Experiência de corpas, identidades, artes e saberes afrodissidentes

Transfeminismo negro

Experiência de corpas, identidades, artes e saberes afrodissidentes

por Várias autoras
4 de setembro de 2020
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Este artigo do especial Feminismos Transnacionais traz depoimentos sobre mulheres trans, negras e feministas. No texto dessa semana conhecemos e atravessamos trajetórias, que representam o transfeminismo negro, a partir de um projeto de extensão no nordeste brasileiro, numa Universidade Pública Paraibana

Este texto tem a intenção não só de apresentar a experiência da [2] Cine Bixa[3] (@cinebixa), mas também de contar as histórias de algumas de suas integrantes travas pretas e de como elas se encontram. Esse texto é sobre superação, é sobre potência, é sobre saber, é sobre vida e sobre liberdade. Escrevemos juntas (cada uma na sua casa – em isolamento social – por conta da pandemia em curso da Covid-19), mas juntas. Choramos a cada parte escrita, a cada parte lida uma da outra, a cada lembrança dos sorrisos e das mãos dadas nos caminhos que trilhamos desde o início de 2019. Esse texto pode ser uma poesia, uma música, uma escultura, uma oração, ou mesmo, uma peça de teatro baseada em vida, nossas vidas, suas vidas (será?!). Esse texto é arte. Porque a arte é transformadora, é existência e resistência. Somos TRANSformadoras. Nos transformamos na transgressão ao CIStema! Esse texto é uma viagem, nossa viagem. Mas, agora, é sua viagem, já que escrevemos para que você leia!

Nota de orientação de leitura: do início para o fim, do fim para o início, do meio para o fim ou do meio para o início. É um texto livre, em atos, em cenas dissidentes e estranhas. Esse texto é palavra, é dor, é memória e amor. Puro amor! Esse texto pode te incomodar. Queremos te incomodar. Mas também, te afetar. O incômodo move, toca, provoca. A afetação transforma. Se transforme!

Cena 1: a Lama, preta

No início, havia caos, porém um caos que tentava se encaixar à ordem de predestinação cisgenera[4]. E essa ordem era confusa, pois se esbarrava em contradições materiais e emocionais, que me prendiam a sintomas depreciativos de mim. Esse momento de “pré transição” pouco se é visto em evidência, mas, apesar de ter matado aquele ser, eu vivo com ele e assumo a sua existência.

As aspas em “pré transição” são porque eu não acredito que há uma prévia existência que não esteja em transição. Aliás, apesar de me assumir definitivamente enquanto Alice só após minha experiência na Cine Bixa, eu já fui Alice antes, já experimentei Alice diversas vezes. Porém, era uma Alice mais literal, mais como na história original, perdida, buscando por símbolos, buscando por tempo, mas nada disso ela encontrava, só trapaça, vindo de fora e de dentro.

E por falar em identidade preta, o processo de entendimento da cultura do meu povo sempre me foi negado. Perceber-me enquanto travesti era algo distante, como travesti preta então, estava a quilômetros de mim. E por ter esse corpo colonizado, com padrões cristãos e estética distante de tudo que fosse marginal, vivi parte da minha vida em um local de não existência, onde qualquer expressão que me vinha, era monitorada. Usar um gorro me faria parecer uma bandida. Usar uma saia, seria afeminada.

Um ensino secundarista inteiro sem referências; e um CIStema escolar extremamente transfóbico que me deixou medrosa. Temia até a minha sombra. Meu momento mais sombrio, ocorreu na época em que eu estava mais predestinada a me assumir. Foi quando fui vítima de um estupro. O que me fez passar por momentos, onde eu, a corpa culpada, doente, me tornava então portadora de uma IST. Aos 17 anos, vi todos aqueles estigmas que me colocavam, aqueles onde se era enquadrado todo o imaginário LGBTQIAP+ preto, caindo em cima de mim. Cortei o cabelo, esqueci Alice e entrei na universidade.

Foi no projeto de extensão Cine Bixa que ressignifiquei o nome morto por meses e, logo após, o transmutei para Alice. Alice já estava crescida, mas eu ainda escondia outra parte de mim, a Lama, aquela que estava no fundo do poço onde me encontrei por anos. A Lama se fez por medo, mas ela era forte, ela era volátil e fluída, porém agressiva e brusca – uma lama preta e consistente – e foi através da Lama, que eu me reconheci enquanto Alice.

