Dominação político-subjetiva ampliada
Resenha do livro Sociedade Psiquiátrica Avançada, de Robert Castel, Françoise Castel e Anne Lovell, publicado originalmente em 1978, na França, e que chegou ao mercado editorial brasileiro em 2025, publicado pela Edições Inadequadas
Desde meados dos anos 1960 observamos uma contínua, e irregular, discussão no âmbito da Filosofia, Sociologia e Psicologia em torno da relação entre cultura, política e subjetividade. Em particular, cresceram nas últimas décadas a análise dos efeitos do capitalismo e da modernização sobre os modos de pensar, sentir e agir a partir de diferentes perspectivas teóricas e de objetivos prático-políticos. De Herbert Marcuse a Michel Foucault, passando por Deleuze e Guattari, chegando a pensadores contemporâneos como Judith Butler, Mark Fisher e Slajov Zizek, cada um deles, em algum momento de suas elaborações intelectuais, dedicaram-se a analisar a pertinência da subjetividade como eixo para a compreensão da vida social e política. Opressão e ideologia, subalternidade e resistência, medicalização da diferença, afetividade e cultura, saúde mental e trabalho são temas recorrentes que demonstram dinâmicas do poder com foco na produção de modos de subjetivação. A atenção à subjetividade é também presente na rotina das grandes cidades, nos jornais, podcasts, e conversas nos mais variados ambientes; observa-se uma crescente preocupação com o bem-estar, práticas corporais e cuidado em saúde mental. É a partir desse duplo enquadramento: uma perspectiva política sobre a subjetividade como campo interventivo social e a emergência da preocupação sobre bem-estar e saúde mental que o livro Sociedade Psiquiátrica Avançada se mostra essencial nos tempos que correm. A obra, escrita por Robert Castel, Françoise Castel e Anne Lovell e publicada originalmente em 1978, na França, chegou ao mercado editorial brasileiro em 2025, pelas mãos das Edições Inadequadas.
Sociedade Psiquiátrica Avançada apresenta uma incomum mistura: é um meticuloso trabalho de pesquisa documental que revela a forma de desenvolvimento institucional da atenção psiquiátrica nos Estados Unidos desde o final do século XIX, analisando tensões e arranjos entre organizações médico-psiquiátricas, instâncias governamentais e sociedade civil; é também um manifesto político-social de crítica a um modo forjado na segunda metade do século XX de regulação da diferença e do desvio social e moral, que toma por base o controle do louco, mas excede este objeto específico e amplia poderes sobre outras minorias sociais, usuários de drogas, pobres, negros, homossexuais; e, por fim, é também uma aviso sobre os efeitos da crescente preocupação “psi”, a legitimação da psiquiatria, psicologia e psicanálise, além de outras técnicas corporais de regulação como garantidores de uma subjetividade disposta ao crescimento, melhoria e emancipação.

Presente, passado e futuro: novos arranjos, velhos problemas
Há, ao longo da obra, um interessante cruzamento de tempos: o passado, o presente (em 1978) e o futuro (o tempo em que vivemos e além). Analisa-se uma experiência histórica do tratamento da loucura, seus mecanismos e tensões, apontando os problemas no presente e cotejando, aqui e ali, tendências estruturais para o futuro. Os autores apresentam assim os objetivos da obra:
Os Estados Unidos são o país onde a medicina mental e suas formações anexas – psicanálise, higiene mental, técnicas de grupo, terapia comportamental, aconselhamento (counseling) etc. – penetraram mais profundamente no tecido social. É inútil supor que esses desenvolvimentos antecipem mecanicamente nosso futuro. Por outro lado, é certo que todas as sociedades modernas estão em busca de novas formas de combater a marginalidade e o desvio, e para tal, elaboram tecnologias específicas. (Castel; Castel & Lovell, 2025, p.25)
O modo específico desse arranjo assistencial nos Estados Unidos serve como modelo de tratamento social daquilo que desvia, que não funciona, que não se adéqua. Se a institucionalização da loucura já era profundamente criticada em diversos países nos anos 1970, o que Sociedade Psiquiátrica Avançada aponta de forma original é que o contrário da violência institucional pode não ser a liberdade, mas outros tipos de controle. Se algumas medidas foram fundamentais para alterar o quadro desumano de “tratamento” da loucura – a saber, a substituição da preocupação com a loucura pela busca por saúde e bem-estar, a ênfase na inserção social do louco, a invenção de formas de atendimento comunitário em saúde mental – foram elas que, ao mesmo tempo, moldaram uma ampliada integração da atenção em saúde com mecanismos de dominação capitalista. A partir da segunda metade do século XX gritamos contra a violência dos hospícios (e continuamos a fazê-lo), devemos suspeitar de outros modos, menos explícitos, de controle da diferença: o que as análises dos autores desta obra nos mostram é que em nome do bem-estar se sofisticam as formas de controle das corporações médicas, estado e grupos empresariais.
