Em 1939, mergulhados nos campos de refugiados espanhóis na França - Le Monde Diplomatique

JORNALISTAS SOLIDÁRIOS DOS REPUBLICANOS QUE FUGIAM DO REGIME FRANQUISTA

Em 1939, mergulhados nos campos de refugiados espanhóis na França

por Anne Mathieu
1 de agosto de 2019
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Ao final da guerra civil desencadeada pelo general Francisco Franco, a derrota dos republicanos espanhóis estava consumada. Certos de que uma repressão sem piedade os esperava na Espanha, centenas de milhares deles se refugiaram na França no início de 1939. Jornalistas de esquerda – mas não só – testemunharam de perto seu destino

“Nossa turnê de sofrimento acabou. De La-Tour-de-Carol a Argelès, passando por Saint-Cyprien, Bourg-Madame, Amélie-les-Bains, Arles-sur-Tech, Le Boulou, pudemos ver de perto a mais espantosa miséria.” Por dez dias, o repórter Ribecourt, de volta da Espanha, estivera em visita aos acampamentos dos Pireneus Orientais que recebiam a onda de republicanos espanhóis exilados. De todo o pessoal enviado para lá pela imprensa francesa de esquerda, ele era quem melhor conhecia a situação. Ribecourt trabalhava para o Ce Soir, diário dirigido pelos jornalistas-escritores Louis Aragon e Jean-Richard Bloch, e cujo secretário-geral era seu colega Paul Nizan. Criado em março de 1937 pelo Partido Comunista com o objetivo de concorrer com o Paris-Soir do industrial Jean Prouvost, do qual emprestou o essencial de seu projeto, ele valorizava fortemente a fotografia – frequentemente a cargo de Robert Capa, creditado ou não.

No dia 20 de fevereiro de 1939, a reportagem de Ribecourt começava na primeira página: “Trinta mil feridos e doentes nos campos de concentração”. Esse último termo pode causar alguma surpresa. Ele era utilizado pelo governo, na época, após definição do ministro do Interior, Albert Sarraut, no início de fevereiro: “O acampamento de Argelès-sur-Mer não será uma instalação prisional, mas um campo de concentração. Não é a mesma coisa”.1

Em 26 de janeiro de 1939, as tropas de Franco e seus aliados entraram em Barcelona. Em 4 de fevereiro, Girona foi conquistada. No dia 10 estava concluída a tomada franquista da Catalunha. Nesse meio-tempo, teve início a Retirada, “o maior êxodo já observado na fronteira francesa”.2 Centenas de milhares de espanhóis fizeram a travessia – estigmatizados como “estrangeiros indesejáveis”, conforme designação dos decretos de Daladier de 1938.

Desde o fim de janeiro de 1939, repórteres que simpatizavam com a causa republicana – alguns dos quais acompanhavam o êxodo da Espanha para a França – passaram a ser enviados para a fronteira: ou entre La Jonquera e Le Perthus, ou entre Portbou e Cerbère. Eles ficaram muito impressionados, além da carga inútil levada pelos “evacuados”, com a “fila ininterrupta” que atravessava a fronteira. “Desde a manhã, eles descem incessantemente as montanhas, em uma fila ininterrupta, alongada pelos carros empoeirados e pelos grupos de mulas sobrecarregadas com fardos e utensílios os mais diversos”, descreveu, no dia 7 de fevereiro, George Beaubois, editor do jornal comunista L’Humanité, em Le Boulou, “vila onde [os refugiados] são centralizados e vacinados”. No final de janeiro, em Le Perthus e Prats-de-Mollo, o jornalista e tradutor Louis Parrot encarou, para o Ce Soir, essas “legiões da miséria”. O termo “legião” é recorrente em todas as reportagens. Também é possível encontrar a palavra “horda” nos textos dos “enviados especiais” do SIA, jornal da Solidariedade Internacional Antifascista, organização libertária humanitária fundada na Espanha em junho de 1937. Julien Chazoff e Lucien Haussard descreveram, no dia 9 de fevereiro, uma “horda de emigrantes, fugitivos, alguns coxos, outros doentes, todos exaustos”.