A Lama representa a forma que eu moldei a arte para poder gritar mais e mais alto, a forma que eu domei o discurso e o poder da fala para me impor. A Lama é a junção da água – emocional e molhada – com a terra – firme e seca. É com a Lama que vocês falam, em minhas performances, poesias e textos (@lamapretah). É a Lama quem vos fala, quando Alice não está segura de si. A Lama sempre tem certeza, pois a Lama é preta e escura das ideias.

Porém, não é só através de uma coisa que os fatos e fenômenos históricos se dão. A Ira, ou melhor, Ayra, outra trava preta integrante do projeto, fez parte do meu processo de empoderamento e de livramento de culpa. A Gabriela, também trava preta integrante do projeto (somos 3 travas na Cine Bixa atualmente) fez parte do processo de compaixão e entendimento de mim mesma. Eu fui formada pela Lama, mas não só, pois elas, juntas com Luciana (coordenadora do projeto), me ensinaram, que Maternidade e Afeto existem para a Travesti.

O movimento mais gostoso que se deu na minha experiência com a Cine Bixa, foi poder finalmente me sentir humana, fazer parte de uma família e poder passar esse mesmo sentimento para muitas outras. Percebo um resgate da Cultura das Balls[5], que aconteciam nos anos 70/80, pois me vi enquanto uma corpa dissidente numa universidade, sozinha e silenciada durante meses. Mas, foi percebendo o poder de influência do meu corpo a outros corpos e o poder de referência que as outras corpas (que compõem a Cine Bixa) fizeram a mim que, através dessa “house[6], eu finalmente me senti uma cidadã, uma sujeita de modificação histórica.

Para pessoas cisgeneras, se sentir humana, deve ser básico. Mas para as Travestis e pessoas Trans pretas (as que conseguem ter acesso à esse texto, vão entender), em sua maioria, é muito distante o processo de se enxergar enquanto integrante do todo social. E, para além de poder me enxergar, outro poder adquirido com as experiências Afetuosas e “Afetativas” da Cine Bixa, foi fazer com que outras das nossas também tenham essa percepção. Foi nossa ida, por exemplo, até as escolas de ensino médio – dentre outros locais que ocupamos enquanto projeto de extensão – e poder falar para outras Alices, perdidas de referências e de corpas como a sua, que elas não estão só, e que há caminhos que elas poderão percorrer [7].

Cena 2: Ayra

Pensar a Cine Bixa é, sobretudo, remontar a momentos de construção de afetividade e segurança dentro de uma instituição pública universitária que busca nos massacrar cotidianamente através de suas normas e projetos.

Primeiro dia: a seleção pra extensionista bolsista da Cine Bixa 2019. Fui certa de que a bolsa já era minha, afinal muito provavelmente estaria lotado de gays cisgeneras e brancas. Coloquei o “melhor look” e fui pronta pra dar o texto. Quando chego lá, qual não é minha surpresa? Havia mais outras três travestis pretas indo participar do mesmo processo de seleção. Naquele momento, nervosismo e felicidade se misturaram. Mas, minha certeza era que eu queria muito participar daquele projeto que me pareceu, de cara, meu espaço seguro.

Preciso destacar que conheci a Cine Bixa num momento em que estava saindo de uma área de “freak zone[8] e cheia de dúvidas sobre mim, meus desejos, minhas teorias e práticas. Desejava alcançar um outro momento da transição em que eu começaria a terapia hormonal, mas ainda sem saber se seria coerente com a minha história, que sempre me vi numa corrida contra as normatividades, presa numa tentativa de compreensão sobre quais impulsos eram meras construções e quais, apesar de serem igualmente construídos, eram reais sobre o que eu queria para meu corpo.

Com o tempo, fomos afinando nossas relações a partir das conversas que moviam tanto interesses do projeto, como demandas nossas urgentes. Erica Malunguinho, deputada e primeira mulher trans preta a ocupar a Assembleia Legislativa de São Paulo, fala do processo de “aquilombamento[9] como tecnologia de sobrevivência e foi isso justamente que a Cine Bixa se tornou: um quilombo moderno que estava ali como refúgio dentro de uma instituição construída historicamente com uma linguagem masculina e branca, à serviço da colonialidade. Instituição essa que trata de excluir outras narrativas lidas enquanto subalternas.

Entretanto, agora nos encontrávamos ali, refugiadas na Cine Bixa. À princípio, pode parecer banal um grupo de estudantes universitárias, no nordeste brasileiro, se reunindo em uma sala de pesquisa semanalmente. Entretanto, a presença que emana em ter quatro travestis e tantas outras pessoas pretas reunidas numa sala, balança com as estruturas da universidade e nos faz ter coragem para denunciar os processos de violências que ocorrem conosco, enquanto projetamos novas linguagens para comunicarmos.

