Em busca da solução divina - Le Monde Diplomatique

ARGENTINA

Em busca da solução divina

por Pierre Kalfon
1 de fevereiro de 2002
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Quem são os argentinos? De onde vêm? Como chegou, essa população, a um tal estado de desespero, de raiva e de depressão, que a faz marchar em frente aos bancos, cabeça baixa, ao sol, ou a leva a saquear supermercados?Pierre Kalfon

Durante muito tempo, os argentinos (principalmente os de Buenos Aires) consideraram-se os habitantes de uma “ilha”, separada do mundo americano por um oceano econômico e cultural. Seriam mais europeus transplantados que latino-americanos, como os outros. Deus era argentino e a riqueza do país, inesgotável. Convencidos de sua opulência, ignorando o pano de fundo criollo nacional, rejeitando em bloco os países mestiços do continente, eles proclamavam, com soberba: “Somos o único país branco ao sul do Canadá…”

Eis que hoje, após as já históricas jornadas de dezembro de 2001, são levados a reavaliar essas belas convicções. Mesmo admitindo que são os homens que fazem a economia, ainda é necessário, para tentar compreender o marasmo atual, conhecer um pouco mais sobre os argentinos propriamente ditos. Quem são eles? De onde vêm? Como chegou, essa população, a um tal estado de desespero, de raiva e de depressão, que a faz marchar em frente aos bancos, cabeça baixa, ao sol, ou a leva a saquear supermercados?

Nasce a Argentina dos imigrantes

No século XIX, a pampa úmida – a melhor terra – seria conquistada, em toda sua extensão, pelo exército que liquidou a população índia sem dó nem piedade

Desde o começo, a Argentina era considerada como uma escala de passagem. Os conquistadores chegavam obcecados com a idéia de pegar o ouro e voltar; e nem se colocava a idéia de descerem de seus cavalos para trabalhar a terra, ainda que ela fosse a mais fértil do mundo. Herdeiros dessa mentalidade, os gaúchos, cavaleiros livres e, segundo a lenda, indômitos, não eram, nos tempos da Colônia, senão mestiços pobres e orgulhosos. Numa época em que, com a multiplicação das manadas de gado, até os mendigos andavam a cavalo, os gaúchos ofereciam, a baixo custo, seus serviços aos ricos criadores de bois, donos de imensas estancias. Ficavam somente o tempo que era preciso para comprar um mínimo de erva mate e fumo, e retomavam seu caminho pelos campos, com a certeza de garantir sua subsistência com o pouco que tinham, nesse “deserto de chifres”, pradaria bendita pelos deuses.

No século XIX, a pampa úmida – a melhor terra – seria conquistada, em toda sua extensão, pelo exército que liquidou as populações indígenas sem dó nem piedade. Após esse episódio de faroeste, que só terminaria em 1879, a Argentina se abriu a um “aluvião migratório” que iria mexer com tudo e faria o país entrar na modernidade.

Jamais se dirá o suficiente sobre como a Argentina foi marcada, transformada e remodelada por seus imigrantes. Domingo Faustino Sarmiento e Juan Bautista Alberdi, por exemplo, grandes figuras nacionais, sonhavam com anglo-saxões. Mas foram camponeses pobres do sul da Itália, da Galícia espanhola, do sudoeste da França, judeus da Rússia e da Polônia, sírio-libaneses e croatas que desembarcaram.

Primeiro lugar em riqueza e alfabetização

Jamais se dirá o bastante sobre como o país foi transformado e remodelado pelos imigrantes: camponeses italianos, espanhóis, judeus, sírio-libaneses…

Em 1850, a totalidade da população do país não passava de 800 mil pessoas. Em 1914, tinha decuplicado: oito milhões! Um em cada três habitantes era estrangeiro. Em Buenos Aires, um em cada dois. Mas a rápida integração, que se previa, não ocorreu. Na era possível comprar “pequenas” propriedades. A terra boa já tinha caído em mãos da oligarquia dos grandes proprietários rurais (estancieros). Para ficar rico, era preciso já ser rico. Salvo raras exceções, o fenômeno do latifúndio – impedindo os imigrantes de se afeiçoarem a uma terra que não era sua – jogou essa população nas cidades, no comércio, nos serviços públicos, nas profissões liberais ou ofícios artesanais, enfim, num proletariado urbano com algumas nuances de classe média. Ou seja: jogou-a no Partido Radical. Nas eleições de 1916 (memoráveis, pois exercia-se, pela primeira vez, o voto secreto e obrigatório), as novas classes médias conduziram ao poder um dos seus, Hipolito Yrigoyen, arquétipo radical dessa Argentina de aluviões.

