Fernanda Hamann traz detalhes sobre o livro premiado na Europa, ‘Zuca’
A escritora e psicanalista transforma a migração brasileira para Portugal em um romance sobre racismo estrutural, ressentimento e inversão de posições de poder
Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, mas essa migração contemporânea não se dá sem fricções históricas. As marcas do colonialismo, do racismo e da desigualdade atravessam tanto quem parte quanto quem chega. É nesse terreno de tensões que se contextualiza Zuca (Editora Urutau, 184 págs.), novo romance da escritora e psicanalista Fernanda Hamann, premiado internacionalmente e viabilizado pela Bolsa Criar Lusofonia.
O livro, com texto de orelha assinado por Daniel Galera, narra a experiência de uma brasileira branca e racista que, ao emigrar, se vê alvo de xenofobia, expondo contradições profundas: a inversão de papéis entre quem discrimina e quem passa a ser discriminado, o apagamento da identidade como tentativa de pertencimento. Ao longo da narrativa, Fernanda articula literatura e psicanálise para enfrentar questões urgentes: feminismo, antirracismo e democracia.

Fernanda Hamann é escritora e psicanalista, com Pós-doutorado em Teoria Literária pela USP. Publicou mais de dez livros, entre romances, contos, ensaios e biografias, e recebeu diversos prêmios, dentro e fora do Brasil. Desde 2024, é colunista do jornal português Público. Seu romance Cativos foi traduzido para o francês e lançado no Salão do Livro de Genebra, em 2026.
Confira abaixo uma entrevista com a autora:
Em Zuca, você constrói uma inversão em que uma mulher branca e racista passa a sofrer xenofobia. O que essa operação revela sobre a estrutura do racismo e suas hierarquias?
No livro, a protagonista tem um sonho em que está representada uma caricatura da pirâmide social portuguesa. Na base, estão os ciganos, depois os imigrantes asiáticos que não falam português, a seguir os imigrantes africanos, depois os brasileiros, e assim sucessivamente, até que no topo, inclusive acima dos portugueses, se situam as pessoas loiras, de olhos azuis, vindas de outros países europeus.
É quase uma brincadeira com fundo de verdade. Uma piada sem graça, com o fato de que algumas vidas parecem valer mais do que outras. Vidas que frequentemente chegam a ser desumanizadas, o que fica claro quando ocorrem chacinas ou genocídios no Complexo do Alemão ou em Gaza.
A inversão que acontece com Bárbara, protagonista do romance, funciona como uma provocação. Como você se sentiria se sofresse a mesma dor que um dia infligiu a alguém?
O livro aborda a branquitude como lugar de privilégio que muitas vezes não se reconhece como tal. Por que foi importante trazer esse tema para o centro da narrativa?
Tive um professor que me apontou um dado interessante. Só existe um Dia da Consciência Negra, porque todos os outros dias, tacitamente, já pertencem aos brancos. Nem é preciso reservar uma ocasião para celebrá-los. Esse acordo implícito nos calendários tem como correlato uma série de privilégios que também são considerados a regra, e não a exceção.
No caso do Zuca, os privilégios que a Bárbara experimenta como branca, no Brasil, só ganham visibilidade quando são perdidos, em Portugal.
Mas no caso dela, o fato de ser mulher também não pode ser ignorado. Embora não tenha sido a minha intenção explorar a fundo questões de gênero, várias leitoras me apontaram a angústia que sentiram frente à indiferença do marido diante do sofrimento de Bárbara, por exemplo.
O estereótipo da zuca-puta, que vai a Portugal para roubar os maridos das portuguesas, também é um elemento bastante explorado no romance. O que me parece curioso é que esse estereótipo suscite rivalidade entre as mulheres – portuguesas contra brasileiras –, enquanto pouco ou nada se fala da responsabilidade do homem que abandona uma mulher em detrimento da outra.
A migração brasileira para Portugal carrega tensões históricas ligadas ao colonialismo. Como essas heranças aparecem no cotidiano contemporâneo que você retrata?
