Embarcações da Flotilha são capturadas e interceptadas pela Marinha Sionista de Israel
É urgente a imposição da lei internacional
É um acontecimento tão chocante quanto histórico: civis desarmados – cidadãos de 44 nações – atravessando o mar com alimentos, medicamentos e solidariedade, foram capturados pela Marinha de Israel em águas internacionais. Esse sequestro de pessoas que não representam exércitos, mas a vida humana mais elementar, explora o limite da barbárie institucional. O mundo assiste, perplexo, à materialização de uma violência de Estado que ultrapassa qualquer retórica diplomática.
Desde 7 de outubro de 2023, Gaza vive um inferno em terra. Segundo o Ministério de Saúde local, mais de 64.900 mortes e 165 mil feridos foram registrados, entre civis esmagados por bombas, soterrados sob escombros, ou vítimas da fome e da desnutrição. Estima-se que 70% das vítimas sejam mulheres e crianças, um dado que denuncia a aplicação deliberada da guerra contra inocentes. A ONU já qualificou a ofensiva como “moral, política e legalmente intolerável”. Em meio a esse caos, bombardear um hospital, bombardear abrigos civis, negar água potável, é escalonamento de genocídio institucional.
Enquanto isso, embarcações da Flotilha Global Sumud – cerca de 50 navios, com mais de 500 ativistas a bordo, vindos da Europa, da América Latina, do Oriente e de outros continentes – zarpavam com o firme propósito de romper o bloqueio e entregar ajuda ao povo sitiado. Israel reagiu interceptando ao menos 21 embarcações, detendo 317 ativistas – que foram levados ao porto de Ashdod, onde se anuncia deportação. Esse já é um padrão: ao menos oito flotilhas anteriores foram interceptadas em mais de uma década, em operações que desafiam a legalidade marítima e humanitária.

Em resposta a esse crime internacional flagrante, alguns governos recuaram – mas outros ousaram romper o silêncio. Na Itália, sindicatos convocaram uma greve geral poderosa, mobilizando um milhão de pessoas em dezenas de cidades, exigindo o bloqueio dos portos e o fim da cumplicidade estatal com os ataques israelenses. E, em meio à crise, Roma autorizou o envio de navios de guerra para escoltar cidadãos italianos a bordo da flotilha. Espanha e Itália também enviaram embarcações navais para acompanhar a Flotilha e proteger seus nacionais. Essa movimentação concreta contrasta com a hipocrisia diplomática de muitos Estados que apenas condenam por palavras.
Na América Latina, a voz mais ousada tem vindo da Colômbia. O presidente Gustavo Petro propôs formalmente à ONU a criação de um “Exército de Salvação Mundial”, cujo primeiro mandato seria libertar a Palestina do genocídio e garantir o cumprimento da Justiça Internacional. Segundo ele, se dois terços dos países aprovarem essa resolução, cada Estado participante deverá mobilizar suas forças para essa missão de paz. Essa proposta rompe com o cinismo diplomático e assume a responsabilidade direta de quem pretende falar de solidariedade ativa.
A Indonésia também já se posicionou com clareza: anunciou que está pronta para enviar soldados imediatamente à região para garantir a segurança dos ativistas e assegurar corredores humanitários confiáveis. (Esse tipo de proposição foi tornado público nas redes e na imprensa regional.) Essa iniciativa rompe o convencionalismo diplomático: não basta dizer “somos contra a guerra”, é preciso agir, enviar tropas de paz, garantir que civis não sejam presos ou mortos por solidariedade.
Poderíamos citar aqui dezenas de nações que reconhecem Israel, mas mantêm silêncio enquanto civis de 44 países são mantidos sob detenção arbitrária. A contradição é brutal: reconhecer o Estado de Israel implica aceitar seus atos – ou então exigir com rigor que ele respeite as regras que ele mesmo aceitou ao ingressar nas Nações Unidas. A catarse moral não é mais suficiente. É urgente a imposição da lei internacional.
Esse momento exige uma pergunta direta aos BRICS, ao Brasil e demais países que falam alto, mas não fazem nada: onde está a ação? Como ficam seus discursos de multilateralismo, de solidariedade Sul‑Sul, de governança global quando cidadãos brasileiros e ativistas de dezenas de nações são sequestrados no mar? Que fibra moral resta em um Estado que fala de “nova ordem internacional”, mas cala-se diante da detenção de civis humanitários?
Não há justificativa legítima para a omissão. Não há desculpa para o silêncio. A diplomacia deve sair do recuo e da ambiguidade para fazer valer sua força real: proteger suas gentes, mobilizar a ONU, ativar o Tribunal Penal Internacional, enviar escoltas, garantir corredores de paz, exigir a liberação imediata.
E à sociedade: ocupem as redes, sim – mas preparem-se para ocupar as ruas. Documentem, protestem, façam vigílias diante de consulados e embaixadas, interrompam portos, feudais cadeias de indiferentes. Se a barbárie avança por decreto, que a resistência avance em presença. Que este crime cometido contra a Flotilha e contra Gaza seja respondido com uma força que nenhum Estado omisso poderá conter.
Porque não se detém o humanitário. Porque não se confisca a solidariedade.
Porque não se prende quem leva vida.
Flaviano Correia Cardoso é advogado humanista, ativista global contra o genocídio em Gaza, pesquisador em saúde mental no trabalho e membro da Flotilha Global Sumud.

