Fantasmas em torno de uma “ofensiva chinesa” nas Nações Unidas

MÁXIMA INFLUÊNCIA COM O MÍNIMO ESFORÇO

Fantasmas em torno de uma “ofensiva chinesa” nas Nações Unidas

por Jeanne Hughes
1 de dezembro de 2020
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Na esteira de Donald Trump, diversos comentaristas estimam que a China está no rumo de fagocitar a ONU. Se é difícil medir uma influência difusa, os dados objetivos mostram que a realidade está longe de corresponder à fantasia. Por ora, com objetivos comerciais ou para legitimar suas ações, Pequim visa apenas comandar algumas agências

“É possível contar nos dedos de uma mão os altos funcionários chineses nas Nações Unidas. E não é por falta de cargos de responsabilidade.” O ano é 2005. Wang Jingzhang, diplomata chinês aposentado que por muito tempo foi secretário do Comitê de Sanções para o Iraque, da ONU, queixa-se na imprensa de seu país.1 A pequena corte de funcionários enviada pela China a Nova York é composta, em sua maioria, por tradutores e redatores. Os não linguistas “trabalham dispersos em diversos serviços técnicos ou gerais”. Segundo ele, das oito direções do Secretariado das Nações Unidas, apenas o Departamento para Assembleia Geral e Gestão de Conferências, responsável pela gestão das abarrotadas reuniões, é às vezes deixado para um funcionário chinês, que pode chegar ao posto de secretário-geral adjunto. Na ONU, os chineses sentem-se como se fossem a quinta roda da carroça.

Quinze anos depois, o cenário é muito diferente: vários chineses ocupam cargos de direção, por exemplo, na Corte Internacional de Justiça (CIJ) e na União Internacional de Telecomunicações (UIT) (ver boxe). Alguns analistas preocupados avaliam que é raro um país conseguir tanta influência em tão pouco tempo. É como se, após uma longa bebedeira em comemoração ao “fim da história”, o Ocidente acordasse de ressaca em 2020 e percebesse que, na mesa da ONU, quem serve o café da manhã é a China.

 

Sub-representação nas engrenagens

No entanto, conseguir declarações sobre as consequências dessa transformação é difícil: vinculados por contrato a um dever de discrição, cuja transgressão pode lhes custar o emprego, os funcionários da ONU são desconfiados; o mesmo ocorre com os diplomatas, embora estes nada tenham a temer, exceto a ira chinesa. Quase todos pedem anonimato. “A China age ao longo do tempo, de forma muito organizada e sistêmica”, comenta P.F., diplomata francês em Nova York. “O modo de funcionamento da sociedade chinesa é o planejamento, e isso fica evidente em sua abordagem das questões internacionais.”

Integrada à ONU em 1971, substituindo Taiwan, a República Popular da China foi por muito tempo deixada de lado, apesar de seu estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança. Apenas em 2003 o país obteve, com Shi Jiuyong, a presidência da CIJ. A partir daí, seguiu embalada. Em 2007, Margaret Chan, de Hong Kong, assumiu a direção da primeira agência especializada da ONU, a Organização Mundial da Saúde (OMS) – uma posição de influência, que permitiu elevar a medicina tradicional chinesa ao nível de norma internacional em 2018, um ano após o fim de seu mandato. Durante esse período, Taiwan foi integrado como observador às assembleias gerais da OMS, antes de ser excluído, sob pressão chinesa, após a eleição para a presidência da ilha, em 2016, de Tsai Ing-wen, a presidenta do Partido Democrático Progressista, independentista.

O ano de 2007 também foi o da chegada de Sha Zukang à frente do importante Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (Desa), onde foram elaborados os dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, oficialmente adotados pela Assembleia Geral em 2015. Nesse ano, sem chamar muita atenção, a China já controlava quatro agências especializadas. Essa situação ainda perdura, mas os olhares mudaram, e crescem as preocupações.

