Emergindo ou submergindo? - Le Monde Diplomatique

Governo para o 1%

Emergindo ou submergindo?

por Carlos Fernando Galvão
10 de abril de 2020
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A esquerda sempre pregou movimentos revolucionários, e a direita, nos momentos de declínio de poder, quando põe em marcha a sua contra-revolução, falsamente em nome da democracia e da liberdade, acaba por eliminar as duas, embora não no discurso e nas aparências.

Para o filósofo Wolfgang Leo Maar (A contra-revolução no Brasil), as práticas de natureza anti-democrática que têm ganhado força no Brasil mostram que a desigualdade social é “natural”, sendo o resultado direto de um projeto de construção coletiva. O direito de justiça, nas palavras de Maar, foi sucedido pelo que chamou de “direito oligárquico” e quando esta forma “jurídica” se vê ameaçada, atua forte, de modo truculento, se precisar, para manter seus privilégios.

A esquerda sempre pregou movimentos revolucionários, e a direita, nos momentos de declínio de poder, quando põe em marcha a sua contra-revolução, falsamente em nome da democracia e da liberdade, acaba por eliminar as duas, embora não no discurso e nas aparências. A “bandeira” das reformas, há tempos, está nas mãos da direita (reforma trabalhista, previdenciária etc.) e parece que a esquerda não está sabendo como agir, senão de modo discursivo, denunciando o processo, sem poder muito mais fazer, nas práticas políticas concretas, salvo mais do mesmo e que, como vimos nas eleições de 2018, não é mais tão eficaz quanto já foi, em alguma medida.

Observemos a declaração de Roger Douglas, ex-Ministro das Finanças da Nova Zelândia entre 1984 e 1988: “Não tentem avançar passo a passo. Definam claramente seus objetivos e se aproximem deles em saltos qualitativos, para que os interesses de classe não tenham tempo de se mobilizar e atrapalhar vocês. A rapidez é essencial e nunca se vai depressa o bastante. Iniciado o programa de reformas, não parem até vê-lo concluído: o fogo do inimigo perde em precisão quando tem de atingir um adversário sempre em movimento”. Nada mais direto, nada mais (neo)liberal, no sentido político do termo, nada mais correto, em termos de tática de guerrilha para que os objetivos de um campo político sejam atingidos. A direita tem se saído melhor na estratégia de implantar uma economia que, a despeito do discurso, beneficia, com boa vontade, de 5% a 10% da população, em detrimento dos outros 95% a 90%.

Benéfico para quem?

Como reverter esse quadro? Ou seja, como desmontar o discurso de que, por exemplo, a terceirização, inclusive das áreas-fim das empresas, do setor privado, mas também do setor público, será benéfica ao emprego e aos trabalhadores? Ou de que o servidor público é um parasita esquerdóide que tem ser extirpado como ratazana prenhe? Ou de que a Previdência causa déficit público, mas juros para banqueiros, não? Ou de que políticas ambientalistas são coisa de comunista maconheiro que não deseja o desenvolvimento nacional? Ou de que os professores são doutrinadores e pedófilos à serviço do marxismo internacional para destruir a família cristã? Ou… enfim, um série de insanidades e bizarrices proferidas pelos pré medievais hoje no poder.

Missão quase impossível no atual momento da humanidade e do Brasil, mas talvez alguns indicativos de caminhos alternativos possam ser aproveitados por aqueles que, sem desprezar coisas boas de uma economia de mercado, como a concorrência (mas concorrência verdadeira, não o monopólio das grandes empresas e do sistema financeiro, que em recente pesquisa, mostrou, por intermédio de alguns de seus operadores, não se importar com um governo autoritário, desde que garanta o retorno financeiro do grande capital) pode ser benéfica à sociedade. O discurso liberal, na verdade, acaba sendo uma quimera e que só uma cidadania ativa (atenção, eu disse cidadania ativa e não um estado inflado) pode equilibrar o jogo.

Importante começar a mostrar às pessoas que, tal como dizia o sociólogo suíço Zygmunt Bauman (1925-2017), não dá pra ficar parado em areia movediça, que nos suga para o poço sem fundo de crises várias. Levando-se em conta a família padrão, utilizada pelo IBGE, que é de 4 pessoas, dos 208 milhões de brasileiros, cerca de 200 milhões são afetados, direta ou indiretamente, pelo desemprego ou pelo subemprego ou pela informalidade, em maior ou menor grau. Eis uma de nossas maiores areias movediças, sobre a qual estamos deixando afundar a nossa população e, por extensão, o nosso país.

A maior parte dos governos brasileiros governa para esses 8 milhões já privilegiados, que constituem algo como 4% dos brasileiros e para mais 16% de cidadãos que compõem as classes médias (média e média alta), grosso modo falando. Em outras palavras, nossos governos vêm administrando para 20% da população e 80% resta excluída da maior parte das benesses econômicas e políticas e, portanto, do poder social.

E não se muda isso, apenas, com a famosa conscientização social, posto que conhecer o caminho, não leva à ação consequente de o percorrermos. É necessário que consigamos “tocar”, sensível e cognitivamente, as pessoas, para que elas se motivem, já que motivação é um ato de dentro para fora, para que saiam da inércia, com carinho, solidariedade, generosidade e respeito pelo outro, e se proponham a participar, ativa e efetivamente, da vida política da sociedade em que nasceram e vivem, de modo não excludente e não autoritário, honesto e democrático.

Fácil? Não, muito difícil, mas absolutamente necessário. Sem essa medida, o radicalismo de todos os lados prosseguirá, crescerá e quando isso acontece, não dá para esperar nada de muito agradável e/ou construtivo. Se a gente plantar cactáceas, não nascerão flores silvestres.

Carlos Fernando Galvão é geógrafo e pós-doutor em Geografia Humana



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