Do triunfalismo ao desastre - Le Monde Diplomatique

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES D

Do triunfalismo ao desastre

por Steven C. Clemons
1 de outubro de 2001
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Os Estados Unidos não compreenderam a verdadeira natureza das novas relações internacionais, nem a distância radical que separa sua visão ? de satisfação consigo próprios ? e o olhar que lhe lançam as outras nações e povos do mundoSteven C. Clemons

“Deus permitiu aos inimigos da América inflingir-nos o que provavelmente merecemos”. Assim reagiram aos atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos, dois “tele-evangélicos” influentes, Jerry Falwell e Pat Robinson1 , aliados decisivos do presidente George W. Bush por ocasião de sua vitória eleitoral. Falwell acrescentou: “São os pagãos, os aborteiros, as feministas, os gays, as lésbicas e a ACLU2 que, ao tentarem secularizar a América, permitiram este acontecimento! Digo isso apontando-os com o dedo!” Tal reação mostra que o fanatismo não é monopólio de religião alguma. Mas isso não desfaz o consenso: a maioria dos norte-americanos exige uma vingança rápida contra os responsáveis pelo ataque terrorista. Raros são os que tentam compreender suas causas.

Como teria sido possível perpetrar a mais grave agressão em território norte-americano desde 1812? Sem dúvida, para muita gente, o triunfalismo norte-americano do pós-guerra fria tem muito a ver com isso. Os Estados Unidos não compreenderam a verdadeira natureza das novas relações internacionais, nem a distância radical que separa sua visão, de satisfação consigo próprios, e o olhar que lhe lançam as outras nações e povos do mundo. Não se ajustaram às realidades do pós-guerra fria: em vez de desmantelar, depois do desaparecimento da União Soviética, uma superestrutura imperial muito cara e afinal, ineficaz, tentaram conservar e consolidar sua supremacia.

A manipulação da informação

Desse ponto de vista, os atentados de 11 de setembro não constituem uma anomalia, mas refletem a tensão das mudanças que afetam o sistema mundial e a incapacidade de Washington de integrar as realidades políticas e institucionais da nova era. A rivalidade americano-soviética foi, por muito tempo, confortável para as elites políticas e militares norte-americanas. Seus parâmetros eram claros e os comportamentos previsíveis. Os Estados Unidos pensaram se sentir seguros obtendo armas e sistemas de informação cada vez mais sofisticados e caros. Essa política foi adotada pelo Pentágono durante o pós-guerra fria, como se constatou e como se constata ainda em seu projeto de militarizar o espaço contra um inimigo por ora inexistente. Durante anos, generais e dirigentes políticos dóceis mentiram sobre a natureza das ameaças para justificar a manutenção das estruturas militares, do sistema de organização, as despesas com armamento e as bases estrangeiras saídas da guerra fria. Percebe-se, então, que a nova corrida armamentista no espaço e o projeto de defesa anti-balística não correspondem às verdadeiras necessidades de segurança do país.

A rivalidade americano-soviética era confortável para as elites políticas e militares: tratava-se de parâmetros claros e comportamentos previsíveis

Há anos, todas as análises sérias sobre os riscos salientavam a ameaça crescente de atentados terroristas em solo norte-americano. Por exemplo, o relatório da Comissão Legislativa Hart-Rudman, publicado em 1999, observava: “Já não será necessário a pequenos Estados ou grupos de indivíduos, seja de organizações mafiosas ou terroristas, investir pesado em ciência ou na indústria para se apropriar de tecnologias muito perigosas […].Provavelmente, norte-americanos morrerão em seu território, talvez em grande número3.” Mas as agências de informação (CIA, FBI e NSA), bem como o Pentágono, continuaram a apoiar-se no passado para determinar suas futuras estratégias. Como fizera o militante norte-americano de extrema-direita Timothy McVeigh, autor do atentado em Oklahoma City (168 mortos) em abril de 1995, Osama bin Laden manipulou a revolução da informação em seu proveito. Um e outro compreenderam que os pequenos possuem capacidades de ação de conseqüências imensas, ignoradas pelos grandes Estados em sua cegueira.

