EU NÃO SOU SEU NEGRO

Modernidades e transnacionalidades raciais de Du Bois à Baldwin (por Raoul Peck)

Documentário Eu não sou seu negro trás reflexões sobre a supremacia branca que estrutura silenciosamente o mundo moderno.

“Nem tudo o que se enfrenta pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado.”  James Baldwin apud Raoul Peck: I am not your negro (2016)  

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A questão racial é um ponto chave de análise, interpretação, crítica e transformação no ocidente desde os primórdios da modernidade nas noções de propriedade com Francis Bacon e John Locke, passando pelo capitalismo mercantilista, pelo neocolonialismo ou ao neoliberalismo contemporâneo.  

Este escrito tem por objetivo articular o documentário I am not your negro (Eu não sou seu negro), de Raoul Peck, com o pensamento racial crítico de W.E.B. Du Bois (1868-1963) e o movimento da cultura hip-hop por meio da imaginação sociológica, isto é, compreender com a história, a biografia e a estrutura social. [1] 

Começando pelo final do documentário, James Baldwin (1924-1987) se questiona: “o que os brancos têm que fazer é tentar descobrir em seus corações por que foi necessário ter um ‘negro’, em primeiro lugar. Porque eu não sou um ‘negro’, eu sou um homem. Mas se vocês acham que eu sou um ‘negro’ significa que precisam dele. […] E o futuro do país depende disso, fazendo essa pergunta ou não” (Peck, 2016, 89’).  

Considerando todo o argumento do filme, seu espraiamento e a transnacionalização estrutural, a máxima de Malcolm X permanece pertinente: “não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor”. 

Muito foi escrito em outros momentos sobre a novidade da modernidade ao instaurar categorias raciais que buscavam legitimar a expropriação e dominação sobre outros, impondo noções de propriedade como algo fundamentado filosoficamente – aqui inclui-se religiosamente.  

Outro fator moderno é seu lado oculto: a colonialidade que seleciona e condiciona dominação epistêmica, cultural, social, ética, entre outras, para buscar a produção e reprodução de sua hegemonia. Como já expôs Chales Wade Mills, as formas de contrato social tal qual estipulada pelos famosos contratualistas são permeadas, na realidade, pelo contrato racial, no qual a supremacia branca constitui um sistema político não nomeado que estrutura o mundo moderno. Assim, questões relacionadas a raça estimulam uma epistemologia invertida – uma epistemologia da ignorância – com padrões e disfunções cognitivas localizadas e globais que ensinam a ver o mundo de maneira errônea em todos os pontos do Atlântico. 

I am not your negro. Eu não sou seu negro
Crédito: Divulgação

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William Edward Burghardt Du Bois é um dos clássicos da sociologia, figurando tanto na construção da disciplina e em diálogo com outros cânones como também produzindo na sociologia contemporânea. Investigou as bases da construção do mundo moderno através de conceitos como raça, racismo e colonialismo, sempre buscando compreender a questão da “linha de cor” (colour-line). Ao analisar a trajetória, a cultura e a luta dos negros nos Estados Unidos após a Guerra Civil, evidenciou como o povo negro se reconstituiu sobre novas bases, expondo como a violência da escravidão foi substituída pela violência do racismo numa sociedade em processo de industrialização e em vias de “progresso” durante o século XIX e XX. 

Após muitas disputas, o sufrágio negro encerrou uma guerra civil, porém iniciou-se uma disputa racial, permanecendo a problemática do racismo ao longo do século XX e, como sabemos, alcançando o século XXI. Durante o processo de elaboração do que significava ser negro e estadunidense Du Bois desenvolve as noções de véu e dupla consciência, na qual o primeiro impede que os sujeitos sejam vistos como realmente são e, na contramão, impede uma leitura limpa da realidade e a segunda representa uma partição dual comportando duas almas num só corpo, um como negro, outra como cidadão estadunidense – e tudo o que cidadania implica. Num mundo hegemonicamente branco de segregação racial – e tudo que isso implica – os ideais do século XIX prometiam progresso, liberdade, fraternidade, igualdade e poder político, porém se revelaram incompletos.  