Num dado momento, senti que o debate sobre o racismo estava para o Brasil como o debate sobre a xenofobia estava para Portugal. São debates que tocam em feridas do passado, questionando discursos que procuraram negar violências históricas que continuam a produzir efeitos atuais.
Até pouco tempo, no Brasil, cultivou-se o mito da democracia racial, de um convívio pacífico entre as três matrizes étnicas formadoras do povo brasileiro. Em 2007, o diretor de jornalismo da Rede Globo, empresa de comunicação mais influente do país, chegou a publicar um livro defendendo esse discurso, intitulado Não somos racistas, em que atacava a política de cotas raciais nas universidades. Duas décadas depois, um dos efeitos que se faz sentir dessa política é, justamente, a presença maior de pensadores e intelectuais negros nas universidades ou formados por elas, que puderam ingressar mais ativamente no debate público para demonstrar o caráter falacioso desse negacionismo.
De modo correlato, em Portugal, a ditadura salazarista cultivou o mito do luso-tropicalismo, ou o discurso de que a colonização portuguesa se realizou de forma mais branda do que a de outros vizinhos europeus.
Sem entrar no mérito de detalhar as atrocidades cometidas pelos belgas no Congo, ou pelos alemães na Namíbia, e assim por diante, vale a pena destacar a recente decisão da ONU em reconhecer o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade. Uma resolução que trata da história das relações entre Portugal e Brasil – o principal destino das vítimas – e que, no processo de votação na Assembleia Geral, recebeu a abstenção de Portugal, que se recusou a assumir a responsabilidade como protagonista desse crime.
A ascensão do Chega – partido ultranacionalista de Portugal, grande difusor do discurso de ódio aos imigrantes no país, mencionado no Zuca – é reacionária a um momento histórico em que tem sido questionada a identidade nacional portuguesa atrelada às glórias coloniais de um passado conquistador, desbravador, que “deu novos mundos ao mundo”.
A ideia de “europeização” da protagonista, marcada por tentativas de apagar traços da própria identidade, pode ser lida como um sintoma de colonialidade. Como você elaborou essa dimensão no romance?
A atriz Luana Piovani, que mora em Portugal, comentou que as portuguesas costumam levar uma vida sem luxo, ao passo que as brasileiras, muitas vezes, gostam de ostentar artigos caros. “Se você vê uma mulher com uma bolsa de marca, geralmente é brasileira”.
Esse esforço para parecer “mais real do que o rei” talvez manifeste uma tentativa, por parte da elite e até da classe média brasileira, de se diferenciar das camadas mais baixas da população, numa sociedade tão desigual.
Vivendo em Lisboa, percebi que a sociedade portuguesa não é tão desigual quanto a brasileira, e algumas diferenças importantes me impressionaram – por exemplo, no modo respeitoso e profissional como o trabalho das empregadas domésticas é valorizado no país.
É claro que Portugal tem responsabilidade no processo histórico que culminou nas relações, herdeiras da escravatura, que muitas patroas ainda nutrem com empregadas domésticas no Brasil. Mas já conquistamos nossa independência há mais de dois séculos. Precisamos assumir também a nossa parcela de responsabilidade por termos perpetuado a lógica colonial que ainda rege grande parte dessas e de outras relações de poder na sociedade brasileira.
No Zuca, uma mulher branca e rica, Bianca, se orgulha por ter oferecido um emprego a Dandara, uma mulher negra, vítima de um esquema de tráfico de pessoas que a ludibriou no processo de imigração a Portugal. Bianca acredita que libertou Dandara de um trabalho em condições análogas à escravidão. Mas quando a contrata como babá de seu filho, espera que Dandara durma no serviço e lida com ela como uma versão contemporânea das mucamas que serviam aos senhores das antigas casas grandes do Brasil Colônia.
Exemplos como este, na literatura e na vida, mostram que ainda precisamos avançar muito, no Brasil, no sentido de elaborar as questões mal resolvidas do nosso colonialismo. Essa é uma função do que se costuma chamar de literatura pós-colonial, que tem representantes de destaque em vários países que foram colonizados, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, ou o indiano Salman Rushdie.
