EM NOME DE QUEM?

Escrito misógino em nome da psicanálise

Quanto mais a revolta e a denúncia das feministas se afirmam em ações reivindicativas de proteção às mulheres, mais a barbárie das violências contra as mulheres parece reagir com nova força

Recentemente participei de um podcast[1] onde me foi perguntado o que eu achava do movimento que algumas pessoas estão chamando de “me too da psicanálise” e das denúncias de plágio de textos de mulheres psicanalistas por homens da psicanálise. Tomo o cuidado de usar aqui a expressão “homens da psicanálise” porque é disso que se trata, e não de homens psicanalistas. Minha resposta foi que vejo como algo muito benigno para a psicanálise o desvelamento que todas essas denúncias produziram. E penso aqui em desvelamento com toda a relevância que a psicanálise atribui ao termo, do ponto de vista clínico e ético. Finalmente a falsa moeda que esses ditos psicanalistas sempre foram foi desvelada, pois não há como supor um psicanalista em um abusador.

Um homem que usurpa a autoria do texto de uma mulher comete uma grande violência contra ela, o que também nos impede de supor nele um psicanalista, mas sim uma fraude, pois esses plágios são uma tentativa de apagamento, de morte intelectual de uma mulher, tão graves quanto os abusos sexuais denunciados. Lamentavelmente, essas duas formas de violência, a do abusador sexual e a do apagador intelectual, quase sempre se juntam no mesmo homem.

Como muita gente sabe, Lívia Vigil, a psicanalista que apertou o botão de dar início ao “me too da psicanálise”, é uma colega no Projeto Gradiva – clínica psicanalítica para mulheres em situação de violência e vulnerabilidade social, que fundei com outras colegas há quase sete anos, da qual ela foi coordenadora clínica por duas gestões, atualmente colaborando como supervisora, e da qual sou hoje a presidente honorária. E justamente, escrevo este texto a partir deste lugar de psicanalista feminista decolonial, com minhas colegas que hoje dirigem a Associação Projeto Gradiva.

Recebi, com surpresa, o print de um texto colocado recentemente em circulação em alguns grupos de WhatsApp. Um escrito anônimo, que se inicia com um ataque ao “me too da psicanálise” para passar, em seguida, a um ataque à dissertação de mestrado da qual Lívia é autora, e por extensão, ao Projeto Gradiva, de onde foram extraídos os fundamentos práticos de sua pesquisa. Apesar do endereçamento preciso, esse ataque sem nome permite apenas que se saiba que foi escrito a partir de uma posição de repúdio ao feminismo na psicanálise, uma posição refratária ao que mulheres psicanalistas fazem quando se juntam para escutar mulheres que sofrem ou sofreram violências.

Nada mais é possível saber desse ataque anônimo, nem mesmo se foi escrito por um ou uma psicanalista. Provavelmente não, pois nos parece inverossímil que um ou uma psicanalista ataque com tão pouco escrúpulo uma dissertação orientada por dois grandes psicanalistas e pesquisadores da universidade pública e avaliada por uma banca composta por três mulheres psicanalistas que são referência no Brasil, inclusive em clínicas públicas. De fato, o mais chocante desse ataque é mesmo o fato de não ser assinado, pois a autoria, em psicanálise, é da maior importância.

Então, ainda que lamentando a ausência de um sujeito desse escrito misógino e reacionário, vamos nos dirigir aqui a quem desejou produzi-lo. Aliás, não é o primeiro ataque e provavelmente não será o último que receberemos, pois o Manifesto Psicanalistas contra o feminicídio, publicado no dia 25 de março juntamente com vários grupos, instituições, coletivos e psicanalistas que tomaram posição a respeito, assinado por quase 1.300 psicanalistas do país todo e mesmo do exterior, também não deixou de receber críticas de psicanalistas conservadores, que inclusive assinam e recebem adesões, nos seus meios institucionais. Tais reações nos parecem muito em consonância com o que o movimento feminista tem enfrentado. Quanto mais a revolta e a denúncia das feministas se afirmam em ações reivindicativas de proteção às mulheres, mais a barbárie das violências contra as mulheres parece reagir com nova força. Infelizmente, assim caminha a humanidade, na qual a psicanálise não é exceção.