Nesse tempo também (2019), decidimos nos matricular numa disciplina do curso de dança chamada “Corpo, Movimento e Diferenças”, por desejarmos fazer uma disciplina que considerávamos mais lúdica. Criamos como expectativa para a disciplina que íamos ter acesso a discussões sobre todas as diferenças possíveis, imaginando como isso se aplicaria ao meu próprio corpo. Mas, quando chegamos na sala, era um curso sobre deficiências físicas, destacando sempre a questão de um outro corpo deficiente. De cara, nosso incômodo em comum foi acordado: no meio de tantas diferenças presentes naquela sala, como seria mais potente estudar a partir das diferenças de outro corpo? Mas, será que as pessoas ali presentes estavam dispostas a entender sua própria diferença?

Em 2019 aconteceram também vários protestos em defesa da educação pública na cidade de João Pessoa. Em um deles, fomos juntas: eu, Gabi, Lama e Rosanna (outra travesti que não faz parte da Cine Bixa, mas que está igualmente conosco nos “corres da vida”), marcamos presença, demos o texto, falamos sobre a ausência de representações trans e femininas nesses espaços. Durante o ato, discutíamos a possibilidade do início da terapia hormonal e, quando chegou no fim da movimentação, compramos o primeiro Diane e o bloqueador[10]. Juntas! O grande problema de iniciar a hormonização é que envolve também um processo de deixar tudo para trás que acompanha o medo de ser abandonada por todos que você conhece, ou pelo menos incompreendida.

Se posso dizer que em Gabi eu consegui uma namorada, com Lama eu assumi uma responsabilidade difícil de ser mãe. A grande dificuldade em assumir uma maternidade nesse nível é a responsabilidade e o cuidado que são necessários, eu precisei aprender a olhar para outra pessoa com mais carinho para que conseguisse chegar de fato.  Com as meninas, eu construí família e desenvolvi laços, pude me permitir ser a travesti que sou sem culpas e longe do medo de ser abandonada pois, do meu lado, tinham pessoas que estavam dispostas a escutar a urgência, qual que fosse, seja por compreender diretamente do que se trata, ou por entender qual espaço que se ocupa e o que ele revela.

Cena 3: Luciana

Fui criada e socializada numa lógica cisgênera heteronormativa branca. Na minha infância e adolescência, há trinta anos, lá em Pernambuco, não se falava sobre corpo, gênero ou sexualidade na escola, nem mesmo em casa. Era na rua que minha educação sexual se dava. Foi na rua que vi, pela primeira vez, uma travesti. Eu não sabia o nome dela, mas ela era uma figura conhecida por lá, todos a chamavam de Queixada. Ela era negra, tinha um queixo grande e era motivo de piada, mas não pelo queixo. Presenciei várias vezes o futebol na rua de barro parar, para ver Queixada passar. Era ela apontar distante em seus primeiros passos, que logo os adolescentes se cutucavam rindo e iniciavam uma série de gritos eufóricos (“lá vem Queixada”; “ihhhhh, lá vem ele”; “bicha velha”; “anda feito homem”…) que se seguiam initerruptamente até Queixada se fazer distante o suficiente para não mais ser vista ou escutar o que falavam dela. Queixada não dava uma palavra, ela apenas passava, cabeça baixa. Algumas poucas vezes, a presenciei devolvendo pedras de volta. Os meninos corriam e riam. Ver Queixada passar era sempre um evento. Mesmo quem não a xingava, parava na rua, aparecia na varanda de casa, assistia a cena e ria, inevitavelmente, ria.

Na minha adolescência, nunca fui uma garota com uma feminilidade padrão. Gostava de jogar bola e a maioria dos meus amigos eram homens. Com a maturidade, fui me descobrindo em uma outra possibilidade de feminilidade, mais relaxada e desencanada com meu corpo. As tatuagens foram uma boa saída. Era chamada de “alternativa”, “cabeçuda”, “maconheira” … Mas continuava, confortavelmente, na lógica cisnormativa que fui socializada. Sonhava em casar e ter filhos. Dois? Um casal quem sabe?! Queria ser mãe de menina, mas também de menino (tal como minha mãe foi – ela sempre me falava da sorte de ter tido um casal).