Porém, por mais estranho que possa parecer, os números mostram que a China é bastante sub-representada nas engrenagens da organização:2 em 2018, entre as 37.505 pessoas empregadas apenas pelo Secretariado Geral (excluídas as Forças de Manutenção da Paz), havia apenas 546 funcionários chineses, entre os quais muitos tradutores (132), sendo o mandarim uma das seis línguas oficiais da ONU. A China fica atrás da Índia (571), do Iraque (558) e do Reino Unido (839), e muito longe da França (1.476) e dos Estados Unidos (2.531). Embora, considerados todos os setores e departamentos da ONU (excluídas as Forças de Paz), o número de chineses tenha dado um salto entre 2009 e 2019, enquanto o de norte-americanos caiu, as hierarquias permanecem. A China responde por 1,2% dos efetivos totais (contra apenas 1% dez anos antes), e os Estados Unidos, por 5% (contra 5,8%).3 É difícil afirmar que há uma invasão chinesa na ONU.

“Ao contrário de alguns países, que têm uma presença simultaneamente muito ampla e muito diluída, os chineses concentram-se em algumas direções”, explica P.F., “em posições de destaque, nem sempre de nível muito elevado, mas que têm uma dimensão prescritiva ou são decisivas para o funcionamento da administração. E eles sabem muito bem identificá-las.” Um exemplo emblemático: o Desa. Ligado ao Secretariado, ele constitui um feudo chinês há catorze anos, com três dirigentes sucessivos. Embora pouco conhecido, esse departamento é o principal autor de toda a literatura da ONU: seus relatórios e recomendações servem de base para as negociações e os trabalhos das comissões da Assembleia Geral e do Conselho Econômico e Social (Ecosoc), órgão consultivo da ONU. Suas publicações anuais sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e suas Perspectivas da Economia Mundial são amplamente usadas em todo o mundo, muito além dos corredores da ONU.

“A maior parte das decisões e das iniciativas dessas entidades [do Desa] vai no sentido de interesses diretos da China, ou pelo menos não se opõe a eles”, continua o diplomata. “É uma estratégia de posicionamento que se concentra também nos textos. Uma resolução sobre um assunto específico que emprega os elementos de linguagem de um texto terá influência jurídica sobre a forma como os Estados serão vinculados e sobre a constituição de normas futuras.” Entre os textos produzidos por esse departamento, é possível conhecer “O modelo chinês de sucesso econômico”4 – elogiado, é claro –, ou ser apresentado às Novas Rotas da Seda (BRI), o grande projeto do Estado chinês, como um meio de “cooperação para o desenvolvimento sustentável”.5

Sub-repticiamente, a China tenta gerir sua imagem por meio do domínio, ou pelo menos de um controle, do discurso. Assim, sua “capacidade de fazer parte de objetivos gerais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, nunca é realmente contestada”, enfatiza nosso diplomata, “embora não seja possível dizer que a indústria chinesa é a menos poluente nem que os compromissos assumidos por Xi Jinping com o meio ambiente impressionam. No entanto, a China é mencionada em toda parte como uma grande defensora do meio ambiente, da biodiversidade etc. Em termos de discurso e de imagem, o efeito é convincente”.

Estratégico, o Desa é também, em suas próprias palavras, “um dos pontos de entrada para ONGs que buscam um estatuto consultivo junto ao Ecosoc. Ao apoiar o Comitê das ONGs, ele [as] orienta sobre a melhor forma de contribuir com o trabalho do Conselho”.6 E como as questões ligadas aos “povos autóctones” também são de responsabilidade do Desa, a direção chinesa está no lugar mais privilegiado quando um indesejável ativismo tibetano ou uigur se manifesta…

Em 2017, Wu Hongbo, então secretário-geral adjunto, destacou-se ao jogar a carta da suspeita de terrorismo para expulsar, por meio das forças de segurança, o ativista uigur Dolkun Isa, que se dirigia à sessão anual do Fórum Permanente para Questões Indígenas da ONU – um gesto reivindicado na televisão estatal chinesa pelo próprio Wu Hongbo. No ano seguinte, seu sucessor, Liu Zhenmin, tentou repetir a manobra, porém sem sucesso, graças à intervenção das missões diplomáticas da Alemanha e dos Estados Unidos.