Por isso, aproveitamos estas críticas para, quem sabe, diminuir em alguma medida o desconhecimento de quem as formula em relação à clínica psicanalítica feminista e decolonial que praticamos no Projeto Gradiva. Já que a autora ou autor (ou os dois, pois não é improvável que o texto-ataque anônimo tenha sido escrito a quatro mãos) não desejou praticar a maravilhosa arte do debate, vamos tentar pelo menos esclarecer alguns equívocos de interpretação que nos chamaram a atenção no seu texto. Não vamos nos deter sobre o que ali está dito sobre o “mee too da psicanálise”, pois seria entrar em um terreno pessoal e subjetivo, apesar de nossa perplexidade diante de tanta empatia com os agressores denunciados. Mas enfim, quando alguém declara suas convicções éticas e políticas, não cabe a ninguém dissuadir a pessoa.

O que nos interessa é tratar do que ali foi assinalado como uma espécie de deformação da prática da psicanálise, como, por exemplo, a preocupação da autora da dissertação em relação a saber o quanto sua branquitude e sua situação socioeconômica privilegiada de classe média poderiam intervir na sua escuta de mulheres negras, periféricas e pobres. A pessoa do ataque parece ter tomado tais colocações como uma confissão de culpa burguesa e de inabilidade técnica, apontando para uma insuficiência teórica, quando, na verdade, trata-se de uma declaração da maior relevância ética. Esta questão precede mesmo a existência da clínica do Projeto Gradiva.

Em 2017/2018, quando estivemos trabalhando na ocupação feminista Mulheres Mirabal, no centro de Porto Alegre, o casarão, ocupado pelas feministas do movimento Olga Benario para acolher mulheres em situação de violência, estava habitado por muitas mulheres e crianças. Havia mulheres negras, mulheres brancas, mulheres indígenas, mulheres estrangeiras e mulheres trans. Várias delas vinham direto das ruas da cidade, inclusive com recém-nascidos.

Éramos três psicanalistas experientes, com anos de clínica, de pesquisas sobre o feminino e de transmissão da psicanálise. Mesmo assim, ou até por isso, a cada dia que ali trabalhamos nos colocamos a questão de saber se estávamos realmente à altura do que aquela experiência nos exigia. Jamais havíamos nos deparado com tanta dor, tanto traumatismo e tanto desamparo. Então, foi inevitável nos interrogarmos sobre nossa branquitude e nossa condição de mulheres da classe média da cidade. Nossa maior questão era referente a saber se nossas organizações psíquicas poderiam nos impedir, em alguma medida, de escutar suficientemente o real que aquelas mulheres traziam em seus traumatismos. Estávamos ali levadas pela radicalidade de nosso desejo de escutá-las, mas não podíamos cair em nenhum romantismo teórico que nos convencesse que nossas formações nos garantiriam a sustentação daquele desejo de escuta. Aliás, pior do que um romantismo, seria mesmo uma arrogância, uma convicção dessa ordem, pois a clínica faz a teoria se repensar, e não o contrário. De sorte que nossas análises pessoais e nossas supervisões tiveram, elas sim, um papel preponderante para levarmos adiante aquele trabalho.

Estamos falando aqui de um pressuposto lacaniano importante, o de não tomarmos nosso “ser psicanalista” como suficiente para a experiência, e de sempre mantermos aberta a questão sobre o que nossas análises nos permitem. Já em 1958, em seu texto A direção do tratamento e os princípios do seu poder, Lacan chamava a atenção para o fato que “o analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política. Ele faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que no seu ser”[2]. Aqui nos deparamos também com o pressuposto freudiano segundo o qual cada paciente é o primeiro, ou seja, nunca sabemos como vai transcorrer o tratamento, nem mesmo se ele vai realmente acontecer.

