Ensaio fotográfico Vila Socó - Cubatão - Le Monde Diplomatique

37 anos da tragédia

Ensaio fotográfico Vila Socó – Cubatão

por Luca Meola
23 de fevereiro de 2021
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Confira ensaio fotográfico de Luca Meola, que visitou a região onde ficava a Vila Socó, em Cubatão.

As longas chaminés industriais sempre fizeram parte do cenário da cidade de Cubatão, em especial da antiga Vila Socó. Exatos 37 anos após a tragédia ocorrida entre os dias 24 e 25 de fevereiro de 1984, seus moradores ainda lembram com detalhes do que ocorreu naquela madrugada, quando o fogo acordou quase toda a comunidade.

Após o vazamento de um duto com ao menos 700 mil litros de gasolina produzida pela Petrobrás, 93 pessoas morreram incendiadas e pelo menos outras 3 mil perderam suas casas de palafitas. Esses números são os oficiais, porém até hoje a população local contesta esses registros. Falam em mais de 500 mortos.

Testemunhas contam que, em busca de emprego, muitos trabalhadores vindos do nordeste, chegavam sozinhos para tentar a vida. Se instalavam em algum local da antiga favela e permaneciam sem manter contato com parentes. Sem saber o paradeiro, muitas famílias não contestaram a morte de seus entes. Há relatos de que as escolas comunitárias ficaram praticamente vazias, dado ao grande número de crianças mortas, muitas sem nem ao menos ter o registro de nascimento, dada as condições de pobreza.

Na mesma época, na década de 1980, por conta de seu parque industrial a cidade de Cubatão foi considerada pela Organização das Nações Unidas, como a cidade mais poluída do mundo. A emissão de produtos químicos interferiam diretamente na vida de seus moradores, onde crianças nasciam com malformação ou anencefálica.

A falta de manutenção e vistoria técnica em grandes empresas, até hoje transforma cidadãos em vítimas. Os sobreviventes dizem que a Petrobras tentou minimizar o acontecimento, propondo uma compensação miserável pelas enormes perdas devido ao incêndio. Ninguém da empresa foi apontado pela justiça brasileira como responsável pela tragédia.

Hoje a Vila Socó não existe mais. O mangue foi aterrado e as casas de palafitas deram lugar a atual Vila São José. Dizem que muitos restos de corpos carbonizados ainda estão lá, debaixo do asfalto. Do desastre, resta apenas um pequeno memorial com algumas imagens da época e o nome estampado dos mortos oficiais.

Baixada Santista vista da Imigrantes, estrada que conecta São Paulo ao litoral (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial da cidade de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial da cidade de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial da cidade de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial da cidade de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Visão noturna do polo industrial da cidade de Cubatão (Crédito: Luca Meola)

 

Olinda Maes, de 64 anos, chegou para morar na Vila Socó com apenas 10. Durante a tragédia, perdeu o sogro e o cunhado. Da parte da família de sua sobrinha, todos morreram. Até hoje acredita que a quantidade de crianças mortas no incêndio é maior do que os números oficiais. O vazamento de gasolina aconteceu por volta das 22:30. Com a movimentação das marés o produto inflamável espalhou-se pela região alagada e cerca de 2 horas após o vazamento, aconteceu a ignição seguida de incêndio. O fogo se alastrou por toda a área alagadiça superficialmente coberta pela gasolina, incendiando as palafitas. (Crédito: Luca Meola)

 

Nascida em Cubatão, Edna de 55 anos, é filha de pais alagoanos. Desde pequena cresceu em meio ao cheiro de gás e ovo podre. No momento do incêndio, estava em sua casa simples de palafita com o marido e a filha. Sentiu o bafo quente do fogo e viu ele se alastrando. O marido correu e ela, com a filha em seus braços, se atirou de camisola na água, enfrentou a lama até chegar na pista e conseguir pedir ajuda. Conta que há uma lenda sobre esse dia: uma família de evangélicos se ajoelharam para orar quando viram o fogo rodeando o barraco. Nenhuma madeira do barraco deles queimou. (Crédito: Luca Meola)

 

Oriunda de Minas Gerais, Maria Elisa de 58 anos, chegou a Vila Socó com o marido, aos 23. Sua casa não sofreu nenhum dano durante o desastre, mas por estar na região considerada de risco, foi indenizada com outro local para morar. Após o acontecido, a Petrobras decidiu compensar a perda de familiares com alguns cruzeiros. Em uma conversão para a moeda atual vigente seria a média de 3 mil reais por cada vida. Vidas essas que foram perdidas por tentarem retornar ao local do incêndio para resgatar algum bem material, conquistado com muita luta e suor (Crédito: Luca Meola)