Você menciona o conceito psicanalítico de “retorno do reprimido” para pensar essas dinâmicas. De que maneira ele ajuda a compreender o racismo estrutural no Brasil?
Quando um sujeito reprime uma ideia que parece insuportável para seu aparato psíquico, a tendência é que esse processo funcione como uma panela de pressão. O elemento reprimido pode até ser esquecido, se tornar inconsciente. Mas ele não morre, não deixa de existir. Continua ali, no calor da panela, sob pressão, fazendo força para retornar.
Às vezes, a tampa não aguenta, e a panela explode.
A explosão da panela é proporcional à violência usada na tentativa de reprimir o que se queria evitar.
E, como Freud afirmou, a psicologia social é correlata à psicologia individual. Ou seja, esse tipo de processo pode ocorrer no âmbito singular de um sujeito, ou num âmbito social mais amplo.
Quanto mais violenta for a repressão racista às pessoas, maior a chance de que elas respondam com uma violência proporcional (dirigida contra o outro, sob a forma de agressões diversas, ou contra si mesmas, sob a forma da autoagressividade ou de uma violenta autodepreciação).
O livro mostra como o preconceito pode se reorganizar dependendo do contexto, seja nacional, racial ou cultural. Que leitura política você faz dessas mudanças de posição?
Como formulou Lacan, o sujeito se constitui a partir do Outro. Esse Outro pode ser entendido como a cultura, a linguagem, o ambiente em que ele se insere. Ou seja, somos constituídos inicialmente pelo contexto em que nascemos, mas não deixamos de sofrer novas influências do nosso entorno, ao longo de toda a vida.
No caso da Bárbara, ela passa da posição do opressor à do oprimido, o que permite que ela crie um grão de empatia com outras pessoas que também sofrem ou sofreram opressões semelhantes (uma possibilidade que não existia antes). O livro não deixa claro se essa experiência pode oferecer redenção a uma personagem que chegou a cometer um crime de racismo. Mas talvez se alinhe a uma hipótese defendida por Nelson Rodrigues em algumas crônicas: a de que o sofrimento é capaz de nos conectar com pessoas que sofrem também, e nos dá uma chance de refletir sobre a nossa postura ética diante da vulnerabilidade do outro.
A personagem não se reconhece como racista, mesmo após um episódio explícito de violência. O que isso diz sobre as formas contemporâneas de negação do racismo?
O argumento que motivou a agressão cometida por Bárbara, de que ela teve sua vaga no concurso “roubada” por um cotista, não é tão distante do discurso sustentado no já mencionado livro de Ali Kamel, que se opôs abertamente à política de cotas em 2007. E esse debate tem retornado no Brasil, com pessoas que defendem a anulação das políticas de cotas no país.
É comum que algumas conquistas sociais relevantes produzam contratendências reacionárias.
Um problema que enfrentamos hoje é que certos discursos reacionários, especialmente aqueles que mobilizam sentimentos negativos como o ódio, são estimulados pelos algoritmos das redes sociais que buscam o engajamento emocional dos usuários.
Este é um fator que não pode ser ignorado na análise da ascensão de ideias fascistas e supremacistas em vários países, o que aponta para a urgência da regulação desses espaços de comunicação travestidos de arenas públicas, mas dominados por meia dúzia de empresários que visam apenas ao próprio lucro.
Em um momento de aumento das migrações globais, que tipo de debate você espera que o livro provoque sobre pertencimento, exclusão e cidadania?
A figura do imigrante, principalmente em países do Norte global, tem sido identificada com a imagem do outro indesejável, sobretudo quando advindo de nações empobrecidas. No entanto, muitos desses mesmos países precisam dos imigrantes.
Portugal, por exemplo, é um país envelhecido, de onde muitos jovens preferem emigrar para trabalhar na Suíça, na França ou em Luxemburgo, em busca de melhores salários. Parte do vácuo deixado por esses jovens é preenchido pelos brasileiros, que já representam 10% da força de trabalho e contribuem com uma parcela determinante da Segurança Social que financia aposentadorias e outros benefícios.