Quando, em 2019, fundamos o Projeto Gradiva com um grupo de colegas para estender nossos atendimentos a um maior número de mulheres da cidade que, como as que encontramos na ocupação, tenham estado ou estejam em situação de violência e em vulnerabilidade social, já tínhamos nosso desejo de escuta advertido o bastante para isso, e até hoje a vigilância sobre esse ponto participa de nossa prática. Seremos sempre muito gratas às mulheres que atendemos na ocupação Mirabal, pois elas nos deram mais desejo de escuta para seguirmos em frente com nosso trabalho, cujo objetivo é que as mulheres que escutamos possam seguir em frente em suas vidas. De onde nossa escolha do nome Gradiva, que no latim quer dizer “aquela que avança”, para o nosso Projeto. Pois o traumatismo da violência de gênero, do desamparo social e da violência racial são paralisantes, e sabemos o quão não raramente essas violências desembocam no feminicídio. Por isso, afirmamos nossa pretensão de intervir nessas sinistras estatísticas, nas quais as mulheres negras e periféricas aparecem como a maioria das vítimas de violência de gênero, correspondendo a 62,6% dos casos de feminicídio. E isso nada tem a ver com filantropia burguesa ou militantismo feminista, como podem concluir os críticos conservadores de uma psicanálise que não é a nossa. Nosso desejo de escuta dessas mulheres emana de nossa responsabilidade de psicanalistas, nosso compromisso ético para com a cidade, a polis da qual tanto se fala no discurso psicanalítico, a partir de nossa posição freudiana.

A hipótese é que as primeiríssimas pacientes de Freud eram mulheres que haviam sofrido violência sexual. Foram elas que fizeram de Freud um psicanalista, dando a ele o fio que o levaria à descoberta do inconsciente. Foi uma decisão que exigiu de Freud muita coragem clínica, a de escutar aquelas mulheres que a psiquiatria do século XIX classificava como histéricas, descartando, para seu trabalho com elas, os paradigmas patológicos da ciência médica que, entre tantos, o Dr. Charcot, seu mestre na Salpêtrière, em Paris, empregava. Muito se poderia dizer a respeito desse encontro de Freud com as mulheres que com ele fundaram a psicanálise, mas guardemos presente que, na decisão de Freud de escutá-las, já estava colocada a essência subversiva da psicanálise. Foi essa coragem clínica de Freud e essa subversão que marcaram nossas formações e que nos levaram ao encontro das mulheres na ocupação Mirabal e das que hoje escutamos no Projeto Gradiva.

Um segundo ponto de esclarecimento a nosso ou nossa escriba incógnita seria quanto ao desejo que a autora da dissertação atacada declara de seguir em frente com seu trabalho clínico, para continuar, com ele, a intervir na vida das mulheres que escuta. Nossa escriba atacante interpretou tal declaração como uma pretensão de “salvar as mulheres”, o que não foi dito e que, com efeito, seria algo fora do registro psicanalítico. O trabalho de todo psicanalista produz transformações importantes no psiquismo de seus analisantes. Basta uma leitura atenta do texto de Freud de 1936, Análise terminável e interminável[3], onde Freud, depois de 50 anos de prática, discute os limites e o alcance dos efeitos de uma análise, para sabermos que jamais se trata de salvar o paciente de nada. Entretanto, Freud ali nos mostra também que se trata sempre de produzir deslocamentos e transformações na posição subjetiva de cada paciente. O próprio da experiência psicanalítica, segundo ele, é de dar a cada analisante meios de mudar sua relação com seu desejo, a partir de uma tomada de responsabilidade com seu sofrimento. Isso incide em uma mudança de relação com o mundo exterior, com seus outros.

Evidentemente, uma tal aquisição ética não é sem resistências, cada analisante vai, na sua experiência, até o seu limite, como Freud bem nos mostra. Todo tratamento psicanalítico tem, como disse Lacan em 1958, uma direção à qual ele vai tender[4]. Em todo caso, quando Freud teve seus escritos queimados em praça pública pelos nazistas, foi muito menos por ele ser judeu do que pela subversão que sua prática clínica e seu pensamento produziam em seus e suas pacientes e no laço social. Nenhum regime totalitarista tolera a ideia de uma pluralidade de desejos, de sujeitos comprometidos com sua singularidade e com a de seus outros. E sim, a experiência psicanalítica de cada analisante produz transformações na sua vida e no laço social e, neste sentido, intervém, sem salvar o paciente de nada, ao contrário, produzindo nele uma maior implicação com o que lhe acontece.