Exumação de corpos que foram mortos pela ditadura de Francisco Franco (2019) (Crédito: Reuters/ Juan Medina)

“Estacionados como animais”

“Os homens ainda válidos eram escoltados para campos de internamento”, conta a historiadora Geneviève Dreyfus-Armand. “Já as mulheres e crianças, os doentes e idosos, embora muitos permanecessem nos campos de concentração durante um tempo mais ou menos longo, eram maciçamente evacuados para vários departamentos do interior, onde centros de alojamento os recebiam como era possível”. Ela dá mais detalhes: “Essas separações também eram feitas em campos de triagem ou de ‘coleta’ localizados perto da fronteira, em Prats-de-Mollo, La-Tour-de-Carol, Le Boulou, Bourg-Madame ou Arles-sur-Tech”.3

Frequentemente “refugiados”, às vezes “evacuados”, “emigrados”, “emigrantes”, mais raramente “fugitivos” – esses eram os termos usados pelos jornalistas e repórteres para designar os espanhóis naquele início de 1939. Homens, mulheres e crianças que não tinham mais terra, cujo status se baseava então na “massa” à qual pertenciam. “Internados” cuja vida, graças aos repórteres, seria acompanhada nos primeiros acampamentos, entre o fim de janeiro e o fim de fevereiro. Esses jornalistas entregaram ao leitor retratos precisos, imagens minuciosas do “drama” espanhol que se desenrolava diante de seus olhos atônitos. Entremos com eles nos campos.

Nas reportagens, predomina o tema do sofrimento. Ele se concentra em dois tormentos, ambos descritos por Ribecourt no dia 18 de fevereiro, após sua visita aos campos de Bourg-Madame: “Instalados a céu aberto, em grandes áreas nuas, [os campos] receberam milhares de refugiados. Durante vários dias e noites, milhares de seres humanos conheceram terríveis sofrimentos, a dor do frio, a angústia da fome”. Está frio, pois é inverno, e a neve tinge de branco as silhuetas que se encaminham para a fronteira. Está frio, por causa da chuva, fenômeno meteorológico recorrente, como um cenário fixo sob o qual todos os enviados especiais dirigem sua história.

A chuva é tão incessante que leva um conhecido repórter do jornal socialista Le Populaire, Jean-Maurice Hermann, a apelar ao céu: “Peçamos aos céus que não chova. A situação dessa enorme multidão será simplesmente apavorante, e seu abastecimento, quase impossível”. Hermann fora um dos primeiros repórteres franceses a entrar na península insurgente em julho de 1936, onde se entusiasmou com o “tumulto alegre e desorganizado” dos “punhos cerrados”. Depois, acompanhou a chegada dos refugiados bascos em 1937. Nesse início de 1939, ele estava em “viagem pelos campos de concentração”. Em 14 de fevereiro, dois dias após seu apelo aos céus, ele exclamou, aflito: “Aqui está! Começou a chover esta noite, uma chuva fria e cerrada”. E continuou: “Na areia suja de Argelès e Saint-Cyprien, 140 mil pessoas – o número aumenta a cada hora – amontoam-se, umas apertadas contra as outras, puxando sobre os ombros magros os poucos cobertores velhos trazidos da Espanha”.

Para combater a chuva, cobertores e calor humano. A publicação semanal da União Anarquista, Le Libertaire, mandou um editor para a região, Maurice Doutreau. Em Saint-Cyprien, para abrigar-se, além de “sua magra coberta”, os refugiados recorrem a “chapas de metal, arrancadas aqui e ali de caminhões abandonados”. Beaubois passou um mês percorrendo a região, para o jornal L’Humanité. Ele brada contra a condição “terrível” dessas pessoas, que têm apenas “o céu como teto”.