Quando fiquei grávida, já nos meus 27 anos, as amigas organizaram um chá de fraldas. A piada da festa era me colocar para segurar bebês no colo ou trocar fraldas de bonecos. Aos sete meses de gravidez, eu não sabia fazer essas coisas, nunca havia feito e me desesperava ao tentar fazer. Me recordo de, nesse dia, chorar ao me darem nos braços um bebê recém-nascido de brinquedo durante uma brincadeira de simulação de parto. O choro não era do bebê que se aproximava em minha vida, era da minha falta de habilidade maternal – feminina?

Corta para… cinco anos depois. Estou em casa, aos prantos, em desespero. Há meses colocava minha filha de castigo cotidianamente. A trancava no quarto e a proibia de sair. Ela queria usar bermudas, camisetas e bonés. Queria andar na rua assim e ser chamada de Pedro. Eu fechava os olhos e lembrava de Queixada, das pedras, dos risos, dos meus risos e silêncios. Me culpava. Me culpavam – sempre tinha alguém próximo para me dizer que não fui feminina o suficiente pra ensinar minha filha a ser mulher. Andar na rua com ela sempre era difícil. É menino ou menina? (sempre perguntavam em tom jocoso). Não conseguíamos responder. Ela apertava minha mão e se escondia entre minhas pernas. Eu sorria sem graça. Cabeça baixa. Achava e torcia que fosse só uma fase e que passaria logo. É só um momento de experimentações, pensava eu. Vai ser uma menina mais descolada tal como fui/sou. Lésbica, talvez? Já já isso de querer ser/parecer menino, passa.

Dois anos depois, me vejo sendo consolada pelo meu filho, já com sete anos de idade: “Mãe, você vai se acostumar. Do mesmo jeito que você se acostumou comigo assim, você vai se acostumar comigo de outro jeito. Eu continuo aqui”. Ele estava lá, na minha frente, acarinhando meu cabelo, pedindo, implorando para que eu o deixasse ficar. Eu o amava, mas não queria que ela fosse embora. “Minha menina, não se vá” (eu murmurava a cada segundo que o via andar pela casa de forma mais masculina). E todos os dias, ela se ia, se perdia nas minhas lembranças, nas fotos guardadas em caixas escondidas, nas bonecas empoeiradas nas estantes mais altas, nos vestidos cheios de babados intactos dentro do armário. E todos os dias ele chegava um pouco mais perto, com um sorriso largo, um abraço forte e uma confiança em mim de que eu iria protegê-lo.

Minha vida acadêmica corria em paralelo, psicóloga de formação, segui pela área da psicologia social e comunitária, mas me encontrei nas leituras da antropologia. Segui carreira acadêmica, “virei” professora. Uma professora um tanto (novamente) fora dos padrões. Nunca li uma linha (nem me interessei) sobre identidades de gênero inconformes com o padrão cisnormativo. Nem sabia sequer o que era cisnormatividade até entrar para o pós-doutorado, quando já tinha 7 anos de maternagem. Era o momento perfeito para estudar mais sobre aquilo que me batia a porta. Eu precisava ler, me informar, buscar saídas e achar novas entradas. Fui pesquisar sobre memórias e lembranças de infância em pessoas trans adultas. Eu queria entender se existia transexualidade na infância. Na época, 2014, mal se falava sobre o tema no Brasil, não havia muitos textos, nem mesmo pesquisas sobre infâncias e experimentações de gênero.

Em 2018, já como professora efetiva na UFPB e mãe há 11 anos, ajo por puro instinto (materno?) e submeto para aprovação um projeto de extensão para pensar as questões de gênero e sexualidade através da arte. A Cine Bixa nasce e com ela, viro mãe novamente. Não só de uma pessoa, mas de outras tantas. Me sentia podendo gestar e criar, com muito mais liberdade, um espaço seguro de afeto, cuidado e experimentações de corpas, identidades e sexualidades dissidentes. Com elas – as bixas, as sapas, as bis, as travas, as não bináries… – entendi coisas que as leituras e as pesquisas não conseguiram me ensinar. Aprendi sobre afeto, sobre perdão, sobre ternura, sobre entender o tempo da outra, sobre segurar na mão e, principalmente, sobre deixar ir. E, finalmente, eu deixava minha filha ir para que meu filho pudesse ficar (o tempo que ele quisesse e do jeito que ele quisesse). Era o tempo dele, a forma dele. Eu, finalmente, conseguia me perdoar por carregar por tanto tempo a culpa de uma maternagem falha e de uma feminilidade fora dos padrões.

