Fertilizantes nitrogenados: providência transformada em veneno - Le Monde Diplomatique

UMA NOVA REVOLUÇÃO VERDE?

Fertilizantes nitrogenados: providência transformada em veneno

por Claude Aubert
novembro 30, 2018
Imagem por Suryara
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Produtos emblemáticos da “revolução verde”, os pesticidas e adubos sintéticos permitiram vencer o desafio alimentar apresentado pela explosão demográfica do século XX. Mas o recurso generalizado a esses produtos afeta gravemente a saúde dos agricultores e o equilíbrio do ambiente. Aprender a limitar seu uso é um dos imperativos da agricultura do século XXI

Em 1909, o químico alemão Fritz Haber conseguiu combinar o nitrogênio do ar com o hidrogênio, obtendo a síntese do amoníaco (NH3). Uma reação química entre muitas? De modo algum. Ela revolucionou a agricultura, permitindo dobrar – ou triplicar – a produção. Para muitos especialistas, a invenção dos adubos nitrogenados alimentou a população do planeta, que passou no século XX de 1,5 bilhão a mais de 6 bilhões de habitantes. Essa descoberta, à primeira vista genial, valeu a seu autor o Prêmio Nobel de Química em 1918 – premiação controvertida, pois Haber havia participado também da concepção dos gases letais empregados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Esse pesquisador, oriundo de uma família judia, contribuiu igualmente para o aperfeiçoamento do Zyklon B, gás funesto usado vinte anos depois pelos nazistas nos campos de extermínio.

A alimentação das plantas implica um paradoxo. O ar se compõe essencialmente de nitrogênio (78%, contra 21% de oxigênio), mas elas não conseguem obter assim esse alimento indispensável a seu crescimento. É sobretudo no solo que o encontram, sob a forma de nitrato (NO3) ou de amoníaco (NH3). Podem então assimilá-lo, graças à sua mineralização por bactérias, no humo e em outras matérias orgânicas: resíduos de colheitas, estrume, compostagem etc. Desde a invenção de Haber, uns poucos sacos de adubo fornecem todo o nitrogênio necessário às plantas e melhoram o rendimento. Não há mais necessidade de carretas com toneladas de estrume ou compostagem nem do cultivo de leguminosas ricas em nitrogênio…

Há um século, a produção de quantidades ilimitadas e pouco onerosas de nitrogênio reativo, utilizável para as plantas, vem revolucionando completamente a agricultura. Ela formava, nos anos 1960, um dos quatro pilares da “revolução verde”: seleção de variedades de alto rendimento, pesticidas, irrigação e adubos químicos. Esse movimento foi saudado unanimemente como uma grande conquista. Mas, nas nações industrializadas primeiro e depois nos países em desenvolvimento, a utilização crescente de adubos nitrogenados sintéticos provocou efeitos que ninguém, ou quase ninguém, havia previsto.

Série de efeitos deletérios

Não tardou e os agricultores perceberam que a contribuição, para as culturas, de nitrogênio oriundo de dejetos orgânicos (esterco, chorume) e de leguminosas não era mais necessária. Então, para que complicar a vida criando vacas ou carneiros e pondo-os a pastar? Muitos agricultores se livraram do gado e passaram a se dedicar unicamente às lavouras, principalmente de cereais. Mas, como era preciso produzir também leite e carne, cuja demanda aumentava a olhos vistos, outras fazendas se voltaram exclusivamente para a pecuária, com as mais produtivas adotando o método de confinamento, sem saída do gado, e substituindo a forragem por cereais ou oleaginosas.

No decorrer de poucas décadas, a paisagem agrícola francesa e europeia se transformou radicalmente. No centro e no grande leste da França, regiões cerealíferas sem gado recorrem a uma agricultura quase inteiramente mecanizada, utilizando enormes quantidades de adubos nitrogenados sintéticos. Na Normandia, na Bretanha, na Jutlândia (Dinamarca) e na Bavária, a pecuária se industrializa cada vez mais, com enormes concentrações de cabeças de gado. Fazendas com mais de mil vacas se tornam comuns em vários países europeus, enquanto chiqueiros e granjas produzem dezenas de milhares de porcos por ano ou criam centenas de milhares de galinhas. Essa evolução resulta diretamente da invenção de Haber, considerada a justo título como a mais importante da história da agricultura – alguns dizem mesmo da história.