Em Argelès, “um vento glacial se eleva, soprando ao longo de toda a costa, carregando consigo uma confusão louca de roupas velhas, gravetos e areia misturada com terra” (Ribecourt). Em Saint-Cyprien, “na planície desnuda, o vento sopra com violência. Ele varre as nuvens de poeira, mugindo lugubremente, os grãos de areia fustigando os rostos” (Émile Decroix, L’Humanité).

O sofrimento dos refugiados não se limita ao frio: “Vejo alguém que chora enquanto recebe um pedaço de pão” (Hermann, Argelès). “Essas dezenas de milhares de pessoas não colocaram nada na boca desde que chegaram, o que varia entre 24 horas e três dias […]. Vi gente mascando caniços para enganar a fome…”, diz Ribecourt em Saint-Cyprien.

“Quer voltar para Franco?”, perguntam na fronteira. “Quem quer ir para Hendaya?”, gritam os gendarmes nos campos. Diante da fome e do frio suportados por esses seres humanos, Hermann “acaba ousando perguntar, sem ousar realmente acreditar em uma estratégia de tão cruel cinismo, se os refugiados não são propositalmente submetidos a tal situação justamente para que ela pese sobre sua vontade, a fim de conduzi-los à única decisão que lhes é apresentada para sair deste inferno: o retorno à Espanha fascista”.

No semanário ilustrado Regards, próximo ao Partido Comunista, Stéphane Manier dedica um artigo inteiro, em 23 de fevereiro, a um “plano” que ela atribui ao prefeito. O que há por trás desse “terror”, desse “caos”, desse “inferno” dos campos? O poder de “encantamento” do “caminho que leva a Franco”: “Assim que se inicia o itinerário Pireneus Orientais-Hendaya-Burgos, tudo se alegra. Os caminhões, os trens, a sopa quente, tudo palmilha o caminho que leva a Franco”. No mesmo dia, Doutreau dá sua opinião no Le Libertaire: “Assim que alguns dos mais fracos ou mais cansados se deixam seduzir, a situação muda. Eles são separados, mais bem alimentados, mais bem tratados e podem desfrutar de mais liberdade”.

Quanto à “questão sanitária, melhor nem falar sobre o que se passa nos campos”, afirma Marc Bernard, em 24 de fevereiro, na “publicação semanal [radical socialista] de educação cívica e ação republicana” La Lumière. Sua famosa colega Madeleine Jacob decide mostrar a realidade do acampamento de Argelès: “Andamos sobre excrementos. Não há no acampamento nem papel, nem latrinas, nem água para se lavar. Aqui alguém cozinha um punhado de arroz; ali, um homem baixa as calças e se alivia”. O acampamento, teme ela, é um ninho de micróbios, com um fedor insuportável. Ali, as chuvas são ainda mais temidas: “Está chovendo. A atmosfera é irrespirável, apesar do ar livre da praia. O cheiro que vem do chão é mais forte do que tudo. Está chovendo – isso significa que, se deixarmos essas pessoas aqui, logo se alastrará uma perigosíssima epidemia”.

A doença se instala: há “contagiosos” em La-Tour-de-Carol, além, informa Ribecourt na mesma reportagem, de “tuberculosos”, “pessoas com febre tifoide”. Em Bourg-Madame, acrescenta, há “soldados […] com infecção de vesícula” e “a sarna, como nos outros acampamentos, reina solta”. Há casos de pleurisia em Argelès, casos de disenteria em Saint-Cyprien.