O império da subjetividade: a indústria da experiência
No nexo entre a patologização da diferença e a psicologização dos problemas sociais, Sociedade Psiquiátrica Avançada abre uma reflexão necessária aos tempos atuais, destrinchando como os saberes técnicos sobre a subjetividade deram substrato tanto para modos de dominação mais complexos, como para a expansão das potências da individualidade e da liberdade, desde que guiada por um “engenheiro da alma humana”, um agente que utiliza seu saber especializado para fornecer um caminho para a felicidade. Os autores demonstram como o crescente impacto dos saberes psis e a variedade de terapias, em termos de técnicas e temas, culminaram em um avanço sobre a subjetividade como um mercado potencialmente infinito de propostas interventivas. Exercícios físicos, práticas corporais orientais, terapias tradicionais, hibridização de misticismo e ciência, hábitos de lazer e técnicas grupais fornecem opções para que todos tenham uma vida saudável e funcional.
A visão de uma vida cotidiana totalmente permeada por esquemas médico-psicológicos. A flexibilização dos modelos de intervenção sobre o humano não impõe mais limites à sua expansão infinita. As implicações políticas dessa colonização da vida social são enormes. (Castel; Castel & Lovell, 2025, p.330)
A subjetividade como campo suscetível a diferentes formas de tratamento mostra, afinal, que ninguém está a salvo e, ao mesmo tempo, todos podem ser salvos por seus gurus ou engenheiros da alma. “Terapia para normais” e “indústrias da experiência” são termos que designam a expansão irrefreável das tecnologias de subjetivação sobre, agora, uma massa de pessoas quaisquer, desde que ávidas por se tornarem melhores e mais livres, adequando-se mais restritamente ao que lhes é proposto por um especialista.
A ideologia do growth, da expansão programática da personalidade foi, sob a aparência de uma utopia sonhadora, em nome da liberdade, da espontaneidade e da primazia do sentimento, um taylorismo da totalidade da pessoa. Eu me torno o engenheiro do meu próprio estado de alma, eu devo fazer funcionar a empresa do meu corpo produtor de sensações inefáveis. Ou melhor: preciso aprender as técnicas do prazer construído e da liberdade programada, devo me entregar a um novo especialista de barba de guru para que ele intervenha na alquimia de minha refinada singularidade. (Castel; Castel & Lovell, 2025, p.386)
Agnes Heller e Ferenc Féher em O pêndulo da modernidade escrevem: “a modernidade prospera sobre conflitos internos”. A negatividade é a chave da transformação no ordenamento moderno-capitalista de criação de novas instituições e de políticas de amarração social. E talvez seja esta também uma chave importante para entender o profundo impacto de Sociedade Psiquiátrica Avançada. A partir dos escombros dos manicômios, sob a batuta do saber psiquiátrico-psicológico, no ritmo do avanço de tecnologias de subjetivação farmacológicas e comportamentais, um novo sistema emerge. A pertinência deste livro se dá pelo cruzamento daquilo que do passado se fortificou no presente, e ainda mais pelo que a reflexão proposta nos alerta para o nosso futuro: a prevalência de modelos de tratamento psicossocial que hiper individualizam, expurgam a política e os conflitos externos da formação subjetiva, domesticam os dissidentes, normatizando a (quase) todos de modo mais profundo e sutil.
Rafael Prosdocimi Bacelar é doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor na Universidade FUMEC em Belo Horizonte, Minas Gerais.

