 2 abr. 2020. Twitter: @jdoriajr. Disponível em https://twitter.com/jdoriajr/status/1245666644875239426. Acesso em 03/10/2020

[xvi] BORGES, Beatriz; FIGUEREIDO, Patrícia; BITAR, Renata. Cidade de SP inicia reabertura, mas especialistas criticam critérios que permitem abrandamento mesmo com expansão da Covid-19. G1, 7 jun. 2020. Disponível em https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/06/07/cidade-de-sp-inicia-reabertura-mas-especialistas-criticam-criterios-que-permitem-abrandamento-mesmo-com-expansao-da-covid-19.ghtml. Acesso em 03/10/20.

[xvii] LICHOTTI, Camille. Governo Doria omitiu 11 mil casos de Covid-19 em São Paulo. Piauí, 19 jun. 2020. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/governo-doria-omitiu-11-mil-casos-de-covid-19-em-sao-paulo/. Acesso em 03/10/20.

[xviii] PARANÁ PESQUISAS. Pesquisa de Opinião Pública Município de São Paulo. Paraná Pesquisas, jul. 2020. Disponível em https://static.poder360.com.br/2020/07/parana-pesquisas-avaliacao-covas-doria-sao-paulo-12-jul-2020.pdf. Acesso em 03/10/20.

[xix] DANTAS, Renan. Governo João Doria: 55% dos paulistanos reprovam a administração. Money Times, 21 ago. 2020. Disponível em https://www.moneytimes.com.br/governo-joao-doria-55-dos-paulistanos-reprovam-a-administracao/. Acesso em 03/10/20.

[xx] RODRIGUES, Artur; AMÂNCIO, Thiago. Doria vira alvo preferencial de ataques e segue ignorado por campanha de Covas. Folha de S. Paulo, 31 out 2020. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/10/doria-vira-alvo-preferencial-de-ataques-e-segue-ignorado-por-campanha-de-covas.shtml. Acesso em 10/11/2020.

 

[xxi]GIELOW, Igor. Rivais, Bolsonaro e Doria são piores cabos eleitorais para Prefeitura de SP, mostra Datafolha. Folha de S. Paulo, 24 set. 2020. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/rivais-bolsonaro-e-doria-sao-os-piores-cabos-eleitorais-para-prefeitura-de-sp-mostra-datafolha.shtml. Acesso em 10/11/2020.

[xxii] A mudança para a fase amarela significou que a capacidade de ocupação em todos os setores reduziu de 60% para 40%; houve redução do horário de funcionamento máximo de 12 para 10 horas por dia; o limite de horário de funcionamento de bares e restaurantes passou de 23h para 22h; e foram proibidos eventos com públicos em pé. Fonte: conta do Twitter de João Doria. Disponível em: https://twitter.com/jdoriajr/status/1333729053329809408/photo/1.

[xxiii] Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/endurecimento-da-quarentena-em-sao-paulo-timido-tardio-avaliam-especialistas-24773966.

[xxiv] Este caso evidencia a variedade dentro do que caracterizamos como discurso científico: cada ator político está posicionado num ponto diferente em uma escala gradativa de acordo com suas adesões a medidas embasadas cientificamente para o combate ao Covid-19. Por exemplo, uma Instituição de Saúde como a Fiocruz está mais próxima de um discurso científico ideal do que João Doria ou Ronaldo Caiado, o que significa que é maior a tendência de que os dois últimos defendam algumas medidas sem embasamento científico, influenciadas por outros interesses de natureza político-econômica.

 



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