Hoje (2020), no terceiro ano de sua TRANSformação, a Cine Bixa existe, insiste e resiste dentro da Universidade Federal da Paraíba. De acordo com dados da ANDIFES, a população trans universitária corresponde ainda à 0,1% do corpo discente no Brasil, se contrapondo a uma realidade gritante em que 90% das nossas estão inseridas na prostituição, com uma expectativa de vida de 35 anos. E é, apesar dessa realidade, que a Cine Bixa se esborra nas bordas dos padrões remotos impetrados pelo isolamento social na busca da contenção pandêmica da Covid19, transgredindo e se multiplicando em artes e saberes na luta para que outras corpas pretas – Queixadas, Alices, Lamas, Ayras, Gabis – e tantas outras… possam circular livres por onde elas quiserem e como elas quiserem (dentro e fora da Universidade).

Gabriella Kollontai, ou simplesmente Gabi, é estudante de serviço social da UFPB, extensionista do projeto @cinebixa, produtora da @paradapreta, mother da @hausofbenvenutty e membra da Culetiva Xica. Gabi dá pala de performer, é levemente marxista e, tanto na academia quanto fora dela, busca explorar sua potencialidade política na desconstrução dos mecanismos do CIStema e na construção de alternativas por e para as travestys.

Ayra Liberato é estudante de ciências sociais, produtora da @paradapretajp e da @geranuageranu, integrante do @cinebixa e mother da @hausofbenvenutty. Em suas pesquisas, têm se estimulado por perspectivas descoloniais e, a partir disso, instigado debates e performances na discussão sobre construção da divindade em corpas travestis & dissidentes.

Lama Pretah. Alice, para os íntimos. Lama é estudante de serviço social, extensionista do projeto Cine Bixa e filha da @hausofbenvenutty. Ela se propõe a ocupar espaços por meio da intervenção artística. Percebendo-se Humana, é através da contradição de se assumir feminina, no espectro Travesti, que ela nega qualquer estigma do ser feminino, logo ela se impõe, NÃO enquanto o Barro, mas enquanto A Lama.

Luciana Ribeiro é antropóloga, professora/pesquisadora da UFPB e está como coordenadora do projeto @cinebixa. Seu papel no Cine Bixa é de facilitadora, porque o projeto é delas, das bixas, das sapas, das travas e de queer mais chegar. Mãe de um adolescente trans, Luciana também atua como coordenadora do coletivo Mães pela Diversidade da Paraíba. Contatos pelo instagram delas @cinebixa ou pelo e-mail: bixaexibida@gmail.com

[1] https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2020-06/pesquisa-mostra-aumento-da-violencia-contra-pessoas-trans-no-brasil

[2] Chamamos “a Cine Bixa” no feminino por uma questão de afirmação pela transgressão e de repúdio aos padrões sociais e de escrita masculinos.

[3] Cine Bixa é um projeto de extensão em curso (desde 2018) na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Trata-se de um experimento artístico de corpas dissidentes do gênero e do sexo.

[4] Cisgenera: pessoa que está em conformidade com o gênero que lhe foi designado ao nascer.

[5] Cultura das Balls: cultura mundializada desde as décadas de 70/80 que teve início entre os guetos LGBTQIAP+ da América do norte, tendo como precursoras as identidades femininas trans pretas, onde ocorriam desfiles competitivos em categorias. A expressão era livre.

[6] House é um termo que define as casas que competem entre si nas “Balls“. Também são espaços onde se criam relações afetivas e de fortalecimento mútuo, funcionando como uma família entre essas corpas de expressão de gênero inconforme.

[7] Alice num país desconhecido/ Onde não se encontrar é prejuízo/ E não ser de forma imediata é se jogar num precipício? / Não!/ Não me enquadro em tempos alheios/ Apenas nos meus seios/ Me conforto/ No mundo em que eu conheço/ Na minha cabeça / Na minha realidade/ Um país de dores / E de maravilhas./ Existo / Não comendo mais bolo nenhum / Não modificando a minha estatura/ Não lendo recadinhos em bebidas/ As Alices agora não estão perdidas.- Lama-  (Poema da autora).

[8] Freak zone ou zona estranha é o não lugar. Defino (eu, Ayra) como meu momento de experimentação da performatividade de gênero para além dos padrões estéticos binários.

[9] Aquilombamento é o processo de construção de quilombos ou “espaços seguros”. Locais (não necessariamente físicos) em que podemos pensar nossos problemas, construir afetos e estratégias de combate.

[10] Diane é um dentre os vários medicamentos possíveis e utilizados na terapia hormonal de transfemininas. O bloqueador é um composto que serve para inibir os índices de testosterona no corpo.



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