(Amanda Daphne)
Uma política mercantil

O último relatório da Organização das Nações e Povos Não Representados (Unpo),7 uma ONG heteróclita que reúne tanto o Governo Provisório do Estado de Saboia como o Congresso Mundial dos Uigures, descreve em detalhes todas as técnicas de bloqueio burocrático desenvolvidas contra ativistas por diplomatas e funcionários do Desa, do Ecosoc e até do Conselho de Direitos Humanos da ONU: credenciamentos que se arrastam, intimidação, monopolização do tempo de fala… Mais do que qualquer outro país, a China está sempre ali, ao lado da Rússia e do Irã. Em março de 2018, foi rejeitada uma resolução de procedimento (que requer nove votos sem veto) permitindo que o Alto Comissário para os Direitos Humanos informasse o Conselho de Segurança sobre as violações dos direitos humanos na Síria, por causa do voto contrário da Costa do Marfim. Muitos viram nisso o resultado de uma pressão chinesa nos bastidores. Em outubro, a China conseguiu que fosse rejeitada uma resolução da Assembleia Geral contra a repressão e a violação dos direitos dos uigures por 57 votos (entre eles os da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos), embora tenha perdido um pouco de terreno: 39 votaram a favor, ao passo que um ano antes eles eram 23.

A eleição em 2019 – no primeiro turno – de Qu Dongyu para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) foi vista como mais um símbolo dessa influência. Segundo alguns analistas, a China teria se beneficiado da retirada do candidato camaronês em troca do perdão de uma dívida de US$ 70 milhões.8 Jean-Jacques Gabas, pesquisador e especialista em políticas agrícolas chinesas na África, vê nisso um voto de sanção contra o Ocidente por parte dos países africanos, mais do que o sinal de uma real atração pela China. A aposta, para esses países, seria fortalecer seu poder de negociação no cenário internacional e aumentar a ajuda, o investimento direto chinês e o comércio. “Até a epidemia, o que emergia dos discursos de Qu Dongyu era uma forte ênfase nas novas tecnologias, no 5G e no desejo de vender um modelo de intensificação do tipo ‘revolução verde’, como a conhecemos na década de 1960, com sementes melhoradas, pesticidas etc. Havia pouco espaço para a agroecologia, a biodiversidade. O novo diretor-geral colocava a China em um papel de liderança”, explica Gabas. Uma política mais comercial do que justa, voltada a escoar insumos agrícolas – a China é o maior produtor mundial de fosfatos. Desde a crise, Gabas nota que surgiram questões relacionadas ao bem-estar social e à produção local. “Há uma nova dinâmica. Qu Dongyu segue a tendência, que se volta para um questionamento de práticas anteriores, e ecoa o discurso de muitos Estados africanos diante dos efeitos negativos da Covid-19.”

O modelo de desenvolvimento agrícola preconizado pela China está de fato longe de ser atraente para as populações africanas em pleno crescimento demográfico e que devem continuar majoritariamente rurais até 2050. Então, essa mudança de discurso é um desejo de ouvir esses países ou um golpe de comunicação? Desde a pandemia, a China não está muito bem na imprensa: os depoimentos dos africanos de Cantão jogados nas ruas pela polícia em abril semearam a ira no continente, rendendo ao embaixador chinês uma convocação das autoridades nigerianas.9

Outra instância de interesse da ONU: a UIT, reino de Houlin Zhao desde 2015. Ela se ocupa da gestão do espectro das frequências em escala global, da atribuição de órbitas de satélites (qualquer pessoa que deseje enviar um satélite ao espaço deve pedir a ela), bem como da internet, que entrou em seu campo de atuação nos anos 2000 – uma ampliação de seu campo de competência que gerou polêmica.10

A China é suspeita de querer definir as normas segundo sua conveniência. O 5G é há muito tempo alvo de uma disputa para saber quais frequências lhe atribuir no espectro, sobretudo entre os Estados Unidos (que queriam as frequências mais altas, em torno de 28 GHz) e a China (abaixo 6 GHz). “As redes de telecomunicações e de informática requerem normas internacionais para que os equipamentos possam se comunicar”, explica Marceau Coupechoux, professor da Télécom Paris e da École Polytechnique. “Quanto mais uma norma (ou um padrão) é compartilhada por um grande número de equipamentos, mais a rede tem interesse para seus usuários. Desse modo, a batalha entre países e entre empresas é travada em grande parte nos organismos de padronização. Não admira que as grandes potências, entre elas a China, tentem exercer sua influência sobre esses órgãos.”

