Erica Malunguinho, na luta contra o racismo e o patriarcado - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Erica Malunguinho, na luta contra o racismo e o patriarcado

por Taís Ilhéu
dezembro 19, 2018
Imagem por Henrique Santana
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Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Erica Malunguinho falou sobre alternância de poder, Escola sem Partido, a vitória de Bolsonaro e a reestruturação da esquerda.

A candidatura quilombo se concretizou em representação de resistência e radicalidade. Radicalidade para garantir a segurança das mulheres e dos LGBTQs, acolher a população de rua, fazer valer uma educação plural, livre e democrática. Para não mais se aliar a certos discursos, ceder certos lugares. Para reescrever a história que não está registrada em muitos livros de história, mas que as paredes cobertas de fotografias, pinturas, esculturas e diversas outras intervenções artísticas do Aparelha Luzia contam.

A educadora e artista plástica Erica Malunguinho é fundadora do quilombo urbano Aparelha Luzia e, agora, recém-eleita deputada estadual em São Paulo, com mais de 50 mil votos. O espaço, onde nos recebeu para a entrevista, fica na região central de São Paulo e carrega a luta em seu nome: aparelha é o nome dado aos lugares onde militantes que faziam resistência à Ditadura Militar se reuniam, e Luzia é como foi batizado o fóssil mais antigo da América e que, segundo estudos, apresentava também traços negros.

Erica leva agora para a Alesp toda a potência desse espaço e daqueles que de certa forma o habitam, trazendo na bagagem a resistência política e cotidiana desde sempre praticada pelos povos negros. “Uma mãe preta, que cuida de cinco, quatro filhos com um salário mínimo, muitas vezes num mercado informal, isso é uma articulação política”.

Adentrar o espaço institucional representando esta coletividade é, para ela, uma urgência histórica, e especialmente no momento político que atravessamos exigirá uma mudança de postura da própria esquerda, que tem como missão trazer os historicamente marginalizados para os centros das discussões. “É alternar o poder, de fala, de decisão, de protagonismo. Porque nós não aceitaremos mais na história mediadores, intervencionistas que falem por nós. A história, como diria Lélia Gonzales, será escrita em primeira pessoa.”

A população negra, pobre, periférica, esteve até recentemente nos discursos da esquerda como alvo central de políticas públicas e sobre a qual o governo deveria agir. Qual foi a chave que virou para que essa parcela da população não fosse mais apenas receptora, mas agente institucional na política?

Toda vez que a gente fala de povos historicamente marginalizados temos que pensar como eles também estão historicamente produzindo suas narrativas de luta, de resistência e de articulações políticas. Não é de agora que o povo preto, periférico, está movimentando e agindo politicamente de diversas formas, desde as mais organizadas no sentido de uma organização como coletivos, por exemplo, mas também agindo coletivamente pela própria resistência. Uma mãe preta, que cuida de cinco, quatro filhos com um salário mínimo, muitas vezes num mercado informal, isso é uma articulação política. Ou as baianas de acarajé, tudo isso que a gente não enxerga como vetores da política. O que a gente tenta apreciar agora, nesse momento histórico, é exatamente essas mesmas articulações transferidas para a institucionalidade, e o que fez isso acontecer é obviamente fruto dessa historicidade. É irmos percebendo a necessidade de abrir para esse lugar, porque é onde outras decisões são tomadas. Isso já aconteceu em alguns momentos, com o próprio Abdias do Nascimento, Lélia Gonzales, a Leci Brandão. A gente tem tentativas, muitas pessoas que tentaram entrar na institucionalidade e não se tornou viável porque afinal de contas a estrutura é racista, independente de onde se está. O que vemos agora é fruto disso somado a uma extensão dessa consciência e dessa rede de solidariedade, de afeto, de protagonismo, de escrevência de narrativa. Entendendo que talvez da mesma forma que a gente quer representatividade na capa da revista, ou estar nas universidades, o lugar da institucionalidade política também é um lugar necessário de disputa. Sempre foi, mas acho que a consciência coletiva para que isso acontecesse se deu agora.

 

E você, em que momento sentiu que precisava se inserir no campo representativo da vida política?

Na minha situação ou de outra pessoa é sempre uma relação de uma continuidade histórica relativa a uma coletividade. Porque não diz respeito a mim, diz respeito a uma coletividade que necessita adentrar, que necessita disputar este lugar, e o que me aciona nesse processo levando em consideração isso é justamente a responsabilidade dentro dessa coletividade. Fatores externos são disparadores, obviamente, mas nossas perdas constantes que a população branca e grande parte do público só se deu conta quando Marielle foi assassinada, a gente tem visto e se debruçado no decorrer desse processo, desde a escravidão. Não tem um start. O tempo urge, existe uma urgência histórica e a gente vai assumindo e se colocando nesses lugares.

