Artigo: Esquerda reconciliada - Le Monde Diplomatique Brasil

Conciliação

Esquerda reconciliada

por Leonardo Barbosa e Silva
24 de agosto de 2019
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O concílio, expressão derivada do latim concilium, originalmente designa reuniões, assembleias e conselhos, quando transformada em verbo está associada à construção de acordo, de alianças, de paz nas relações e de harmonia. Para partes inconciliadas, agir junto e compatibilizar entendimentos é uma impossibilidade. Ao que tudo indica, as esquerdas brasileiras sofrem duas inconciliações, uma entre elas e outra com uma boa parte da sociedade civil.

Estupefatas, assim se encontram as esquerdas brasileiras. Sua relativa paralisia já ocupa a atenção de analistas e inaugura uma usina de reflexões que promete dissecar um defunto ainda quente. A dormência deve incomodar a quem traz em seu DNA o compromisso com a mudança. No entanto, o incômodo de fato precisa ser outro.

Vive-se desde a eleição de Bolsonaro, intensificado com a posse, um atentado regular à dignidade e à inteligência. O obscurantismo e o ódio dirigem um governo que solapa direitos, afronta e humilha como se coisa comum o fosse. E na ponta ou na margem, a humilhação das filas de emprego ou a afronta da escalada da violência racial, de gênero e de orientação sexual são muito mais gritantes.

Deve-se ter claro o elevado custo pago pela sociedade resultante também da inação. Bom, o que realmente importa é saber qual seria o caminho para romper a inércia que nos tem deixado na condição de espectadores atônitos. Como vencer a paralisia que aplaina o terreno para o avanço sobre os direitos e para a semeadura do ódio?

Para algumas situações da vida cotidiana também experimentamos paralisias, choques e inações. Em muitos casos, na origem do não fazer está o medo e a culpa, um alimentando a outro e vice-versa. O que as esquerdas temem hoje? Talvez a violência e o ódio ou o confronto de um discurso de combate à corrupção e à insegurança para o qual não se encontram preparadas.

Culpas

E quais as culpas carregam? A consciência ou emoção penosa que caracteriza a culpa normalmente advém de um sentimento de descumprimento de norma ou compromisso e sempre nos remete ao passado para um juízo. Sim, a saída passa por olhar para trás para andar adiante. Enfrentemos o que nos atemoriza, façamos o balanço, reconheçamos os erros e digamos resolvidos que pedimos desculpas. Esta é a chave para olharmos altivos, retomarmos canais de diálogo interrompidos, defendermos um legado e avançarmos. É isso que se está chamando de reconciliação.

Como nunca é demais se acautelar das palavras a serem empregadas, vale a pena tomar o título deste artigo com fidelidade etimológica. O concílio, expressão derivada do latim concilium, originalmente designa reuniões, assembleias e conselhos, quando transformada em verbo está associada à construção de acordo, de alianças, de paz nas relações e de harmonia. Para partes inconciliadas, agir junto e compatibilizar entendimentos é uma impossibilidade. Ao que tudo indica, as esquerdas brasileiras sofrem duas inconciliações, uma entre elas e outra com uma boa parte da sociedade civil.

Aqui, flexionando bem o campo político, tem-se que uma gama de partidos (Rede, PSB, PDT, PC do B, PT e PSOL) que empunham bandeiras progressistas e se auto proclamam atores da esquerda, ora mais ao centro, ora mais ao polo. Muito embora vital, a unidade do campo tem dado sinais de muita dificuldade. Alguns se digladiam com mais intensidade no campo do que com partidos de outros campos. Para a reconciliação, será necessário o reconhecimento do erro e o pedido de desculpas com vistas a zerar parte do débito, virar páginas e cicatrizar feridas.

PT, muito embora tenha possibilitado inúmeras oportunidades às esquerdas a partir de seu próprio crescimento, deve desculpas aos demais partidos pela ausência de empatia e pelo hegemonismo. O PT tem uma trajetória pouco solidária em seu campo, pois reitera a prática de comprometer ou sabotar candidaturas próximas, com se deve recordar os casos de Marina Silva, Eduardo Campos e Ciro Gomes.

Quando foi governo, não conseguiu sequer levar ao primeiro escalão de seus governos seus parceiros históricos na proporção que mereciam. Estavam lá com pasta pouco estratégica, pois o núcleo estratégico foi quase sempre petista, ou, no ocaso, do mercado. Não se pode imaginar uma unidade forte e duradoura com condutas assim. E como se sabe que elas deixaram ressentimentos ativos, será preciso reviver e superar.

Dívidas

As dívidas não são exclusivas ao PT e também devem desculpas as demais agremiações, afinal seu comportamento subalterno flagrante e, em alguma medida, satisfeito com a fração que lhe coube, condenou-as em tamanho e tirou-lhes o estofo tão necessário para a conjuntura atual. Mais do que isto, deve-lhes rubrar as faces o fato de não terem conseguido em muitas vezes se diferenciar do próprio Centrão. Em suas fileiras há uma zona cinzenta por onde passeiam arrivistas bloqueando a consolidação das agendas ambientalistas, trabalhistas ou desenvolvimentistas, importantes para a composição de projetos nacionais.

Superada a primeira culpa, resta a última. Se não bastasse a ausente unidade entre elas, também há uma flagrante dificuldade de representar, interagir e dirigir frações da sociedade civil que manifestam uma sensação de traição, de ranço antipetista e desencanto com processos políticos. Por que os ouvidos não se abrem mais como se abriram anos atrás?