Entretanto, também aqui parece complicado medir a extensão dessa influência. Gilles Brégant, diretor da Agência Nacional de Frequências (ANFR) da França, que representa o país na UIT-R, órgão responsável por forjar as normas internacionais de radiocomunicações, tem uma abordagem moderada: “Os fabricantes têm interesse em obter faixas mundiais. O trabalho de harmonização da UIT consiste em encontrar pontos comuns que permitam, por exemplo, que seu telefone francês funcione nos Estados Unidos, e vice-versa. Não há disputa pelo objetivo comum a ser alcançado nem tentativas de impor as faixas defendidas pelos norte-americanos ou pelos chineses para fazer faixas comuns”. Também não haveria mais problemas estratégicos em particular para os satélites: “Muitos países os têm, e é um sistema bastante ‘continental’: as frequências acima da Europa devem ser as mesmas que na Turquia, mas é menos grave se elas forem diferentes acima de Sichuan [na China]… A situação é mais complexa para as constelações de satélites, mas, hoje, não existem megaconstelações chinesas no mesmo nível de desenvolvimento que as norte-americanas OneWeb ou SpaceX”. Para Brégant, apenas a direção encarregada dos programas para os países em desenvolvimento, a UIT-D, poderia estar em posição de promover as tecnologias chinesas. Mas no momento ela tem uma diretora norte-americana…

Em compensação, o Departamento de Operações de Manutenção da Paz (Domp), vinculado ao Secretariado da ONU, parece negligenciado pela China. É verdade que o país contribui ali com mais tropas do que os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança.11 Não há dúvida de que essa presença maciça lhe permite acompanhar seus investimentos, sobretudo na África, onde se desenvolveram seis das treze operações de paz realizadas em 2020. Sua influência dentro do próprio organismo, porém, não parece ser das maiores. “Essa é uma das grandes perguntas que todos se fazem aqui”, confessa B.S., um funcionário africano do Domp. “Mas a China não tenta assumir um papel de potência.” Esse departamento, de longe o mais pesado em termos de despesas, continua sendo reserva privada da França, que o lidera desde 1997. “Corriam rumores, com a chegada de António Guterres [o atual secretário-geral da ONU, eleito em 2016], de que um chinês havia sido sondado para sua direção, mas os ocidentais ficaram em alerta e se uniram contra a China.” Finalmente, e sem surpresa, o francês Jean-Pierre Lacroix foi nomeado.

Quanto aos instrumentos orçamentários, a China ainda não tomou conta deles. É verdade que há quinze anos suas contribuições (obrigatórias) para o orçamento da ONU não passavam de 2% do total, e hoje ela é o único país além dos Estados Unidos a exibir uma cota de dois dígitos: 12% – contra 22% dos norte-americanos.12 A China é a principal contribuinte da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), fornecendo 19,8% de seus recursos,13 e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em cujo orçamento tem uma participação de 15,49%14 – duas agências que os Estados Unidos abandonaram, respectivamente, em 1996 e em 2018. Além disso, ela paga bem e no prazo: na primavera, o país já havia quitado toda a sua cota do orçamento de 2020.

 

Contribuições voluntárias limitadas

Ocorre que o nível dessas cotas não fornece nenhuma informação sobre a estratégia do país. Na verdade, elas são em grande parte determinadas por regras obrigatórias consagradas na Carta das Nações Unidas, às quais todos os Estados-membros aderem, e estão diretamente ligadas ao PIB de cada nação. Elas são pagas em bloco e não são atribuídas a despesas específicas.