 

Uma das suas bandeiras de campanha foi a alternância de poder. No que essa alternância se difere daquela que apareceu muito nos discursos da direita e até do centro nessa eleição, que pediam renovação partidária no poder?

Essa ideia de alternância de poder que a direita e o centro colocam é muito conveniente porque a gente sabe que eles estão no poder institucional há muito tempo e não pregam alternância quando diz respeito a eles. Um exemplo disso é o próprio governo do estado de São Paulo. A alternância de poder da qual eu trato diz respeito a uma alternância sistêmica. É necessário que as pessoas que estiveram historicamente apagadas deste lugar de decisão sejam as responsáveis por tomar as próprias decisões e decidirmos nós um pouco como que se dará o novo marco civilizatório. É uma alternância inclusive identitária. Quer dizer que nós temos até então homens, brancos, cisgêneros, e esse próprio patriarcado decidindo até hoje a vida das pessoas pretas, mulheres, lgbts etc. Obviamente eu não estou falando de qualquer pessoa por ser preta, ou qualquer mulher por ser mulher cis ou trans, ou qualquer LGBT, eu estou falando de pessoas que estejam efetivamente engajadas com as lutas históricas. Na verdade a justificativa para a defesa dessa alternância identitária é ela se dar à medida que a gente entende que a política ela é feita para as pessoas. Política deve ser feita para as pessoas e as pessoas tão distanciadas dela, principalmente esses grupos. Afinal de contas, a política institucional age a partir dos setores, da educação, da saúde, da segurança pública e etc, e quem é atendido, quem recebe esses setores, são pessoas majoritariamente pretas que foram empobrecidas.  

É entender que essas pessoas além de serem as primeiras a serem pensadas dentro de uma projeção, de um estado que pense em reparar as desigualdades, devem ser elas quem devem decidir isso. Afinal de contas, a gente entende como essas estruturas de opressão se movem para eliminar todos estes corpos. Isso eu estou falando objetivamente, subjetivamente tem outras questões que cabem muito serem ditas, que é todo o nosso percurso de resistência e de luta política que está alicerçado na coletividade.

 

E quanto à alternância de poder dentro da própria esquerda? Há um espaço aberto para que essas pessoas que foram historicamente apagadas se insiram?

Olhar a esquerda e olhar o campo progressista não é olhar de forma dissociada a sociedade. As pessoas reproduzem compulsoriamente as lógicas de opressão, porque o machismo, o racismo, ele foi cultivado para todes, para todes. De forma alguma a gente pode afirmar que um negro é racista com ele mesmo, é estapafúrdio dizer isso, ou que uma mulher cis é machista, mas existe sim a reprodução compulsória de uma lógica que foi construída. Agora é muito diferente essa pessoa que inclusive é portadora dessa opressão reproduzir isso como um opressor, ela não vai conseguir fazer isso até porque ela não tem poder pra isso. Então as esquerdas também reproduzem as mesmas lógicas de opressão, de separação, e isso é involuntariamente, porque é compulsoriamente. Não sou eu que preciso dizer isso, é só olhar os quadros. Quantos homens, quantas mulheres, quantos negros, quantos brancos, quantas pessoas cis quantas trans… A esquerda tem um compromisso ético com essa desconstrução e resignificação, então obviamente a nossa fala incidirá de forma mais contundente para esse campo político, mas é uma fala para o sistema. Cida Bento, das nossas grandes mestres, ela chama de pacto narcísico da branquitude, existe um pacto narcísico firmado entre todes, que faz com que por exemplo, nós que estivemos apartadas e fomos fundamentais para inclusive o quadro e o resultado dessas eleições agora, como sempre fomos, estivessemos agora sendo observadas e vistas como gente de decisão. E acho assim que com muito atraso a esquerda viu isso. Existe ainda um problema de cognição e de aceitação dessa realidade, de entender por exemplo, que a gente pode discutir classe subjacente ao fundamento racial. As pessoas no Brasil são pretas, logo empobrecidas. A construção das desigualdades e das disparidades econômicas aqui estão fundamentadas pela diferenciação de raças. Não olhar e entender que isso deveria ser a força motriz de um pensamento progressista à esquerda é incidir nos mesmos equívocos que levam, por exemplo, a direita à dizer que isso não é uma pauta, ou que não são necessárias cotas, ou que não são necessárias políticas afirmativas. É necessário radicalidade, e para ser radical precisa desconstrução, precisa ceder espaços, precisa sim abrir mão de coisas. Porque neste momento os partidos de esquerda não investiram em candidaturas negras, porque não deixaram com que essa narrativa fosse articulada justamente por quem se comunica com seu povo e com a sua maioria? É nesse ponto de vista que eles acabam se assimilando, ficando parentalmente próximos dentro de uma noção de branquitude.  Se formos falar de cotas como uma política de reparação histórica então é 90%, 100% de cotas, é isso? A direita sabe ser muito radical, e ela consegue construir seu capital político, toda sua base e solidificar o imaginário em prol a ela, e a gente ainda é incipiente. Por exemplo, a discussão do kit gay. Um absurdo, a fake news. Mas é um absurdo também a gente não colocar isso como discussão e dizer que aquilo se chamava material Brasil sem Homofobia. A gente está sendo rifado a todo momento. Inclusive o recolhimento desse material do Brasil sem Homofobia diz respeito à pressão de uma bancada. Ao invés de bancar uma discussão como essa a gente recolhe. Essa derrota de agora é a derrota disso tudo. Viu que nao vale a pena se aliar com certos discursos? Viu que nao vale a pena ceder para certos lugares? Não vale a pena. não vale a pena. E aí novamente nós que fomos rifados lá atrás fomos rifados novamente, e aí a gente só é acionado quando é para oferecer um suporte para a manutenção dessa estrutura.

