Docentes náufragos na pandemia e as “bolinhas Wilson” na tela

Opinião

Docentes náufragos na pandemia e as “bolinhas Wilson” na tela

por Samuel Jorge Moysés e Marco Akerman
23 de março de 2021
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A questão pode não ser tão trivial, do ponto de vista das interações dialógicas necessárias ao ensino-aprendizagem, pois certamente há muitos dramas pessoais, familiares e sociais por detrás de uma bolinha silenciosa na tela, que deixa o professor com a sensação de estar falando para si mesmo – ou como Chuck, uma angústia de náufrago estabelecendo comunicação na ausência de polifonia

No filme Náufrago[1], o personagem de Tom Hanks, Chuck Nolan, passa por uma catarse durante seu tempo em uma ilha deserta, depois que seu avião cai no Pacífico Sul. Há problemas causando sofrimento o tempo todo, por exemplo para encontrar comida; há ferimentos com risco de vida; e há solidão. Muita solidão!

A analogia que se faz a partir do título, neste esboço ensaístico, com a situação de alguns docentes durante a pandemia da Covid-19 é menos verossímil nos aspectos relativos aos problemas com comida (afinal, temos recursos e serviços de delivery, não é mesmo?). Menos ainda com ferimentos (embora aqui também haja “riscos de vida” espreitando do lado de fora de nossos domicílios).

A verossimilhança ocorre figurativamente no aspecto da solidão. Docentes são por natureza e pela sociologia da sua ocupação – e alguns são apenas nominalmente – seres gregários e habituados a uma “usina” cotidiana de muitas interações humanas e intensas trocas de saberes, de afetos e de práticas coletivas.  Em termos aristotélicos[2], encarnamos também na nossa ação a ideia de teoria, práxis e poíese – a criação de mundos. Ou em termos freireanos: a teoria sem a prática vira verbalismo, assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade.

Obviamente, não se pretende minutar aqui uma crítica de cinema. No entanto, explorar alguns aspectos do roteiro do filme, escrito por William Broyles, Jr., que talvez faça sentido para as aberturas polissêmicas do nosso ensaio. Chuck não é professor. Ele trabalha para a Federal Express, cujo acrônimo FedEx é símbolo mundial de uma empresa estadunidense de remessa expressa de correspondências de variadas categorias e serviços de logística. Ele é um empregado obcecado em entregar cada pacote no prazo. Como se vê pelo seu perfil e o objeto de seu trabalho, as possíveis analogias profissionais com professores poderiam ser intercambiáveis, uma vez que alguns professores (e gestores educacionais) veem, sim, seu trabalho como “pacotes de mercadorias”, ou commodities que devem ser entregues “no prazo” e com o perfil exigido pelo “deus mercado de trabalho”[3].

Cena do filme Náufrago (2000) – (Divulgação/ 20th Century Fox)

Na ilha, Chuck tinha resgatado do avião em que estava várias caixas FedEx, que deveriam ser entregues. Ele abriu as caixas e usou os conteúdos para sua sobrevivência, um dos quais se tornou seu único companheiro na ilha solitária, uma bola de vôlei. O monólogo do personagem, decorrente da necessidade de comunicar, é semioticamente elaborado em uma construção muito particular de signo/significado, pois a comunicação se estabelece com um “interlocutor” que é uma bola, cujo nome é Wilson.

Este “personagem assistente” não é um objeto inanimado, é o elemento fundamental para que a comunicação se efetive através da interação verbal. Este processo ocorre nas dobras culturais do eu, compreendendo que a necessidade desse desdobramento se deve ao fato de que o diálogo necessita de mais de uma pessoa – e isso vale em qualquer outra situação dialógica. Não nos esqueçamos do contexto simbólico utilizado aqui, fixando como referente a denominação do sistema de educação e formação ética da Grécia Antiga (Paideia) em que docentes estão absorvidos em sua finalidade autopoiética de produção compartilhada, dialógica[4], da excelência do ser humano[5].

Chuck está sozinho, porém a bola constitui seu duplo: assim, ele e Wilson representam a efetivação do dialogismo da linguagem, em suas múltiplas dimensões[6]. É importante lembrar, também, que a bola é “humanizada” em traços faciais marcados com o próprio sangue de Chuck.