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Toda análise sobre produção cultural possui o grande dilema entre forma e conteúdo, ora com destaque para um naturalismo puro, ora para uma narrativa ficcional, cada qual com suas particularidades e consequências. Tratando-se de um documentário, o estudo fílmico possui valor histórico como signos de seu tempo, um valor de documento de seu momento no qual a forma cinematográfica não é o oposto ao seu conteúdo, mas faz parte e também o expressa. Para além dos planos e o mise-en-scène, focaremos na sua estrutura, dinâmica e composição.[2] 

Em pouco mais de 90 minutos Raul Peck parte do manuscrito inacabado Remember this house, de James Baldwin, sobre a vida – e, de certo modo, a sobrevivência de suas ideias de três líderes ativistas assassinados que marcaram a história estadunidense: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr., associando com imagens de produções culturais do movimento por Direitos Civis, Black Power, entrevistas e produções da crescente indústria cultural estadunidense. Peck constrói um argumento crítico e profundo sobre a condição negra nos Estados Unidos com respaldo e identificação em outras regiões do mundo. Se Baldwin escreveu sobre as três figuras, Peck narrou sobre quatro ao incluir relatos do escritor. 

Iniciando a narrativa na luta pelos direitos civis e pelo fim da condição apartheid propagado pelos Estados Unidos, o autor revela como, embora as figuras possuíssem temas comuns, porém origens e métodos de ação distintos, confluíram para um mesmo ponto após suas mortes: o desvelamento da realidade brutal na maior potência e suposta tuteladora da democracia ocidental. A saber: Medgar Evers foi um ativista afro-estadunidense da região do Mississipi, assassinado em 2 de julho de 1963, por um membro supremacista branco da Ku Klux Klan (KKK); Martin Luther King Jr. foi um pastor batista nascido na região da Geórgia, assassinado em 4 de abril de 1968; e Malcolm X foi ativista dos direitos humanos e defensor do Nacionalismo Negro nos Estados Unidos e fundador da Organização para Unidade Afro-Americana, nascido na região do Nebraska e assassinado em 21 de fevereiro de 1965. 

O ritmo narrativo é ditado pelo pertencimento biográfico de Baldwin como estadunidense que esteve fora de sua “pátria” por determinado tempo, porém, que sentia falta de suas conexões e não da cultura branca e consumista ao redor. A partir disso a biografia se mescla com a história dos Estados Unidos, trazendo à superfície questões estruturais não resolvidas e bombeando sangue em suas tensões cotidianas que se assumiam como públicas e coletivas com a luta pelos direitos civis.  

Ao revelar as manifestações do supremacismo branco na sociedade estadunidense por meio de registro fílmico, algumas delas com suásticas e dizeres “white power” (poder branco) e atos explícitos de violência física e simbólica, Peck apresenta ao espectador a fusão de diversos argumentos promovidos pela comunidade branca – extensivo aos “cidadãos de bem” – para manter uma estrutura colonial de privilégios, associando debates filosóficos, práticas culturais e presunções religiosas. 

Baldwin se posiciona como um intelectual público e orgânico – no melhor sentido gramsciano – sendo construído no cotidiano vivenciado das ruas do Harlem, atravessando os conflitos e ameaças sobre sua figura na Europa e também se colocando no debate ao retornar para os Estados Unidos. Os assassinatos dos três líderes atravessaram-no profundamente em seu íntimo, fazendo-o refletir sobre sua própria condição, sobre a condição coletiva no passado e no presente do país. “Pode-se dizer que Martin pegou o fardo de Malcolm, […] e que Malcolm era uma das pessoas que Martin viu no topo da montanha. Medgar era muito jovem para ver isso acontecer, embora esperasse por aquilo e não teria ficado surpreso” (ibid., 29’40’’). 

