Febre digital no Quênia - Le Monde Diplomatique

ESPLENDOR E MISÉRIA

Febre digital no Quênia

por Sabine Cessou
novembro 30, 2018
Imagem por Fiona Graham / cc
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Ao lançar seu primeiro satélite em maio de 2018, o Quênia juntou-se ao punhado de países africanos presentes no espaço. O equipamento coletará dados destinados à prevenção de secas. A conquista é só mais um aspecto do desempenho tecnológico queniano, cujas descobertas inspiram o mundo, sem, contudo, solucionar os problemas estruturais do país

Em Kibera, a maior favela de Nairóbi, mas também da África, uma jovem mulher varre a frente de sua loja de zinco ondulado. Apenas 1 metro quadrado, aberto em um minúsculo guichê. Maureen Nyambura, de 23 anos, vende chips de celular e serviços de transferência de dinheiro. A concorrência é alta nesse cruzamento de ruas sem asfalto próximo do centro da capital queniana. AirTel, Safaricom… Em dez anos, as marcas de celular e os serviços bancários por telefone floresceram em todos os lugares.

Um cliente coloca no balcão uma nota de 1.000 xelins (R$ 37), que Nyambura se encarrega de enviar a um número de telefone via M-Pesa, a carteira eletrônica lançada em 2007 por engenheiros locais. Graças a essa tecnologia, que se propagou na África oriental e austral, o dinheiro dos usuários sem conta bancária pode ser depositado em diversos pontos de venda da Safaricom. Depois ele pode ser utilizado para pagar contas ou efetuar outras transferências, sempre por celular. O sistema oferece aos mais pobres o acesso aos serviços bancários básicos e permite que enviem dinheiro a seus parentes na zona rural. Entre 2006 e 2016, ele aumentou de 20% para 80% o número de adultos com acesso ao banco – na verdade, simplesmente munidos de um telefone equipado.

A África efetuou o que os especialistas chamam de um “pulo de rã”: ela passou diretamente ao celular, sem ter conhecido um desenvolvimento maciço de linhas fixas, como os países industrializados. Com a carteira eletrônica, o continente mais marginalizado no comércio mundial estampa pelo menos uma vez uma vantagem na corrida, inclusive em relação ao Ocidente (Europa e Estados Unidos). O mobile banking é utilizado por 17 milhões de quenianos, em uma população de 47 milhões. Os agentes de uma economia que permanece amplamente informal têm, dessa forma, acesso aos serviços financeiros, incluindo os empréstimos. Como em toda a África, os bancos comerciais clássicos, cujos serviços custam mais caro, recusam-se a abrir contas para os mais pobres.

Graças às comissões deduzidas a cada transação, a M-Pesa representa a cada semestre 220 milhões de euros de lucro líquido para a Safaricom. Lançada em 1998, a empresa queniana capta 67% do mercado local. Pertencendo em 40% ao grupo britânico Vodafone desde 2000, ela realiza um valor de negócios semestral de 930 milhões de euros. Por sua vez, Nyambura ganha cerca de 250 euros por mês, ou seja, o dobro da renda média mensal (103 euros). Ela economiza para realizar seu sonho: tornar-se professora. Como a escola de formação custa 400 mil xelins (R$ 15 mil) por ano, serão necessários muitos anos para que ela atinja seu objetivo. Mas ela não se desespera: afinal de contas, os clientes circulam por ali o dia inteiro.

No mesmo dia, do outro lado da capital, no bairro descolado de Westlands, amigas passam uma noite de festa no terraço de um prédio residencial. Assim que as garrafas de bubbly (espumante) se esvaziam, começa um grito emitido em coro: “Chupa Chap!”. A dona da casa digita em seu smartphone e faz uma encomenda nessa loja de bebidas on-line. Basta estar inscrito para ter acesso aos serviços de entrega de álcool, apresentados como “os mais rápidos da cidade”. Um desafio, se levarmos em conta o tamanho de Nairóbi, onde se amontoam 3,5 milhões de habitantes e seu tráfego dantesco. Em dez minutos, a cliente já está sem paciência. Felizmente, o entregador, que desviou dos engarrafamentos em sua moto, não demora a trazer as garrafas de prosecco, 11 euros a unidade.