Voltando ao tema da solidão, com ênfase para a intrigante solidão docente diante de suas telas realizando atividades virtuais (remotas), em tempos estranhos, é necessário resgatar uma breve cronologia e suas implicações globais, repercutindo no universo educacional. A Organização Mundial da Saúde (OMS)[7], em 11 de março de 2020, declarou o surto do novo coronavírus como uma pandemia global[8]. Em uma entrevista coletiva, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, observou que o número de casos fora da China tinha aumentado 13 vezes, triplicando o número de países com casos. Ele disse que a OMS estava “profundamente preocupada com os níveis alarmantes de disseminação e gravidade”, e pediu aos países que tomassem medidas imediatas para conter o vírus.  Pari e passu, muitos de nós professores recebemos um comunicado parecido com o que segue:

Prezado(a) Professor(a), frente ao impacto da pandemia do coronavírus (Covid-19), declarada pela OMS, criamos um plano de ação para o momento em que se faz necessária a parada completa das atividades presenciais. Seguindo as recomendações de autoridades sanitárias e para evitar transtornos e mudanças no calendário acadêmico, haverá capacitações e orientações para todo o corpo docente e discente migrarem suas atividades de forma efetiva para o ambiente online. Sabemos que não partiremos do zero, uma vez que nossos professores e estudantes já estão se familiarizando há algum tempo com o ensino híbrido, com a “presencialidade” virtual, com a Aprendizagem Aberta em Ambiente Virtual e com a Educação à Distância. Pode ser que nesse momento você se sinta ansioso e preocupado, o que é absolutamente normal. Estamos aqui para apoiá-lo com estratégias de ensino online e com o uso de tecnologias. Teremos também webinars semanais enquanto estivermos com as atividades presenciais paradas para solucionar dúvidas e apoiá-los. Será criada uma rede de suporte aos professores que apresentarem dificuldades com o uso de tecnologias. As oficinas serão via plataforma Zoom…

E então, em 24 horas, sentimos o impacto incontornável de um mundo acadêmico “zoomizado”. Alguns até criaram “memes Zoom-bies”.

E tome oficinas capacitantes para docentes tecnologicamente carentes: “transição para aprendizagem síncrona online”; “como criar sequências didáticas para o momento síncrono e para o momento assíncrono”; “engajamento de estudantes no ambiente virtual”; “avaliação e feedback no ambiente virtual”… dentre outras.

E, dentre outras tantas complexidades e dilemas dessa nova configuração do ambiente de aprendizagem, surge uma questão singela por parte dos estudantes. Abrir ou não abrir a câmera? Tem sido recorrente, a queixa de docentes de que os estudantes não abrem suas câmeras:

“Corpos e rostos antes comunicavam se estavam aprendendo. No ensino remoto [os estudantes] são ‘bolinhas’ com letras ou fotos ou avatares, e isso gera dificuldade em perceber e avaliar o quanto os alunos aprendem e participam do curso”.

“As bolinhas na tela incomodam, é a falta de conexão, é a falta do encontro…”

A questão pode não ser tão trivial, do ponto de vista das interações dialógicas necessárias ao ensino-aprendizagem, pois certamente há muitos dramas pessoais, familiares e sociais por detrás de uma bolinha silenciosa na tela, que deixa o professor com a sensação de estar falando para si mesmo – ou como Chuck, uma angústia de náufrago estabelecendo comunicação na ausência de polifonia.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU), a pandemia causou a maior interrupção da educação da história, alertando para a “catástrofe geracional” face ao fechamento de escolas, que afeta cerca de um bilhão de estudantes em 160 países, exacerbando iniquidades sociais enraizadas. Há muitos desafios acontecendo em contextos de exclusão digital (nada remota)[9], com a falta de acesso à internet e a dispositivos tecnológicos por parte de estudantes e professoras, além de problemas carenciais em relação a alimentação/nutrição de estudantes (feitas predominantemente em escolas)[10], ou ainda os problemas de gênero, raça, classe ou violência intradomiciliar[11]. Há casos de estudantes que argumentam que a câmera “consome mais internet” e que, também, preferem manter a privacidade de seus ambientes: “…são muitas coisas acontecendo durante a aula (rotinas da casa, cansaço, trabalho) que forçam uma dinâmica diferente”.

Uma docente sintetiza o dilema da câmara dizendo que

“[…] me senti muito próxima dos alunos no início do processo, mas sinto falta da troca do afeto, dos momentos informais de aprendizado que o ensino presencial proporciona”.

Mas o virtual ou remoto não está, decerto, isento de emoções, e não há dúvida de que agrega ao presencial, novas possibilidades de interatividade significativa. Uma professora aduz:

“Eu comecei a ler um texto em uma aula remota síncrona e me emocionei. Não consegui continuar a leitura. Então, uma aluna se prontificou a continuar a leitura. Mesmo sendo uma ‘bolinha’ ali na tela”.

A expectativa gerada por bolinhas na tela é de que não há conexão plena. O episódio revela o oposto: houve conexão significativa e participação relevante da estudante na atividade, assim como havia no contexto de exceção entre Chuck e Wilson na ilha isolada. Em busca da ampliação dessas possibilidades, professores têm manifestado o interesse de continuar aprimorando o emprego de métodos e técnicas que advirão com o desenvolvimento de novas estratégias pedagógicas estimuladas pelo que se vem denominando de “ensino híbrido” ou “modelo misto”.