Em Le Perthus, no final de janeiro, Hermann revela a brutal invasão da morte no território francês: “De repente, as pessoas abrem caminho: três fuzileiros calçando alpargatas passam com uma maca onde jaz um ferido. Logo ali há outro, mas desta vez a capa sobre o rosto não sugere mais que uma forma humana estreita e rígida…”. O detalhe das alpargatas não revela apenas a capacidade descritiva do jornalista do Le Populaire. Para os repórteres presentes no verão de 1936 na Espanha revolucionária e antifascista, as alpargatas eram uma das marcas do povo espanhol em luta, um de seus símbolos. Em 1939, nos pés desses “carabineiros” em Le Perthus, elas se transformaram nos vestígios dessa luta, substituídas pelos cobertores da Retirada, a vestimenta do povo derrotado, exilado e refugiado. Mas Hermann também fez deles um ornamento mortuário: “A fome, o frio… Subindo a avenida que leva ao acampamento, encontramos seis homens que levavam em um cobertor um jovem soldado com uma jaqueta de couro, encurvado, lívido… e que havia parado de sofrer”. No dia 18 de fevereiro, Ribecourt, em La-Tour-de-Carol, parece manter um registro contábil do desespero: “Morreram de frio, ao longo das noites, cinco, seis, sete, oito. Naquela noite, morreram sete. Um refugiado tentou mostrá-los a mim. Perto da estação, em uma grande área nua, alinhavam-se sete caixas de madeira branca…”.

No início de fevereiro, Madeleine Jacob relata uma tentativa de suicídio em Le Boulou: “Quando chegamos lá, uma tragédia acabara de acontecer. Um miliciano, em desespero, se ferira a faca. Não morreu”. Duas semanas depois, em Argelès, ela sugere que muitos “internados” pensam em suicídio: “Chove sem parar. Alguns grupos construíram cabanas, outros preferiram acender fogo com madeira. Outros pobres coitados, exaustos e sofrendo, cavaram um buraco, onde, encolhidos, tentam ocupar o menor espaço possível. Parece que esperam morrer por falta de ar”.

A revolta dos jornalistas tem como alvo a desumanização e a animalização imposta aos refugiados. “Estacionados como animais” em Argelès ou Amélie-les-Bains (Hermann, Ribecourt), “tratados quase como se fossem, em uma palavra, rebanhos de ovelhas que enchem as arenas de Céret”, perto de Saint-Cyprien (Bernard), essas pessoas não são mais consideradas como tal pelo poder dominante. “Na praia”, escreve Madeleine Jacob, “há mais de 60 mil pessoas mantidas atrás de fios de arame farpado, como criminosos ou feras perigosas.”

 

A raiva da extrema direita

Embora falte de tudo nos campos, o governo não se esqueceu de prender os refugiados com cercas e mantê-los sob custódia. No final de janeiro de 1939, Parrot observa, no Ce Soir, o seguinte contraste: “Chamaram as tropas senegalesas, mas não vimos nem em Le Perthus, nem em Bourg-Madame, nem em Prats-de-Mollo, nem em Cerbère (onde um povo, faminto e suplicante, corria sob o túnel) nenhum posto de socorro, nenhuma cozinha móvel, nenhuma distribuição de víveres”. No entanto, Émile Kahn enfatiza, no dia 15 de fevereiro, no Les Cahiers des Droits de l’Homme, que “a França popular dá tudo o que tem e gasta verdadeiros tesouros de piedade fraternal pelos refugiados que é possível ajudar”.

O jornal L’Humanité e o semanário da Confederação Geral do Trabalho, Messidor, saúdam o trabalho do Centro Sanitário Internacional, criado no início da guerra pelo médico comunista Pierre Rouquès. No Le Populaire, Roger Dufour, secretário-geral da Ajuda Socialista à Espanha Republicana, grita: “Ajude os refugiados da Espanha!”. A publicação da Liga Internacional contra o Antissemitismo (Lica) envia um caminhão para os refugiados: “Doe comida e roupas para os pobres espanhóis”. No Le Libertaire, lança-se um apelo: “Mais do que nunca, comida, roupas, cobertores, remédios”. Jornais incentivam doações, muitas vezes para crianças espanholas, como fez, no dia 10 de fevereiro, o La Flèche de Paris, veículo do movimento antifascista liderado por Gaston Bergery: “Um simples dever humanitário – ajudar as crianças espanholas”. A célebre comentarista do diário radical socialista L’Œuvre Geneviève Tabouis, encarregou-se, desde o início de janeiro, de um canal de doações de “ajuda às crianças espanholas”. E a legenda da fotografia dos refugiados na primeira página da Regards de 2 de fevereiro exclama: “Idosos, mulheres, crianças, expulsos pela invasão que se aproxima de nosso país. Abra os braços!”.

