Este estranho culto à Internet - Le Monde Diplomatique

TECNOLOGIA & CULTURA E

Este estranho culto à Internet

por Philippe Breton
1 de outubro de 2000
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Herdeiro de alguns valores da contracultura — a busca de uma sociedade mais fraterna, comunicativa e pacífica —, ele adotou ao mesmo tempo, porém, idéias liberais ou mesmo segragacionisas, como o desprezo aos idososPhilippe Breton

É difícil não encontrar pontos em comum entre o novo culto (à Internet) e o amplo movimento de contracultura que se tornou um fenômeno de massa na década de 60 nos Estados Unidos, e, sob formas variadas, em inúmeros países ocidentais. É bom lembrar que a chamada “contracultura” — supondo uma homogeneidade maior do que a realidade — foi uma vasta corrente englobando a herança da “geração beat”, o movimento de contestação da juventude (que acabaria desembocando nas grandes revoltas estudantis) e o movimento hippie, além das inúmeras ramificações nascidas dessa nebulosa, como os movimentos “alternativos”.

O movimento da contracultura iria desaparecer, enquanto tal, na década de 70. Mas os valores que defendia espalharam-se e ainda influenciam a maneira de “ser no mundo” de muitos adultos. Nos Estados Unidos, alguns nomes célebres continuam vinculados ao brilho que assinalou toda uma época — como Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Alan Watts, Ken Kesey, Timothy Leary, Gary Snyder, Neal Cassady ou Bob Dylan —, sem se falar em inúmeros grupos musicais e algumas revistas. São Francisco e a Costa Oeste iriam constituir o local privilegiado dessa “revolução de costumes”. (…)

Os novos “mendigos celestiais”

Concretamente, as práticas da contracultura passam pela ruptura com o mundo (o drop out), pela viagem de iniciação — que, tal como monges mendigos budistas, se encontravam normalmente na Índia, mas também nas estradas norte-americanas e européias —, pela vida em comunidade, pelo desejo profundo de igualdade, pela influência libertária, pelo engajamento (por influência de Gandhi) na cultura da não-violência, pela proximidade com a natureza e por um certo misticismo tingido de influências orientais, principalmente budista (nessa época, muitos artistas se converteram ao zen budismo, ou aderiram a seitas influenciadas pelo orientalismo). A sociedade era concebida como uma comunidade pacífica, com o amor e o altruísmo ocupando um lugar importante. Inúmeras redes de vida, que produziam música, literatura, lazer, educação, alimentação ou medicamentos específicos, acabam formando um vasto universo underground que, na época, envolvia centenas de milhares de pessoas.

Essa idéia de um mundo novo tem muitos pontos em comum com o movimento contemporâneo em torno da Internet, que também mobiliza centenas de milhares de jovens, principalmente em busca de uma sociedade mais fraterna, mais “comunicativa”, mais pacífica. A continuidade dos temas é flagrante: à sua maneira, o mundo da Internet também é underground, um underground atual, o vínculo que permite sair do “mundo normal”. Quem atualmente dedica o seu tempo à Internet, realiza o drop out dos dias de hoje, e muitas descrições dos jovens internautas, completamente absortos por este novo culto, apresenta-os de uma forma tocante, tal como os “mendigos celestiais” de que falava Kerouac.

À sombra do modelo liberal

Se, na década de 50, era comum “pegar a estrada” para dar outro sentido à vida, numa perspectiva espiritual, hoje em dia se navega pelas “rodovias da comunicação”. As analogias são muitas e, através desta continuidade, voltamos sempre ao período do pós-guerra que nos fala de uma espécie de estabilidade que não consegue esconder a renovação das formas. Como se a nossa sociedade tivesse ficado ancorada naquela época, e nós retomássemos, com outros hábitos, o mesmo roteiro.