Um serviço tão eficiente não existe nem em Londres nem em Paris. Podemos concluir que, no Quênia, a África do futuro chegou sem fazer estardalhaço? No cinema Imax do centro, o filme norte-americano Pantera Negra teve suas sessões lotadas em março,1 como em toda a África. Antes da projeção em 3D, as publicidades são exibidas, todas centradas nas tecnologias da informação e da comunicação (TICs), para louvar o último modelo de smartphone ou o novo aplicativo a ser baixado. A duas ruas da sala escura, no Mercado Massai, comerciantes que vendem colares de miçangas e pratos de sua etnia se extasiam diante do iPhone 5 exibido por um turista para calcular a taxa de câmbio. Mesmo ultrapassado, o produto, muito caro para eles, parece o top dos tops.

Vistas de longe, as vitrines das TICs no Quênia parecem luminosas. Com seus diversos fóruns, como ICT Innovation, NextTech Africa, Women in Tech Africa, Agritec Africa, seus centros de chamadas realocados e seu grande projeto de “Silicon Savannah”, o país se torna um exemplo e inspira muitos outros, a começar pelo vizinho Ruanda, que tenta concorrer. A “savana de silício”, em construção desde 2013, tem o nome oficial de Konza Technology City (KTC). O local de 2 mil hectares na estrada de Mombasa, a cerca de 60 quilômetros de Nairóbi, deve fazer do Quênia “o hub digital da África”, segundo o governo. Cerca de 20 mil alojamentos, uma universidade e um hospital de ponta estão previstos nessa “cidade inteligente” ainda virtual – apenas um prédio já saiu do papel. O canteiro, estimado em US$ 15 bilhões, deve ser cofinanciado em cerca de 10% pelo Estado e em 90% por investidores estrangeiros a serem encontrados. Por enquanto, apenas uma universidade sul-coreana e o grupo chinês Huawei se comprometeram. KTC, que faz parte do plano governamental Kenya Vision 2030, visa criar 20 mil empregos em cinco anos e 200 mil mais a longo prazo, para fazer do país uma nação emergente.

Barraca que opera serviço da carteira eletrônica M-Pesa em Kibera, Nairobi

 

Um app para os pequenos camponeses

No entanto, o crescimento tecnológico e a confiança dos investidores não são coisas que se decretam. A “Silicon Savannah” suscita ceticismo no Quênia, e o próprio arquiteto do projeto, Bitange Ndemo, já denunciou sua lentidão e o caráter burocrático de sua concepção. “Para a maioria dos quenianos, Konza City é um ‘elefante branco’ que só dará lucro definitivo para as empresas estrangeiras e o governo”, explica-nos Kahenya Kamunyu, fundador da empresa Able Wireless. “É uma ideia brilhante, mas que chega num momento ruim. Deveríamos nos preocupar mais em construir infraestruturas que permitiriam depois ao Quênia realizar grandes projetos.” Um exemplo bem simples: a escola de design da Universidade de Nairóbi não tem ainda uma impressora 3D para seus estudantes.

O governo, por sua vez, defende seus planos baseado em números. As novas tecnologias representaram 10% do PIB em 2017. Elas saltaram desde a instalação, em 2009, de um cabo de fibra ótica submarino, o East African Marine System (Teams), que religa os Emirados Árabes Unidos ao Quênia. A obra, de US$ 82 milhões, lançada por autoridades quenianas, visa reduzir a dependência em relação a um cabo controlado pela África do Sul. O Teams fornece as conexões de internet mais rápidas da África, faturadas entre 25 e 75 euros por mês – custo que permanece elevado para o nível de vida. No Quênia high tech, três de quatro usuários ainda vão a cibercafés para usar serviços lentos e caros.2 O programa de aprendizagem digital DigiSchool, uma das maiores promessas eleitorais das eleições presidenciais de 2013, deve fornecer 1 milhão de notebooks às 22 mil escolas primárias do país. Ainda nesse ponto, critica-se a lentidão do projeto e o fato de que 20% dos estabelecimentos em questão ainda não dispõem de eletricidade, nem sequer de carteiras.3

A taxa de pobreza efetivamente diminuiu entre 2005 e 2016, e a parcela da população que vive com menos de US$ 2 por dia passou de 43,6% para 35,6%. Segundo Tavneet Suri, economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que estuda os efeitos da M-Pesa desde seu começo, a carteira eletrônica tirou da extrema pobreza cerca de 194 mil lares quenianos, ou seja, 2% do total, entre 2007 e 2011. No entanto, mesmo que a inovação tenha colocado os serviços bancários ao alcance de todos, ela não resolveu os desequilíbrios estruturais da economia.