Os jornalistas destacam a solidariedade de muitos franceses. Em Le Boulou, diz Hermann no Le Populaire, “graças à incansável dedicação dos voluntários recrutados entre a população, uma boa sopa quente, uma comida apetitosa, um copo de leite confortam os refugiados”. “Em Perpignan, nas vilas vizinhas, eles são recebidos e tratados com uma dedicação que lhes permite retomar a confiança nos homens”, diz a escritora (e companheira de Aragon) Elsa Triolet na Regards. O repórter do Paris-Soir, Henri Danjou, também sublinha que “as pessoas caridosas de Perpignan […] distribuem aos miseráveis laranjas, víveres; oferecem bebidas quentes e leite”. Em sua coluna diária no Ce Soir, Aragon fala sobre o “dilúvio de cartas” de franceses oferecendo abrigo a uma criança. Uma frase de Germaine Decaris revela que o movimento de solidariedade é nacional: “Nesse momento, em Calvados, como certamente em muitas regiões francesas, produz-se o milagre dos refugiados”, escreve em L’Œuvre, no dia 11 de fevereiro.

Na imprensa conservadora, o “milagre” não é tão óbvio. Um repórter do L’Intransigeant adverte: “É quase impossível impedir que os refugiados deixem os campos para chegar ao interior do país. Perpignan já foi invadida. As patrulhas noturnas, as delegacias de polícia, as visitas domiciliares revelam todos os dias a presença de centenas de espanhóis em residência ilegal”.

No entanto, unidades coloniais guardam os campos. No Ce Soir, Ribecourt destaca a presença de “atiradores”. Hermann nota a de “soldados de infantaria” e de spahis,4 no Le Populaire; Doutreau, no Le Libertaire, observa a de “goumiers marroquinos” [soldados recrutados entre a população do Marrocos, que atuavam junto ao Exército francês na África (N.T.)]. Mas os mais mencionados são “os senegaleses”. Marc Bernard descreve o acampamento dessas tropas, perto do campo de Saint-Cyprien, na La Lumière: “Então o terreno se torna arenoso; o tráfego, mais intenso; as barreiras de guardas móveis, mais numerosas: no final da planície, os Pireneus erguem suas altas montanhas, dominando o Canigou, cobertas de neve. De repente, enormes cupinzeiros se erguem do chão, e em torno deles manchas pretas e vermelhas se movem lentamente: é o acampamento dos senegaleses”.

As medidas de segurança se justificam em razão daquilo que não se diz: o campo é uma prisão. Pior ainda, protesta Ribecourt: “As galés devem ser menos hostis que Argelès”. Hermann, em La-Tour-de-Carol, faz a seguinte comparação: “Eu fui conhecer os campos e entendi que minha visita a outras prisões decididamente não havia me ensinado tudo sobre o inferno dos campos de concentração”. Segundo ele, os “internados” eram “tratados pior do que prisioneiros de guerra”.

Madeleine Jacob assim se expressa, em 17 de fevereiro, no Messidor: “Tanto quanto tive o prazer de homenagear a humanidade dos guardas móveis que acolheram os refugiados há duas semanas em Le Perthus e Cerbère, lamento ter de denunciar a brutalidade de alguns dos encarregados do policiamento dos centros de alojamento ou dos campos”. No mesmo dia, Marc Bernard descreve, na La Lumière, uma cena que se pretendeu emblemática do tratamento infligido aos republicanos espanhóis: “Um senhor, que ousa fazer em termos educados um comentário sobre um gendarme particularmente brutal, recebe um tapa que o atira no chão. Um miliciano que tenta intervir é espancado e largado meio morto”.