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Quatro casos emblemáticos e um modus operandi se associam e conectam à crítica descrita no documentário: (i) a preocupação de Lorraine Hansberry (1930-1965) com a civilização que produziu a fotografia de um policial com o joelho sobre o pescoço de uma mulher negra em Birmingham, Alabama, em 1963 (ibid., 37’10’’); (ii) O espancamento de Rodney King com mais de 50 golpes e uma arma de choque, em Los Angeles, em março de 1991 (ibid., 83’26’’); (iii) O assassinato de George Floyd (1973-2020) – este não representado no filme devido a temporalidade posterior –, mas diretamente relacionado pelo ato criminoso de morte por estrangulamento de um policial branco que se ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem em Minnesota, no ano de 2020, desencadeando o movimento Black Lives Matter; (iv) A necropolítica sistêmica e agenciada contra a população jovem, na qual estavam “os cadáveres dos seus irmãos e irmãs se amontoando ao seu redor. E eles não fizeram nada” (ibid., 43’), enquanto fotos de crianças e adolescentes assassinados são apresentadas.[3]  

O modus operandi de eliminação desses corpos políticos, sustentado por instituições com uma formação epistêmica específica, não se restringe ao território estadunidense, encontrando paralelos em outras regiões, como nas chacinas perpetradas pelo Estado brasileiro. Trata-se de uma lógica que remete, de forma evidente e simbólica, à imagem do joelho sobre o pescoço de uma vítima racializada em um contexto histórico de racismo estrutural. 

Recuperando a máxima de X, encontram-se entraves estruturais para uma agência revolucionária coletiva negra, pois mesmo o ato revolucionário é mais bem quisto e aceito socialmente se promulgado por uma figura branca. Segundo Baldwin: “quando irlandeses pegam armas, ou os poloneses […] ou qualquer branco no mundo e diz ‘me dê liberdade ou me dê morte’, o mundo branco inteiro aplaude. Quando um negro diz exatamente a mesma coisa, palavra por palavra, ele é acusado como criminoso e é tratado como um, e tudo que é possível é feito para que esse negro ‘malvado’ sirva de exemplo para ninguém fazer como ele” (ibid., 66’28’’). 

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Em determinado momento do documentário, Peck evidencia a alienação impulsionada pela indústria cultural, agora transformando as pessoas em consumidores e vendendo momentos e famílias felizes, especificamente a problemática inclusão forçada de pessoas negras que não encontra respaldo na realidade.[4] E de fato, o desenvolvimento da indústria cultural e o consumo amenizam os conflitos e borram a leitura da realidade. Extrapolando os limites enquadrados do documentário, pode-se recuperar outra forma de consumo – ainda que por vezes sejam inseridos na lógica dominante, mas não em sua totalidade – que é o movimento hip-hop. Logo, encontram-se duas formas de narrar e produzir cultura no cotidiano, uma movimentada pela indústria cultural, outra pela cultura resistente, tal qual o hip-hop, os escritos de Baldwin, o legado das três figuras assassinadas e o próprio documentário de Peck. 

O espraiamento da cultura hip-hop encontra terreno comum em outras situações semelhantes ao redor do globo, principalmente por países que possuem o histórico de colonização e a questão racial como ponto edificante da nação, tal qual o Brasil. Logo tanto a violência perpetrada pelo aparato burocrático-legal das instituições modernas contra a população negra são praticadas, mutatis mutandis, em outras regiões, como já mencionado em nota de rodapé. Se há espraiamento e um semelhante modus operandi quanto à violência e aos legados das colonizações, há a transfluência das formas de resistência e do sobreviver cotidiano. 