A articulação desse novo culto também se fez com os valores de um liberalismo desconhecido da contracultura da década de 60. Das duas grandes utopias da segunda metade do século XX — a utopia revolucionária e a utopia da contracultura —, somente a segunda sobreviveu e, de certa maneira se reencarnou no novo culto da Internet. Embora hostil ao grande capital e à sociedade de consumo — e também marcada por uma tradição libertária —, a contracultura nunca rompeu completamente com o modelo liberal. Isso poderia explicar por que o culto da Internet integrou tão facilmente os seus valores. [1]

O papel da “juvenilidade”

O quadro dos valores e correntes de pensamento em que se apóia o culto da Internet para a sua divulgação seria incompleto se não fosse mencionado um valor “secundário” (com relação aos grandes princípios que acabamos de citar), porém não menos importante: a “juvenilidade”, ou seja, a tendência a exaltar a juventude, os seus valores, tornando-a modelo obrigatório de qualquer tipo de comportamento.

O culto da Internet é um culto jovem, de jovens e para jovens. É concebido como uma espécie de processo de “revolução permanente”, onde são os jovens quem determina a direção do movimento. Nicolas Negroponte é o escritor que mais aprofundou o papel dessa “juvenilidade”: “Eu vejo essa mesma mentalidade de descentralização, que opera na nossa sociedade, sob o impulso da juventude do mundo digital. A tradicional concepção centralizadora vai se tornar coisa do passado. A noção de Estado também vai passar por uma mutação radical. (…) Enquanto os políticos se debatem com a herança da História, uma nova geração, libertada dos velhos preconceitos, surge da paisagem digital. (…) A tecnologia digital pode ser uma força da natureza atraindo as pessoas para uma grande harmonia mundial.” [2]

Microsoft contrata adolescentes

Negroponte ressalta o papel que teve a juventude na criação de uma “contracultura face ao establishment da informática. (…) O nosso cimento não era a disciplina, mas a crença de que os computadores modificariam e transformariam a qualidade de vida de forma espetacular, devido à sua ubiqüidade — não apenas na ciência, mas em todos os aspectos do cotidiano”. Ele é um dos vários defensores da idéia segundo a qual as crianças seriam, “naturalmente”, aptas à informática. “Quer se trate da população da Internet, da manipulação de jogos Nintendo ou Sega, ou da invasão de micro-computadores, o importante não será mais pertencer a esta ou aquela categoria social, racial ou econômica, mas à geração certa. Os ricos, hoje, são os jovens; e os pobres são os velhos.”

Como se vê, uma certa demagogia acompanha a juvenilidade. Mas, de qualquer jeito, é nas camadas mais jovens da população que se apóia o culto da Internet. A Microsoft — que vem tentando negociar uma virada que a aproxime do mundo da Internet — não hesita em contratar pessoas muito jovens para orientar sua estratégia. “A empresa”, explicam, “avalia que esses jovens ficarão plugados quase permanentemente à rede. (…) Foi em função disso que a empresa encarregou dois adolescentes de explicar a alguns de seus diretores de idade média a sua nova filosofia de trabalho e de lazer.” [3] Um deles explicou que “os períodos de aulas, de trabalho ou de recreio, que antes eram distintos e se sucediam, hoje em dia se misturam”.

Idosos, os “novos” excluídos

É nesse ambiente de juvenilidade que se encontra a apologia sistemática da “rapidez”, a ponto de se ter tornado uma crença: quanto mais rápido, mais próximo do mundo espiritual. É a rapidez que nos libera do corpo e nos aproxima constantemente dos outros. “A realidade da informação”, diz Paul Virilio, “está totalmente contida na velocidade de sua propagação.” [4] Comentando, com firmeza, o processo contra José Bové e seus companheiros que ocorria na cidade de Millau, em julho de 2000, Alain Madelin, aficionado liberal da Internet, afirmava: “Na realidade, o novo mundo que chega traz uma oportunidade formidável para que renasça uma sociedade de estatura humana, e, nesse mundo novo, não são os grandes que triunfam sobre os pequenos, mas os rápidos contra os lentos.” [5]

Lendo alguns artigos e ouvindo algumas declarações, cabe perguntar-se que lugar terão, nesse “mundo novo”, os velhos (com mais de 35 anos). Um estudo encomendado pela Caixa Nacional de Pensões, da França, revelou a existência de um verdadeiro discurso de exclusão dos idosos na á



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