Faça do seu sorriso a sua profissão - Le Monde Diplomatique

A FEMINILIDADE COMO VARIÁVEL DE AJUSTE

Faça do seu sorriso a sua profissão

Edição 146 | França
por Gabrielle Schütz
2 de setembro de 2019
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“Arrume a postura!”, “Sorria!”, “Penteie de novo os cabelos!”, “Não fique de costas!”: essas ordens não saem da boca de alguma mãe megera, mas de superiores hierárquicos que se dirigem a jovens empregadas usando tailleur

Pagas de acordo com o Smic (salário mínimo interprofissional de crescimento, o salário mínimo francês) por hora, as recepcionistas são, em sua maioria, contratadas por agências que as empregam em empresas que têm como clientes. Povoando as manifestações esportivas, as inaugurações, os congressos ou as exposições para grande público, como a Mondial Paris Motor Show (antigo Mundial do Automóvel de Paris), elas orientam o público e, de quebra, têm de suportar as “piadinhas” dos visitantes, que as parabenizam pela “carroceria” ou perguntam se estão inclusas no preço do automóvel. Elas também trabalham em empresas, normalmente por períodos mais longos. Nós as encontramos por trás dos balcões que recebem visitantes e funcionários e cuidando da central telefônica. Com menos de 30 anos de idade, de modo geral, compreendem cerca de 13 mil assalariadas na França empregadas em empresas, sem contar outras milhares contratadas a curto prazo por ocasião de eventos pontuais.1

As empresas contratantes não se contentam em procurar jovens dotadas de “boa apresentação” e lhes fornecer um uniforme: elas zelam por sua postura, pelo tom de voz, controlam a altura dos saltos de seus sapatos com precisão de centímetros, a cor do vermelho nos lábios, o grau de transparência de suas meias-calças, o modo como prendem os cabelos… Os “certificados de qualidade” que lhes impõem revelam o tipo de feminilidade que se espera delas: “Acima de tudo, sua maquiagem não deve ser agressiva, mas é preciso sempre que se sinta que você tomou o máximo de cuidado para ser a mais bonita”, afirmou uma delas, que, além disso, especificou que as assalariadas devem ter as “mãos cuidadas”, uma “maquiagem discreta, mas sofisticada”, utilizar um “pouquinho de perfume de bom gosto”, não usar “nenhuma bijuteria ordinária ou que chame a atenção” e “respeitar as regras de etiqueta”.

Originalmente concebida com base no modelo da comissária de bordo, a recepcionista surgiu nos anos 1960. Na época, buscava-se recrutar sobretudo jovens de boa família. Inspiradas pelo movimento de relações públicas, precursor da assessoria de imprensa das empresas, escolas de “êxito feminino” desenvolveram cursos de formação. Elas pretendiam se inspirar em “artes recreativas” que, outrora, as mães pertencentes à burguesia ensinavam para suas filhas e que visavam à competência profissional (como a taquigrafia e o inglês), assim como ao “pleno desenvolvimento da personalidade feminina”,2 incluindo “cursos de etiqueta social e postura”.3 Esse imaginário permanece, mesmo que o recrutamento vise aos mais variados públicos: jovens de bairros ricos em busca de um dinheirinho a mais para despesas pessoais se mesclam a partir de então com outras que, provenientes de um meio modesto, tiram sua renda principal dessa atividade; estudantes ao lado de artistas sem dinheiro ou recém-formadas que esperam arrumar um emprego. As empresas que as contratam pedem que elas se comportem como uma dona de casa com seus convidados.

O conteúdo e o perímetro de seu trabalho se mostram instáveis. Fora do horário de recepções, as jovens às vezes desempenham tarefas domésticas: preparar um café, regar as plantas, garantir uma boa organização dos locais. Nos eventos, encontram-se nos caixas, nos vestiários, nos anfiteatros para passar o microfone durante um debate, durante cerimônias de distribuição de presentes para os convidados, ou atarefadas diante dos computadores para imprimir os documentos dos conferencistas. Na empresa, elas distribuem a correspondência, cuidam das que serão postadas, reservam office boys e táxis, gerenciam a atribuição das salas de reunião, classificam documentos, gerenciam os artigos de papelaria para escritório, fazem fotocópias, garantem pequenas traduções. Às vezes, a recepção do público torna-se até uma tarefa secundária, como para aquelas que fazem o trabalho de vendas complementares com outros vendedores nos estandes dos salões ou que se aliam a assistentes de serviços gerais.

Como todas as atividades consideradas “tipicamente femininas” (assistência a crianças ou cuidadoras em domicílio), esse trabalho toma emprestado do trabalho doméstico as características de dedicação e… invisibilidade. No entanto, as recepcionistas não têm motivo para se envergonhar de suas qualificações. O número das que têm um diploma é maior que o das outras jovens de sua geração, e o das que têm pelo menos o Bac (grau conferido após provas no final do ensino secundário na França) é muito maior ainda e igual ao das que têm um Bac+2 (o número após o sinal + significa a quantidade de anos frequentando o ensino superior) ou mais.4 Não é de estranhar: os empregadores dão muita importância à sua maneira de se expressar tanto em francês quanto em inglês, tanto verbalmente quanto por escrito. Exigem delas uma grande polivalência e capacidade de adaptação. Apesar disso, elas são muitas vezes vistas como figurantes, cujo papel estaria limitado a sorrir. As agências não são as principais a veicular essa imagem, como revela o slogan criado nos anos 2000 por Pénélope, uma das maiores empresas contratantes do mercado: “Seu sorriso, faça dele um ofício!”

