RESENHA

Escolhas que nos constroem como leitores

Resenha do livro Lacunas: sobre amar os livros que não lemos, de Felipe Charbel (Belo Horizonte, Relicário, 2026) 

Ler é uma escolha, assim como não ler. A frase parece óbvia, mas diante de tantas listas, tantas metas de leitura expostas nas redes sociais e tantos “você tem que ler” espalhados por aí, os ensaios de Lacunas: sobre amar os livros que não lemos (Relicário, 2026), de Felipe Charbel, parecem oferecer um contraponto e nos lembrar que justamente essas escolhas, do que sim e do que não, nos constroem como leitores. Charbel é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do CNPq. Ao longo dos anos, tem consolidado uma produção ensaística (presente em reconhecidas publicações, como Piauí, 451, Serrote) e é autor dos romances Saia da frente do meu sol (Autêntica Contemporânea, 2023) e Janelas irreais: um diário de releituras (Relicário Edições, 2018). 

Crédito: Divulgação

Desde o princípio da obra, está posto um convite para pensar sobre aquilo que falta, simbolizada pelos livros não lidos, mas que traciona outros elementos para o centro da leitura. Estão ali, envoltos nas citações que são gradativamente apresentadas (Borges, Murnane, Barthes, Aira, Proust, Tokarczuk, Woolf, entre outros) e em uma tipologia bem-humorada das lacunas nas leituras, textos que exploram as perdas, a morte, as memórias familiares, o trabalho do escritor (do ensaísta, sobretudo) e dos leitores e até mesmo resquícios da vida durante a pandemia de Covid-19.  

Dessa maneira, a ausência é o mote de criação e o lapso é a base para uma produção que mobiliza afetos pelos livros, pela leitura e pelas pessoas, tensionando experiências e leituras heterogêneas. São textos que transitam entre a rememoração de teorias conspiratórias familiares sobre o fim dos tempos e o passeio por uma bibliografia que poderia ser parte de um curso sobre literatura. 

Em Lacunas, mais que uma lista de possíveis falhas, há paisagens de leitura constituídas das imagens que emergem dessas falhas, ausências, lacunas, brechas. Afinal, a paisagem do leitor é sempre incompleta. E, o que nos afirma o autor, tudo bem ser assim. 

 

Rafael Cal é doutor em História Social (PPGHIS-UFRJ). 

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