 

Passar o Escola sem Partido parece ser uma das prioridades do nosso novo executivo, e de grande parte do legislativo também. Porque se tenta a todo custo tirar o caráter educativo da escola? Isso parte do fortalecimento de um discurso muito conservador em torno da família?

A escola está sempre em disputa dentro das rotações e dos fluxos da política institucional. Ora você terá pessoas que são educadoras ou que pensam em educação como um como um lugar importante de transformação, de produção de coletividade, de respeito, muito além do que o conhecimento que se produz e que se adquire, e ora você terá quem entende a educação como um vetor para os sujeitos e sujeitas retroalimentarem o sistema. É se educar apenas para aprender uma profissão, educar-se para saber e reproduzir os papéis determinados do que é ser uma coisa e do que é ser outra, do branco do preto, da menina do menino, e é isso que está em jogo agora. A escola sem partido na verdade ela tem um partido, o partido da manutenção das lógicas de opressão, é esse o papel. Quando eles falam que a escola precisa ensinar a ler e escrever, despotencializam, deslegitimam a escola do seu lugar que é ler, escrever, mas não as letras e decodificar o código alfabético numérico, é ler o mundo e agir sobre ele. Essa votação e essa tentativa de levar pra esse lado é exatamente isso. Eles estão muito além, vou falar entre muitas aspas, dos setores duros, economia, agricultura. Eles estão atacando o lugar de produção de subjetividades. Isso não é muito diferente do que aconteceu na colonização. Quando a europa invade o continente africano não vai apenas com força bélica, vai com arte, vai com religião. Negociar a escola e a educação é um lugar importante. O que eu vejo é isso, eu vejo o futuro repetir o passado.

 

Criolo cantou em 2011 uma versão alternativa da música Cálice, composta por Milton Nascimento e Chico Buarque durante a ditadura militar. “A ditadura segue meu amigo Milton, a repressão segue meu amigo, Chico”. Como você enxerga esse paralelo entre a violência que nunca cessou nas periferias enquanto uma ditadura que se estende até hoje? Em que medida ter um presidente defensor da ditadura legitima essas práticas?

A intervenção militar ela nunca não foi, nunca não existiu. Existe uma ignorância, uma alienação compulsória em curso que destrói muito. É entender que não, Pedro Álvares Cabral não descobriu o Brasil, o Brasil foi invadido. Essa simples gramática faz com que a gente reentenda todo o processo. Pensar sobre o que sempre esteve em curso no país, o projeto genocida, de morte e apagamento das narrativas dos povos negros, quando falo negros eu falo dos indígenas também, porque os indígenas pra mim são negros. O apagamento dessas narrativas, do corpo, da fala, da forma de pensar, de agir, estética, foi naturalizado a ponto de aparecer sujeitos como esse, que foi eleito agora. O apagamento da gente diz respeito a ele, a presença dele diz respeito ao apagamento. Talvez agora as pessoas que sempre estiveram nos lugares que só entenderam a ditadura em 64 entendam que a gente não vai passar por um golpe militar igual ao de 64. Esse golpe já está em curso, já está acontecendo. E que finalmente uma vez que isso atinge essas pessoas diretamente elas começam a talvez perceber o que já está acontecendo na favela faz tempo. A gente tem consciência que se pra gente já estava ruim, vai piorar. A gente não vai perder liberdade de fala, não é que não seja um absurdo, mas a gente está falando do direito à vida. A crescer, poder andar, poder sair de casa, estamos falando de coisas muito mais incipientes. Não estou hierarquizando as dores de ninguém em relação às opressões que qualquer pessoa possa sofrer, mas eu estou falando sim que se você naturaliza o apagamento, invisibiliza esta dor e a incipiência da necessidade da vida dessa pessoa, você esta dando margem para que isso chegue até você. E aí isso vai chegar via esse presidente eleito, ou vai chegar de outras formas, porque a opressão ela vai se hierarquizando e vai se distribuindo. Enquanto não houver emancipação pra esses que estão ainda negociando a vida, não haverá para ninguém.