Como em outros lugares da África, o crescimento (5,8%), mesmo que mantido e puxado pelos serviços, não se traduz em nenhuma decolagem significativa. O desemprego permanece elevado (11%, segundo as estatísticas oficiais; 39,1%, segundo as Nações Unidas), e os empregos criados são frequentemente precários, em uma das sociedades mais desiguais do mundo.4 As causas: a falta de investimentos na educação e na saúde e a pequena criação de empregos no setor privado. Dois dos pilares da economia, a indústria (17% do PIB) e a agricultura (35%) permanecem pouco produtivas. Claro, a empresa que comercializa o aplicativo iCow (“iVaca”), por exemplo, se vangloria de ter permitido a seus 580 mil usuários, pequenos proprietários rurais que não possuem muito gado, a possibilidade de melhor acompanhar a gestação de seus animais e melhorar sua produção leiteira e, consequentemente, sua renda. “Os agricultores podem se informar em tempo real sobre o custo dos produtos no mercado. Mas seus celulares não resolvem o problema da falta de infraestruturas rodoviárias para lhes permitir o acesso ou das manufaturas agroalimentares para transformar os produtos no próprio local”, explica Ken Mwangi, assistente de agrotecnologia da Universidade de Nairóbi.

Um dos sucessos mais impressionantes das novas tecnologias no Quênia é sem dúvida a plataforma Ushahidi (“testemunho”, em suaíli). Esse programa livre foi inventado para permitir o acompanhamento em tempo real das violências políticas na crise pós-eleitoral de 2008. O conflito – que se tornou interétnico – entre os partidários do presidente que saía do poder, Mwai Kibaki, e os do oponente, Raila Odinga, fez 1.200 mortos. O programa, que oferece a possibilidade de cartografar os confrontos, foi utilizado por 22 mil usuários diferentes em 154 países, por exemplo, para identificar as vítimas do terremoto no Haiti ou ainda os pontos bloqueados pela neve em Washington. Ele permitiu que a empresa social Ushahidi prosperasse, propondo o acesso à sua tecnologia em troca de valores módicos (US$ 100 a 500 por mês).

 

Não podemos empreender num país mal gerido

Mesmo sendo muito eficiente, essa plataforma naturalmente não acalmou as tensões políticas recorrentes no Quênia. As eleições continuam sendo marcadas pela violência, com ou sem as novas tecnologias – que se convidam inclusive a participar do debate. A Corte Suprema pronunciou um veredito histórico, no dia 1º de setembro de 2017, ao invalidar a eleição presidencial de 8 de agosto precedente, ganha pelo presidente que saía do poder, Uhuru Kenyatta, que acusou um “golpe de Estado judiciário”. Os magistrados se impuseram à comissão eleitoral independente: esta tinha proclamado os resultados com base em processos verbais que não eram todos autênticos, sem autorizar o acesso aos seus servidores informáticos, apesar das acusações de pirataria e fraude.

Julgando as reformas eleitorais insuficientes, Odinga, principal oponente, recusou-se a tomar parte da nova votação de 26 de outubro de 2017. Ele também convocou um boicote dos produtos fornecidos pelas empresas consideradas muito próximas do poder. Entre elas, a Safaricom, que viu suas vendas caírem nas regiões do oeste, onde domina a etnia do candidato contestatário, os luos. “A economia digital é apenas um instrumento, não a solução de todos os problemas. Os políticos podem permanecer no lugar e fazer todos os seus planos, desde que nos deixem fazer nossos negócios”, resume uma mulher de negócios que prefere permanecer anônima. Ela mesma, ativa no que se convencionou chamar de “agronegócio feminino”, utiliza o WhatsApp, muito popular na África, para se comunicar gratuitamente por telefone ou mensagens de texto, criando grupos. “A fetichização de empreendedorismo na África é o novo mantra neoliberal”, afirma sem meias palavras Ory Okolloh, cofundadora da Ushahidi e diretora do Google no continente. “Basta se tornar empreendedor! Disseram-nos: ‘Não há eletricidade, mas vocês têm o sol. Suas estradas são esburacadas, mas vocês podem usar o Uber em Nairóbi’. Isso desvia nossa atenção dos verdadeiros problemas: não podemos ser empreendedores em um país mal administrado. Claro, o crescimento está presente na África, mas não é para os africanos!” No Quênia, a revolução talvez seja digital, mas ela não ultrapassa esse quadro.

 

*Sabine Cessou é jornalista.

 



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