Apenas as contribuições voluntárias, destinadas a despesas específicas, podem dar uma indicação das preferências chinesas. Após Donald Trump, muitos acusaram a China de manter a OMS à sua mercê financeira. Porém, embora sua contribuição obrigatória à entidade – proporcional ao PIB e à população – seja alta (22% do total), a voluntária é baixa (1,4%). Os maiores contribuintes são os Estados Unidos, a Fundação Bill e Melinda Gates, o Reino Unido, a Alemanha e o Japão.15

Pesquisador do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, Mao Ruipeng analisou as contribuições pagas ao Sistema de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDS), responsável em especial pela aplicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.16 Segundo o pesquisador, esses fundos teriam permitido à China solicitar mais envolvimento no projeto Novas Rotas da Seda. De fato, o UNDS foi a primeira instância dentro da ONU a assinar um memorando de entendimento sobre o projeto, em 2016, concedendo-lhe a legitimidade desejada pela China. Como esse departamento tem a particularidade de ter suas entradas em quase todos os órgãos da ONU, Mao Ruipeng dá a entender que a China teria aproveitado a oportunidade para obter, em troca de gentilezas, a adesão de treze agências e programas à iniciativa Novas Rotas da Seda, entre elas a FAO, o Desa, a OMS, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Unaids) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Mas o pesquisador reconhece os limites de seu estudo: “O financiamento do UNDS pela China é relativamente baixo se comparado aos doadores tradicionais” – isto é, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países capitalistas desenvolvidos.

Em suma, as contribuições voluntárias chinesas são tão baixas que é difícil generalizar e concluir que o país esteja comprando as instituições. “A Alemanha dá muito dinheiro voluntariamente e gasta infinitamente mais do que a China”, explica um alto funcionário que trabalha na Quinta Comissão da Assembleia Geral, encarregada das questões orçamentárias. “Nesse estágio, o orçamento é, para esta última, um instrumento de presença, de legitimidade, mas não de influência, o que não significa que isso não possa mudar dentro de alguns anos.” Diplomata chinês e ex-funcionário da Unesco, Xu Bo até acredita que “o aumento das contribuições obrigatórias chinesas foi mais aceito do que desejado. No DNA chinês, não gostamos muito de dar dinheiro: preferimos mantê-lo conosco a fim de ajudar a acabar com a pobreza na própria China”.

Sub-representação do número de funcionários, influência limitada nos círculos em que seus interesses comerciais estão em jogo, fraco uso de instrumentos orçamentários… “Pode-se ter a impressão de que a presença chinesa na ONU é relativa, desproporcional à sua economia ou população”, observa P.F. “Porém, não se deve esquecer que a China muitas vezes fala como membro do G77, grupo de países em desenvolvimento no qual ela lidera um pacote de 150 votos. Muitas vezes, ela não aparece na origem de uma decisão, mas é o motor de tais decisões quando esses Estados votam em assuntos que não lhes dizem respeito diretamente.”

A missão diplomática chinesa permanente na sede, em Nova York, não respondeu a nossas solicitações. Mas Xu Bo rejeita essas ideias de voto por procuração e de desejo de dominação: “Sempre que há um confronto, fala-se em ofensiva chinesa para mudar a ordem mundial. Isso não é verdade. Enquanto os norte-americanos assumem o papel de policiais do mundo, a China paga seus tributos e se beneficia da existência de uma instituição como a ONU”. Essa posição lembra a do presidente Xi Jinping, que em 22 de setembro mais uma vez defendeu o “multilateralismo” na Assembleia Geral da ONU. Esse multilateralismo em versão chinesa que lhe cai tão bem…

 

Em menos de uma década…

  1. 2012. Margaret Chan, de Hong Kong, é reeleita diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), cargo que ocupava desde 2007. Em 2017, é substituída pelo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus.
  2. 2013. Li Yong é nomeado diretor-geral da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), da qual Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Nova Zelândia, Portugal e Reino Unido já não fazem parte.
  3. 2014. Zhao Houlin é eleito secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT). Em 2018, é reeleito para seu segundo e último mandato. Ele ocupava o cargo de vice-secretário adjunto desde 2007.
  4. 2015. Fang Liu é eleita secretária-geral da Organização da Aviação Civil Internacional (Icao). Em 2018, é reeleita para a função até 2021.

Yang Dazhu é nomeado diretor-geral adjunto da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), junto com cinco outros diretores (de nacionalidades norte-americana, marroquina, italiana, russa e espanhola).

