Estamos condenados aos salários? - Le Monde Diplomatique

PRECARIZAÇÃO

Estamos condenados aos salários?

por Marianne Khalili-Roméo
1 de abril de 2007
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Um documentário catalão explora, além da crítica à mercantilização do trabalho, alternativas para um mundo em que se consuma de forma consciente e se reserve tempo e energia para o que de fato vale a pena…Marianne Khalili-Roméo

“O trabalho é a emancipação e o desemprego, a alienação”, afirmou Nicolas Sarkozy [1]. Volem rien foutre al païs, último documentário da C-P Productions [2], refuta tal argumento. Faz uma crítica social do trabalho, num contexto onde o culto da atividade assalariada parece proibir qualquer discussão sobre o assunto. O espectro do desemprego em massa, o apelo ilusório ao crescimento e o reino do consumo tornaram impossível o debate sobre os fundamentos da exploração no mercado de trabalho. No melhor dos casos – e exemplos cinematográficos não faltam -, as dificuldades reais do mundo empresarial chegam a ser representadas. Mas, a existência de soluções alternativas que desafiam o modelo produtivista é, raramente, pautada. Como se nada pudesse ser subtraído da ordem existente.

As condições de uma ruptura com esse modelo interessam os realizadores do documentário. Por isso, eles a palavra àquelas e àqueles que resistem por seus atos ou por seu modo de vida. De um lado, sobretudo nas zonas rurais, caminhos pessoais auto-suficientes de indivíduos que tentam imaginar uma vida fora do trabalho, se apropriando do tempo e reduzindo as necessidades (casas de palha, fontes de energia hidráulicas e eólicas etc.). De outro, a organização das lutas diretas, especialmente na Espanha (campanhas de furto aos supermercados, reuniões públicas de incitação à expropriação, requisições de imóveis desocupados etc.).

Se o filme julga contra-produtivistas algumas dessas iniciativas, não reencontramos o distanciamento crítico característico dos filmes de Pierre Carles. Os testemunhos ressaltam que o interesse dessas experiências reside no engajamento coletivo e na capacidade de organização comunitária. Assim a responsabilidade dos que as realizam ultrapassa a simples provocação. Evoca-se, assim, a idéia da “retomada individual” dos anarquistas do século XIX ou o atual conceito de “decrescimento”.

Propostas alternativas… trabalho saudável?

A edição do vídeo tem um papel de destaque e contribui para a eficácia da narração. Alterna as entrevistas daqueles que combatem o capitalismo e trechos de transmissões televisivas – operando como panfletos publicitários – a favor do liberalismo [3]. Desse efeito de “patchwork”, destacam-se personagens que parecem retirados diretamente do filme L?an 01: como encarnações, no real, dos desejos utópicos de seus criadores Gébé e Doillon. Referência em Volem rien foutre al païs, esse “filme-miscelânea” ainda conserva, 30 anos após seu lançamento em 1973, a “auto-ironia” e revolta libertária. Na falta dessa exaltação, o filme de Carles, Goxe e Coello nos remete – e essa é a sua força – ao sistema de alienação insidiosa e potente que nos estimula a existir pela capacidade de consumir. Como recomendava Georges Orwell, é necessário “manter a cabeça fora da água”, enquanto se espera uma eventual reviravolta na ordem social.

A produtora Annie Gonzalez, originalmente da CP Productions, conseguiu o que muitos outros sonharam: produzir sem a televisão. Uma ironia, se nos lembrarmos que o primeiro filme de Pierre Carles, Pas vu, pas pris, a princípio destinado à transmissão televisiva, só passou nas salas de cinema, após ser recusado por todos os grandes canais de televisão. Contando, em média, com cem mil espectadores por longa-metragem – um resultado excepcional para documentários – a C-P tem um modo incomum de produzir cinema. Visto que a economia em torno de tais filmes se apóia quase que exclusivamente na sua transmissão nas salas de cinema, a difusão dessa cinematografia implica no engajamento dos cinemas independentes e na afeição do público.

Volem rien foutre al païs sugere, em todo caso, que trabalhar menos – ou agir de outra forma – é uma maneira de reservar a energia para o que realmente merece, e de preservar a integridade de cada um.

Tradução: Leonardo Teixeira da Rocha
leorocha2003@yahoo.com.br

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Trabalhar mais, para ganhar menos
Um balanço da políticas neoliberais “de emprego” na França revela: além de rebaixarem salários, elas ampliaram as diferenças de rendimento entre homens e mulheres, a precariedade e a necessidade de trabalhos complementares. Que mais será preciso para uma mudança de rumos?

O preço do trabalh



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