Era a Idade do Ouro. Antes uma “grande cidade”, Buenos Aires tornava-se uma capital moderna, no estilo europeu. De seu porto, um centro nervoso, saíam todas as linhas de estradas de ferro que levavam às zonas rurais mais ricas para exportar carne, trigo, lã e couro para uma Europa que convalescia de uma guerra exaustiva. Chega o capital estrangeiro. Bancos e sociedades anônimas multiplicam-se. Todo mundo “tem negócios” e a Argentina passa a encabeçar os índices de prosperidade e de alfabetização do continente.

Explode a popularidade de Perón

Em 1850, a população do país não passava de 800 mil pessoas. Em 1914, tinha decuplicado: oito milhões! Um em cada três habitantes era estrangeiro

Quando a crise de 1929 pôs fim às compras e ao crédito, o radicalismo não resistiu e, em 1930, a velha Argentina conservadora dos grandes estancieros voltou, instalando no poder uma série de generais nacionalistas durante uma “década infame”. Teria Deus esquecido a Argentina? Ainda não. A II Guerra Mundial chega, oportunamente, para reativar a economia. E, em 1943, entra em cena um obscuro coronel, germanófilo, vindo de um estágio na Itália de Mussolini e na Espanha franquista: Juan Domingo Perón. Teria a visão de criar uma Secretaria de Estado do Trabalho, uma arma decisiva que iria virar de cabeça para baixo a sociedade Argentina.

No campo, os gaúchos proletarizados seriam reduzidos às dimensões de peones miseráveis. Nas cidades, surgia uma classe média de burocratas e pequenos empregados. Nos subúrbios de Buenos Aires, aumentava uma mão-de-obra abundante, mal alojada e mal paga por uma indústria manufatureira emergente, chamada “de substituição”, por interromper as importações devido ao conflito mundial. Nem o radicalismo burguês, nem os partidos de esquerda, ainda de ideologia “européia”, se preocuparam com a situação. Com a adoção de algumas medidas espetaculares – aumento dos salários, redução da jornada de trabalho, convenções coletivas e facilidades legais concedidas aos sindicatos (até então, apenas tolerados), Perón conquistou uma popularidade tão preocupante que os generais no poder o “demitiram”.

Os traços do fascismo

Foi então que ocorreram cenas jamais vistas em Buenos Aires. Vinda, subitamente, dos bairros, a famosa “ralé” dos subúrbios pobres toma a cidade, tirando as camisas (porque o calor era muito), e consegue a volta do “bom general”, que já oferecera a essa gente pobre não somente um melhor nível de vida, mas algo de que jamais ela se esqueceria e transmitiria às gerações por vir: o sentimento profundo de uma nova dignidade. O fantástico 17 de outubro de 1945, dia dos descamisados, é a data de fundação do “peronismo”, que se tornaria o maior movimento de massas da história argentina, jamais deixando, a partir de então, de intervir em sua vida política e social. Perón seria eleito presidente, bastante respeitavelmente, em 1946 e, após uma emenda ad hoc da Constituição, reeleito em 1955.

Era a Idade do Ouro. Do porto de Buenos Aires, exportava-se carne, trigo, lã e couro para uma Europa que convalescia de uma guerra exaustiva

No começo, a extraordinária prosperidade da Argentina – que, na época, exportava, ditando os preços, o suficiente para alimentar e vestir a Europa do pós-guerra – permitiu ao general-presidente adotar uma política de nacionalizações maciças, instaurando um populismo sui generis que, entretanto, tinha os traços essenciais do fascismo: o vínculo carismático com o líder, a mobilização das massas através de uma propaganda onipresente, as organizações corporativas para um melhor controle do aparelho sindical e a obtenção de um compromisso de classes destinado a tranqüilizar o patronato. “Disseram, senhores, que eu era um inimigo do capital, mas […] verão que não há melhor defensor que eu dos interesses dos empresários”, prometeu Perón, ainda em 1944, acrescentando: “Para que os operários trabalhem melhor, devem ser dirigidos com o coração. […] É preciso que os homens que tenham operários sob suas ordens consigam chegar a eles por essas vias para os dominar1 .”