A desvalorização das recepcionistas está ligada também a seu status. Elas não são contratadas pelas empresas que recorrem a seus serviços, mas por intermediários, com contrato por tempo determinado (CDD – contrat à durée déterminé) para algum evento ou com contrato por tempo indeterminado (CDI – contrat à durée indéterminée), geralmente em tempo parcial, para postos em alguma empresa. Elas trabalham nos locais da empresa que as terceiriza ao lado dos assalariados, sem, no entanto, se beneficiarem das mesmas vantagens, como o comitê de empresa ou o restaurante. Sua situação se parece com uma terceirização permanente. Essa forma particular de terceirização permite que uma parte da mão de obra da massa salarial não entre no balanço contável – e então que se exibam melhores desempenhos diante dos acionistas ou que se evite chegar a alguns patamares a partir dos quais a lei impõe instituições representativas do pessoal.

Além disso, em caso de ausência, a contratante se obriga a encontrar uma substituta em um prazo de menos de duas horas. Essa grande flexibilidade mantém a pressão sobre o pessoal, que sabe que pode ser mandado embora de um dia para outro. Como outros assalariados terceirizados, as recepcionistas são relegadas e ligadas a uma convenção coletiva menos vantajosa: o trabalho no domingo e na maior parte dos feriados não dá direito, por exemplo, a uma remuneração extra.

A terceirização permanente prejudica também suas possibilidades de carreira, acabando com as vias tradicionais de evolução que existiam no passado, quando era possível entrar em uma empresa na parte mais baixa da escala relativa à recepção para, em seguida, se tornar assistente e subir progressivamente os escalões. Embora se considere que as empresas que as terceirizam não intervenham nas tarefas ou nas condições de emprego das recepcionistas, elas têm tendência a se comportar como suas empregadoras. Muitas vezes escolhem “sua” recepcionista com base em uma pré-seleção da contratante, dando-lhe diretivas ou lhe pedindo que faça horas extras sem submeter a questão ao empregador oficial. Quanto às recepcionistas, estas desenvolvem com frequência um sentimento de pertencimento à empresa que as contrata muito maior que em relação à sua empresa de origem, cujos dirigentes veem muito pouco.

Assim, Céleste,5 assalariada do Business Accueil, postula junto a essa empresa se tornar “recepcionista-chefe” do grande laboratório farmacêutico para o qual foi designada há três anos e onde trabalham há menos tempo umas dez colegas. No entanto, Malika, que nunca pôs os pés no lugar, foi escolhida para o cargo. Céleste pensa que o cliente apoiava sua candidatura (ela se dá muito bem com ele), mas suspeita que sua chefe no Business Accueil tenha se oposto à sua promoção. Malika garante que o cliente demandou deliberadamente uma recepcionista-chefe proveniente de outro lugar para trazer “sangue novo” e “acabar com os maus hábitos”. Ele teria inclusive sugerido demitir Céleste, acusada de resmungar ostensivamente. O cliente se serve então do contratante para que ele endosse, em vez dele, avaliações desfavoráveis. No sentido oposto, a agência pode também jogar a responsabilidade nas costas de quem lhe dá as ordens (“O cliente não quer mais você!”) para impor uma mudança de designação ou provocar uma demissão. Para continuar no emprego, é preciso se conformar ao modelo dominante da empresa que a terceiriza e, ao mesmo tempo, cuidar de suas relações com a empresa contratante. Um exercício de vigilância e de equilibrismo extenuante…

O ofício parece arcaico em vista da imagem ultrapassada de feminilidade que veicula. No entanto, ele encabeça mudanças do sistema assalariado. Cada vez mais assalariados trabalham de forma permanente em uma empresa que os terceiriza, ao mesmo tempo que são empregados por uma empresa contratante. O setor de serviços para empresas (um sétimo de empregos do setor mercantil, sem falar da agricultura e do setor financeiro) fornece os maiores contingentes.6 Ele inclui os agentes de segurança (cerca de 140 mil assalariados em tempo integral em 2016) e os agentes de limpeza (404 mil pessoas, sendo 294 mil assalariados em tempo integral em 2015), mas também os engenheiros de empresas de serviços de informática e os especialistas de empresas de consultoria. A terceirização permanente fornece uma mão de obra ainda mais flexível que o contrato por tempo determinado, sem precisar pagar um bônus de precariedade.

Com uma panóplia como essa, a ameaça do governo de atingir os empregadores com a penalidade financeira malus (no contexto, aumento das taxas de tributos) em caso de recorrerem de forma abusiva ao contrato por tempo determinado tem poucas chances de amedrontar o patronato…

 

Gabrielle Schütz é professora assistente de Sociologia da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. Autora de Jeunes, jolies et sous-traitées: les hôtesses d’accueil [Jovens, bonitas e terceirizadas: as recepcionistas], La Dispute, Paris, 2018.

 

1 Avaliação da autora com base nos dados disponíveis provenientes de organizações patronais do setor para 2017.

2 Entrevista com Jean-Claude Tunon, fundador da Escola Internacional de Recepcionistas, Hôtesses sans Frontières, n.3, set. 1970.

3 “Formations dispensées par l’École parisienne des hôtesses” [Formações concedidas pela Escola Parisiense de Recepcionistas], Hôtesses Magazine, n.1, jul. 1966.

4 Estatísticas resultantes de um banco de dados de 659 indivíduos elaborado por ocasião desta pesquisa.

5 O nome das recepcionistas e das empresas foi modificado para preservar o anonimato.

6 “Élaboration des statistiques annuelles d’entreprise (Esane)”, Institut National de la Statistique et des Études Économiques (Insee), Paris, 2014.



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