Para concluir, quando afirmamos reiteradamente que o Projeto Gradiva existe para que as mulheres possam seguir em frente em suas vidas, assim como quando afirmamos que desejamos que nossa prática clínica intervenha nas estatísticas de violência contra as mulheres e feminicídios, estamos declarando nosso desejo de intervir na vida dessas mulheres. Por consequência, estaremos assim intervindo no laço social, produzindo transformações. Como freudianas que somos, sabemos que nada é menos certo do que conseguiremos, pois a clínica psicanalítica é a clínica do insabido da relação de cada analisante com o inconsciente. Isso faz com que cada paciente leve sua análise até onde seu desejo lhe permite. De nossa parte, seguiremos vigilantes com relação a nossa escuta e nossas intervenções clínicas que sempre estarão marcadas pelo efeito de nossas análises, e tendo sempre presente o quanto ainda precisamos avançar em nossas formações.

Nesse ponto, as colocações de Lacan em seu texto sobre a direção do tratamento nos aparecem sempre como atuais em sua obra e para a psicanálise de nossos dias, sobretudo a questão de abertura: “quem analisa hoje?”. Lacan deixou bem evidente, já nessa abertura de seu texto, o quanto a formação dos e das analistas é permanente, e que a análise dos e das analistas é condição para suas práticas. Vemos, no fio do texto, sua preocupação com os analistas que exercem suas clínicas calcados na bagagem teórica recebida na sua formação institucional, pelo fato que aqueles que os formaram “[…] se fiam na análise didática para garantir sua manutenção num teor suficiente nos analistas, sobre os quais não deixamos de sentir que, para enfrentar os problemas da humanidade que se dirige a eles, suas visões são um pouco locais”[5]. Se aqui nos referimos a esta passagem do escrito de Lacan, é porque, como ele, não entendemos como é possível alguém fazer do seu “ser analista” o eixo de tantas vidas, quando desconhece a dialética que o compromete com essas vidas em um movimento simbólico.

Esperamos que, com essa despretensiosa explicação que aqui deixamos, nossa ou nosso escriba incógnita consiga entender um pouco melhor a psicanálise feminista e decolonial que praticamos e que nos coloca permanentemente interrogantes para nosso desejo de escuta. Ademais, ainda que não falte estranhamento da parte dos psicanalistas conservadores, o feminismo e a decolonialidade já são uma realidade incontornável na psicanálise hoje. E sim, trabalharemos sempre para que, como preconizou Freud, nossas analisantes possam amar e trabalhar, dois objetivos maiores do tratamento psicanalítico. Tais objetivos são efetivamente uma intervenção na vida das mulheres, já que, para isso, muitos deslocamentos são necessários, na relação de cada analisante com seu desejo. Mas se uma travessia de análise não produzisse nenhum deslocamento, a clínica psicanalítica seria totalmente caduca.

 

Maria Rosane Pereira é psicanalista, fundadora e Presidente Honorária da Associação Projeto Gradiva, Analyste Praticienne na Association Espace Analytique, Paris-Fr.

Giselda Endres é psicanalista e Presidente da Associação Projeto Gradiva.

Carla Silvestrin é psicanalista e Vice-Presidente da Associação Projeto Gradiva.

 

[1] FEMINICÍDIOS E APAGAMENTOS: o sexual na polis. Beth Mori/Maria Rosane Pereira. Mirante. s.l.: Observatório Psicanalítico, 17/04/26. Podcast. Disponível em:

<https://open.spotify.com/episode/5ET6hq1z5Esb4C7ch0EMPf?si=5Tuw1FNqSdayDh C9xIMThw>.

[2] LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. In: Escritos. Zahar: RJ, 1998. p. 596.

[3] FREUD, S. Análise terminável e interminável. In: Obras Completas. Cia. das Letras: SP, 2018.

[4] LACAN, op. cit.

[5] LACAN, op. cit. p. 596.

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