É preciso salvar o multilateralismo
“Não à guerra.” Entre as nações, a Espanha fez-se ouvir com uma voz singular. Mais uma vez, depois da agressão norte-americana contra a Venezuela, depois do genocídio em Gaza. O presidente espanhol explica nestas páginas por que seu país rejeita o império da força
Ninguém muda de comportamento ao ver uma pilha de papéis. Até que alguém diga que se trata de dinheiro. John Searle, um dos filósofos mais influentes entre os que pensaram o funcionamento das instituições, recorria a esse exemplo simples para ilustrar uma verdade mais profunda: grande parte do mundo social só existe porque concordamos coletivamente que ele existe. Uma linha desenhada num mapa vira fronteira. Palavras registradas em um tratado viram obrigações vinculantes e, como se disse, um pedaço de papel vira riqueza. Essas ficções compartilhadas tornam a vida em sociedade possível. O dinheiro é uma delas. O mesmo vale para o sistema multilateral e para as regras do direito internacional que organizam as relações entre os Estados. Ainda assim, muitos, aceitando sem hesitação a primeira dessas ficções, rejeitam prontamente a segunda. O motivo é simples: algumas ficções impõem limites ao poder. E romper com a ordem baseada em regras…


Ter esse nível de conhecimento deveria ser um pré-requisito para ser presidente de qualquer país. O mundo certamente seria um lugar melhor.