Essa revolução, lógica do ponto de vista econômico a curto prazo, gera uma série de efeitos deletérios, tanto em matéria de saúde quanto de meio ambiente. Na realidade, numerosos problemas ecológicos e sanitários apresentados pela agricultura moderna emanam da síntese de adubos nitrogenados, ou melhor, do mau uso que se faz deles.

Primeiro problema: o teor de matéria orgânica no solo diminui em regiões de grandes culturas, por falta de fertilizantes orgânicos e de rotatividade, incluindo as culturas que enriquecem naturalmente a terra de nitrogênio e de matéria orgânica, como a alfafa. Grandes produções são possíveis, mas, em determinadas regiões, tendem a se estabilizar e mesmo a se reduzir, a despeito do reforço de nitrogênio sintético. Além disso, a capacidade de retenção de água do solo e a rapidez de infiltração diminuem, o que agrava o risco de erosão por escorrimentos ou inundações.

Não bastasse isso, as pragas e doenças se multiplicam, exigindo cada vez mais tratamentos com pesticidas. Os adubos nitrogenados não são, evidentemente, a única causa do problema, mas contribuem para o desaparecimento das rotatividades longas, que interrompem o ciclo de reprodução dos agentes patogênicos e dos insetos, e para o aumento do teor de nitrogênio nas folhas, que favorece a multiplicação de algumas pragas (por exemplo, os pulgões).

Enfim, a cultura quase exclusiva de cereais enfraquece a biodiversidade, do mesmo modo que a perturbação da atividade biológica da terra e os depósitos de nitrogênio atmosférico, provenientes do amoníaco emitido pelos solos e pelo gado. Os solos vão se tornando cada vez mais ácidos. O excesso de nitrogênio tem graves efeitos sobre a saúde e o ambiente, conforme demonstraram duzentos pesquisadores europeus numa importante publicação que, infelizmente, passou quase despercebida!1 Principais acusados: os nitratos e o amoníaco. Os primeiros estão normalmente presentes no solo, onde são absorvidos pelas raízes das plantas, às quais fornecem boa parte de seu nitrogênio. Mas resta sempre, em particular quando as aplicações de adubos nitrogenados são muito altas, um excesso de nitrogênio; este acaba sendo levado pelas chuvas, vai para os lençóis freáticos e os cursos de água, chegando por fim às torneiras. Dois são os efeitos principais: um possível risco de aumento de certos tipos de câncer e a eutrofização dos rios, que provoca o desaparecimento dos peixes e o acúmulo de dezenas de milhares de toneladas de algas verdes ao longo das costas, todos os anos. Encontramos também nitratos nos alimentos, com teores às vezes bastante elevados em alguns legumes. Seu impacto sobre a saúde ainda é objeto de controvérsias, dada a falta de dados científicos suficientes e congruentes.

 

Na origem das partículas finas

O amoníaco é um poluente bem menos conhecido, mas mais preocupante nas áreas de saúde e ambiental. A quase totalidade das emissões (679 mil toneladas em 2016) provém da lavoura (64%) e da pecuária (34,4%).2 Esse composto químico não permanece por muito tempo na atmosfera: uma parte se deposita no solo e na vegetação; a outra dá origem a diversos compostos nitrogenados indesejáveis (protóxido de nitrogênio, óxidos de nitrogênio, ozônio etc.). Os óxidos de nitrogênio se combinam com outros poluentes que existem no ar e formam partículas finas secundárias.3 Esse último fenômeno é um dos mais inquietantes. As partículas finas penetram fundo nos alvéolos pulmonares e provocam câncer, além de doenças cardiovasculares e respiratórias. A Organização Mundial da Saúde estima que a exposição a essas partículas causou cerca de 4,2 milhões de mortes prematuras no mundo, em 2016.4 Segundo o Centre Interprofessionnel d’Études de la Pollution Atmosphérique [Centro Interprofissional de Estudos da Poluição Atmosférica] (Citepa), a agricultura e a silvicultura foram responsáveis por 55% das emissões totais de partículas em suspensão, em 2016, e essas emissões não estão diminuindo, contrariamente às da indústria ou do transporte.5 Se as culturas representam a parte principal de emissão primária do conjunto de partículas em geral, a pecuária contribui sobretudo para a formação de partículas finas. Quando dos picos de poluição, em particular na primavera, uma parte importante das partículas finas pode ser de origem agrícola, principalmente por causa das emissões de amoníaco provenientes do solo após a aplicação de adubos, e essencialmente dos dejetos (esterco sólido, esterco líquido, chorume) do gado.