Acho que tem essa repressão bélica que vai ser muito mais ostensiva, que já esta sendo ostensiva, mas também tem outras formas também de praticar genocídio que é, por exemplo, fundindo o Ministério da Agricultura com o Meio Ambiente, tirando o Ministério da cultura, ou fazendo com que as universidades federais sejam privatizadas. São várias práticas de extermínio, entende. Só que agora ela vai ser distribuída para um número maior de pessoas. E isso não é um papo pessimista porque nós que estivemos com esses corpos em negociação constante de pertencimento, a gente aprendeu a criar muitas estratégias de sobrevivência, de permanência. O que a gente quer saber agora é em relação a quem não é preta, quem não é lgbt, qual o papel de vocês? Acho que a pergunta quem tem que fazer essencialmente são vocês, não somos nós. Porque vamos continuar fazendo o que sempre fizemos. Agora vocês precisam saber o que vocês precisam fazer, e por uma questão de ética, e por uma corresponsabilização, eu sugiro que o papel é potencializar politicamente e economicamente projetos, pessoas e coisas que estejam implicadas nas mudanças dessas violências estruturais. E obviamente precisa ir para o ponto extremo.

 

Nessa campanha assistimos a uma crescente de violência contra minorias sociais. Agora, eleito, Bolsonaro sinalizou punições mais severas para crimes motivados por LGBTfobia, partindo, como de costume, para um campo punitivista. É possível, depois de ele ter se eleito baseado também nesses discursos, frear essa onda de violência?

Acho que o Estado Brasileiro agora, mesmo eleito, não tem voz para dizer para ou continua. Um porão foi aberto, um porão de práticas e de discursos que legitimam as violências históricas. A gente nunca pode esquecer que muito do sentimento que levou à perseguição do Partido dos Trabalhadores diz muito respeito a não aceitação da classe dominante brasileira em relação à ascensão da população pobre e negra. Isso não foi engolido de jeito nenhum. A gente circular nos aeroportos, nas universidades, isso não foi engolido. Não preciso ir muito longe, inclusive hoje, em qualquer lugar que eu estiver, eu vejo, sinto o olhar, a ojeriza quando veem que essas pessoas estão legitimadas no sentido que a sociedade capitalista hoje mais entende, que é a legitimidade econômica. O racismo brasileiro nunca será superado. A gente vai entrar em pontos de disputa, é isso. E não adianta também novamente entrar nesse estado punitivo. Eu quero saber se vai entrar um projeto de formação dentro das escolas, contra a homofobia. Estruturalmente, como é que se pensa isso? Como é que se pensa que eu não preciso ser a próxima vítima? Mas sim que a gente construa e consiga crescer enquanto sociedade. Não é sobre sobre tolerância que eu estou falando. A intolerância é uma coisa absurda, mas também porque tolerar? Porque não entender que a diversidade é real?

 

Uma das principais críticas à candidatura de Haddad, do PT e da esquerda de uma forma geral foi o distanciamento das bases. De que forma será possível nos próximos anos reestabelecer esse diálogo?

Quem? Porque eu estou bem conectada com o meu povo, viu. É como eu falei sobre corresponsabilidade. Trazer para o centro das discussões quem deve ser trazida. É alternar o poder, de fala, de decisão, de protagonismo. Porque nós não aceitaremos mais na história mediadores, intervencionistas que falem por nós. A história, como diria Lélia Gonzales, será escrita em primeira pessoa. E não adianta ter pessoas no cabresto político partidário, no sentido de consoante ao partido. Eu não estou falando obviamente contra os partidos, acho fundamental essa organização, mas que eu possa ser, ou todas possam ser dissonantes a eles, e ter espaço, protagonismo e reconhecimento dentro das nossas dissonâncias, porque é isso que poderá vir a compor um projeto de amanhã. Essa branquitude precisa também ceder espaço para esse que é o respiro, que é a possibilidade de amanhã, de futuro. É a única solução. E é a maioria inclusive, se é da ordem democrática, então vamos pensar identitariamente democraticamente. O povo preto exige alternância de poder, porque a branquitude está aí há séculos, há milênios, decidindo o que todo mundo vai fazer.

 

*Taís Ilhéu é jornalista

 

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