  1. 2017. Liu Zhenmin assume o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (Desa) como secretário-geral adjunto nomeado pelo secretário-geral da ONU. Ele substitui Wu Hongbo (2012-2017), que fora o sucessor de Sha Zukang (2007-2012).
  2. 2018. Xue Hanqin é eleita vice-presidente da Corte Internacional de Justiça (CIJ), presidida por Abdulqawi Yusuf (Somália).

Xing Qu é nomeado diretor-geral adjunto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), dirigida pela francesa Audrey Azoulay.

  1. 2019. Qu Dongyu é eleito diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Hua Jingdong é nomeado vice-presidente do Banco Mundial, cujo presidente é o norte-americano David Malpass.

  1. 2020. Wang Binying, diretora-geral adjunta da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi) por doze anos, concorre ao cargo de diretora-geral, mas é derrotada por Tang Daren, de Cingapura.

 

*Jeanne Hughes é jornalista.

 

1 Wan Jingzhang, “La vie secrète des employés chinois de l’ONU” [A vida secreta dos funcionários chineses da ONU], Radio China International, 20 dez. 2005. Disponível em: http://news.cri.cn.

2 “Composition du Secrétariat: données démographiques relatives au personnel: rapport du secrétaire général, A/74/82” [Composição do Secretariado: dados demográficos relativos ao pessoal: relatório do secretário-geral, A/74/82], Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York, 22 abr. 2019. Disponível em: https://undocs.org.

3 “Chief Executives Board for Coordination” [Conselho Diretor Executivo], ONU, 31 dez. 2009 e 2019. Disponível em: www.unsystem.org.

4 “Le modèle chinois de réussite économique” [O modelo chinês de sucesso econômico], Desa, ONU, 23 fev. 2012.

5 “Jointly building the ‘Belt and Road’ towards sustainable developments goals” [Construindo juntos as Novas Rotas da Seda rumo aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável], ONU, 16 ago. 2016.

6 Cf. “Bureau de l’appui aux mécanismes intergouvernementaux et de la coordination” [Escritório de Apoio aos Mecanismos Intergovernamentais e da Coordenação], Desa. Disponível em: www.un.org.

7 “Compromised space: Bullying and blocking at the UN Human Rights Mechanisms” [Espaço comprometido: perseguição e bloqueio nos Mecanismos de Direitos Humanos da ONU], Unrepresented Diplomats Project, Bruxelas, 15 jul. 2019. Disponível em: https://unpo.org.

8 Valérie Segond, “Les étranges pratiques de la Chine pour conquérir la FAO” [As estranhas práticas da China para conquistar a FAO], Le Figaro, Paris, 21 jun. 2019.

9 Martine Bulard, “À Canton, les Africains confinés à la matraque” [Em Cantão, africanos são isolados na base do cassetete], Planète Asie, 14 abr. 2020. Disponível em: https://blog.mondediplo.net.

10 “European Parliament warns against UN Internet control” [Parlamento Europeu adverte contra o controle da internet pela ONU], BBC News, 22 nov. 2012.

11 “Pays contributeurs en soldats et policiers” [Países que contribuem com soldados e policiais], Domp, 31 ago. 2020. Disponível em: https://peacekeeping.un.org.

12 Resolução adotada pela Assembleia Geral da ONU em 22 de dezembro de 2018.

13 “Scale of assessments for the fiscal period 2020-2021” [Escala de pagamentos para o período fiscal de 2020-2021], Onudi, Viena, 1º-3 jul. 2019. Disponível em: www.unido.org.

14 “Contribution to Unesco’s regular budget” [Contribuição para o orçamento regular da Unesco], Unesco, Paris, 1º jan. 2020. Disponível em: https://teamsnet.unesco.org.

15 “Contributors – Financial Flow” [Contribuintes – Fluxo financeiro], OMS, Genebra, 2019. Disponível em: http://open.who.int.

16 Mao Ruipeng, “China’s growing engagement with the UNDS as an emerging nation: Changing rationales, funding preferences and future trends” [O crescente envolvimento da China com o Sistema de Desenvolvimento das Nações Unidas como uma nação emergente: mudando fundamentos, preferências de financiamento e tendências futuras], Deutsches Institut für Entwicklungspolitik, Bonn, 2020.

 

 

 



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