Os cientistas que contribuíram para a avaliação europeia do nitrogênio calculam o custo ambiental dos excedentes dessa substância, para o continente, entre 70 bilhões e 320 bilhões de euros por ano, por causa de seu impacto sobre os ecossistemas, sobre a qualidade do ar e da água e, em definitivo, sobre a saúde humana.6 Esse custo lhes parece superior ao lucro econômico auferido da utilização dos adubos nitrogenados sintéticos. Os pesquisadores consideram o excedente de nitrogênio um dos maiores problemas ecológicos do século XX, no mesmo patamar do aquecimento climático e da perda da biodiversidade.

A primeira solução seria, evidentemente, reduzir ou até suprimir o uso de nitrogênio químico. Isso poderia ser feito modificando-se os sistemas produtivos com a introdução, sobretudo, de uma quantidade maior de leguminosas (feijões, ervilhas, alfafa etc.) nas rotatividades, o que nos livraria da dependência da soja, importada em massa. A agricultura orgânica, permitindo-nos dispensá-la completamente, é um argumento de peso – sem dúvida tanto quanto a não utilização de pesticidas sintéticos7 – em favor desse modo de produção.

Se fosse brutalmente proibida a utilização de nitrogênio químico a todos os agricultores, é óbvio que resultaria daí uma catástrofe, pois a conversão aos métodos orgânicos tem de ser progressiva e exige, para numerosas fazendas, uma inversão total de seu sistema produtivo. A maior parte dos especialistas vem observando que a generalização de uma agricultura sem nitrogênio sintético conduziria a uma queda no rendimento. Mas uma meta-análise recente concluiu que, em âmbito mundial, a diferença média de rendimento entre a agricultura orgânica e a convencional era de apenas 19%.8 Chega a cair para 8% ou 9% quando as técnicas orgânicas incluem rotatividades de culturas variadas. Outra meta-análise mostra que as culturas associadas ou intercalares – várias espécies cultivadas num mesmo campo e ao mesmo tempo – permitem, em média, um aumento de 30% na produção.9 Alimentar todos os habitantes do planeta sem nitrogênio sintético parece, pois, possível – mas pressupõe uma mudança radical de modelo agrícola.

A outra parte da solução, menos difícil de implementar a curto prazo, é reduzir o porte das criações industriais e o consumo de carne. O gado absorve três quartos da produção de amoníaco. Os animais confinados emitem para a atmosfera quatro vezes mais amoníaco que os de pasto, quando estes não são criados de forma excessivamente intensiva. Algumas medidas técnicas permitem, sem dúvida, diminuir as emissões de amoníaco (cobertura de fossas de chorume, aterramento deste, utilização de nitratos de amônia em vez de ureia etc.); mas elas são geralmente caras e, em certos casos, de eficácia relativa. Para reduzir bastante, ou mesmo suprimir, o uso de nitrogênio sintético, seria necessário voltar à associação de cultura e criação, o que diminuiria o número de rebanhos em campo aberto. De resto, hoje os adubos químicos permitem produzir rações para o gado a preços relativamente baixos, satisfazendo a demanda mundial crescente de carne e laticínios. Na Europa, ela vem diminuindo; seria então o caso de acompanharmos essa evolução comendo carne em menor quantidade e de melhor qualidade. Uma nova revolução verde, corrigindo as consequências nefastas da primeira, está ao alcance das mãos: para tanto, bastaria usar cada vez menos adubos nitrogenados nas culturas e optar por outros métodos de criação – menos concentrados, menos intensivos e em pastagem. Mas, para chegar a isso, cruelmente duas coisas ainda parecem faltar: a informação ao consumidor e a vontade política.

 

*Claude Aubert é engenheiro agrônomo, especialista em agricultura e alimentação orgânica e cofundador da Terre Vivante.

 



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