O paralelo com o filme Náufrago igualmente faz lembrar dos romances de formação, nos quais os personagens passam por um processo educativo, transformando seu pensamento e modo de agir. Propõe uma reavaliação no modo de pensar o mundo. Este efeito de formação, no filme, se revela em uma caixa FedEx que Chuck não abriu. A embalagem tinha asas de anjo e, de alguma forma, ele pensou que era um sinal de Deus. O pacote deu-lhe esperança de que um dia, ele iria deixar a ilha e completar a tarefa de entregá-lo. Ele o manteve por quatro anos e cruzou o oceano para sua jornada final de entrega. Ao voltar para casa, agradece ao pacote, que era uma das coisas que o mantinham vivo na ilha. Quando ele chega no endereço de entrega, percebemos que é o mesmo lugar onde o filme havia começado. Ao voltar da referida entrega há uma encruzilhada; ele para e pondera sobre seu próximo curso de ação, quando uma mulher para sua caminhonete. Ela pergunta para onde ele está indo e diz onde cada estrada o levará. Quando ela parte, ele percebe as mesmas asas de anjo na traseira do veículo.

Assim, voltando ao seu mundo (“novo” normal?), ele percebe que as coisas não são do jeito que ele as havia deixado. Por exemplo, sua esposa agora está casada com um dentista, que curiosamente já havia feito o tratamento de canal dentário em Chuck, e também tem um filho. A maneira como ele havia imaginado o reencontro deles não acontece…. Ainda assim, o filme é uma história que busca inspirar esperança e perseverança. Tendo sobrevivido àqueles anos na ilha, não há nada que possa quebrar Chuck agora. Seguir em frente é a única maneira de se mover. Ele também sabe que nunca sabemos o que o futuro nos reserva. Seu tempo na ilha o ensinou o suficiente para sobreviver às circunstâncias mais difíceis. Também aprendeu a seguir os sinais, que chegaram na hora mais oportuna e o mantiveram vivo.

Por que nós, docentes, não deveríamos seguir agora? Nossas bolinhas Wilson são seres humanos “grávidos” de futuro, plenos de possibilidades para compartilhar nossa desafiadora jornada educacional. Pois não continua válida a paráfrase de Plutarco, cuja versão moderna é atribuída ao poeta William Butler Yeats? “Educar não é encher um cântaro, mas acender um fogo”. Que a chama brilhe e aqueça nossas telas…

[1] Zemeckis, R., Náufrago (Cast Away). 2000. Disponível em: https://thecinemaholic.com/cast-away-ending/ Acesso em: 11/03/2021

[2] Borisonik, H. Pensando el trabajo a través de Aristóteles. Astrolabio: Revista internacional de filosofía, 2011. 12, 1-8.

 

[3] Antunes, R. Desenhando a nova morfologia do trabalho: As múltiplas formas de degradação do trabalho. Revista Crítica de Ciências Sociais, 2008. 83: p. 19-34

[4] Rossetto, E. A contribuição do pensamento de Maturana para a educação. Educere et Educare, 2010. 5(10): p. 1-17

[5] Oliveira, M.C.C. Da cibernética à autopoiesis: continuidades e descontinuidades. Informática na educação: teoria & prática, 2009. 12(2): p. 23-34

[6]da Costa, S.A.; A.D. da Cruz. Linguagem, ideologia e poder – o desvelamento das marcas culturais no filme Náufrago. Espaço Plural, 2006. 7(15): p. 11-14

[7] Cucinotta, D.; M. Vanelli. WHO Declares COVID-19 a Pandemic. Acta Biomed, 2020. 91(1): p. 157-160

[8] World Health Organization. WHO Director-general’s Opening Remarks at the Media Briefing on COVID-19. Geneva: World Health Organization; 2020. 2020

[9] Stevanim, L.F. Exclusão nada remota: desigualdades sociais e digitais dificultam a garantia do direito à educação na pandemia. RADIS: Comunicação e Saúde, 2020. 215: p. 10-15

[10] Ribeiro-Silva, R.d.C., et al. Implicações da pandemia COVID-19 para a segurança alimentar e nutricional no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 2020. 25(9): p. 3421-3430

[11] Estrela, F.M., et al. Pandemia da Covid 19: refletindo as vulnerabilidades a luz do gênero, raça e classe. Ciência & Saúde Coletiva, 2020. 25(9): p. 3431-3436

 

Samuel Moyses é professor da PUCPR/UFPR. Marco Akerman é professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.



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