A opção pela direita

A década peronista transcorreu, por inteiro, sob o signo desse perfeito cinismo, acompanhado por uma demagogia piegas e uma total ausência de escrúpulos éticos por parte das autoridades do regime e de seus clãs, com o clientelismo e a corrupção superando, “por cima da pirâmide”, o que até então havia sido a regra política. Suas cicatrizes se vêem hoje no comportamento da sociedade argentina.

À medida que a Europa se recompõe e reduz as importações, as liberalidades peronistas tropeçam na crise. Em 1955, a burguesia conservadora, com o apoio da aristocrática Marinha, obriga Perón a fugir, sem qualquer glória. Mas o peronismo sobreviveria entre a gente pobre e uma parte das classes médias, que esqueceriam os desmandos para só se lembrarem das melhorias do bem-estar cuja prova era uma legislação progressista.

A partir dessa época, a vida política argentina só pode ser definida como “pós-peronista”. Autorizado a voltar ao país em 1973, o velho líder ainda consegue 62% dos votos num plebiscito, fazendo crer à esquerda, como à direita, que será seu intérprete exclusivo. Optaria, é claro, pela direita patronal, pelo aparelho sindical da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e pelo exército, rompendo com uma juventude peronista de esquerda, os montoneros, que sonhava com uma “pátria socialista”.

A “bomba-relógio” da dolarização

Com a crise de 1929, a velha Argentina conservadora dos grandes estancieros voltou, instalando no poder uma série de generais durante a “década infame”

Pouco depois da morte de Perón, o exército assumiria o comando para pôr fim, de uma vez por todas, a esse “inimigo interno”. De 1976 a 1983, seriam os terríveis sete “anos de chumbo”. A ditadura faria desaparecer cerca de 30 mil pessoas, enquanto milhares de intelectuais e profissionais liberais tomavam o caminho do exílio.

Quando, desacreditado pelo lamentável fracasso da insensata guerra das Malvinas contra a Inglaterra (1982), o exército foi forçado a devolver o poder aos civis, a Argentina herdada pelo radical Raúl Alfonsín na era mais a mesma. Ainda traumatizada pela repressão, já tinha que enfrentar os primeiros efeitos do liberalismo econômico e financeiro. Arrochada, a classe média começa a conhecer o verdadeiro significado da pobreza e a fratura social se amplia: os 6,5% dos mais ricos dispunham de uma renda diária (95,6 dólares) trinta vezes superior aos 3,2 dólares de que dispunham os 14,6% mais pobres2 . Nos tempos da ditadura, os argentinos batizaram seu ministro das Finanças de Hood Robin porque, ao contrário de Robin Hood, “esfolava os pobres para dar aos ricos”.

A volta à democracia, em 1983, em nada mudou essa predominância do capital sobre o trabalho, já que a especulação financeira rendia mais que a produção agro-pecuária e industrial – principalmente porque os lucros foram depositados no exterior. Com o alinhamento do peso ao dólar, o peronista Carlos Menem conseguiu dominar uma inflação de três dígitos, porém acionando uma “bomba-relógio”. Com preços muito altos, e batendo de frente com o protecionismo norte-americano e europeu, as exportações estagnaram, enquanto aumentavam as importações.

Marginalização e empobrecimento

Menem privatizaria, pela força, o que Perón tinha nacionalizado e desvia para proveito pessoal, ao que consta, uma parte dos 40 bilhões de dólares obtidos com essas operações. Em seu governo, a dívida externa duplicou e, ao anunciar que a Argentina tinha entrado para o “primeiro mundo”, levou o país a viver uma abundância fictícia, comportando-se como um chefe mafioso. Seu ex-vice-presidente, Eduardo Duhalde, declarou, recentemente: “Nós somos uma classe dirigente de merda e eu faço parte dela



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