No entanto, responderia, na extrema direita, a publicação do Partido Social Francês, Le Petit Journal, dirigida pelo coronel de La Rocque, que “a derrocada dos marxistas espanhóis” impõe a proteção do território. “O exército do crime está na França. O que você fará a respeito?” é a manchete do semanário antissemita Gringoire. No dia 8 de fevereiro, o jornal literário Candide tocou o alarme: “Toda a escória, toda a gentalha de Barcelona, todos os assassinos, os comunistas, os carrascos, os profanadores, todos os ladrões, todos os hereges saqueadores, todos os amotinadores sem escrúpulos explodiram em nosso solo”. Em Le Perthus, no entanto, o famoso repórter Henri Béraud esclarece, no dia seguinte, no Gringoire, que haveria no “rebanho de bons e maus: ao lado dos exaustos e moribundos, os violadores de sepulturas; de braço dado com as mulheres grávidas, os estripadores sádicos e, atrás das crianças de olhos claros, os mais atrozes celerados, os torturadores mais cruéis, os políticos mais covardes”. O Action Française, uma “publicação do nacionalismo integral”, pragueja: “A França real não quer servir de depósito para criminosos e assassinos”.

Talvez inspirada por tal raiva, pratica-se uma “brutalidade revoltante” (Ribecourt) contra homens famintos: “Eu vi um capitão de guardas móveis cobrir de coronhadas soldados que se dirigiam, sem uma palavra, sem confusão, sem revolta, mas num impulso animal e irresistível, a um caminhão de pão” (Hermann, em Argelès). “A fome era muito simples”, revela Ribecourt: “um pão para 25 soldados e, se houvesse reclamação, os senegaleses armados com cordas nodosas estavam lá para isso.” Em 14 de fevereiro, ele conta: “Eu vi pessoalmente, ontem à noite e hoje de manhã, um senegalês cair de coronhada em cima de um infeliz que voltava do arbusto de juncos vizinho só porque, cansado de esperar madeira para construir barracas, ele decidiu buscar por conta própria caniços para fazer fogo durante a noite”.

No Le Libertaire, Doutreau demora-se no sentimento experimentado pelos espanhóis diante dos soldados magrebinos: “Com uma rara falta de tato, o governo francês designou para a guarda das milícias mercenários árabes que lembram nossos camaradas os brutos do Tercio;5 seria difícil encontrar alguém mais rude”. Elemento notável, ele também faz uma análise da violência mostrada por esses spahis e “senegaleses”, que são os “cães de guarda do ‘nosso’ império”… Tais senegaleses e marroquinos eram, certificam os historiadores, “guardiães dificilmente corruptíveis e totalmente incompreensíveis”, tropas “mais seguras nas circunstâncias do que qualquer regimento francês”.6

Jornalistas também se debruçam sobre a situação das mulheres refugiadas. Julien Chazoff e Lucien Haussard contam, no SIA do dia 9 de fevereiro, o seguinte fato ocorrido em Perpignan, sob o título “Escravidão branca”: “Homens infames oferecem cem francos para a saída dos campos, uma noite no cinema e… o fim de noite”. No dia seguinte, Betty Darthel conta no La Flèche de Paris: “Em torno dessa miséria, espreitam certos cavalheiros [em Cerbère]. Há dois dias, conhecemos alguns que, obviamente, mostravam uma estranha solicitude. Eles se apressavam em ajudar as mulheres de uma forma bastante curiosa: dirigindo-as para casas com abrigo, mas sobretudo trancadas…” Essas histórias são bastante marginais nas reportagens, como o é a menção da violência exercida contra mulheres. Manier, no entanto, relata na Regards um incidente contado por um terceiro: “Em Saint-Cyprien, na noite anterior à minha visita, ‘senegaleses’, uma meia dúzia deles, entraram no acampamento das mulheres. […] Seus gritos alertaram os guardas móveis a tempo”.

Os jornalistas não sairiam ilesos de suas visões da Retirada e dos campos. Desde 1936 e o início dos bombardeios nas cidades espanholas, eles, muitas vezes, confessaram sua dificuldade de escrever sobre o que viam, de superar seus próprios limites para fornecer a informação, de assistir ao pior durante os bombardeios, quando cada centímetro do território das cidades exibia um cadáver desfigurado. “Eu estive lá, para vocês”, diz a célebre repórter comunista Simone Téry ao leitor do Messidor antes de descrever, quase clinicamente, o necrotério de Barcelona em abril de 1938.