 

Dona Aparecida hoje tem 74 anos. Chegou na Vila Socó bem no ano do desastre, antes morava no Mato Grosso. Diz que lembra de ver até panela de alumínio derretida por conta do calor. Ela acredita que muitos outros corpos não foram encontrados. Há quem diga que a labareda que deu início ao incêndio veio de um fósforo jogado no mangue. (Crédito: Luca Meola)

 

Vindo do Rio Grande do Norte, seu Luís, hoje com 86 anos, chegou em Cubatão em 1964, com toda sua família. A parte onde ele morava na favela não foi atingida durante o incêndio, porém o que ele viu aqueles dias, jamais irá esquecer. Ele conta que o vazamento de 700 mil litros de gasolina começou bem antes do incêndio. Ao perceber o escoamento do produto altamente inflamável, muitas pessoas começaram a encher latas e esconder em casa, com o intuito de revender depois. (Crédito: Luca Meola)

 

Faz quase 50 anos que Carmelita, de 78 anos, vive em Cubatão. Nascida em Alagoas, ela conta que a vida difícil na roça nordestina fez com que a família decidisse se mudar. O local escolhido foi a Vila Socó, mas seu barraco ficava na área de risco. A noite do incêndio, ela foi acordada por seu sobrinho, motorista de ônibus. O que ela lembra foi olhar para fora e ver o fogo imenso, cobrindo tudo no lado de fora. Ela só teve tempo de acordar seus 5 filhos, pegar uma caixa de documentos e fugir o mais longe possível. Perguntada pela Petrobras se preferia dinheiro ou uma nova casa, ela preferiu a última opção, a de continuar vivendo na mesma comunidade. (Crédito: Luca Meola)

 

O casal Maria Luna, de 69 anos, e Temistocles Ricardo, de 73, se conheceram em Cubatão. Logo no início da união foram viver na Vila Socó, perto de um duto da Petrobras. O forte cheiro de gasolina, atacava frequentemente a bronquite do filho da dona Maria Luna, fruto de seu primeiro casamento. No momento da tragédia, por volta da meia-noite eles acordaram e conseguiram escapar do incêndio que destruiu seu barraco. O fogo se estendeu até o dia seguinte. Quando cessou, começaram a encontrar os restos mortais carbonizados de diversas pessoas que, no momento de desespero, achavam que entrar na geladeira seria uma solução. (Crédito: Luca Meola)

 

Ele não era morador da favela, mas estava lá no dia do acontecido. Juan Batista conta que a tragédia poderia ter sido evitada, porém em tempos de ditadura militar, muitas informações foram omitidas. Para ele, o número de mortos certamente é maior. Há 8 anos ele convive com documentos, atas de processos contra a Petrobras, recortes de jornais da época e fotografias do desastre. Atualmente, Juan Batista trabalha cuidando do Arquivo Histórico da Cidade, em uma Biblioteca Municipal de Cubatão. (Crédito: Luca Meola)

 

Estas imagens tiradas por um fotógrafo amador e nunca publicadas, hoje fazem parte do acervo do Arquivo Histórico da Cidade, na Biblioteca Municipal de Cubatão.

 

Estas imagens tiradas por um fotógrafo amador e nunca publicadas, hoje fazem parte do acervo do Arquivo Histórico da Cidade, na Biblioteca Municipal de Cubatão.

 

Estas imagens tiradas por um fotógrafo amador e nunca publicadas, hoje fazem parte do acervo do Arquivo Histórico da Cidade, na Biblioteca Municipal de Cubatão.

 

Vinheta publicada na época pelo famoso cartunista italiano Vauro Senesi.

 

Mapa da Vila Socó: em destaque a área atingida pelo incêndio.

 

Figura importante na comunidade de Vila São José, Edilson posa em frente ao Memorial da Vila Socó, em homenagem as vitimas da tragédia. 93 nomes estão registrados no monumento, enquanto extraoficialmente o número de mortos pode exceder 500. Muitos desses nomes que não estão lá, são de amigos de infância do próprio Edilson, crianças que morreram no incêndio. (Crédito: Luca Meola)

 

Bem-vindo a Cubatão. Aqui o Brasil acontece. (Crédito: Luca Meola)


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