Mesmo que não se inclua entre as centenas de milhões de imigrantes que existem hoje, cada pessoa no mundo tem algum parente, próximo ou longínquo, que já se arriscou nessa empreitada. Segundo descobertas científicas recentes, todos os povos do planeta descendem de ancestrais que surgiram na África, há cerca de 300 mil anos, e depois migraram para povoar os continentes.
Com as mudanças climáticas, a tendência é que as migrações se intensifiquem, com novos fluxos de refugiados mobilizados não só por catástrofes ambientais, como pelas consequências sociais e econômicas das alterações nas condições de sobrevivência humana na Terra.
Parece urgente uma articulação global entre as nações, em busca de um equilíbrio entre as massas de migrantes e as demandas demográficas dos países que aceitam ou necessitam recebê-los. Mas a decadência atual dos organismos de cooperação internacional, como a ONU, torna a busca por esse equilíbrio ainda mais desafiadora.
Enquanto os discursos de ódio continuarem a proliferar nas redes sociais, alimentando lógicas narcisistas e ultranacionalistas, a tarefa de articulação global, em prol de uma solução conjunta para esses desafios, vai se tornar cada vez mais complicada, num mundo em que o autoritarismo e a guerra parecem se sobrepor aos esforços democráticos e diplomáticos.
Você articula literatura, psicanálise e pensamento decolonial em sua obra. Para você, qual é o papel da ficção na disputa de narrativas sobre raça, identidade e poder hoje?
Quando eu era criança, nos jantares de Natal em família, os adultos se reuniam em duas rodinhas. Os homens falavam de política, economia, questões da esfera pública. As mulheres falavam de filhos, receitas culinárias, produtos de limpeza, pormenores da esfera privada. À medida que eu crescia, me apavorava a ideia de ocupar um lugar na rodinha doméstica. Sempre quis discutir os temas do mundo. Hoje acho bastante poético que o destino tenha me reservado um espaço como colunista num jornal chamado Público.
Não penso que a literatura deva ser didática, mas só consigo escrever sobre assuntos que me afetam, e eventualmente são assuntos percebidos como políticos. Mas a política nada mais é do que a gestão dos assuntos públicos, que são ou deveriam ser de interesse de todos. Considero um reducionismo que as pessoas se refiram às pautas antirracistas ou decoloniais como pautas identitárias. São questões de direitos humanos. Elas trazem consequências diretas para as vidas das pessoas, inclusive para a sobrevivência delas, e não há nenhum direito mais básico do que o direito à vida.
Nunca fui uma escritora das delicadezas, acho que nunca serei. A agressividade humana me intriga e preocupa. Talvez seja mais uma herança rodriguiana. Tenho vontade de investigar, destrinchar a violência, a loucura e os excessos humanos, por meio da escrita. Mas às vezes também me assusto com a proporção desses transbordamentos, tanto na vida como na arte, e quero crer na nossa capacidade de amar, criar, construir laços de afeto e diálogo. É a velha luta entre Eros e Tanatos, pulsão de vida e pulsão de morte, que tenho enxergado em cada fenômeno cotidiano, das menores às maiores coisas à minha volta. Dos movimentos de uma formiga que luta para carregar uma folha maior do que o seu corpo, à resistência de um povo que luta para sobreviver a uma guerra de risco nuclear. Sabemos que Tanatos vai vencer no final. A morte vai chegar para todos, talvez para a humanidade inteira, e quem sabe será uma morte auto infligida, como sugere a crise climática, no lugar dos meteoros ou extraterrestres que já alimentaram nossos medos pretéritos. Mesmo assim, enquanto estivermos vivos, Eros ainda existe, persiste. E isso não é pouca coisa.
Já tive medo de ser rotulada como uma escritora que produz literatura engajada, mas perdi esse medo. Como diz o filósofo Giorgio Agamben, o artista contemporâneo é aquele que dialoga com as luzes e as trevas do seu tempo, e eu não consigo evitar esse chamado, esse ímpeto de escrever sobre problemas inquietantes para o nosso Zeitgeist.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