Os custos da máquina militar global

Obcecadas pelas noções de poder e dominação herdadas da guerra fria, as instituições norte-americanas desenvolveram uma retórica em torno dos “Estados-bandidos4” e preconizaram os escudos de defesa anti-balísticos. Mas por que os terroristas gastariam seus recursos a pôr em prática um ataque balístico se dispõem, como infelizmente se acabou de ver, de meios mais eficazes de terror, como os aviões de carreira? A superestrutura imperial parece mal adaptada aos novos desafios mundiais e vulnerável às novas formas de competição política: eis por que o Pentágono se mostra incapaz de administrar conflitos assimétricos (leia, nesta edição, o artigo de Marwan Bishara) como o que acaba de eclodir.

Esta dificuldade vem sendo apontada ao menos desde 1985, bem antes do fim da guerra fria e da dissolução da União Soviética, em 1991. Já com Ronald Reagan, o aumento das verbas destinadas à manutenção da máquina militar global criava um crescente mal-estar econômico e político. Não se trata somente das verbas destinadas a financiar o material e o pessoal das forças armadas. É preciso acrescentar o enorme custo que representaram as concessões dadas aos aliados militares dos Estados Unidos na Ásia: em troca da conservação da rede militar norte-americana, Tóquio e outras capitais obtiveram um acesso preferencial e sem obstáculos ao mercado norte-americano. Desde o seu começo, a aliança americano-nipônica se baseou num arranjo totalmente estranho aos princípios do mercado e que responde às necessidades de segurança de uma nação que protege seu império de incursões soviéticas. O Japão se submeteu, tornando-se um vassalo ou “um satélite dos Estados Unidos na Ásia Oriental”, como escreveu o ensaísta Chalmers Johnson.

Criador questiona a criatura
Como fizera Timothy McVeigh, autor do atentado em Oklahoma em 1995, Osama bin Laden manipulou a revolução da informação em seu proveito

Em 1985, por ocasião dos chamados acordos do Plaza5, os Estados Unidos tornaram-se o principal devedor internacional e o Japão o principal credor. Sob pressão política, o governo Reagan orquestrou uma manipulação maciça das taxas de câmbio, depreciando fortemente o valor do dólar (em cerca de 50%, com relação ao iene) para fazer voltar a crescer a economia norte-americana. Ora, essa intervenção teve por conseqüência a criação de novos e profundos desequilíbrios. Conduziu a um maremoto de investimentos nos Estados Unidos, financiados por ativos japoneses que subitamente duplicaram de valor. Em outras palavras, para lutar contra o império soviético, obsessão central do governo Reagan, Washington adotou políticas que conduziram a uma venda maciça dos ativos norte-americanos e à perda de controle de sua dívida soberana em favor de um de seus satélites que, por seu lado, viu surgir uma enorme bolha financeira. Quando o valor do terreno ocupado pelo palácio imperial de Tóquio ultrapassou o da Califórnia inteira, ficou evidente que os mercados não estavam funcionando normalmente. O acontecimento de setembro de 1985 foi o primeiro choque indicando que os custos de preservação do império norte-americano tinham-se tornado econômica e politicamente insustentáveis.

É possível fazer uma análise análoga da crise financeira de 1997-1998. Durante a guerra fria, a União Soviética e os Estados Unidos forçaram o mundo a escolher seu campo. Os dois construíram sistemas de troca e alianças militares e implementaram uma diplomacia destinada a manter suas esferas de influência. Depois do colapso da União Soviética, a relação custo-benefício para as nações inseridas no império norte-americano mudou dramaticamente. Sem rival estratégico e menos dispostos a absorver os custos de seu império, os Estados Unidos passaram a questionar um sistema que eles mesmos construíram depois da guerra.

“Estabilizando” a Arábia Saudita

Na década de 90, impuseram aos países da Ásia oriental uma desregulamentação generalizada de seus mercados financeiros. Por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e das outras instituições de Bretton Woods, forçaram aqueles países a adotar um modelo econômico neoliberal, exigido pelo capital norte-americano em contrapartida aos seus investimentos. Essa estratégia, e não o “capitalismo de conivência” ou uma “má governança”, como freqüentemente se ouve dizer, foi a razão fundamental para a grave crise asiática de 1997



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