O PT capitaneou três governos e meio com várias incumbências históricas. Fez uso intensivo da bandeira da ética na política nos anos 1990, construindo o discurso do nós e eles. O messianismo inocente cobrou seu preço. O partido se apropriou dos mecanismos ilegais de financiamento de campanha e montou uma máquina de arrecadação.

Quando o PT dirá oficialmente à sociedade que errou? Será que não compreende que sempre que sua voz se levantar nas tribunas ou nas ruas, será intimidado por quem resgatar os escândalos? A direção do partido parece ainda não reconhecer que parte da militância se encontra paralisada porque sobre ela é colada uma pecha resistente e mobilizada para todas as situações de confronto. A pecha deslegitima de forma atroz e desarma a ação. Devolvam à militância a segurança de agir. Tirem de suas costas a montanha que carregam. Aliviem para dar liberdade.

E façamos mais, aproveitemos a ocasião para zerar outros débitos de governo que ainda ofuscam um legado que merece ser defendido. Lembremo-nos que nossos governos de esquerda retiraram milhões da fome e da pobreza, mas não fomos capazes de oferecer um projeto de desenvolvimento nacional que estancasse a desindustrialização. Aliás, do ponto de vista econômico também devemos escusas pela ausência de um norte capaz de duelar interna e externamente com o discurso do livre comércio, do ajuste fiscal e do déficit da previdência. Sabíamos desde o princípio que o Brasil era (e é) um dos países mais desiguais do mundo e que uma das chaves para superar esta condição era a Reforma Tributária. Nossos governos nunca apostaram seriamente nesta agenda e, por esta razão, nunca agiram profundamente contra as desigualdades sociais. Como defender a Reforma Tributária em outra plataforma eleitoral sem dizer à população que erramos?

Algo semelhante ocorre para nosso déficit de democracia. Era absolutamente claro que o país carecia de rever os mecanismos de participação popular, ampliando o controle social sobre o Estado. Sabíamos dos vícios dos processos de financiamento de campanha e das dificuldades para a governabilidade trazidas pelo presidencialismo de coalizão. Não obstante toda a ciência, não pautamos fortemente a reforma política, a não ser quando a Inês era morta, ou seja, quando as manifestações de junho de 2013 já tinham produzido severo estrago. Este balanço não será anunciado?

Lembremo-nos igualmente de que resgatamos parcialmente uma dívida histórica com a população negra ao inaugurar a política de cotas nas universidades. Hoje as universidades federais são mais negras e mais populares. Vários destinos foram alterados, famílias ganharam esperança e sonharam com a mobilidade social. Mas não se deve olvidar que promulgamos em 2006 uma lei de drogas que multiplicou o encarceramento e o controle dos corpos pretos pobres. Aos jovens negros das periferias devemos desculpas.

Dentre as incumbências históricas que tínhamos, também estava claro que havia a necessidade de enfrentar a concentração fundiária no campo que, além de privar do trabalho milhões de brasileiros, ainda alimenta a violência e a exclusão social. Nosso governo não foi capaz de alterar a estrutura fundiária e por esta razão o campo ainda é monocultor, excludente, violento e resistente às práticas sustentáveis. Digamos aos movimentos sem terra que falhamos. Isto é importante para que tenhamos a alma livre para defender os programas bem-sucedidos para a agricultura familiar e nos comprometer novamente com esta agenda essencial.

Lembremos ainda da necessidade de virar a página da Ditadura Militar. Há um conjunto de pessoas que, vivas ou mortas, entregaram suas vidas à resistência. Foram vítimas de um Estado policial e torturador. Seus algozes continuam livres, alguns nos cargos dos aparelhos repressivos. Para além da memória, há uma prática vigente de afronta aos direitos humanos que não foi superada. A tortura ainda grassa entre instituições policiais. Todo o belíssimo trabalho das Comissões da Anistia e da Verdade deve ser defendido, mas também devemos nos desculpar por não termos ido às raízes da justiça de transição. Nenhum torturador preso. Nenhum crime apurado. A lei de Anistia sem revisão. Vejamos como a história se vinga hoje de nós e penaliza a sociedade em razão do erro cometido. Nomes de torturadores não estariam sendo propagados como heróis nacionais se nós tivéssemos honrado nosso compromisso. Nós devemos isso ao nosso povo.

Estufemos, por fim, o peito para reprisar as 19 universidades criadas, com seus campi espalhados por rincões que nunca haviam recebido tal equipamento social. Mas reconheçamos que para toda a expansão e democratização do acesso, não fomos capazes nem mesmo de institucionalizar uma política de assistência estudantil. Deixamo-la na condição de política de governo ancorada num frágil decreto, à mercê de uma caneta Bic.

Poder-se-ia fazer uma sequência de balanços apontando os avanços a serem tomados como patamar para novas conquistas e os recuos a serem diagnosticados e superados. Mas a ideia da reconciliação aqui expressa parece não precisar de mais elementos. É possível que este ajuste de contas sobre estas e outras questões permitem reatar a atuação como frente para as esquerdas e o diálogo mais franco e legítimo com a sociedade civil. Um passo importante terá sido dado, depois dele é remontar as estruturas de resistência no parlamento e nas ruas, mobilizar nossas fundações para pensarem um projeto nacional, encontrar a narrativa e disputar os corações e as mentes.

Leonardo Barbosa e Silva é docente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia e Coordenador do Núcleo de Sistema Político e Políticas Públicas e do Observatório de Políticas Públicas da mesma instituição.



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