A narrativa do escrito de Baldwin diz sobre a impossibilidade da prática de escravização, racismo e perpetuação de tal estrutura de exclusão civil, política e social sem que o opressor se torne algo monstruoso. Além disso, as práticas históricas ocultam uma vantagem, pois os opressores brancos “nunca tiveram que olhar para mim”, porém “eu tinha que olhar para vocês”, concluindo que “eu sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim” (ibid., 85’49’’). O véu tornou opaca a visão dos grupos, da dupla consciência se estende uma transnacionalidade antes não prevista, a reação não pode ser calculada previamente. Referências que sustentam as micro-resistências cotidianas não faltam: o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party), o Movimento Negro Unificado [MNU], a quilombagem, o hip-hop – inclusive muito motivado pelas lideranças assassinadas supracitadas, entre inúmero outros.[5] 

Ao futuro, Baldwin se coloca como um otimista ao negar e afastar-se de um pessimismo por estar vivo e, caso contrário, seria aceitar que a vida humana é restrita ao debate acadêmico. Para Baldwin, se posicionar como um otimista é se forçar a acreditar que podemos sobreviver ao que devemos sobreviver, porém não sem ressalvas. Assim, o futuro do negro nos Estados Unidos “é precisamente tão brilhante ou tão sombrio quanto o futuro do país”, dependendo tanto dos representantes quanto do povo inteiro se vão enfrentar, lidar e abraçar o estranho que é demonizado há tanto tempo. O debate não se restringe ao solo – já muito expropriado – dos estadunidenses, mas ao ocidente como uma totalidade. 

Maurício Brugnaro Júnior é graduado em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp) e mestrando em História pela mesma instituição. É membro Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Cidade (CIEC/Unicamp), do Laboratório do Pensamento Político (PEPOL/Unicamp) e pesquisador associado do Núcleo Práxis de pesquisa, educação popular e pesquisa (USP). 

 

Referências bibliográficas 

DU BOIS, W.E.B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021. 

CULT-REVISTA BRASILEIRA DE CULTURA, São Paulo, edição N° 314, fevereiro, 2025. 

I AM NOT YOUR NEGRO. PECK, Raoul. Produção: Rémi Grellety, Hébert Peck, Magnolia Pictures, Amazon Studios, 2016, 93 min. 

MILLS, Charles Wade. O contrato racial: Edição comemorativa de 25 anos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023. 

 

[1] Agradeço a leitura atenta e correções necessárias realizadas pela minha parceira Júlia Ferraz. 

[2] Mise-en-scène [encenação, dispostos/enquadrados na cena] diz respeito ao conjunto dos elementos visuais enquadrados de uma encenação teatral ou cinematográfica, compreendendo os atores, cenário, iluminação, indumentária, maquiagem, composição, etc. 

[3] Como Tamir Rice (2002-2014), Darius Simmons (1998-2012), Trayvon Martin (1995-2012), Aiyana Stanley-Jones (2002-2010), Christopher McCray (1996-2014), Cameron Tillman (2000-2014) e Amir Brooks (1997-2014). Não pode-se não correlacionar com as mortes de Ryan da Silva Andrade Santos (com 4 anos), Thiago Menezes Flausino (13 anos), João Pedor Mattos Pinto (14 anos), Alice da Silva Almeida (3 anos), Emily Victoria da Silva (4 anos), Rebeca Beatriz Rodrigues Santos (7 anos), Ágatha Félix (8 anos) e Maria Eduarda Alves da Conceição (13 anos), por exemplo, nos últimos anos em território brasileiro. Política matou 243 crianças e adolescentes em 9 estados em 2023, aponta relatório. BBC News Brasil, 7 nov. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwygrk7re45o. Acesso em: 25 ago. 2025. 

[4] STREECK, Wolfgang. “O cidadão como consumidor”. Piauí, Tribuna livre da luta de classes, ed. 79, abril de 2013. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-cidadao-como-consumidor/. Acesso em: 14 ago. 2025. 

[5] Vale como exercício de interpretação visual a análise do álbum Cores e Valores (2014), do Racionais MC’s, com a fotografia de Malcolm X olhando tenso e atento pela janela. 

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