No início de 1939, essa realidade, que se tornou a realidade do solo francês, não era menos difícil de conceber, portanto de transcrever. Parrot, em Le Perthus no final de janeiro, exclama no Ce Soir: “Nós desviamos os olhos dessa assustadora exibição das misérias humanas. Tudo o que poderia ser dito sobre o lamentável êxodo e sobre a atitude ainda mais lamentável do governo estaria abaixo da verdade!”. Em meados de fevereiro, Ribecourt se pergunta, em Amélie-les-Bains, no mesmo jornal: “Como nos deter mais tempo em todos esses sofrimentos? Como dizer em todos os seus detalhes todas as cenas que vivemos? Como destacar todas as misérias de que nos aproximamos?”.

Tendo conhecido ao longo da guerra o fogo e o sangue ao lado da população civil, os jornalistas escrevem aquilo de que se lembram. O barulho dos aviões, o espetáculo da destruição, os cadáveres, os inocentes massacrados. No dia 7 de fevereiro, Hermann proclama no Le Populaire: “Nenhum daqueles que estavam hoje em Le Perthus poderá esquecer esta visão extraordinária: um povo inteiro, preferindo o exílio à escravidão, segue sem cessar, sem pressa, sem gritos, desde as primeiras horas da manhã”. Ribecourt insiste, no dia 19 de fevereiro, no Ce Soir: “Acabo de viver 24 horas inesquecíveis, 24 horas de angústia, de miséria, de sujeira, de sangue, de frio, de grandeza; 24 horas da vida no campo de Argelès”. Em fevereiro de 1939, Téry estava em Valência.7 Em 1947, ela publicou um romance sobre a guerra espanhola, La Porte du soleil [A porta do sol], no qual inseriu muitas de suas reportagens. E acusa: “Os espanhóis podem esquecer, talvez. Mas nós, franceses, como podemos um dia nos esquecer disso?”.8

Teriam essas visões do inferno substituído definitivamente entre os jornalistas aquelas dos primeiros dias do verão de 1936, nas quais a alegria da luta fraterna competia com a empolgação dos cantos? Refletindo sobre as razões do tratamento sofrido pelos refugiados espanhóis, a narradora do romance de Téry oferece uma resposta possível: “Para essa França, o espanhol representava um perigo mortal, ele era um portador de germes: trazia o germe da liberdade”.9

Anne Mathieu é mestre de conferências em Literatura e Jornalismo na Universidade de Lorraine, diretora da revista Aden. Paul Nizan et les Années Trente e criadora do site www.reporters-et-cie.guerredespagne.fr.

1 Citado em Geneviève Dreyfus-Armand, L’Exil des républicains espagnols en France. De la guerre civile à la mort de Franco [O exílio dos republicanos espanhóis na França. Da guerra civil à morte de Franco], Albin Michel, Paris, 1999, p.61.

2 Ibidem, p.42.

3 Ibidem, p.52.

4 Soldado magrebino dos corpos da cavalaria francesa durante a colonização.

5 A Legião Estrangeira Espanhola.

6 Geneviève Dreyfus-Armand e Emile Temime, Les Camps sur la plage, un exil espagnol [Campos na praia, um exílio espanhol], Autrement, Paris, 1995, p.25.

7 Em 27 de março ocorreu a rendição dos exércitos republicanos. No dia 28, os franquistas entraram em Madri; no dia 30, em Valência e Alicante. No dia 31 foi a vez de Almeria, Cartagena e Murcia serem ocupadas. Em 1º de abril, Franco anunciou no rádio: “La guerra está terminada” (“A guerra acabou”).

8 Simone Téry, La Porte du soleil, posfácio de Anne Mathieu, L’Harmattan, Paris, 2018, p.332.

9 Ibidem, p.334.



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