É a Ciência e Tecnologia, estúpido - Le Monde Diplomatique

ECONOMIA

É a Ciência e Tecnologia, estúpido

por ​Mateus Boldrine Abrita
25 de fevereiro de 2019
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O Brasil pode apresentar uma taxa de crescimento econômico nos próximos anos e também intensificar uma recuperação cíclica com as medidas liberais. Entretanto, se almeja alcançar o desenvolvimento de longo prazo, a Ciência e Tecnologia parece ser a chave.

A frase “The economy, stupid” ficou famosa em 1992, quando James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton, defendeu a importância da economia para a campanha presidencial. Este pensamento permanece importantíssimo nos dias de hoje. A despeito do debate do choque liberal proposto pelo próximo ministro da economia, nos quais possui defensores e críticos dentro das Ciências Econômicas, questões mais estruturais devem ser buscadas para que a economia brasileira alcance desenvolvimento econômico no longo prazo, sobretudo a Ciência e Tecnologia.

O choque liberal proposto para a economia brasileira tem causado muito entusiasmo no mercado financeiro e em outros setores da economia. Todavia, acreditar que este processo por si só é uma panaceia, e gerará automaticamente o desenvolvimento econômico sustentado, de longo prazo, parece um exagero. Um exemplo da experiência dos chamados “Chicago boys” foi o Chile. No governo do General Augusto Pinochet, uma equipe formada por diversos economistas instruídos na Universidade de Chicago, ligados as ideias de Milton Friedman, adotaram uma série de medidas liberalizantes na economia chilena. Apesar de ter experenciado um crescimento econômico, o Chile não conseguiu entrar no hall de renda per capita dos países desenvolvidos e apresentou um agravamento de condições sociais como concentração de renda e intensificação da pobreza.

Diante disto, o Brasil pode apresentar uma taxa de crescimento econômico nos próximos anos e também intensificar uma recuperação cíclica com as medidas liberais. Entretanto, se almeja alcançar o desenvolvimento de longo prazo, a Ciência e Tecnologia parece ser a chave. O economista Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) auxilia para a compreensão desta questão. Para o autor, o ponto basilar do capitalismo decorre dos novos métodos de produção, transporte, bens, mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista gera. Ou seja, da inovação. Este constante processo de mudança ficou conhecido como destruição criadora.

Portanto, as inovações tecnológicas ganham um destaque no desenvolvimento econômico de uma região ou país. Uma mudança qualitativa de transformação da estrutura produtiva de determinada região pode estar estreitamente relacionada com o desenvolvimento econômico. Diversos são os exemplos de países que superaram o atraso liderando as revoluções tecnológicas, como foi o caso dos EUA, superando a Inglaterra, a partir da segunda revolução. Também Japão e Coréia do Sul ganharam destaque na revolução das telecomunicações e informática iniciada em 1971. Nestas mudanças de paradigmas tecnológicos, surge uma “janela de oportunidade” para países atrasados apresentarem um melhor desempenho, diminuindo a distância e até mesmo ultrapassando o desenvolvimento tecnológico dos países avançados. Nesse sentido, é muito importante a promoção do Sistema Nacional de Inovação, com o propósito de favorecer uma maior integração, aprendizado e cooperação entre Governo, Universidades, Centros de pesquisa, fortalecendo a articulação com o setor produtivo e gerando inovações alinhadas com a fronteira tecnológica.

 

​Mateus Boldrine Abrita é professor efetivo na UEMS. Doutor em economia pela UFRGS. Possui trabalhos científicos publicados no Brasil e no Exterior.



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